Os candidatos à sucessão no Vaticano
O sucessor de João Paulo II deverá ser alguém capaz de comandar a Igreja nas mudanças dos tempos

O papa João Paulo II completou 25 anos de pontificado em 2003, mas as expectativas sobre o seu sucessor já existiam desde o início dos anos 90, quando a saúde do polonês começou a piorar. Especialistas em assuntos do Vaticano são quase unânimes em afirmar que o sucessor de João Paulo II deverá ser alguém capaz de comandar a Igreja nas mudanças dos tempos.

No final de setembro de 2003, o sumo pontífice nomeou trinta e um novos cardeais, em uma tentativa de exercer influência direta na escolha do próximo papa. Na prática, a medida garantiria a João Paulo II uma maneira de manter a Igreja Católica no rumo atual mesmo depois de sua morte.

Espera-se que o futuro papa seja uma figura mais conciliadora e menos imperial do que o atual, mas não se deve acreditar que ele irá rever os rígidos cânones morais da Igreja, desrespeitados pela maioria do rebanho católico. Assim, a tendência é de que o próximo pontífice seja, também, conservador e contrário a mudanças como a autorização das ordenações de mulheres, o casamento dos sacerdotes e o fim da proibição à contracepção.

O conclave que elegerá o novo ocupante do cargo terá cerca de 120 cardeais (os integrantes do colégio cardinalício que ainda não completaram 80 anos). O continente com mais cardeais é a Europa, seguida de América Latina, América do Norte, Ásia, África e Oceania. Vários dos nomeados vêm de países em desenvolvimento, fomentando as especulações de que o próximo papa virá de um deles. No Terceiro Mundo, o papável mais forte seria o nigeriano Francis Arinze, de 72 anos. Mas os latino-americanos também têm grandes chances, já que formam o segundo maior bloco.

Entre os cardeais europeus, o mais cotado para a sucessão de João Paulo II é o italiano Dionigi Tettamanzi, de 69 anos, arcebispo de Gênova. Carlo Maria Martini, arcebispo de Milão, que era um dos favoritos do papa, deixou de freqüentar a lista de candidatos. Consta que também sofre de mal de Parkinson. Vários rumores também designam como o possível sucessor o antigo secretário de Estado Angelo Sodano, que já passou do limite de idade para exercer o cargo e é o segundo mais importante na hierarquia da Cúria.

Sabe-se que a corrida papal já começou, mas arriscar palpites pode ser perigoso. A eleição do próprio Karol Wojtyla foi uma surpresa em 1978, quando ele se tornou o primeiro papa não-italiano nos 500 anos da história do Vaticano. A seguir, perfis dos cardeais mais cotados para a sucessão.

Joseph Ratzinger, 77 anos, alemão
O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé foi o grande ideólogo do pontificado de João Paulo II. É um dos cardeais mais poderosos da Cúria romana. No entanto, tem muitos inimigos e suas condições de saúde não são das melhores.

Giovanni Battista Re, 71 anos, italiano
Prefeito da Congregação dos Bispos (em substituição a dom Lucas Moreira Neves) e presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, é funcionário de carreira do Vaticano e profundo conhecedor da organização da Igreja Católica. Tornou-se peça-chave na administração do Vaticano e cuidou da preparação de boa parte das 104 viagens internacionais do papa, sendo elogiado pelo vaticanistas por sua "imensa capacidade de trabalho, mente brilhante e nervos de aço".

Angelo Scola, 63 anos, italiano
Teólogo respeitado, especialista em questões de família, integra o movimento conservador italiano Comunhão e Liberdade. Foi nomeado cardeal na lista divulgada pelo Vaticano em setembro de 2003. Faz parte dos cardeais da linha dura e recentemente foi nomeado relator geral do próximo sínodo dos bispos.

Dionigi Tettamanzi, 69 anos, italiano
É o franco favorito. Comunicativo, tem amigos poderosos e pertence à linha moderada. Como se mantém eqüidistante dos grupos que disputam a hegemonia da Igreja, pode ser uma solução de consenso entre a Cúria Romana e os cardeais que não estão encastelados no Vaticano.

Camillo Ruini, 74 anos, italiano
Um dos favoritos à sucessão, ele cresceu à sombra de João Paulo II, de quem sempre procurou imitar algumas atitudes. Dotado de enorme energia para o trabalho, ele é classificado de moderado pelos vaticanistas, mas nos últimos anos migrou para posições cada vez mais intransigentes.

Angelo Sodano, 77 anos, italiano
Em função do cargo-chave que ocupava na hierarquia da Igreja (ele administrava diretamente o Vaticano e respondia pela política externa de João Paulo II) e de sua capacidade de articulador, é um dos cardeais mais poderosos. Mas não é um papável no qual os especialistas apostam muito.

Miloslav Vlk, 72 anos, checo
Foi operário, o que lhe confere uma aura de trabalhador, ao gosto dos cardeais à esquerda. Ao mesmo tempo, resistiu à ditadura, o que agrada aos conservadores. É bem-visto no meio e fala perfeitamente o italiano. Seu problema é a etnia. Depois de um polonês, é difícil que elejam outro eslavo.

Francis Arinze, 72 anos, nigeriano
Extremamente cordial e cauteloso, é um candidato sempre presente na lista dos papáveis, dada inclusive a desenvoltura com que circula no ambiente inóspito da Cúria Romana. Arinze é uma boa possibilidade caso a Igreja aposte na intensificação da ação pastoral nas regiões mais pobres.

Alfonso López Trujillo, 69 anos, colombiano
É o cardeal latino-americano que hoje goza de maior prestígio dentro do Vaticano. Nos últimos anos, entregou-se de corpo e alma à luta contra a legalização do aborto e da eutanásia. Na Colômbia, no entanto, ele é um cidadão sob suspeita, por ter seu nome envolvido em episódios nebulosos.

Cláudio Hummes, 70 anos, brasileiro
Moderado perfeitamente afinado com as linhas adotadas por João Paulo II, o arcebispo de São Paulo condena a politização da liturgia, as interpretações livres do Evangelho, os métodos contraceptivos e o aborto e prega o pleno resgate da mística católica. Também fala cinco línguas, entre elas o italiano.

Oscar Andres Rodrigues Maradiaga, 62 anos, hondurenho
Jovem para os padrões vaticanos, culto, poliglota e comunicativo, Maradiaga tem o exato perfil que João Paulo II mais estimulou e favoreceu ao longo de seu pontificado: rigorosa ortodoxia temperada por nítida preocupação social. Em certos momentos, contudo, derrapa nas declarações.

  
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