| Março de 2007 Caos
aéreo
Mauricio Lima/AE
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O choque entre o jato Legacy e um Boeing da Gol, em setembro de 2006, que provocou a morte de 154 pessoas, e as imensas filas e atrasos de vôos que se seguiram nos aeroportos brasileiros foram a face mais visível de uma nova crise nacional: a do setor aéreo. Desde então, o passageiro tem convivido com períodos de normalidade, interrompidos por sobressaltos provocados por problemas nos aeroportos e denúncias de riscos de novos acidentes. A crise, está claro, persiste, porque persistem as suas causas. Entenda melhor essa questão.
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1. Quando começou
a crise no setor aéreo do país? O choque entre um jato Legacy americano
e um Boeing da Gol em setembro de 2006, que derrubou o último na selva de Mato
Grosso e matou as 154 pessoas a bordo, foi o episódio que chamou definitivamente
a atenção da população brasileira para a precariedade do setor de transporte aéreo
do país. No entanto, o acidente, junto da greve branca dos controladores de vôo
que gerou o apagão aéreo original, foram só dois dos estopins de um colapso que
já estava anunciado. Enquanto o movimento de passageiros no país cresceu em ritmo
acelerado nos últimos três anos - 19% só em 2005 - , o investimento oficial em
infra-estrutura de controle aéreo, equipamentos e formação de equipes seguiu o
caminho inverso - foi reduzido quase à metade. | | |
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2. Quais
são as causas caos aéreo em que o país mergulhou? O caos e a incerteza
que dominam o setor aéreo são resultado de uma série de problemas interligados.
Os recursos da área são mal administrados; os aeroportos não têm estrutura para
atender a atual demanda; faltam controladores de tráfego aéreo, e os que estão
aí não têm boas condições de trabalho; os radares têm zonas cegas; as comunicações
por rádio falham. Basta que um desses elos da corrente não funcione para que todos
os outros sejam comprometidos. Como estão todos na iminência de falhar, a vulnerabilidade
do sistema - que há muito ultrapassou o seu limite - é enorme. |
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| 3. Quem
administra o transporte aéreo no país? A aviação está sob responsabilidade
direta do Ministério da Defesa, e é comandada pela Força Aérea Brasileira (FAB).
A Aeronáutica, no entanto, não gerencia o setor sozinha. Junto dela estão a Empresa
Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero), estatal responsável pela
administração dos 67 aeroportos do país; e a Agência Nacional de Aviação Civil
(Anac), que tem a finalidade de regular e fiscalizar as atividades de aviação
civil e de infra-estrutura aeronáutica e aeroportuária. A Anac, como o próprio
nome explica, é o único dos três órgãos comandado por uma autoridade civil. |
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| 4. Como
funciona o sistema de controle de tráfego aéreo no Brasil? O controle
de tráfego aéreo é comandado por um conjunto de quatro unidades de monitoramento
que se integram para cobrir todo o território nacional. Cada unidade regional
do sistema leva o nome de Cindacta - Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle
do Espaço Aéreo. São órgãos subordinados ao Departamento de Controle do Espaço
Aéreo (Decea), que por sua vez responde diretamente ao comando da Aeronáutica.
No Brasil, optou-se nos anos 1970 por criar um sistema único para controlar tanto
a aviação civil quanto a militar, ao contrário do que acontece em outros países.
Em Brasília, fica o Cindacta 1; em Curitiba, o Cindacta 2; em Recife, o Cindacta
3; e em Manaus, o Cindacta 4, baseado na estrutura do Sistema de Vigilância da
Amazônia (Sivam). A rede de controle aéreo brasileira é frágil. Está sujeita a
problemas que começam na falta de manutenção dos equipamentos e vão até as recentes
greves dos operadores – cujo contingente é insuficiente. | | |
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| 5. Os
equipamentos utilizados no controle do tráfego aéreo no Brasil são confiáveis?
Não. Os problemas começam nas comunicações por rádio. O Brasil tem mais de cinqüenta
freqüências de rádio para a comunicação entre os centros de controle em terra
e os aviões. No Cindacta 1, por exemplo, nenhuma das freqüências funciona com
100% de clareza o tempo inteiro. O trecho entre Brasília e Manaus possui "áreas
de silêncio", em que as comunicações de voz ficam inoperantes por até quinze minutos.
Além disso os radares têm zonas cegas. Mesmo na área do Cindacta 4, que utiliza
a rede do Sistema de Vigilância da Amazônia, o Sivam, de custo estimado em 1,4
bilhão de dólares, há zonas na região amazônica em que os radares não conseguem
detectar os aviões no céu. Como se não bastasse, os aeroportos são deficientes.
Segundo especialistas, a avaliação de um aeroporto é feita com base em três itens:
pista, pátio de estacionamento de aeronaves e terminal de passageiros. Nove dos
vinte maiores aeroportos brasileiros, que concentram 90% dos vôos no país, têm
problemas graves em um ou mais desses quesitos. | | |
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| 6. Qual
é o papel dos controladores de vôo no atual caos da aviação civil? Acuados
pela suspeita de que o acidente da Gol foi motivado por negligência do controle
aéreo, os trabalhadores do setor iniciaram no fim de 2006 um movimento por melhores
salários e passaram a denunciar suas precárias condições de trabalho. Há 2.700
operadores de tráfego aéreo no Brasil, na maioria militares - seriam necessários
mais 800 para que o monitoramento dos aviões fosse feito de forma segura. A conseqüência
disso é que esses profissionais ficam sobrecarregados e controlam mais aviões
do que o regulamento prevê. No final de 2006, os controladores não precisaram
fazer greve de fato. Bastou-lhes apenas seguir os regulamentos de segurança, diminuindo
o número de aeronaves sob responsabilidade de cada um, para que o caos se estabelecesse
nos aeroportos. | | | | •
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| 7. A
desmilitarização do controle de tráfego aéreo seria a solução para os problemas
dos operadores? Uma das reivindicações dos controladores de tráfego
aéreo é justamente a desmilitarização de sua função, colocada em debate pelo ministro
da Defesa Waldir Pires após o início da crise. Fora das mãos da Aeronáutica, o
controle deixaria de ser a caixa de segredos que é hoje. Alegando questões de
segurança nacional, os militares relutam em prestar contas sobre um serviço que
influi na vida de milhões de brasileiros. Sob comando da Aeronáutica, também não
existe transparência sobre o destino das taxas cobradas das companhias aéreas
pelo serviço de controle de tráfego. Taxas que, em última análise, influem nos
preços das passagens. Para os operadores, a desmilitarização traria benefícios
imediatos. Como militares, eles estão sujeitos às leis e à rotina do quartel.
