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Janeiro de 2008
Crise nas bolsas
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Até o fim de julho de 2007, a economia mundial atravessava
um dos períodos de maior prosperidade dos últimos
trinta anos: as empresas nunca lucraram tanto, a
China crescia a 10% ao ano, o Brasil exportava matéria-prima
em volumes e preços recordes. Em total contraponto
a esse ambiente saudável, as bolsas de valores e
as moedas de todo o planeta foram abaladas por um
terremoto. Em duas semanas, trilhões de dólares
evaporaram dos mercados de ações sem que houvesse
um ataque terrorista, como o de 2001, ou a quebra
de um país emergente – como a Tailândia, em 1997,
a Rússia, em 1998, e o Brasil, em 1999. Um pânico
de origem incerta e difusa dominou os agentes financeiros.
Bancos europeus e americanos subitamente cortaram
o crédito a empresas, mesmo as de primeira linha.
Os bancos centrais, por sua vez, despejaram dinheiro
no mercado para conter a saída de liquidez. Estava
configurado um novo período de instabilidade sem
prazo para acabar. Entenda as razões desta nova
crise financeira.
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1.
Por que as bolsas de valores vêm caindo em todo o mundo?
Os principais mercados de ações do planeta estão sofrendo
os efeitos de um problema ocorrido no mercado imobiliário
dos Estados Unidos. A descoberta de que alguns americanos
não estão pagando as prestações dos financiamentos de
suas casas espalhou pânico entre investidores em todo
o mundo – muitos fundos de investimento possuem parte
de seus papéis lastreados nestes financiamentos. Como
um segmento da população não consegue pagar as suas
parcelas, criou-se um temor de que os americanos possam
também diminuir o seu ritmo de consumo. Este medo de
retração da economia dos EUA, aliado à suspeita da existência
de papéis “contaminados” nos fundos de investimentos,
fez com que muitos investidores vendessem as ações que
possuíam. Quando há muita gente querendo vender, o preço
das ações cai. O conjunto do das ações em queda derrubou
a cotação das bolsas de valores.
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2.
O que há de errado com o mercado imobiliário dos EUA?
Os seguidos anos de crescimento econômico fizeram
com que os bancos e instituições financeiras americanas
abrissem a carteira para todo tipo de gente e empresas.
Empréstimos foram concedidos até a pessoas em má situação
financeira (no setor imobiliário, o crédito às famílias
de baixa renda chama-se subprime). Como os juros eram
extremamente baixos, muitos americanos financiaram ou
refinanciaram o pagamento de alguns bens – especialmente
o dos imóveis. Depois, porém, não conseguiram cumprir
os compromissos. Embora a taxa de inadimplência não
tenha aumentado significativamente, o temor de um calote
em massa contaminou o mercado financeiro.
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3.
Como esses problemas influenciam as bolsas mundiais?
Nos últimos anos, os bancos que emprestaram dinheiro
para o financiamento imobiliário nos Estados Unidos
“empacotaram” boa parte das hipotecas americanas em
novos produtos financeiros que foram revendidos a muitos
fundos de investimentos em todo o mundo. Como os juros
estavam baixos na Europa e no Japão, esses fundos, que
ofereciam retornos maiores, tornaram-se atraentes para
os pequenos e grandes investidores. Criou-se uma pirâmide
de investimentos de cerca de 1 trilhão de dólares por
meio da qual a poupança de milhões de empresas e aposentados,
europeus e japoneses, foi usada para financiar a construção
e a compra de casas nos EUA. Embora tenham sido vendidas
como aplicações extremamente seguras, na prática não
era bem assim – muitos americanos não cumpriram seus
compromissos e o dinheiro nunca chegou aos fundos como
era previsto. Quando alguns destes fundos de investimento
tentaram se desfazer das hipotecas americanas na esperança
de passar adiante o mico do risco, não conseguiram e
perderam dinheiro. Tiveram então que vender ações até
de empresas saudáveis para se recuperar – isso derrubou
as bolsas do planeta.
