especial

Reportagem publicada em 20/05/1992

Raio X na renda

As exóticas declarações de PC Farias ao Fisco
vê a público e Pedro Collor intensifica seus
ataques ao irmão do presidente

Nos gabinetes políticos de Brasília, nas salas acarpetadas das sedes de grandes empresas, nas rodas de fofocas de restaurantes da moda e nos telefonemas da família mais em evidência do país, o assunto obrigatório da semana passada foi a briga provinciana entre dois empresários de Alagoas. Que os círculos do poder tenham parado para discutir essa disputa ridícula tem algo de espantoso. Afinal, de um lado da contenda está o proprietário de um jornal, Gazeta de Alagoas, cuja tiragem é de 10 000 exemplares diários. Do outro, um empresário que quer lançar diariamente 4 000 exemplares de um outro jornal, a Tribuna de Alagoas. o primeiro homem de negócios é Pedro Collor, 39 anos, o irmão caçula do presidente da República, e o segundo é Paulo César Cavalcante Farias, o PC, 46 anos, que centralizou a caixa da campanha eleitoral de Collor e teve um poder imenso no primeiro ano do governo. 0 destaque do nome de ambos ajuda a explicar por que a briga é acompanhada com tanto interesse. Mas ela não é suficiente para deixar esclarecer por que Pedro Collor vem atacando PC com tanta virulência. O fundo da questão é outro: Pedro Collor não está mirando em PC Farias. Seu alvo é o irmão, o presidente.

“Não me importa o que o presidente está achando de meu comportamento. Fernando gosta das pessoas que se curvam a ele, e eu nunca me submeti nem a meu pai. Não vou me submeter a uma pessoa cuja vida conheço muito bem e não respeito”, disse Pedro Collor a Luis Costa Pinto, de VEJA, com quem o irmão do presidente conversou durante cinco horas na semana passada. As atitudes e palavras de Pedro provocaram uma súbita mobilização do clã Collor de Mello para recuperar a ovelha desgarrada. No domingo dia 10, quando Leda Collor, a mãe dos irmãos em litígio, deparou com a reportagem de VEJA a respeito do capítulo internacional do Dossiê Pedro Collor contra PC, chamou o seu caçula ao apartamento onde vive, no Rio de Janeiro. A intenção não era comemorar o Dia das Mães. "Meu filho, eu sei que você tem uma bomba nas mãos. Estou assustadíssima. Não dá para aliviar um pouco?", pediu Leda a Pedro Collor. A resposta foi cheia de ódio: "Só vou parar quando colocar PC na cadeia, quando acabar com a vida dele". Na noite do mesmo domingo, a irmã de Pedro, Leda, casada com o embaixador Marcos Coimbra, secretário de Collor, telefonou para o caçula num hotel em São Conrado e lhe passou uma longa descompostura.

Caim e Abel - Na terça-feira, Leopoldo Collor, o irmão mais velho, deu um telefonema apaziguador. "Pedro, o PC vai acabar te processando por falsidade ideológica. Pensa um pouco, sai do circuito", pediu. Pedro Collor não quis contemporizar. "Não saio do circuito porcaria nenhuma", respondeu. "Quero mais é que ele me processe, porque aí estarei na frente de um tribunal para falar o que bem sei e incendiar o circo. Você sabe muito bem que eu posso tocar fogo em tudo, Leopoldo." Na quinta-feira à noite, segundo Pedro Collor, Leopoldo serviu de intermediário do presidente para uma nova tentativa de se acalmar os ânimos. O irmão mais velho telefonou ao caçula e disse que o irmão do meio queria conversar com Pedro Collor no Palácio do Planalto. "Respondi a Leopoldo que só iria falar com Fernando no Palácio depois que PC estivesse atrás das grades", conta Pedro. Desde que Caim teve aquela desavença letal com Abel, briga entre irmãos é um espetáculo lamentável de se acompanhar. Quando um dos irmãos é o presidente de um país com tantas dificuldades políticas e econômicas como o Brasil, a briga adquire um caráter de irresponsabilidade temerária.

