| Setembro de 2007 Corinthians-MSI
No final de 2004, um obscuro executivo
iraniano radicado em Londres se transformou no grande ídolo da segunda maior torcida
do país. O dinheiro que Kia Joorabchian despejou no Corinthians rendeu um time
de estrelas e um título importante. Os corintianos se acostumaram a gritar seu
nome nas arquibancadas, consagrando o cartola falastrão, gastador e enrolado.
Três anos depois, porém, Kia passava de herói a vilão do Corinthians. As investigações
da Polícia Federal e do Ministério Público revelaram que os negócios da MSI são
irregulares. Quais são as conseqüências do caso?
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| 1. Qual era
o objetivo declarado da parceria entre Corinthians e MSI? O acordo,
costurado em agosto de 2004 e oficializado em novembro daquele mesmo ano, previa
um período de investimento de dez anos pela Media Sports Investments, a MSI. O
empresário Kia seria o representante do fundo de investidores no país, responsável
por gerenciar os recursos externos e fechar negócios em nome do Corinthians. Kia
era o único rosto conhecido da parceria -- os investidores estrangeiros responsáveis
pelos investimentos permaneciam desconhecidos, assim como a origem do grande fluxo
de dólares que chegava desde Londres, sede da MSI. Em troca da compra de jogadores
(e de promessas como a construção de um estádio e a criação de um canal de TV
por assinatura do clube), a MSI poderia explorar o departamento de futebol corintiano,
negociando contratos publicitários e recebendo os lucros de vendas de atletas.
Os responsáveis pelos investimentos receberiam parte da receita e se comprometiam
a continuar gastando dinheiro com contratações, mantendo sempre um "supertime". |
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| 2. Quais
foram os resultados do negócio entre clube e fundo estrangeiro?
Kia gastou cerca de 115 milhões de reais em contratações no primeiro ano de parceria.
Trouxe jogadores famosos e promissores, como os argentinos Tevez e Mascherano
e os brasileiros Nilmar, Carlos Alberto e Roger, entre vários outros. Gastou até
com um técnico estrangeiro e caríssimo: Daniel Passarella, demitido depois de
perder por 5 a 1 para o São Paulo no Pacaembu e ser ameaçado por uma invasão de
torcedores ao gramado. Apesar de fracassar no Campeonato Paulista e na Copa do
Brasil, o time foi campeão brasileiro em 2005, troféu marcado pelo escândalo da
máfia do apito e por um erro crucial de arbitragem no jogo decisivo contra o Internacional,
vice-campeão. Em 2006, a parceria começou a fazer água. As brigas internas e trapalhadas
de Kia e da diretoria do Corinthians prejudicaram as campanhas da equipe, que
não levantou a tão sonhada taça da Copa Libertadores e fracassou também nas outras
competições do ano. Em 2007, foram novos fiascos: no Paulista, no Brasileiro e
na Copa do Brasil. | | | | •
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| 3. O
que aconteceu com a parceria depois dos fracassos no gramado? Os
rolos de Kia, as disputas políticas no clube e a natureza obscura dos investimentos
ficaram em segundo plano enquanto houve bons resultados em campo - a partir de
2006, porém, a parceria tornou-se um enorme problema. Kia levou Tevez e Mascherano
para a Europa e fechou a torneira de dólares. O clube passou a pressionar a MSI
na esperança de contratar novas estrelas e pagar as dívidas, que não paravam de
crescer. No começo de 2007, com o Corinthians abandonado pela empresa e por seu
próprio presidente, que passava a maior parte do tempo em Londres, os conselheiros
votaram pela dissolução da parceria. Na teoria, o elo entre Corinthians e MSI
ainda existia. A relação entre as partes, contudo, se resumia às trocas de acusações
e cobranças. A sede paulistana da MSI deixou de existir; sem receber, o quadro
de funcionários ficou esvaziado. Dois anos depois de armar o time mais caro da
história do futebol brasileiro, o Corinthians tentava se sustentar com um time
cheio de novatos e desconhecidos. | | | | •
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| 4. Fora
de campo, qual foi o desfecho da parceria entre empresa e clube?
