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Maio de 2008
Amazônia internacional
De tempos em tempos, uma
discussão volta ao país: a suposta
ameaça de internacionalização
da Amazônia. A primeira vez que se falou
no assunto foi no século XIX, quando
um militar americano reivindicou a abertura
do rio Amazonas à navegação
estrangeira, despertando ira. A saída
da ambientalista Marina Silva do Ministério
do Meio Ambiente, em maio de 2008, trouxe o
tema de volta. Questionando a capacidade brasileira
de zelar pelo riquíssimo patrimônio
amazônico, um dos mais influentes jornais
do mundo, The New York Times, publicou artigo
intitulado "De quem é essa floresta,
afinal?". O presidente Lula bradou: "A
Amazônia tem dono, e são os brasileiros".
Simultaneamente, a Agência Brasileira
de Inteligência (Abin) revelou um suposto
esquema de venda de terras da região
pelo empresário sueco Johan Eliasch,
conselheiro do premiê britânico
Gordon Brown. Desta vez, a resposta do governo
veio por meio de projeto pretende restringir
a atuação de estrangeiros na floresta.
Entenda por que o mundo volta seus olhos para
a Amazônia e a razão do pânico
de alguns governantes.
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1.
A internacionalização da Amazônia é um risco real
ou uma paranóia?
Não há um único sinal concreto
de que uma invasão ou internacionalização
seja iminente ou esteja sendo planejada. Ainda assim,
segundo uma pesquisa de VEJA em parceria com o instituto
CNT/Sensus, 72,7% dos civis brasileiros temem isso.
O fato é que nunca nenhum país ou
entidade internacional séria reivindicou
direito algum de soberania sobre a Amazônia,
e sempre que uma autoridade deu qualquer declaração
infeliz sobre o assunto a respectiva diplomacia
se encarregou de desmentir. Periodicamente essa
questão volta à mídia. Em 2001,
por exemplo, circulou pela internet um e-mail segundo
o qual um livro didático americano já
apresenta a Amazônia como região internacionalizada.
O mapa e o texto eram falsos. A maneira como surgiu
a teoria de que a Amazônia está prestes
a se tornar uma zona de controle internacional monitorada
pelos países ricos ilustra bem essa definição.
Circula entre grupos ligados a partidos de esquerda
e também entre militares uma lista de frases
de líderes mundiais que defendem, supostamente,
uma soberania compartilhada da Amazônia. Um
exemplo é a frase do ex-vice-presidente americano
e Nobel da Paz, Al Gore, que disse em 1989: "Ao
contrário do que os brasileiros pensam, a
Amazônia não é só
deles, mas de todos nós".
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2.
O que diz o governo a respeito da internacionalização?
A administração Lula é unânime
em afirmar: a Amazônia pertence aos brasileiros.
"Há visões da comunidade internacional
que defendem a Amazônia como se ela fosse
um território da humanidade e não
território brasileiro. Isso aí esconde
interesses econômicos sobre a Amazônia
como uma reserva planetária para grandes
multinacionais e para controles territoriais de
outros países sobre o Brasil", resumiu
certa vez o ministro da Justiça, Tarso Genro.
O governo não fica somente no discurso e
pretende enviar ao Congresso um projeto de lei que
restringe o acesso de visitantes à Amazônia.
Se a proposta for aprovada pelos parlamentares,
os estrangeiros e suas organizações,
incluindo as que têm vínculos religiosos,
ficarão sujeitos ao controle do Ministério
da Defesa. Para quem não tiver autorização
e continuar atuando na Amazônia, a punição
será dura: cancelamento de visto e expulsão
do país. A principal preocupação
do governo diz respeito ao trabalho das ONGs que
atuam na região. Muitas delas têm endereço
doméstico, mas capital estrangeiro, o que
levanta suspeitas. Pelo projeto, as ONGs terão
de pedir autorização ao Ministério
da Defesa para trabalhar na região. Os infratores
da nova regra também podem ter de pagar multas
de até 100.000 reais.