O dossiê contra PC, informa Pedro Collor, está materializado numa fita de videocassete, guardada no cofre de um banco em Nova York. Segundo Pedro Collor, se vier a morrer subitamente, os depositários do dossiê em Nova York estão instruídos a remeter a fita para os principais órgãos de imprensa brasileiros. Na fita, o irmão do presidente discorre na frente da câmara sobre os negócios de PC Farias e fala de Fernando Collor. Na primeira parte, o tema são os negócios internacionais de PC. Na segunda, os nacionais. No terço final da fita Pedro Collor se estende a respeito de questões pessoais e familiares. “Para o bem do Brasil, acho bom Pedro Collor fazer um tratamento da sua esquizofrenia, que nos últimos dias vem se agravando", diz o deputado Augusto Farias, irmão de PC. "Não estou louco", rebate Pedro Collor. "Estou sendo muito disciplinado na forma como venho divulgando os fatos." O cronograma de Pedro Collor avançou mais um passo na quinta-feira passada, quando ele expôs a segunda parte de seu dossiê a VEJA - aquela referente à corrupção, tráfico de influência e extorsão de PC Farias em território brasileiro. Ao contrário do capítulo sobre as maracutaias internacionais de PC, Pedro Collor não apresentou um mísero documento para comprovar suas acusações. E que acusações:

- PC embolsou 15 milhões dos 100 milhões de dólares que arrecadou na campanha para a eleição de Cofior.

Como prêmio por ter conseguido que o Instituto Brasileiro de Formulários ganhasse a concorrência para a impressão dos cartões da raspadinha federal, PC estaria recebendo 3,3 bilhões de cruzeiros por mês da empresa desde o final de 1990. Por ter resolvido o problema da dívida dos usineiros alagoarios com o Midland Bank, da Inglaterra, PC também estaria ganhando 1 milhão de dólares por mês. O deputado Clero Falcão levava a mala, mas quem colocou os dólares que corromperam os deputados da Assembléia Legislativa de Alagoas, para aprovar as contas do governador Fernando Collor em 1989, foi Paulo César Farias. Depois da eleição de Collor, quando o presidente eleito estava nas Ilhas Seychelles, PC começou a extorquir empresários, argumentando que ainda havia dívidas de campanha. PC teve um papel fundamental na fraude que levou Geraldo Bulhões a vencer as eleições para governador de Alagoas, em 1990, derrotando Renan Calheíros. PC Farias presenteou Zélia Cardoso de Mello com um colar de pérolas e vestidos finos para fazer com que ela atendesse seus pleitos no Ministério da Economia.

Numa conversa com Mário Rosa e Mário Sergio Conti, de VEJA, que se estendeu por seis horas na noite de quinta-feira passada, num bonito apartamento carioca com vista para o Pão de Açúcar e o Corcovado, PC Farias rebateu ponto por ponto as novas denúncias de Pedro Collor. A declaração de princípios de PC sobre o affaire do dossiê é o oposto exato da de Pedro Collor. "Não quero tocar fogo no circo”, diz. "Quem tinha vocação de incendiário era Nero, que era louco." No plano pessoal, apesar dos maus bocados que vem passando, PC ainda se mostra ­otimista. "Minha filha, a Ingrid, chorou, quando viu naquele programa Aqui Agora que a festa de seu aniversário de 12 anos tinha sido regada a champanhe francês. Isso é uma indignidade. Mas no final de tudo isso, vou ter passado um atestado público de honestidade. Vai acabar essa história de que se choveu canivete no Piauí a culpa é do PC.” No plano político, Paulo César Farias está preocupado. “0 maior risco com esse tipo de denúncia é institucional. Como é que o país pode ser abalado por um sujeito que é louco? Pedro Collor é um insano, chantagista e irresponsável. É um herdeiro incompetente. Se não fosse irmão do presidente, não era nada."

Na semana passada, os fatos saíram do âmbito alagoano-familiar e adquiriram um peso institucional. Na reunião das 9 horas de segunda-feira, quando o presidente Collor reúne-se com os ministros que formam o núcleo do governo, tocou-se no assunto. Jorge Bornhausen, ministro da Secretaria de Governo, alertou para a possibilidade de convocação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Dossiê Pedro Collor. "Para abrir uma CPI é preciso apenas um terço do Congresso, o que é relativamente fácil de se conseguir”, disse Bornhausen. Na quarta-feira, o deputado José Dirceu, do PT paulista, conseguiu a convocação do secretário da Fazenda Nacional, Luiz Fernando Wellisch, para prestar um depoimento na Câmara nesta quinta-feira. Wellisch, por ordem do ministro Marcílio Marques Morem vem investigando há mais de quarenta dias as declarações de renda e o patrimônio de PC Farias. Na sexta-feira, outros três fatos se precipitaram. Primeiro, PC Farias divulgou o seu pedido para que a Receita Federal investigue suas últimas declarações de renda. Depois, o procurador-geral da República em exercício, Moacir Antonio Machado da Silva, enviou um oficio de seis linhas a Pedro Collor e, em anexo, a reportagem da edição passada de VEJA sobre o dossíê anti-PC. O procurador solicita "a apresentação do dossiê, para o devido exame e eventuais providências". Pedro Collor recebeu o ofício com satisfação. "Vou passar o dossiê ao procurador, e já nesta segunda-feira vou marcar a data de entrega e o meu depoimento", diz Pedro. Por fim, o deputado José Dirceu recebeu no seu escritório em São Paulo documentos que lhe foram encaminhados anonimamente.

