Reportagem de VEJA
A primeira advertência

Antes mesmo de desembarcar nas
Américas, João Paulo II avisou aos
bispos latino-americanos que não aprecia
a mistura de teologia com política

31 de janeiro de 1979

O Papa João Paulo II chegou à América - e chegou falando, com franqueza, o que acha certo e o que acha errado na vasta, conturbada Igreja do mais católico dos cinco continentes. Foi uma surpresa. Antes mesmo de desembarcar no início da tarde da última sexta-feira no México, onde abriria o encontro de cúpula da hierarquia católica da América Latina - a III Conferência Episcopal Latino-Americana -, o papa deixou claro que não estava vindo de Roma apenas para presidir cerimônias e desfilar em carros abertos. Nada disso: ele veio para mostrar aos pastores do rebanho de 300 milhões de católicos latino-americanos que, aos três meses de pontificado, tem algumas idéias bem definidas sobre como deve agir a Igreja do continente - e fez sentir sua mão forte, desde logo, sobre a mais delicada das questões da Celam.

"A Teologia da Libertação é uma teoria falsa", disse ele aos jornalistas, ainda a bordo do DC-10 da Alitalia que o levava de Roma para São Domingos, sua escala antes do México. "Se se começa a politizar a teologia, já não é mais teologia. Trata-se de uma doutrina social, um tipo de teologia, mas não de doutrina religiosa." Ao dar uma entrevista a VEJA, João Paulo II fez algumas nuanças nessa posição, e já não se mostrou tão duro. Mas o recado estava lá claro: o clero latino-americano não seria estimulado a desenvolver sua militância político-social, e a Teologia da Libertação não é tudo na vida. Na verdade, o simples fato de dirigir reparos aos que exigem uma politização crescente nas atitudes da Igreja causou surpresa - sobretudo para os setores do episcopado latino-americano que, mesmo antes do início da conferência, se viram assim em situação incômoda. Mas há de se ressalvar que esta foi apenas uma pista - a primeira e única pista deixada por João Paulo II antes de iniciar sua maratona por terras americanas. A bem da verdade, nos dois dias subseqüentes à sua chegada, não houve mais oportunidade para maiores considerações. Quase todo o tempo ele esteve cercado pelo júbilo popular.

De fato, João Paulo II encantaria a todos já em sua chegada a São Domingos, na quinta-feira. Assim que desceu a escada de seu avião, o papa ajoelhou-se e, imitando o gesto de Cristóvão Colombo ao chegar na América em 1492, beijou o solo dominicano. No dia seguinte, sexta-feira, o papa repetiria o gesto no Aeroporto Benito Juarez, no México - e, ao som de um bando de mariachis, travaria um rapidíssimo diálogo com o presidente mexicano José López Portillo. E assim, sem qualquer manifestação eloqüente de carinho ou servilismo - quase todo o povo mexicano é católico mas o Estado mexicano não reconhece a Igreja nem o Vaticano -, Portillo desincumbiu-se de sua missão e João Paulo II ficou livre para entregar-se ao entusiasmo do povo mexicano.

DIFICULDADES - Antes do triunfal desembarque na Cidade do México, no entanto, o papa e seus auxiliares mais diretos tiveram de lutar semanas a fio contra uma rede de dificuldades que a todo momento parecia ameaçar o pleno sucesso da viagem. O problema mais melindroso resultava sem dúvida do fato de que o Vaticano e o México não mantêm relações diplomáticas. Pior que isso, o governo mexicano nem reconhece o Vaticano como Estado. Assim, como arranjar um passaporte ou um documento qualquer que permitisse ao cidadão Karol Wojtyla cruzar a fronteira mexicana? Uma dificuldade puramente formal que acabou sendo resolvida. Mas ela serviu para mostrar ao papa, um homem sabidamente interessado em visitar os católicos de outros países, o quanto é complicado sair do Vaticano em viagens oficiais.