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3.
Qual a postura das Forças Armadas sobre essa questão?
Sobretudo para o Exército brasileiro, a
defesa da Amazônia é uma prioridade
indiscutível. Uma pesquisa de VEJA em parceria
com a CNT/Sensus revela que 82,6% dos militares
acreditam que a Amazônia corre o risco de
sofrer uma ocupação estrangeira. Com
sua vastidão verde, suas promessas de fartura
genética e sua generosa oferta de água
doce, a Amazônia é considerada pelos
militares um dos grandes "pontos de cobiça"
do mundo. A questão é prioridade quando
o assunto é a defesa da soberania do país
e tropas têm sido, sistematicamente, transferidas
do Sul para a região Norte.
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4.
Do ponto de vista jurídico, a tese da internacionalização
possui algum fundamento?
Os defensores da internacionalização
baseiam seus argumentos nos chamados direitos de
terceira geração reconhecidos
pelas constituições, convenções
internacionais e tratados , que garantem que
o direito ao meio ambiente à paz e à
democracia, por exemplo, não se restringe
a pessoas individualmente, mas a todo o gênero
humano. Esses direitos surgiram a partir do término
da II Guerra Mundial, como resultado da repulsa
a regimes totalitários e da exigência
de que o mundo estivesse unido em prol da realização
dos mais elevados valores humanos. Não se
pode deixar de levar em conta, porém, o fato
de que cada país tem poder para estabelecer
regras jurídicas para o seu povo e políticas
dentro do seu território, sem ingerências
externas o que se pode chamar de soberania
nacional.
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5.
Por que o citado artigo do New York Times provocou
tamanha comoção?
O artigo discutia o papel da comunidade internacional
diante de exemplos da incompetência da administração
brasileira em proteger uma floresta considerada
importante e valiosa para todo o planeta. Falava
também como a crescente preocupação
com os efeitos do aquecimento global e as notícias
sobre o aumento do desmatamento na região
deram força para que líderes internacionais
declarassem mais abertamente a Amazônia como
parte de um patrimônio mundial e não
pertencente apenas às nações
que dividem seu território. O artigo chegava
até a comentar a reação hostil
esses comentários provocam nos brasileiros,
inclusive nos governantes.
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6.
O que, de fato, a Abin descobriu sobre o suposto
esquema Johan Eliasch?
Segundo relatório da agência divulgado
pela imprensa, Eliasch avaliou que poderia comprar
toda a floresta Amazônica por 50 bilhões
de dólares e incentivou empresários
estrangeiros a fazer doações para
a compra das terras. O texto diz ainda que Eliasch
é fundador da ONG Cool Earth, que já
comprou terras na Amazônia brasileira e equatoriana,
e as registrou em nome da Floream e da Empresa Florestal
da Amazônia, empresas sob o controle do Brazil
Forestry Fund Investiment, um fundo americano. Juntas
as empresas já controlariam 120.000 hectares,
nos municípios de Itacoatiara, Manicoré,
Humaitá e Novo Aripuanã. As terras
seriam vizinhas de propriedades onde, segundo o
Departamento Nacional de Produção
Mineral, existem pedidos para exploração
de ouro.
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7.
Por que a floresta desperta tanta atenção?
A Amazônia é atualmente o mais
precioso tesouro ambiental do planeta, com inimaginável
diversidade biológica e manancial de água
potável. Maior floresta tropical do mundo,
ela abriga 15% de todas as espécies de plantas
e animais conhecidas. Mas a floresta tem, também,
um enorme potencial econômico. Um exemplo:
multiplicando o valor de cada minério pelos
estoques já medidos no subsolo da Amazônia,
excluído o petróleo, tem-se como resultado
a impressionante quantia de 7,2 trilhões
de dólares. Repita-se: esse é o
estoque já conhecido e, segundo os especialistas,
há muito mais minérios sob a floresta
do que as reservas já registradas.