Um dos maiores escândalos já ocorridos no esporte brasileiro. E o caso está longe
de terminar: há a possibilidade real de que os principais envolvidos na parceria
terminem presos. As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público identificaram
uma longa lista de crimes no clube. Há suspeitas de evasão de divisas e sonegação
fiscal. Gravações telefônicas interceptadas com autorização judicial mostram Kia
falando abertamente em lavagem de dinheiro. Um inquérito da PF também investigará
dirigentes do clube e da MSI por formação de quadrilha. O trabalho da PF, chamado
Operação Perestroika, mostrou que os crimes foram além das irregularidades denunciadas
desde 2005 pelo Ministério Público Federal. Suspeita-se que a MSI pagava suas
estrelas (como Tevez, Mascherano, Carlos Alberto, Nilmar e o técnico Emerson Leão)
no exterior -- numa conversa gravada entre Carlos Alberto e a sua ex-mulher, a
moça ameaça "abrir a boca sobre o depósito do salário, que é feito metade aqui
e metade no exterior". | | | | •
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| 5. Quais
são os principais personagens do escândalo e seus crimes? Em julho
de 2007, a Justiça Federal determinou pedido de prisão preventiva contra Kia Joorabchian
e o magnata russo Boris Berezovski, o principal investidor da MSI. Nojan Bedroud,
diretor da empresa, também foi alvo do mesmo pedido. São acusados de lavagem de
dinheiro e formação de quadrilha. No Corinthians, foram denunciados vários dirigentes,
incluindo o então presidente, Alberto Dualib, e seu vice, Nesi Curi. O empresário
Renato Duprat, que intermediou o acordo para a parceria, o advogado Alexandre
Verri, advogado com procuração da MSI, e o dirigente Paulo Angioni, ex-diretor
da empresa, também foram citados no processo. O juiz da 6ª Vara Federal, Fausto
Martin Sanctis, deu início ao processo criminal e marcou os depoimentos dos envolvidos
para o segundo semestre. Se Kia e Berezovski entrarem no país, serão presos. Conforme
os autores da denúncia, os procuradores Rodrigo de Grandis e Silvio Martins de
Oliveira, a "quadrilha" corintiana movimentou cerca de 61 milhões de reais de
origem ilícita. | | | | •
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| 6. O
que dizem os acusados e suspeitos de envolvimento no escândalo? Entre
os alvos da denúncia formal, Kia e Berezovski não se pronunciam -- continuam em
Londres, longe do furacão corintiano. Alberto Dualib nega envolvimento em crimes:
"No telefone, 95% do que se fala não acontece, e isso não serve de prova", disse
ele sobre os grampos da PF. Os jogadores que teriam recebido dinheiro fora do
país não reconhecem a prática -- garantem que tudo foi feito dentro da lei. O
técnico Leão, que ganhava 500.000 reais mensais, também nega ter recebido de forma
ilegal. Jogadores e técnico seriam ouvidos pela PF dentro das investigações da
Operação Perestroika. Enquanto a PF intensificava os trabalhos de apuração, Kia
se casava com a advogada Tatiana, que trabalhava na MSI. Alberto Dualib e seu
vice estavam afastados da presidência do clube. O retorno da dupla ao poder era
considerado impossível. No lugar de Dualib assumiu o presidente interino Clodomil
Orsi -- que também pode ser envolvido no caso, pois assinou notas frias falsas
fornecidas por uma empresa de contabilidade. | | |
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| 7. Qual
é o personagem decisivo para o desfecho de todo o episódio? É o magnata
russo Boris Berezovski, uma das figuras mais controvertidas do neocapitalismo
pós-soviético. Homem de múltiplos talentos, Berezovski entrou para o mundo dos
negócios com o colapso do comunismo e enriqueceu com as privatizações no regime
de Boris Ieltsin. Com a ascensão de Vladimir Putin em 2000, Berezovski caiu em
desgraça. Acusado de corrupção e ligação com a máfia russa, exilou-se na Inglaterra.