No caso do México, as barreiras são quase que só legais. Desde 1860, num período conhecido na história como a época da "reforma", estabeleceu-se constitucionalmente que o Estado mexicano não tem qualquer vínculo com a Igreja nem a reconhece como instituição jurídica. Ou seja: oficialmente, para o México, a religião não existe e a palavra "Deus" não pode ser citada em documento ou ato público. Daí decorrem conseqüências aparentemente inconciliáveis com os hábitos de uma das maiores nações católicas do mundo. Por exemplo, os padres estão proibidos de transitar pelas ruas de batina e de administrar escolas, no México um monopólio do Estado.

Mera manutenção de aparências, porém. O país está ocupado de norte a sul, de leste a oeste por escolas católicas, que os governantes fingem não ver. Apenas por tradição - implantada pelo legendário Benito Juarez há mais de um século - o rompimento do Estado com a Igreja no México continua sendo cotidianamente encenado pelos homens públicos.

NADA COMPROMETEDOR - Faz parte da tradição do homem público mexicano ostentar uma posição anticlerical e até soa vantajoso declarar-se ateu. Diante de tais imposições legais e sociais, entende-se por que o presidente José López Portillo se sentiu na obrigação de explicar ao país que não estaria incorrendo em deslize por cumprimentar o papa João Paulo II, um visitante ansiosamente aguardado pelos mexicanos.

"Não me esconderei para cumprimentar Juan Pablo", declarou firme o presidente, "porque não estarei fazendo nada de mal, nem comprometedor." Além do mais, como se sabe extra-oficialmente, a família do presidente - e da maioria dos homens de projeção no governo - é católica. E católicos são 61 dos 66 milhões de mexicanos.

O apego à fachada anti-religiosa é tamanho, como conta Waldir Dupont, correspondente de VEJA no México, que, dois meses antes do anúncio da visita, altos funcionários do governo já se debatiam com uma questão para eles da maior gravidade: onde hospedar o papa? Finalmente, decidiu-se por uma solução extremamente confortável para todos: durante as seis noites de sua estada no México, João Paulo II ficaria hospedado na sede da delegação apostólica que a Santa Sé mantém na capital mexicana - e, removido este último problema, pôde-se passar ao que realmente contava, ou seja, a festa de recepção.

Na semana passada, a grandiosidade da festa já se anunciava em alguns detalhes. Às vésperas da chegada de João Paulo II, por exemplo, as autoridades de trânsito calculavam que mais de trinta automóveis estavam entrando por minuto na Cidade do México, vindos de todos os cantos do país, muitos trazendo dependuradas bandeirinhas com as cores amarela e branca do Vaticano. Todas as bancas de jornais vendiam grandes posters coloridos do papa. E já se alugavam, antes da chegada do pontífice, lugares privilegiados para vê-lo passar. Os mais concorridos desses postos de observação situam-se em torno da basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, no bairro de La Villa. Ali, até os telhados das casas estão com sua lotação esgotada desde a semana passada. Os preços variam de 50 a 500 cruzeiros.

SEM TEMPO - Apesar de não tomar conhecimento oficial da visita, o governo mexicano adotou várias providências. Ao redor de João Paulo 11 estão vigilantes mais de 20.000 policiais, incluindo membros das polícias secreta e política. Toda vez que o papa sair, vinte helicópteros acompanharão o percurso do alto. "Na verdade, quem vai mesmo cuidar da segurança do papa é o povo mexicano", proclamava o responsável pelo aparato de segurança, o general Arturo Donato.

De todo modo, o programa de João Paulo II é tão intenso que haverá pouco tempo para atividades imprevistas ou mesmo para o simples repouso. Mal refeita da viagem que começou em Roma às 8 horas da manhã de quinta-feira, a comitiva começou a cumprir compromissos imediatamente após o desembarque no aeroporto mexicano, às 13 horas da sexta. A inauguração solene da III Conferência Episcopal Latino-Americana realizou-se no sábado, ainda na capital, durante missa celebrada ao meio-dia por João Paulo II, na basílica de Guadalupe. Só no domingo a delegação partiu para Puebla, a 150 quilômetros de distância, para o início dos trabalhos da conferência.

