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Agosto de 2007
Prorrogação da CPMF
Um dos maiores esforços do início do segundo mandato
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é prorrogar
a existência de um tributo: a CPMF, cuja validade
termina em dezembro de 2007. Para seguir taxando
as operações financeiras dos brasileiros e arrecadar
uma bolada, Lula tenta, ao mesmo tempo, seduzir
e pressionar parlamentares e governadores. A Contribuição
Provisória sobre Movimentação Financeira, porém,
é um mau negócio para o país: além de tornar-se,
na prática, permanente, o "imposto do cheque" eleva
preços e abocanha recursos que poderiam gerar investimentos.
Entenda como isso acontece.
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1.
Quando e com que finalidade foi criada a CPMF?
O tributo foi criado em 1993, então como Imposto Provisório
sobre Movimentação Financeira (IPMF). Seu objetivo declarado
era ajustar as contas públicas e permitir o lançamento
do Real. Em 1996, a taxa renasceu, já com o nome de
Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira
(CPMF), desta vez para reforçar o Fundo Nacional de
Saúde. Ela deveria durar pouco e arrecadar recursos
para gastos emergenciais da área. Como se sabe, nada
disso ocorreu. Atualmente, o chamado "imposto do cheque"
ajuda a honrar desde o Bolsa Família até as pensões
do INSS e a folha de pagamentos do governo.
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2.
Se o "P" da sigla significa "provisória", por que a
contribuição se estende por mais de dez anos?
A CPMF há muito deixou de ser provisória e tampouco
pode ser chamada de contribuição. Ela caiu no gosto
dos governos basicamente por uma razão: é uma fonte
segura de recursos para o os cofres federais. Por se
tratar de um imposto automático, é dinheiro certo no
fim do mês e não requer fiscalização. Com crescimento
ou com recessão, o dinheiro pinga como um pedágio nos
bolsos do governo. Como, nas contas da Receita Federal,
metade das empresas brasileiras escapa do Leão de uma
maneira ou de outra, essa seria uma forma de cercá-las.
Atualmente, a CPMF responde por 8% de tudo o que a Receita
arrecada. Somente em 2006, a contribuição rendeu 32
bilhões de reais, equivalente ao orçamento anual do
Ministério da Saúde, o mais colossal da Esplanada dos
Ministérios.
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3.
Ela já tem data para acabar?
Em termos. Se a quarta prorrogação da contribuição
for aprovada pelo Congresso - o que teria que ocorrer
até 30 de setembro de 2007 -, o tributo fica garantido
até dezembro de 2010. De qualquer forma, é difícil encontrar
entre as correntes políticas representativas quem defenda
sua extinção. Isso porque, com a esperança de chegar
ao Palácio do Planalto, todos querem contar com o reforço
em caixa.
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4.
A alíquota cobrada sempre foi a mesma?
Não. A alíquota original era de 0,2%, cobrada sobre
qualquer movimentação financeira. A cifra, porém, subiu
sensivelmente com o tempo. Atualmente, toda vez que
uma pessoa ou empresa faz uma operação bancária, 0,38%
do valor dessa transação vai parar no cofre do governo.
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5.
Como se dão as negociações entre o governo federal e
os parlamentares e governadores para prorrogação da
CPMF?
Para assegurar a prorrogação da CPMF até 2010, Lula
fez acordos com governadores, prometeu dar uns caraminguás
aos prefeitos e ameaçou demitir apaniguados da base
aliada no governo que não garantissem a votação necessária
à aprovação da medida no Congresso. É necessário que
uma emenda constitucional seja aprovada em dois turnos,
na Câmara dos Deputados e no Senado: isso exige votos
de dois terços dos congressistas.
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6.
A CPMF é um tributo justo do ponto de vista das desigualdades
sociais, ou seja, cobra mais dos ricos do que dos pobres?
Definitivamente, não se trata de um tributo justo.
A característica perversa da CPMF consiste em arrancar
o mesmo 0,38% dos ricos e dos pobres, além de atingir
todas as etapas da produção de um bem, como a fabricação,
a distribuição e a revenda. Isso termina por encarecer
o preço final de qualquer produto - o que, novamente,
prejudica mais os mais pobres.
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7.
Qual o montante arrecadado por ano com a contribuição?
Uma montanha de dinheiro. Somente em 2007, a estimativa
é que o montante alcance 35 bilhões de reais. Ano após
ano, o crescimento é assustador. Em 2000, por exemplo,
o valor atingia 14,5 bilhões de reais. Isso significa
que, em sete anos, a arrecadação avançou 141%
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8.
Com quem fica a bolada arrecadada?
Até agora, apenas o governo federal teve direito a
abocanhar os frutos da CPMF. Porém, para garantir sua
quarta prorrogação no Congresso, Lula já acenou aos
opositores com a possibilidade de dar uma parcela do
total aos estados e municípios. A promessa soou como
música nos ouvidos de alguns políticos, como comentou
certa vez o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung,
após reunião com Lula: "Entrei [na reunião] esperando
um limão. Mas a reunião acabou virando uma limonada",
disse.
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9.
Qual o impacto da CPMF sobre a economia brasileira?
A CPMF provoca um impacto significativo sobre o Produto
Interno Bruto (PIB), soma de todas as riquezas produzidas
no país. Quanto surgiu, a contribuição mordia o equivalente
a 0,74% do PIB; em 2006, a fome do governo já corroía
1,38% do total. Em uma economia em que os negócios tendem
a ter margens de lucro declinantes - resultado da competição
global, que exige investimentos montantes em tecnologia
para aumentar a produtividade -, o que parece pouco
pode tornar uma operação menos viável. Um exemplo: uma
rede de supermercados que fatura 1 bilhão de reais por
ano paga 5 milhões de reais em CPMF. Com esse dinheiro,
essa rede poderia abrir uma loja de 1.500 metros quadrados
e contratar 100 funcionários para tocá-la. Ou, se quisesse,
poderia aumentar seu lucro líquido entre 1% e 2% - remunerando
melhor seus acionistas ou pagando benefícios por resultados
aos funcionários.
Confira
aqui de que forma a perversa cadeia da CPMF
atinge suas contas.
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10.
Há alternativas à CPMF, ou seja, é possível acabar com
a contribuição?
Sim, mas falta coragem. Redução de impostos não faz
parte do DNA dos governantes. E por uma razão elementar:
redução de impostos significa menos dinheiro em caixa,
o que exigiria mais austeridade na hora de gastar. Não
são muitos os governantes que se dispõem a enfrentar
essa equação. Para se ter uma idéia, desde a promulgação
da Constituição de 1988, o governo federal já promoveu
doze alterações constitucionais na área tributária -
todas serviram para aumentar impostos. No início da
década de 90, época da primeira modificação, os brasileiros
entregavam ao governo 25 de cada 100 reais que produziam.
Hoje, essa proporção subiu para 39 - e, se depender
da disposição dos governantes, a mordida tende a crescer.
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