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4.
Qual é a real extensão desta crise?
Ainda não se sabe ao certo. Embora mantidas inicialmente
no terreno do mercado financeiro, as turbulências já
batem na chamada economia real. Algumas empresas americanas
começaram a mostrar números decepcionantes, caso das
varejistas Wal-Mart e Home Depot, espécies de termômetros
do consumo local. Em agosto de 2007, os EUA cortaram
4.000 postos de trabalho – primeira queda do nível de
emprego do país desde 2003. O maior risco de a crise
extrapolar o mundo das finanças e atingir a economia
real está na retração do crédito. Devido à incerteza
sobre o futuro da economia global, instituições financeiras
americanas reduziram sua tolerância em relação a empréstimos
arriscados – não apenas no setor imobiliário. Essa postura
reduziu o fluxo de dinheiro que irriga o caixa das empresas.
Crédito é um dos principais motores da economia – empresas
e negócios surgem e crescem num cenário onde têm acesso
a empréstimos para viabilizar seus negócios. As dificuldades
no crédito devem comprometer o bom momento atravessado
pela economia mundial.
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5.
No que ela difere de turbulências globais anteriores?
Mais do que qualquer outra crise anterior, esta traz
consigo características cuja existência só foi possível
graças ao aprofundamento do processo de globalização
da economia. Por meio de inovações recentes, bancos
e instituições financeiras pulverizaram os riscos de
prejuízos e lubrificaram o mercado. Pegue-se o exemplo
do setor de imóveis dos Estados Unidos. Para não arcarem
sozinhos com o risco de calote nos empréstimos que fizeram
a consumidores americanos de segunda linha, os bancos
fracionaram e empacotaram o crédito referente a esses
empréstimos em títulos, repassados a milhares de fundos
de investimento. A lógica é a seguinte: se os consumidores
americanos pagarem suas hipotecas, os lucros serão dispersados
entre todos os que compraram esses títulos; se houver
calote generalizado, o prejuízo será socializado. O
problema é que, ao dissiparem os riscos, esses mecanismos
também aceleram e aumentam o alcance das fases de turbulência.
Como ninguém consegue saber quem está saudável e quem
comprou títulos podres, a desconfiança se espalha e
paralisa inúmeras negociações.
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6.
Os bancos centrais devem agir para conter a crise?
Sim, e sem muita demora. Um dos mais importantes estudos
econômicos do século XX, de autoria dos americanos Milton
Friedman e Anna Schwartz, concluiu que a quebra da Bolsa
de Nova York de 1929 e a depressão que se seguiu durante
os anos 30 foram precipitadas pela decisão do Federal
Reserve (Fed, o banco central americano) de estrangular
o crédito, elevando os juros e diminuindo a quantidade
de dinheiro em circulação. Sem moeda na praça, e sem
a possibilidade de fazer empréstimos junto aos bancos,
inúmeras empresas foram à falência, e a economia dos
Estados Unidos retraiu dramaticamente. Desde a publicação
do estudo, BCs em todo o mundo têm agido de forma mais
enérgica para tentar socorrer seus respectivos mercados
antes de um colapso generalizado.
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7.
E o que eles têm feito para afastar essa ameaça?
Os bancos centrais têm atuado na linha de frente para
conter o avanço da atual crise financeira. Em setembro
de 2007, o Fed mostrou que aprendera a lição do crash
de 29: cortou os juros nos Estados Unidos em 0,5 ponto
porcentual, depois de 4 anos sem mexer na taxa. A decisão
pretendia estimular novos pedidos de empréstimos e conter
parte da retração no crédito. Antes disso, porém, o
Fed, o Banco Central Europeu e o Banco do Japão despejaram
juntos quase 500 bilhões de dólares no mercado, para
socorrer bancos e conter a escassez de dinheiro. É,
de longe, a maior cifra do gênero na história - após
os ataques de 11 de setembro de 2001, o aporte foi de
230 bilhões. Diante da persistência da crise, porém,
as medidas não tiveram o efeito desejado. Por isso,
o Fed voltou a reduzir os juros em meados de janeiro
de 2008. Desta vez, o corte foi de 0,75 ponto porcentual
- o maior desde outubro de 1984.