A partir desta segunda-feira, enquanto os bispos continuam reunidos em Puebla (eles ficarão em conferência até o dia 13 de fevereiro), João Paulo II estará circulando incessantemente por hospitais, escolas, seminários, bairros pobres, igrejas e outros locais - e isso em quatro cidades diferentes: a Cidade do México, Guadalajara, Oaxaca e Monterey. Às 14h30 desta quarta-feira, finalmente, ele retornará a Roma, depois de ser visto e ovacionado por milhões de mexicanos. Não se meça, porém, a importância da viagem apenas pela comoção dos católicos mexicanos ou, ainda menos, pelo rebuliço causado nas ruas por onde desfilou o cortejo papal.

Um dado de aferição mais ponderável é, por exemplo, a duração da estada no México - praticamente seis dias. Com efeito, jamais neste século um pontífice romano passou tanto tempo num só país. De qualquer forma, não se trata primordialmente de uma questão de número de dias, mas do que se faz durante esses dias. Para sua primeira aventura apostólica, João Paulo II preparou cerca de quarenta discursos, homilias, saudações. No conjunto, umas 40.000 palavras ou o equivalente a quatro encíclicas. Segundo analistas, a expedição ao continente americano, marcada por uma tal quantidade de pronunciamentos, dará finalmente oportunidade aos católicos de todo o mundo de conhecer em detalhes os pensamento do papa que os governa de Roma.

TOQUE CONSERVADOR - A quais questões o papa dará mais importância em seus discursos? Em suas 175 páginas, o documento de trabalho da conferência oferece um rol imenso de assuntos, desde a situação da mulher na sociedade até a ideologia, regimes de força, sacerdócio, sexo, problemas de doutrina e de pastoral, aos quais o papa poderá ou não recorrer. Nos dias que precederam a partida de Roma, religiosos interessados em dar mais ênfase à atual linha de militância política da Igreja receavam que o papa pudesse frear a linha de ativismo social firmada há dez anos, na II Conferência, em Medellín, na Colômbia. Alguns discursos e decisões recentes de João Paulo II, com efeito, fazem pensar que um toque conservador poderá marcar a atuação do papa. Por exemplo, ele congelou todos os pedidos de sacerdotes e religiosas para passarem ao estado leigo, enquanto nos últimos tempos Paulo VI vinha deferindo uma média de oitenta desses pedidos por mês. Também vem demonstrando vivo interesse em negociar com o dissidente francês Marcel Lefebvre. As duras advertências que lançou em sua entrevista a bordo do DC-10 a respeito da Teologia da Libertação seria outro indício nesse sentido?

Sem dúvida, João Paulo II abriu fogo pesado - bem mais pesado do que se esperava - contra a parte do clero que se entusiasma crescentemente com a militância na área social e, por conseqüência, política. É de se prever, portanto, que não pretende abrir mais espaço para este tipo de ação - ao contrário, parece interessado em limitá-lo. De toda maneira, é prudente levar em conta que os altos dignitários da Igreja sempre criam fórmulas capazes de manter juntos cabeças e corações diferentes. Um exemplo disso foi dado na quinta-feira pela heterogênea delegação de bispos brasileiros, ao desembarcar no aeroporto da Cidade do México. As esperanças de pronunciamentos candentes se frustraram: os bispos brasileiros repetiram as mesmas coisas, em declarações escrupulosamente cuidadosas.

PELA VIOLÊNCIA - O interesse dos jornalistas, nesse dia, acabou recaindo sobre o verbo eloqüente de outro passageiro que também desembarcava, o arcebispo de El Salvador, Oscar Arnulfo Romero, de 61 anos. Dizendo-se partidário do que chama de "violência justa, aquela que não seja maior do que o mal que quer eliminar", dom Romero afirmou que uma das missões básicas da Igreja "é denunciar a estrutura injusta e pecaminosa de nossos países, particularmente do meu, El Salvador". Por aí se vê que haverá acesos confrontos durante a reunião de Puebla. Espera-se que de um lado se alinhem grupos de bispos que, como dom Romero, acham que "Puebla não deverá ser um retrocesso em relação a Medellín". E, de outro, incentivados agora pelo severo recado antiesquerda disparado pelo papa, os que combatem a excessiva politização do clero católico.

