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Julho de 2007
Investigações de
acidentes aéreos
No início da noite
de 17 de julho de 2007, um avião modelo Airbus
A320 da companhia TAM tentou pousar no aeroporto
paulistano de Congonhas, mas ultrapassou o final
da pista, cruzou uma movimentada avenida, colidiu
com um prédio da empresa de cargas TAM Express
e explodiu. O maior desastre da história da aviação
brasileira deixou quase 200 mortos. No dia seguinte,
autoridades do setor aéreo lançaram-se à empreitada
de investigar quais seriam as causas e quem seriam
os responsáveis pela tragédia. Saiba como funciona
a investigação de um acidente aéreo, que costuma
sempre trazer novas palavras ao vocabulário dos
brasileiros – como reverso, transponder e grooving
– e entenda qual é a importância deste tipo de
processo.
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1.
Quanto tempo demora, em média, para que as causas
de um acidente aéreo sejam determinadas?
De acordo com autoridades do setor e especialistas
em investigações de acidentes, é
impossível estipular um prazo de duração
fixo para uma investigação, devido às
circunstâncias específicas que envolvem
cada desastre. Quando questionadas sobre o assunto,
algumas destas autoridades costumam responder que precisam
de cerca de um ano e meio para que todos os detalhes
de um acidente aéreo sejam esclarecidos. No entanto,
já houve investigações concluídas
em 10 meses e outras que se arrastaram por quase cinco
anos antes de serem completadas.
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2.
Por que demora tanto tempo?
As circunstâncias que envolvem cada desastre
aéreo são muito específicas, e
podem variar muito entre si. Se um avião cair
no oceano, por exemplo, o tempo necessário para
que se retirem todos os corpos das vítimas e
os destroços que podem revelar as causas do acidente
é muito maior do se a queda acontecer em uma
área aberta e descampada. As condições
em que evidências como as caixas pretas são
encontradas se intactas, destruídas, queimadas,
molhadas, etc. também ajudam a acelerar
ou atrasar uma investigação. Por fim,
por ser um trabalho de cunho essencialmente científico,
a análise destas evidências busca respostas
100% precisas. Os resultados, portanto, não podem
ser apressados se houver dúvidas.
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3.
Quais são os estágios da investigação
de um acidente aéreo?
Resumidamente, a investigação de um
acidente aéreo é feita em três etapas.
No estágio inicial, realizado imediatamente após
o desastre, são coletados todos os tipos de materiais
que podem servir como evidências científicas
do ocorrido. Após a coleta, o trabalho se concentra
na análises destes materiais em laboratórios.
Embora a ênfase aqui seja dada ao estudo do conteúdo
das caixas pretas do avião, até os corpos
das vítimas podem passar por exames para que
se determine que tipo de impacto sofreram com o acidente.
É também nesta segunda fase que se tomam
os depoimentos das partes envolvidas torre de
controle, responsáveis pelo aeroporto, outros
pilotos e membros de companhias aéreas, fabricantes
de aeronaves e quem mais for necessário. Montado
o quebra-cabeça da reconstituição
do desastre, a investigação pode ser encerrada
com a redação de um relatório final,
que explica os motivos do acidente e faz recomendações
de segurança para todos os setores envolvidos
na prevenção de novos desastres. Todos
os procedimentos de uma investigação deste
tipo seguem princípios definidos pelo anexo 13
da Convenção Internacional de Aviação
Civil (a Convenção de Chicago), órgão
das Nações Unidas.
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4.
Que materiais e circunstâncias são analisados
pelos investigadores?
Praticamente tudo que tenha ou possa ter alguma relação
com o acidente. Entre os materiais periciados estão
destroços da aeronave e do que quer que ela tenha
destruído, fotografias e vídeos do local
ou do desastre em si, gravações das caixas
pretas e de outras conversas relacionadas, os próprios
corpos das vítimas. Também são
investigados registros de ocorrências anteriores,
manuais de funcionamento das aeronaves, relatórios
sobre as condições climáticas no
momento do acidente e os depoimentos de pessoas envolvidas
qualquer coisa que possa dar pistas sobre o que
causou o acidente.
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5.
Como funciona a caixa preta de um avião?
Nas aeronaves mais modernas, existem dois equipamentos
responsáveis por registrar as informações
de um vôo. A primeira caixa preta grava todo tipo
de comunicação ocorrido dentro do avião.
Incluem-se aí tanto as conversas de cabine, entre
piloto e co-piloto ou entre comandantes e comissários,
quanto as conversas entre a aeronave e as torres de
controle aéreo ou entre duas aeronaves em vôo.