Não podem questionar ou contrariar ordens superiores, sob risco de punição. No
entanto, tirar o controle aéreo das mãos da Aeronáutica não é bem visto entre
comandantes militares e especialistas. Para eles, a troca de chefia pode ser perigosa,
pois facilitaria a ocorrência de greves de fato, direito assistido pela Constituição.
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| 8. Faltam
recursos para administrar o setor de transporte aéreo? Não, eles
são mal gerenciados. O dinheiro para equipar melhor o tráfego aéreo não depende
de recursos orçamentários. As taxas de embarque pagas pelos passageiros nos aeroportos
somam uma dinheirama que, em 2006, chegou a cerca de 950 milhões de reais. O Brasil
tem a terceira tarifa aeroportuária mais cara do mundo. Só que, por determinação
dos ministérios da Fazenda e do Planejamento, a maior parte desse dinheiro fica
retida nos fundos Aeronáutico e Aeroviário, a fim de aumentar o superávit primário
nas contas oficiais. Do Fundo Aeronáutico, que acumulava até o fim de 2006 1,9
bilhão de reais, somente 17% foram efetivamente usados. Os erros de gestão financeira
são agravados por outras decisões administrativas, como um acordo entre a Infraero
e as companhias aéreas feito no começo do apagão aéreo, que passou a considerar
atraso somente os vôos que demoravam mais de uma hora para decolar. |
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| 9. As
companhias aéreas também têm culpa pela crise aérea? Sim. Em primeiro
lugar, porque junto dos órgãos que administram o tráfego aéreo, elas falham ao
não garantir nem mesmo o mais elementar dos direitos dos passageiros: ser informado
sobre os problemas e ter alguma previsão sobre os atrasos. Em segundo, porque
desrespeitam novamente seus consumidores ao insistirem em vender mais passagens
do que seus aviões podem comportar. | | | | •
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| 10.
A crise aérea afeta somente o setor turístico e os passageiros em férias? Não,
o turismo é um dos setores menos prejudicados. Cerca de 70% dos passageiros da
aviação comercial brasileira viajam a trabalho. Além disso, num país das dimensões
do brasil e com estradas lastimáveis, o transporte de mercadorias por avião é
vital para o bom funcionamento da economia. Por último, mas não menos importante,
deve-se registrar que o caos nos aeroportos afeta diretamente a classe média brasileira,
da qual provém a maior parte dos passageiros. | | |
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| 11.
Por que sempre que se fala em atrasos nos vôos, o aeroporto paulistano de Congonhas
recebe atenção especial? Congonhas é o maior aeroporto do país em
número de passageiros - 18,4 milhões em 2006 - e de vôos - 600 por dia. Quando
não é o causador das ondas nacionais de atrasos de vôos, o aeroporto localizado
no meio do caos urbano de São Paulo é o mais afetado por elas, e acaba refletindo
isso nos outros terminais do país. Ele trabalha há anos acima de sua capacidade
- poderia receber, no máximo, 12 milhões de passageiros por ano. Para piorar,
desde 24 de janeiro de 2007, toda vez que a chuva forma uma lâmina d'água sobre
as duas pistas do aeroporto de 3 ou mais milímetros de profundidade (a espessura
de uma moeda de 50 centavos), os pousos e as decolagens são suspensos por questões
de segurança. Cumbica, em Guarulhos, e Viracopos, em Campinas, têm capacidade
imediata de absorver, respectivamente, 20% e 2% das operações de Congonhas, mas
em breve também precisariam ser ampliados. | | |
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| 12.
Como solucionar o caos aéreo?
Não há soluções
prontas, mas existem medidas que poderiam ter sido adotadas antes da crise estourar.
Um bom começo seria a criação de um plano aeroviário
nacional que estabelecesse uma política clara de reformulação
e reorganização da infra-estrutura aeroportuária. Para isso,
o governo precisa gastar menos em obras vistosas como reformas milionárias
de aeroportos - que são sim necessárias, desde que conduzidas de
forma transparente - e mais no setor do tráfego aéreo que o público
não enxerga - como os centros de controle de vôo. No caso
dos rádios problemáticos, uma saída para fugir das interferências
é substituir a comunicação via rádio pela via satélite,
solução que tem funcionado até em países como a Costa
Rica. Sobre os controladores, desmilitarizados ou não, é preciso
formar e manter mais profissionais do que exige a demanda no dia-a-dia dos aeroportos.
Para além das soluções pontuais que já foram apontadas
por diversos especialistas, o que falta mesmo é agilidade do governo em
reconhecer o desastroso desempenho administrativo que ocasionou a leva de problemas
aeroportuários, e corrigi-los de forma a encerrar este tormento rapidamente.
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