Entre eles está o conservador cardeal Ernesto Corripio Ahumada, arcebispo primaz do México, para quem "os princípios básicos de Medellín foram desvirtuados por certos grupos". O cardeal Ahumada aproveitou a véspera da III Conferência para criticar aqueles que, segundo ele, "se apóiam em prédicas proféticas do Evangelho para incursionar em outros campos" - e, com efeito, é difícil compatibilizar a tese da "violência justa", defendida pelo cardeal Romero, com a expressa condenação de qualquer violência, feita pelo papa. Nesses casos, para quem quer continuar na Igreja, a solução é tratar de adequar-se ao pensamento do pontífice - o que pode não ser assim tão difícil. Na última quinta-feira, por exemplo, após uma reunião com vários bispos tidos como "ultraprogressistas", numa casa de família do bairro de Navarte, dom Helder Câmara falou rapidamente a Waldir Dupont, de VEJA, sobre suas expectativas. "Puebla confirmará e reforçará Medellín", previu. Mas, no mesmo instante, reafirmou seus melhores votos de fidelidade ao papa.

 

O que o papa espera de Puebla

Antes de embarcar no avião que levaria João Paulo II ao México, o correspondente de VEJA em Roma, Marco Antônio de Rezende, procurou um diplomata polonês. Queria saber como se diz, em polonês, a frase: "Ouça-me, Sua Santidade". Era previsto que o papa se aproximasse dos jornalistas, durante a viagem, e Rezende queria estar preparado para obter uma entrevista exclusiva. E a abordagem, feita na língua natal de João Paulo II, deu resultado. Em seguida, já com o gravador ligado e falando em francês, o enviado especial de VEJA, único jornalista brasileiro a bordo, solicitou respostas exclusivas. A entrevista é a que se segue:

VEJA - Que importância Sua Santidade atribui à Igreja brasileira, no conjunto da Igreja latino-americana?
JOÃO PAULO II - Ela ocupa uma posição excepcional, sem dúvida. Sobretudo como país, como território, o Brasil é um continente. É uma Igreja com 300 bispos! Tem, também, todos os problemas do desenvolvimento contemporâneo. Por conseguinte, o Brasil tem problemas sociais. Há enormes diferenças entre ricos - uma minoria como classe social - e pobres. São problemas a resolver. A resolver de uma maneira que eu diria humana, conservando a dignidade de cada um, observando o direito de cada um. São problemas difíceis, mas eu espero que a Igreja no Brasil, tão amplamente difundida por ser tão identificável com o povo, seja capaz de dar luz e contribuição para tal solução. Não uma solução violenta, mas uma solução de persuasão, de convicção, de opinião pública.

VEJA - Sua Santidade aprova, então, uma reflexão teológica a partir dessa realidade social e de todos esses problemas concretos da América Latina.
JOÃO PAULO II - Mas sem dúvida! Não pode ser de outra maneira. Foi o Concílio Vaticano II que nos abriu essa possibilidade, não?

VEJA - Como Sua Santidade recebe as críticas que se fazem a essa reflexão teológica e, sobretudo, à Teologia da Libertação?
JOÃO PAULO II - Você sabe, a Teologia da Libertação é uma teologia verdadeira, mas pode ser talvez uma falsa teologia. Se se começa a politizar a teologia, a aplicar sistemas ou meios de análise que não são cristãos, então não é mais teologia. Teologia da libertação sim, mas qual?

VEJA - Existe uma certa preocupação nos meios católicos sobre uma possível politização excessiva da conferência de Puebla. Sua Santidade se preocupa com isso?
JOÃO PAULO II - É bem possível... A vida é tão politizada... Acho que é exatamente por isso que há a tendência de se politizar todos os problemas, inclusive os de religião e os de moral. As tarefas da Igreja, porém, são muito mais claras.

