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O papa João Paulo II fez da rigidez moral uma de suas bandeiras durante os 25 anos de pontificado. No plano eclesiástico e espiritual, a marca sempre foi o conservadorismo. Nunca permitiu nenhum tipo de transigência em questões que dizem respeito aos dogmas da Igreja e a temas de conteúdo moral transformados por Roma em pontos fundamentais de sua doutrina. Mas o que mais chama a atenção em João Paulo II é sua insistência em afirmar os princípios da Igreja, sem medo de parecer retrógrado num mundo moldado por costumes liberais e pela tecnologia. João Paulo II continua firme na defesa do celibato dos padres, na condenação da contracepção e do sexo fora do casamento, ignorando o desconforto dos católicos - boa parte do 1 bilhão de fiéis da Igreja utiliza camisinhas e pílulas anticoncepcionais, admite em diferentes graus a prática do aborto para evitar filhos indesejados e rompe casamentos. Em meados da década de 90, o papa espantou o mundo ao recomendar que as mulheres da Bósnia gerassem e dessem à luz crianças concebidas em estupros cometidos por soldados sérvios na guerra suja da chamada "faxina étnica". Nem mesmo uma circunstância trágica como aquela fez o papa concordar com a prática do aborto. Ele, que criticou regimes políticos em nome da liberdade, também não aceita nem ouvir falar em movimentos que tenham por objetivo reformar a Igreja Católica por dentro - caso da Teologia da Libertação no Brasil. Se o legado político e eclesiástico de João Paulo II é posto em dúvida até dentro da Igreja, um aspecto de seu papado jamais foi questionado: sua magistral capacidade de conquistar multidões e quebrar barreiras. No comando da Igreja, Karol Wojtyla vem sendo capaz de reunir multidões desde o primeiro instante. Em 1978, quando foi nomeado papa, ele impressionou a milhares de pessoas presentes à cerimônia na Praça de São Pedro, em Roma, com uma frase dita em alto e bom som: "Não tenham medo". Nesses 25 anos de papado, a imagem de João Paulo II adquiriu uma universalidade superior a do próprio catolicismo. Ele bateu o recorde de canonizações e deu força ao ressurgimento do marianismo, o movimento de culto à Virgem Maria. Do alto de sua autoridade, o papa polonês também pediu perdão pelos erros cometidos pela Igreja Católica nos últimos séculos. Foram cerca de 100 desculpas em 25 anos de pontificado. Apesar disso, o catolicismo entrou numa encruzilhada em busca de novos rumos. Diante de tantas dificuldades em impor sua doutrina, a Igreja chega ao século XXI na mesma condição que atravessou o fim do século XIX, sob a égide de Leão XIII: procurando afirmar-se, em meio ao avanço da secularização, como uma instituição capaz de dar conta de questões morais e políticas que extrapolam o plano da fé. Aos olhos de João Paulo II, tradição e autoridade dogmática deveriam ser suficientes para a manutenção do seu rebanho. Mas, numa época que requer religiões moldáveis a valores em constante mutação, isso está longe de ser realidade. |
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