| Abril de 2008 Biocombustíveis
e alimentos
Em meio aos esforços do governo e de empresários brasileiros para promover o etanol
combustível e minimizar as resistências ao produto na Europa, representantes da
Organização das Nações Unidas (ONU) fizeram duras críticas ao uso em larga escala
dos biocombustíveis como alternativa às fontes de energia fósseis. Isso porque
o etanol é relacionado por seus críticos ao aumento nos preços mundiais de alimentos.
A suspeita já fez com que o mercado europeu se fechasse um pouco mais contra o
combustível verde. O etanol americano, produzido com milho, seria um dos responsáveis
pela alta dos preços dos alimentos no mundo nos últimos meses. O etanol brasileiro
também pode ser apontado como um dos culpados? Entenda os argumentos de quem é
contra e a favor do etanol - e também de que forma sua produção teria influência
na inflação dos alimentos.
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| 1. A produção
de etanol pode prejudicar a produção de alimentos no mundo?
Dificilmente, já que isso apenas aconteceria caso
os países utilizassem a produção agrícola com fins
energéticos em detrimento dos alimentos. Atualmente,
o mundo produz mais alimento do que consome. Parte
da alta de preços de alimentos no planeta pode ser
atribuída à expansão da lavoura de milho voltada
para a produção de etanol nos Estados Unidos. No
Brasil, porém, são poucas as chances de isso ocorrer.
Dos 355 milhões de hectares disponíveis para plantio
no país, somente 90 milhões seriam adequados à cultura
de cana, que atualmente ocupa apenas 7,2 milhões
de hectares (metade deles para a produção de açúcar).
Em São Paulo, por exemplo, a plantação de cana ocupou
nos últimos anos o espaço de pastagens - sem que
a produção de carne bovina tenha diminuído.
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| 2. Se
isso acontecer, quais serão os efeitos? A redução das superfícies
destinadas aos alimentos contribuiria para o aumento dos preços dos mantimentos.
O que tem mais chance de acontecer, porém, é um deslocamento das lavouras à medida
que a cana dominar os espaços antes ocupados por outras culturas. Pode haver ajustes
de preços regionais por causa de mudanças na logística de abastecimento. Não se
pode, contudo, desprezar o fato de que os avanços da tecnologia agrícola poderão
prover grandes aumentos de produtividade nos próximos anos. E que as nações ricas
poderão eliminar barreiras e subsídios que sufocam a produção nos países pobres. |
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| 3. De
que forma o etanol estaria ligado à inflação nos preços dos alimentos?
O principal problema tem relação com o etanol produzido nos Estados Unidos. O
Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que a produção de etanol americana
é responsável por metade do aumento da demanda mundial de milho nos últimos três
anos. Isso aumentou o preço do milho e o preço das rações. Dessa forma, aumentam
também os custos de produtos bovinos e suínos, já que o milho é usado em rações
animais. De acordo com o Departamento de Agricultura, o mesmo ocorreu com outras
colheitas - principalmente soja - quando os produtores decidiram mudar seus cultivos
para o milho. | | | | •
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| 4. Com
base em quais argumentos a ONU tem criticado a produção do etanol?
Segundo o relator especial da ONU para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler,
a produção em massa de biocombustíveis representa um "crime contra a humanidade"
por seu impacto nos preços mundiais dos alimentos. Isso porque as terras que deveriam
ser usadas para a produção de alimentos serão supostamente destinadas ao plantio
das matérias-primas para a fabricação de etanol. Em outubro do ano passado, Ziegler
elaborou um relatório para pedir uma moratória de cinco anos na produção do etanol.
Durante esse período, os governos precisariam avaliar os impactos sociais, ambientais
e de direitos humanos que a produção de etanol geraria. | | |
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| 5. O
que dizem os países europeus sobre essa questão? A Comissão Européia
já indicou que vai propor a supressão das subvenções para os cultivos destinados
à produção de biocombustíveis. Vários dirigentes europeus manifestaram preocupação
com a utilização da produção agrícola com fins energéticos ao invés de alimentos.