Um Bugre e um Landau- José Dirceu analisou as 214 páginas da papelada, separadas em 24 blocos grampeados. Ficou impressionado a ponto, de horas depois, disparar três ofícios via fax. Um para o presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro, outro para o presidente da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, deputado Francisco Dornelles, e um terceiro para a Procuradoria Geral da República. Nos ofícios ele comunica o achado, anexa fartos exemplos dos documentos e pede providências. Os documentos recebidos pelo deputado são as declarações de renda de PC de 1987 a 1991. Além da pessoa física, há cinco declarações de pessoas jurídicas, de empresas de PC. "As declarações de renda de Paulo César Farias não são compatíveis com seu padrão de vida e com o volume de seus negócios", diz José Dirceu. "Acho que esse assunto deve ser analisado com documentos, e não com base em denúncias sem comprovação."

Pelas declarações de renda encaminhadas por PC ao Fisco fica-se sabendo que desde 1986 ele é o feliz proprietário de um carro Bugre e que em 1988 comprou um Ford Landau, que manteve pelo menos até 1990. Em compensação, o seu IR não registra que tenha casa própria em Maceió, onde mora. Em Maceió, ele é dono de um terço de uma ilha na Lagoa Mundaú e de um terreno em Guaxuma. Em São Paulo, tem um apartamento em um condomínio privado no bairro chique de Cidade Jardim. Entre suas empresas figuram a Tratoral (de tratores), a Florag (de reflorestamento e agropecuária), a EPC (de participações e construções), a Honor (de hotéis), a Brasil Jet (de táxis aéreos) e também a Rio Tejo (incorporadora, hoje fechada). Pelas declarações de PC ao Leão, ele não tem nenhuma empresa ou conta no exterior.

A pedido de VEJA, as declarações de PC Farias foram analisadas em São Paulo por um técnico da empresa de consultoria Arthur Andersen, um ex- fiscal da Receita que hoje é sócio de uma empresa especializada em imposto de renda de empresas e por um funcionário graduado da Secretaria da Fazenda de São Paulo. Ao saber que as declarações eram do famoso Paulo César Cavalcante Farias, os três técnicos tiveram uma reação semelhante: quase caíram da cadeira. "Essa declaração é de alguém que se considera acima da lei, é óbvio que PC Farias leva uma vida clandestina", diz o auditor da Arthur Andersen. "Essas declarações não resistem a uma peritagem séria de uma semana, um Eliot Ness pegaria esse Al Capone”, afirma -o ex-fiscal da Receita. “Estamos diante de um empresário de renda modesta, patrimônio declarado médio e vida real inexplicada pelos documentos", avalia o funcionário da Secretaria da Fazenda paulista.

O consultor da Arthur Andersen nota que PC Farias é um homem de posses que, estranhamente, vive com uma renda igual à de uma secretária executiva e provavelmente menor que o salário de um piloto da Brasil Jet, a sua empresa de táxi aéreo. Na declaração de 1991, referente ao ano-base de 1990, teve uma renda mensal equivalente a 2 100 dólares, ou 5,5 milhões de cruzeiros. Mas como teve despesas com o financiamento de seu apartamento em São Paulo, sua renda baixou para pouco mais de 1000 dólares ao mês. Sua mulher, Elina, ajudou nas despesas com outros 1 200 dólares. Talvez por ganhar pouco, os dois dependentes de PC, os filhos Paulo Augusto e Ingrid, não tiveram gastos com escola, dentista ou médico. PC também não pagou empregadas domésticas, telefone e teve de morar numa casa que não é sua - a enorme mansão onde vive desde março de 1990, por coincidência data da posse de Collor, e permanentemente guardada por seguranças armados de espingardas. Não consta na declaração que os seguranças tenham sido pagos pelo empresário. Tampouco que pague aluguel.