A segunda caixa preta registra dados eletrônicos
dos sistemas que controlam o avião, e são
importantes para que se descubra informações
como a altitude em que ele voava, a velocidade e às
vezes até se houve falha em determinada peça.
De posse dos dados desta segunda caixa, alguns laboratórios
avançados conseguem montar animações
que reconstituem fielmente os últimos momentos
de um vôo antes do acidente.
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6.
Por que o seu conteúdo demora a ser revelado?
O conteúdo das caixas pretas demora a ser revelado
pois depende de laboratórios específicos
para realizar a sua leitura. Por estarem freqüentemente
em péssimas condições, não
raro parcialmente destruídas, são poucos
os locais com condições técnicas
de analisá-las. Embora existam laboratórios
na França e na Grã-Bretanha, na maioria
dos acidentes ocorridos no Brasil as caixas são
enviadas para os Estados Unidos ou o Canadá.
Para garantir a isenção da leitura, é
recomendável que elas sejam estudadas fora do
país onde foram fabricadas. O custo para implementar
um laboratório de leitura de caixas pretas no
Brasil é muito alto em comparação
à sua necessidade. Como os desastres que requerem
laboratórios deste tipo não são
freqüentes, o governo brasileiro prefere continuar
a fazer a análise das caixas no exterior.
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7.
Qual é o peso dos depoimentos de pilotos, comissários
e controladores em uma investigação?
Os depoimentos são apenas mais uma peça
no quebra-cabeça que os investigadores tentam
montar para entender como aconteceu um acidente. Embora
recebam grande atenção da cobertura da
imprensa, muitos depoimentos podem até acabar
descartados dependendo de seu grau de subjetividade.
Não é raro que técnicos e peritos
reclamem das declarações dadas por pessoas
que eles consideram leigas. Quanto mais
coerentes forem os depoimentos com as outras evidências
analisadas pelos investigadores, mais chances eles têm
de serem decisivos.
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8.
Quem são as pessoas e autoridades envolvidas
na investigação de um desastre aéreo?
No Brasil, quando ocorre um desastre, as primeiras
pessoas convocadas a investigá-lo são
técnicos e peritos da Aeronáutica
muitos deles especializados apenas neste tipo de trabalho.
Dependendo das proporções, outras autoridades
ou órgãos podem ser chamados, como a polícia,
por exemplo, que a princípio não tem responsabilidade
sobre casos do tipo. Existe ainda uma extensa comunidade
internacional de entidades técnicas voltadas
à prevenção de acidentes aéreos,
cujos membros também podem ser chamados a participar
de qualquer investigação no mundo.
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9.
No Brasil, qual órgão deve dar a última
palavra sobre as responsabilidades e causas de um acidente
aéreo?
O Centro de Investigação e Prevenção
de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) é quem
tem a última palavra em todas as investigações
de acidentes aéreos ocorridos no Brasil. Criado
oficialmente em 1982, o Cenipa é um órgão
militar sob comando da Força Aérea Brasileira
(FAB), mas reúne também um comitê
composto por representantes de diversas entidades nacionais
e estrangeiras, públicas e privadas, direta ou
indiretamente ligadas às atividades aeronáuticas,
além de sindicatos de organizações
civis.
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10.
Existe interesse no país em divulgar dados relativos
a incidentes aéreos?
Existe no Brasil, assim como no resto do mundo, interesse
dos inúmeros órgãos que trabalham
com a prevenção de acidentes aéreos,
que todo e qualquer desastre, ou mesmo os incidentes
mínimos, sejam devidamente registrados e divulgados.
No entanto, o setor aéreo de cada país
costuma agir de maneira própria. Nos Estados
Unidos, a cultura de tornar públicos os incidentes
é muito mais forte do que no Brasil. O FAA, órgão
responsável pela aviação americana,
costuma receber das empresas aéreas cerca de
dez vezes mais relatos de incidentes por ano do que
a Agência Nacional de Aviação Civil
(Anac, antigo DAC), versão brasileira do FAA.
O registro estatístico tem importância
crucial na prevenção de novos incidentes.
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11.
Qual é a importância de se investigar um
acidente aéreo?
A única preocupação dos órgãos
que investigam acidentes aéreos em todo o mundo
é prevenir, a partir de tudo que é descoberto
em uma investigação, a ocorrência
de um outro desastre de características semelhantes.
Por isso, é consenso entre estas entidades, que
a elaboração e posterior divulgação
do relatório final sobre um acidente é
a fase mais importante de qualquer investigação.
Há na história diversos registros de fabricantes
que foram forçados a mudar componentes
ou mesmo projetos inteiros de suas aeronaves
por causa de conclusões apresentadas nestes relatórios.
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