Entre eles está o ministro da Agricultura da França, Michel Barnier, que disse:
"A produção agrícola com fins alimentares deve ser claramente prioritária". |
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| 6. O
que dizem as ONGs que criticam o uso dos biocombustíveis? As ONGs
passaram a acusar o etanol de roubar espaço dos alimentos no campo e dizem que
os usineiros do Brasil querem avançar a área de plantio de cana na floresta amazônica,
o que contribuiria ainda mais para o desmatamento. No exterior, a ONG britânica
Oxfam afirma que o etanol é uma ameaça para milhões de pessoas dos países em vias
de desenvolvimento, vulneráveis ao encarecimento dos alimentos básicos como os
cereais. A Oxfam se baseia em um estudo do International Food Policy Research
Institute, segundo o qual a demanda de biocombustíveis é responsável por aproximadamente
30% dos últimos incrementos do preço dos alimentos. Essa variação repercute, sobretudo,
nos mais pobres do mundo, que dedicam à comida entre 50% e 80% de sua receita,
o que significa que qualquer aumento nos preços reduzirá o consumo de alimentos
e aumentará a fome. | | | | •
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| 7. Quais
são os principais países produtores de etanol? Brasil (cana-de-açúcar),
Estados Unidos (principalmente milho, mas com boa perspectiva de chegar primeiro
ao etanol de celulose), Canadá (trigo e milho), China (mandioca), Índia (cana,
melaço) e Colômbia (cana e óleo de palma). A Alemanha produz metade do biodiesel
do mundo. | | | | •
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| 8. Por
que o etanol brasileiro tem mais vantagens do que o americano? As
principais críticas dizem respeito ao modo de produção. O etanol americano é feito
a base de milho e conta com fortes subsídios por parte do governo do país. Para
entrar nos Estados Unidos, o etanol brasileiro enfrenta uma tarifa de 0,54 dólares.
Além disso, o etanol feito de milho contribui para o aumento do preço do cereal
e tem um peso negativo diante da atual inflação de alimentos. O etanol brasileiro
tem ainda outras vantagens. A primeira é a limpeza. Para cada litro de gasolina
utilizado na lavoura ou na indústria, são produzidos 9,2 litros de etanol. No
caso do etanol de milho, essa relação cai para 1,4 litro de etanol para cada litro
de combustível fóssil empregado no processo. A segunda é a produtividade. No Brasil,
são produzidos 7 500 litros de etanol por hectare plantado de cana. No caso do
milho, cada hectare produz 3 000 litros. | | |
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| 9. Qual
é o limite máximo da produção para não prejudicar as outras culturas?
Em tese, há ainda 77 milhões de hectares a ser
ocupados no Brasil sem afetar o espaço dedicado
a outras culturas. Atualmente, a cana-de-açúcar
ocupa 7,2 milhões de hectares, menos do que a soja
(21 milhões) e o milho (14,4 milhões).
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| 10.
Na América Latina, quais países já se manifestaram contra o etanol? Bolívia,
Cuba e Venezuela. Havana chegou a propor que a ONU comece um estudo para avaliar
até que ponto o etanol, tanto de milho como de cana-de-açúcar, afetam a produção
de alimentos no mundo, O presidente boliviano Evo Morales foi um dos principais
defensores da moratória de cinco anos para a produção de etanol proposta pela
ONU. Já o líder venezuelano Hugo Chávez teme que o crescimento do etanol no mercado
internacional possa prejudicar as exportações venezuelanas de petróleo - commodity
da qual o país do caudilho é um dos principais produtores. Para diplomatas da
ONU, o temor desses países é de que o etanol leve o governo americano a ter maior
influência sobre os governos da América Central. | | |
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| 11.
De que forma o governo brasileiro tem contra-atacado os críticos do etanol?
Quanto às críticas cubanas, o Brasil explicou a
Havana que o etanol já é produzido por aqui há 35
anos e isso nunca implicou uma redução da área destinada
à agricultura. Além disso, o Planalto convidou os
cubanos a fazer uma visita ao Brasil para conhecer
a produção de cana e propôs um plano de cooperação
com Cuba para melhorar a qualidade da cana produzida
na ilha, para que Havana também possa fabricar etanol.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem feito
uma defesa ferrenha do etanol em viagens pela Europa.
Sua estratégia envolve o apoio de empresários brasileiros
do setor sucroalcooleiro, interessados em atrair
investimentos europeus. Lula acusou o relator especial
da ONU, Jean Ziegler, de não conhecer a realidade
brasileira, o que é verdade. O sociólogo suíço é
um socialista radical que há muito tempo critica
o etanol como se não houvesse outras razões para
o aumento dos preços. O presidente chegou a dizer
que acusar a produção de biocombustíveis como responsável
pelo aumento da inflação é "uma falácia, uma mentira
deslavada". Para Lula, os preços dos alimentos têm
subido porque "os pobres do mundo começaram a comer".
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| 12.
Por que não se pode culpar somente os biocombustíveis pela dos preços dos alimentos?
O que está acontecendo no mundo é um desequilíbrio
entre a oferta e a demanda de alimentos. Isso ocorre
porque houve um crescimento explosivo da demanda
entre os consumidores dos países emergentes, cuja
renda per capita cresceu muito nos últimos três
anos. Além disso, a oferta diminuiu devido às secas.
Nos últimos três anos, houve secas tão profundas
no sul do Brasil que perdemos 40 milhões de toneladas
de grãos. O problema ocorreu também em outros países,
como Austrália e Ucrânia. A diminuição da oferta
e a demanda crescente tiveram como conseqüência
imediata o aumento dos preços.
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