VEJA - Sua Santidade espera encontrar dificuldades no México?
JOÃO PAULO II - Sim, haverá dificuldades, certamente. Trata-se de um outro continente, com outro passado, outras condições. Mas eu intuo um pouco qual é o mistério do México e quais são as dificuldades dos países latino-americanos do ponto de vista social e econômico, bem como as soluções, ainda que não tenha uma experiência direta no continente.

VEJA - De certa forma Sua Santidade está percorrendo de novo o caminho da conquista católica do continente. Por quê?
JOÃO PAULO II - Acho que aqui devemos aplicar os princípios da História. Muitas vezes nós fazemos um juízo da História, do passado, segundo nossos critérios. Depois, aplicando esses critérios, nós não vemos bastante bem que as mesmas coisas feias que se faziam no passado se fazem ainda hoje.

VEJA - Sua Santidade alude aos regimes militares americanos?
JOÃO PAULO II - Sim, sim, mas não é este o problema. No passado as coisas eram como eram - havia aspectos positivos, aspectos luminosos e outros negativos, de trevas. Mas isto é humano. Em resumo: o evangelho e a Igreja levaram à gente americana realmente uma boa nova. Esses povos se identificaram mais com o cristianismo. E se identificaram de modo muito profundo afetivamente. Não se deve desprezar o afeto, a sensibilidade, o emocional, o humano.

VEJA - Quais os frutos que Sua Santidade espera desta viagem?
JOÃO PAULO II - Eu acho que o fruto primário consiste na própria viagem, na aproximação, na presença. Assim se vive a realidade da Igreja Universal e este é o destino do papa: o de fazer viver o mistério e a realidade da Igreja Universal nos mais diversos ambientes. E o que eu percebo na vontade dos mexicanos e outros povos de querer o papa, de ter o papa entre eles, é uma prova de sua fé, de sua eclesiologia, que é justa.

 

Viajando no avião de João Paulo II

Desde a partida, nesta viagem do papa ao México, percebeu-se um novo estilo, praticamente o oposto do conhecido até agora. Da pompa vigente sob Paulo VI, a rigor, notaram-se não mais que vestígios quando o DC-10 "Dante Alighieri" da Alitalia decolou do Aeroporto de Fiumicino, em Roma, às 8 da manhã de quinta-feira passada: a banda dos carabinieri, o corpo diplomático perfilado e alguns corazzieri da República italiana em uniforme de gala. O avião, que nas viagens de Paulo VI era todo pintado com as cores do Vaticano, tinha apenas um selo com as armas pontifícias aplicado na porta dianteira. "Paulo VI viajava como um chefe de Estado. João Paulo II viaja como o bispo de Roma", disse a VEJA um veterano acompanhante de viagens papais.

Um comissário que funcionou a bordo em antigos vôos pontifícios lembra, também, que Paulo VI era muito distante: "Na viagem a Nova York, em 1965, ele foi até onde estavam os jornalistas. E estes ficaram quase petrificados diante dele, que cumprimentou um por um enquanto seu secretário distribuía medalhas de lembrança". E uma comissária lembra a última viagem de Paulo VI, em 1971, para as Filipinas: "Ele estava tão cansado que prosseguia à custa de injeções que seu médico lhe aplicava regularmente". Agora, com o comunicativo e robusto João Paulo II, tudo correu diferente.

80 MINUTOS - A bordo, o papa ocupou um compartimento logo após a cabina de pilotagem, onde se montaram duas poltronas do lado esquerdo - para ele e para seu secretário particular, dom Stanislao Dziwisz - e mais quatro poltronas em torno de uma mesa dobrável. Num compartimento seguinte alojaram-se os vinte membros da comitiva oficial. Por fim, ocupando o terço posterior do avião, estavam 62 jornalistas (31 repórteres e 31 fotógrafos) de vários países, separados da comitiva por quatro guardas suíços à paisana. Tal precaução desmoronou, porém, em minutos. Assim que se apagou o sinal de "apertar cintos", quando o jato começava a sobrevoar o Mediterrâneo, João Paulo II apareceu na cabina dos jornalistas.