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8.
E o governo americano, como reagiu à crise?
Após meses de turbulência, o presidente George W. Bush
finalmente anunciou, no início de 2008, as linhas gerais
de um pacote para salvar a economia americana de uma
possível retração no crescimento. O plano de 140 bilhões
de dólares, que precisa de apreciação do Congresso,
foi avaliado em 1% do PIB. O objetivo do governo é diminuir
impostos para consumidores e garantir incentivos fiscais
para empresas americanas. Dessa forma, calculou a Casa
Branca, os Estados Unidos escapariam da recessão - trazendo
ainda benefícios para todo o planeta.
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9.
Quais são os efeitos sofridos pelo Brasil?
Por estar cada vez mais inserido no contexto da economia
global, o Brasil não sairá ileso desta crise. Os primeiros
efeitos já foram sentidos no mercado de ações. Para
estancarem os prejuízos decorrentes da crise, investidores
estrangeiros venderam papéis não só nos Estados Unidos
e na Europa, mas também em mercados emergentes, como
o Brasil. A fuga do dinheiro externo explica os dias
de forte queda da Bolsa de Valores de São Paulo. A médio
prazo, o crescimento da economia brasileira pode sofrer
o baque de uma eventual retração global, o que manteria
o aumento do PIB na mediocridade atual por mais tempo.
A desaceleração mundial derrubaria o preço das commodities
e afetaria diretamente a economia brasileira, que tem,
na exportação desses produtos básicos, sua maior fonte
de renda externa. Além disso, se o dólar subir demais,
a baixa inflação brasileira pode ficar comprometida,
já que uma série de produtos, a maioria importados,
têm seu preço baseado na moeda americana. Para conter
a inflação, o Banco Central pode interromper a queda
na taxa de juros e ameaçar ainda mais o crescimento
do país – juros altos desestimulam os empréstimos que
fazem a economia andar. De todos esses cenários possíveis,
o único que parece provável é o atraso da promoção do
Brasil ao chamado grau de investimento, categoria que
indica os países com baixa propensão ao calote.
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10.
Por que o país não corre tantos riscos desta vez?
Durante os anos 90, o Brasil atravessou, aos trancos
e barrancos, as crises nos mercados financeiros do México
(94), da Ásia (97), e da Rússia (98), e sucumbiu ao
ataque especulativo contra o real, no início de 1999,
desvalorizando a moeda. Nesta última ocasião, o país
tinha reservas de apenas 35 bilhões de dólares – no
auge da crise, o mercado brasileiro perdia 1 bilhão
por dia. Desta vez, o cenário é bem diferente: o país
tem dólares de sobra e o drama da dívida externa faz
parte do passado. Segundo o Banco Central, o Brasil
tem quase 160 bilhões de dólares de reserva que podem
ser injetados no mercado para conter a fuga de capitais.
O país, portanto, não vai quebrar.
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11.
Por que o dólar sobe quando a bolsa cai?
De forma simplificada, o que acontece é o seguinte:
quando o mercado de ações passa por um período de instabilidade,
o valor dos papéis sobe e desce imprevisivelmente. Como
não sabem se a cotação das ações que possuem vai subir
ou descer, os investidores preferem comprar dólares
e desfazer-se dos papéis. O dólar é um investimento
muito mais seguro, já que a moeda americana não tem
a mesma chance de se desvalorizar do que as ações de
uma empresa – que pode, por exemplo, falir e causar
prejuízos enormes. Quando os investidores tiram dinheiro
da bolsa – o que provoca sua queda – muitos correm para
comprar dólares. A alta procura eleva a cotação da moeda
americana.
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12.
É possível uma nova onda de desemprego?