A participação do russo no negócio com o Corinthians era suspeitada desde o início
da parceria, mas sempre foi negada pelos dirigentes. A PF e o MP, contudo, foram
claros: Berezovski era o dono do negócio, e Kia era apenas um "laranja". Provado
esse envolvimento do russo, fica aberto o caminho para a punição dos crimes, já
que estaria caracterizado o esquema de lavagem de dinheiro. Outro fato grave ligado
ao russo é a revelação, nos grampos da PF, de toda a mobilização política para
permitir que Berezovski visitasse o Brasil, fizesse mais negócios e até falasse
com o presidente Lula. | | | | •
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| 8. Quem
estava por trás das tentativas de trazer o russo até Brasília? O
ex-ministro e ex-deputado José Dirceu, que teve três encontros com o enroladíssimo
magnata, dono de uma fortuna avaliada em 10 bilhões de dólares. De acordo com
um petista familiarizado com os negócios de Dirceu, o principal assunto entre
o ex-deputado e Berezovski foi a Varig -- seu fundo de investimento teria 1 bilhão
de reais que seria destinado à compra da empresa. O papel de Dirceu, ainda segundo
esse petista, era convencer o governo brasileiro a colocar 100 milhões de reais
na transação por meio do BNDES. Os três encontros de Dirceu com Berezovski ocorreram
numa mansão no bairro do Pacaembu, em São Paulo, cedida por Renato Duprat. A idéia
de José Dirceu, conforme comentou com um interlocutor, era arrancar uma comissão
de uns 20 milhões de dólares intermediando o negócio da Varig e, com isso, pagar
campanha eleitoral para o PT. Um dia depois de se reunir pela última vez com Dirceu,
o magnata russo foi interrogado durante oito horas pelos 2 procuradores que investigam
a MSI. | | | | •
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| 9. Quais
serão as possíveis conseqüências do escândalo no futebol? O Congresso
Nacional decidiu acompanhar mais de perto os negócios envolvendo clubes e empresários.
Depois de uma audiência pública sobre o caso Corinthians-MSI no mês de setembro,
a Comissão de Turismo e Desporto da Câmara decidiu investigar a fundo as transações
do futebol, com apoio da Receita Federal. A intenção é descobrir novos casos de
lavagem de dinheiro e corrupção no esporte. Alguns deputados se mobilizaram pela
instalação de uma CPI sobre o tema, mas a extensa fila de comissões que esperam
instalação na Câmara fez a idéia perder força. Na esfera internacional, o caso
da MSI é uma das suspeitas que levaram a Fifa, entidade máxima do esporte, a criar
uma comissão especial para refletir sobre o papel dos empresários no esporte.
A preocupação se estende à Inglaterra, dona do campeonato nacional mais próspero
e valorizado da Europa, onde os magnatas estrangeiros enrolados em seus países
gastam milhões nos times, que têm ações negociadas na bolsa e podem ser comprados. |
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| 10.
Do ponto de vista esportivo, o que pode acontecer no Corinthians?
A chance de punição ao clube pelo envolvimento com a MSI é considerada quase nula.
Para muitos torcedores e comentaristas, a conquista do título do Brasileiro de
2005 deveria ser contestada de forma oficial. A justificativa é o uso do dinheiro
de origem ilícita para comprar os jogadores responsáveis pelo sucesso do time
em campo. Apesar dos indícios claros da prática de irregularidades, a punição
não deve ocorrer. Nenhum artigo da legislação esportiva ou comum prevê a perda
de troféu por causa de lavagem de dinheiro. Assim, a única marca que ficará será
a moral - as torcidas adversárias, que já contestavam a legitimidade do título
corintiano por causa do escândalo da máfia do apito, continuarão contestando a
conquista do clube paulista. Se o título está garantido na galeria de troféus,
o mesmo não pode ser dito do sucesso futuro do clube. Os problemas políticos e
financeiros ainda prometem atrapalhar o Corinthians por muito tempo. Sem dinheiro
e sem direção, o clube enfrenta a dura missão de se reconstruir. |
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