Alguns haviam tirado o paletó e afrouxado a gravata, outros procuravam dormir (a apresentação no aeroporto foi às 6 da manhã) e outros, ainda, serviam-se do café da manhã que as comissárias distribuíam. Todos se recompuseram, às pressas, e seguiram-se 80 minutos de conversação com o papa. A um repórter do canal 2 da televisão italiana, dirigida pelos socialistas, que se apresentou como representante do "canal leigo" (em contraposição ao canal 1, dirigido pela democracia-cristã), João Paulo II observou: "Você é leigo, mas eu sou religioso. E agora?" Quando lhe mostraram, pela janela, os Pireneus cobertos de neve, ele se inclinou: "Hum, ótimo para esquiar".

Ao final das dezenas de perguntas e respostas, o papa despediu-se, não sem antes arrematar, olhando para o relógio: "Uma hora e 20 de entrevista. Vocês deveriam me pagar por isso". De volta a seu compartimento, ele passou a maior parte do tempo trabalhando, com o substituto da Secretaria de Estado, monsenhor Caprio, ou com o secretário particular. Não assistiu ao filme (embora estivesse também à sua disposição) "The Goodbye Girl" nem usou os fones de ouvido (também à disposição de todos os passageiros), nos quais poderia escolher entre a ópera "Nabucco", de Verdi, ou seleções de jazz e rock.

SOUVENIRS - No almoço, Sua Santidade serviu-se apenas de parte do nutrido cardápio oferecido: medalhões de lagostas, e presunto cru, de entrada, e lombo de vitela ao vinho Frascati com alcachofra e legumes, tudo regado a vinhos italianos (branco: Pinot Grigio 1977; tintos: Brunello di Montalcino 1971 e Barolo Marchesi di Barolo 1971) e champanha francês. Uma pequena concessão às tentações da mesa foi cometida na sobremesa: uma torta polonesa, feita de creme de castanha. Depois, o papa repousou por 10 minutos, reclinando a poltrona mas sem utilizar a máscara escura posta ao lado. Retomou, então, o trabalho com seus auxiliares até o desembarque na República Dominicana.

Na manhã de sexta-feira, ao iniciar a segunda etapa de sua viagem, João Paulo II não aparentava desgastes fisicos, apesar da veste branca estar um tanto amarrotada. Entre os membros da comitiva, porém, quase ninguém conservava a forma de 24 horas antes. Agora, ao contrário do inverno romano, enfrentava-se o tórrido sol do caribe. E um atraso de quase meia hora, na partida, afetou até monsenhor Paul Marcinkus, o gigantesco bispo americano que preside o Banco do Vaticano e que, nas viagens pontificias, faz as vezes de guarda-costas. Completamente banhado de suor, ao lado do presidente Antonio Guzman e do corpo diplomático, monsenhor Mareinkus implorava por uma toalha.

Durante o vôo de quatro horas e meia entre São Domingos e a Cidade do México, João Paulo II não confraternizou com os jornalistas. Seu almoço, diferente dos demais passageiros, foi um típico peixe mexicano - "Blanco de Patzcuaro" - seguido de "Carne a la Tampiqueña" e "Frijoles refritos" (um tutu de feijão). Os alto-falantes de bordo, mudos na primeira etapa da viagem, agora funcionaram para que a chefe de cabina desse as boas-vindas a Su Santidad e comitiva. Do vôo da Alitalia, todos os passageiros guardaram uma finíssima caneta com a data de 25 de janeiro gravada no prendedor. Do vôo da Aeroméxico, o souvenir foi uma fita cassete com uma orquestra de mariachis acompanhando uma cantora que louva, em ritmo de bolero, a ascensão de João Paulo II ao trono de São Pe~ dro. Terminava, assim, uma viagem dura, longa, à qual se seguiria o intenso programa papal em Puebla - e, depois, mais um comprido vôo de retorno. Mas nada disso, pelo menos na ida, parecia impressionar João Paulo II. Agora, é ver como ele se portará na volta.

   
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