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Na entrada do novo milênio, a Igreja enfrentou uma de suas maiores crises em tempos modernos: o escândalo dos padres pedófilos. Em 2002, as denúncias contra sacerdotes americanos foram um golpe para o catolicismo. A instituição que tem como tradição tratar com discrição as denúncias de abusos sexuais em suas fileiras, desta vez, teve de agir diferente para proteger sua imagem. O pivô do escândalo foi Bernard Law, cardeal de Boston. Ele já foi o favorito do papa entre os prelados americanos. Hoje é o símbolo do que há de errado com eles. Em janeiro de 2002, quando um certo padre John Geoghan foi levado a julgamento, tornou-se público que o cardeal de Boston o tinha transferido de uma paróquia para outra, sempre que ele se envolvia em novo caso de pedofilia. Geoghan, acusado de estuprar mais de 130 crianças em trinta anos, foi sentenciado a dez anos de cadeia pelo crime de ter abusado de um menino de 10 anos. Ele ainda responde a processo por assalto indecente e agressão a outro garoto, em 1990. O cardeal Law teve de admitir que a arquidiocese havia torrado 10 milhões de dólares em acordos extrajudiciais com outras vítimas de Geoghan. Para aplacar o clamor público, Law entregou uma lista de setenta padres de sua diocese acusados nos últimos quarenta anos de abusos sexuais contra meninos. Foi quando o país acordou para o drama da pedofilia na sacristia, gerando uma onda de indignação que ameaça tragar a Igreja Católica nos Estados Unidos. A importância avassaladora da questão pôde ser dimensionada pela convocação, por parte do papa João Paulo II de uma reunião de emergência com todos os cardeais americanos, a primeira em uma década. Mas, no final, a atitude não foi dura o bastante. A cúpula da Igreja Católica americana decide expulsar apenas os pedófilos contumazes. As acusações de padres pedófilos têm-se espalhado por todos os países, não é um caso isolado dos EUA. Talvez ocorra até numa taxa superior à dos americanos em países mais relaxados em matéria de moral e de investigação policial e judiciária. Nem na terra natal do papa, a Polônia, a Igreja escapou. O arcebispo de Poznan, Juliusz Paetz, renunciou na Páscoa após denúncias de que teria molestado jovens seminaristas anos atrás. Paetz era amigo de João Paulo II. Em países como França e Inglaterra, dezenas de padres acusados de molestar meninos estão cumprindo pena atrás das grades. Há pilhas de processos contra a Igreja na Irlanda, na Austrália e no Canadá. Só a Igreja irlandesa gastou 110 milhões de dólares em indenizações. A crise veio mostrar a vulnerabilidade da Igreja, que ainda se prende ao conservadorismo moral e a rigidez doutrinária. Para os teólogos, o estrago foi tão grande que dentro da cúpula católica existe quase uma unanimidade sobre a necessidade de mudanças. |
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