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8.
O governo brasileiro tem sido competente na gestão
da floresta?
Não. Quando o assunto é a preservação,
a impressão que se tem é de que, em
Brasília, sobra discurso e falta ação.
Por anos, o governo alardeou a queda do desmatamento.
Em 2008, no entanto, o Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe) revelou os números do desmatamento
na Amazônia: a devastação havia
crescido. O Brasil dispõe da mais moderna
técnica de vigilância por satélite
para detectar e medir o desmatamento. São
dois sistemas, Prodes e Deter, ambos gerenciados
pelo Inpe. Os dados que os satélites produzem,
porém, de pouco servem para reprimir os desmatamentos
ilegais. Isso porque o Ibama conta com apenas 644
fiscais em toda a Amazônia e 4 helicópteros.
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9.
Quais as conseqüências da destruição da Amazônia
para o mundo?
Basta listar algumas das características
da floresta para concluir que sua extinção
seria uma tragédia para a humanidade. Pesquisas
recentes mostram que o efeito mais visível
do desaparecimento da Amazônia seria o desequilíbrio
das chuvas no mundo, seja na Bacia do Prata, na
Califórnia, no sul dos Estados Unidos, no
México ou no Oriente Médio. Isso traria
perturbações imprevisíveis
à agricultura dessas regiões. Na Amazônia
também encontram-se duas vezes mais espécies
de aves do que nos Estados Unidos e no Canadá.
Não se sabe ao certo em que medida o desaparecimento
desse extraordinário bioma afetaria o aquecimento
global. No Brasil não seria diferente. Por
meio da evaporação, a Amazônia
produz um volume de vapor dágua que
responde pela formação de 60% da chuva
que cai sobre as regiões Norte, Centro-Oeste,
Sudeste e Sul do Brasil. A diminuição
da chuva teria um impacto direto sobre a produtividade
agrícola em estados como Mato Grosso, Goiás
e São Paulo. Os rios que abastecem o reservatório
da Hidrelétrica de Itaipu teriam sua vazão
sensivelmente diminuída, causando um colapso
energético no país.
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10.
A questão da Amazônia está relacionada à saída de
Marina Silva do Meio Ambiente?
Sim. Marina não soube solucionar a equação
básica para o desenvolvimento do país
atualmente: conciliar desenvolvimento com preservação.
O desmatamento desenfreado da Amazônia, a
maior floresta tropical do planeta, é grave.
Quase um quinto da vegetação original
já desapareceu. A demissão de Marina
ocorreu em meio a um debate central para o futuro
como conciliar o crescimento econômico
com a proteção ambiental. A ex-ministra
nunca passou de uma peça de marketing exibida
pelo governo Lula para mostrar uma suposta vocação
ambientalista. No cargo, mostrou pouca intimidade
com a burocracia, a começar pela montagem
da equipe. Seus principais assessores eram quase
todos militantes de organizações dogmáticas,
que viviam em atrito permanente com setores do próprio
governo.
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11.
Por que a demissão da ex-ministra preocupa a comunidade
internacional?
A reação no exterior ao pedido de
demissão da ministra foi de susto. O jornal
inglês The Guardian qualificou a saída
de Marina Silva como "uma ameaça ao
futuro da maior floresta tropical do mundo".
Marina, muito antes de ser ministra, era reconhecida
internacionalmente como defensora da preservação
da floresta, com excelente trânsito entre
as ONGs mais barulhentas do planeta. A ex-ministra
já havia aparecido em um ranking do Guardian
como uma das 50 pessoas que podem ajudar a salvar
o planeta. A ONG WWF-Brasil lamentou a saída
de Marina, dizendo que o fato é uma prova
de que "a área ambiental não
tem espaço no atual governo". Para a
ONG The Nature Conservancy, a demissão poderá
aumentar a pressão externa contra a produção
de biocombustíveis.
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