Ondas de desemprego estão normalmente associadas a
cenários de recessão econômica mais graves, quando o
nível de produção cai e as empresas costumam dispensar
parte de sua mão de obra para diminuir os prejuízos.
Pelo menos por enquanto, não é caso desta crise. Mesmo
que a economia dos Estados Unidos venha a se retrair
como prevêem os analistas – o que com certeza provocará
uma redução do crescimento brasileiro – a situação no
país é estável, e as variações na taxa de desemprego
devem continuar leves, para cima e para baixo.
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13.
É seguro investir em ações nesse período?
Sim. Diante da crise, os analistas não se arriscam
a prever uma data para o fim da oscilação das bolsas,
embora muitos apostem que ela se estenderá por boa parte
de 2008. Isso não significa, no entanto, que a bolsa
transformou-se da noite para o dia em território restrito
a grandes jogadores e alguns poucos entendidos, como
já foi um dia. Mesmo com as turbulências, segue sendo
seguro investir no mercado de ações - mas, mais do que
nunca, deve se esperar retorno a longo prazo, quando
os efeitos mais graves da crise já tiverem passado e
o mercado recuperar a tendência de alta. Em 2007, mesmo
com momentos de fortes perdas, o índice Bovespa, principal
da Bolsa de Valores de São Paulo, registrou valorização
de 43,6%. No futuro próximo, a turbulência pode reduzir
um pouco esses ganhos - mas eles deverão se manter acima
de outros investimentos. Outro argumento dos analistas
para manter os investimentos: a bolsa brasileira está
barata em termos internacionais.
Para quem já tem dinheiro em papéis, o mais importante
é não sair - a regra é ter cautela, já que voltar para
o mercado depois, em épocas de alta, pode sair muito
mais caro. Recomenda-se também que o investidor fique
de olho nas pechinchas que surgem com a crise. Neste
cenário, muitos estrangeiros vendem ações de empresas
saudáveis e derrubam sua cotação. A longo prazo porém,
elas podem se valorizar e beneficiar quem comprou-as
na baixa. Diversificar as apostas também é indicado
para tempos de bolsa volátil - eventuais perdas com
uma companhia podem ser compensadas com ganhos em outras.
Por fim, o investidor da bolsa deve avaliar o desempenho
de sua aplicação em particular: a variação das ações
que estão no fundo escolhido não vai ser necessariamente
igual à do Ibovespa, que segue as 64 ações mais negociadas
nos pregões da bolsa. Para se ter uma idéia, no início
de 2008, já havia cerca de 450 empresas com papéis na
Bovespa.
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O
DICIONÁRIO DA CRISE
Toda crise econômica
populariza termos e expressões
próprios do mercado financeiro. Não é
diferente agora
PRIME
Em inglês, o melhor. No mercado de crédito,
é a classificação conferida aos
clientes mais confiáveis, de primeira linha
SUBPRIME
Clientes de segunda linha, menos confiáveis.
Os juros cobrados são maiores, assim como o risco
de calote
MORTGAGE
Hipoteca. No setor imobiliário, serve para garantir
o financiamento imobiliário
SUBPRIME
MORTGAGES
Hipoteca nos financiamentos para
clientes de segunda linha
EMPRÉSTIMOS
NINJA
Concedidos a pessoas sem renda,
emprego ou bens (No INcome, Jobs or Assets)
CDOs
(Collateralized Debt Obligations)
Na tradução literal, "títulos
que têm dívidas como garantias". Por meio
deles, os bancos pulverizaram o risco de calote no setor
imobiliário para milhões de investidores
FUNDOS
HEDGE
São fundos para grandes
investidores que prometem rentabilidade bem superior
à dos títulos americanos. Investem em
qualquer tipo de ativo, desde café do Vietnã
até títulos da Eletrobrás. Atualmente
estão entupidos de CDOs de péssima qualidade
CREDIT
CRUNCH
Forte contração de
crédito, um cenário em que nem os bons
pagadores conseguem obter novas linhas de financiamento
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