Penúria - Nas declarações dos anos anteriores, constam pequenas despesas médicas e de colégio, mas PC continuava ganhando menos que seus pilotos. Em 1989, teve uma renda mensal média de 1400 dólares, e Elma contribuiu com apenas 570 dólares. Em 1988, sua renda mensal foi de 2 700 dólares, e a mulher ajudou com menos de 150 dólares. Em 1986, PC rondou a penúria: ganhou 1 000 dólares por mês. A renda, baixa para sustentar os dependentes, é corroída pelas despesas do empresário. Ele paga IPTU de seus três imóveis e o terço IPVA do Bugre e do Landau. O apartamento em São Pauto lhe consome todos os meses 500 000 cruzeiros de condomínio, 10% de sua renda. É curioso que, com esses parcos rendimentos, PC prefira deixar o apartamento desocupado a alugá-lo por 1,3 milhão de cruzeiros, o valor de mercado. "O seu Paulo César não aparece aqui desde a campanha do Collor para presidente", diz um funcionáno do condomínio Privé. Há uma explicação para esse descompasso entre a renda baixa e o padrão de vida de PC. Como uma parte considerável do empresariado brasileiro, Paulo César Farias faz com que suas pessoas jurídicas paguem a conta da pessoa física. O colégio das crianças é pago por uma empresa, a conta nos restaurantes por outra, as viagens ao exterior por uma terceira, outra banca a gasolina, os carros de verdade estão em nome de uma quarta companhia, as empregadas domésticas entram na folha de pagamento em alguma outra, e o mesmo com os seguranças que o protegem.

Mágica - 0 estranho é que as empresas de PC Farias não vão muito bem das pernas, à exceção da Tratoral, conforme a avaliação do ex-fiscal da Receita feita a Joaquim de Carvalho, de VEJA. Cinco empresas funcionam na Rua Durval de Goes Monteiro, em Maceió. Em 1987 e 1988, ele declarou que teve prejuízo de 8 000 dólares com a Rio Tejo. Em 1989, fechou a empresa, com um prejuízo acumulado de 13 500 dólares. Desde julho de 1986, PC é dono da Honor, Hotéis do Nordeste Ltda. Até 1990, ano-base da última declaração obtida por José Dirceu, o hotel não teve receita. "A Honor nunca saiu do papel, ou seja, existe mas não tem vida ativa", explica Paulo Jacinto Oliveira Nascimento, 42 anos, cuja banca de advocacia assessora as empresas de PC. "Paulo César pensou em construir hotéis mas nunca levou o projeto adiante. Outra empresa, a Florag, de reflorestamento e pecuária, não funcionou em 1986. Em 1987, continuou inativa. Em 1988, nada. Em 1989, num espasmo. teve um lucro de 156 000 dólares. A EPC. de Participações e Construções, também teve trajetória curiosa. Ela existe desde outubro de 1986, e não teve receita no primeiro ano de atividade. Em 1987, teve um lucro de 3 800 dólares. No ano seguinte, o lucro da EPC foi de 6 500 dólares. Em 1989. seu lucro subiu espantosamente para 680 000 dólares. Segundo Paulo Jacinto, a EPC atua somente na área de consultoria a usineiros. "A EPC cuida da alavancagem de recursos: ninguém tem dinheiro e a empresa se encarrega de conseguir verbas junto a órgãos públicos", explica o advogado. "É o próprio PC que dirige a EPC." Em outras palavras, PC faz lobby e consegue verbas públicas para usineiros.

Depois de ter estado em concordata em 1983 e 1984, a empresa mais sólida de PC, pelas declarações, é a Tratoral, que vende uma média de seis tratores por mês a usineiros e teve um lucro de 346 000 dólares em 1989. PC tem 98% das ações da empresa, 1,5% estão com sua mulher e 0,5% com seu irmão Augusto. Ainda assim, há um dado estranho na declaração da Tratoral. As despesas operacionais não especificadas correspondem a 40% de todas as despesas da empresa. Pode ser nessas despesas não especificadas que coloque alguns de seus gastos como pessoa física, o que é irregular.

O ex-fiscal da Receita e o funcionário da Secretaria da Fazenda captaram um fato absolutamente inexplicável na constituição da Brasil Jet. Pelo contrato social da empresa de táxi aéreo, ele constituiu a empresa em 1988 e ficou com 80% das cotas da empresa por 12 223 368 cruzados - o equivalente a 178 000 dólares. As cotas restantes ficaram com sua mulher, Elma. O que chama a atenção é que essas cotas, na prática, não lhe custaram um centavo. No mesmo ano em que formou a Brasil Jet, ele tomou um empréstimo da empresa pelo mesmo valor de compra. Vale dizer: ele tomou dinheiro emprestado da empresa que estava montando, e da qual era o sócio majoritário. É uma mágica. Nas declarações referentes a 1988 e 1989, a dívida com a Brasil Jet é reconhecida, embora sem correção monetária. Na declaração de 1991, opera-se uma outra mágica: a dívida desaparece e a Brasil Jet se incorpora ao patrimônio de PC Farias. “É óbvio que PC está esquentando a Brasil Jet, dando-lhe uma aparência de negócio normal, apesar da sua origem mais que suspeita”, diz o ex-fiscal da Receita.

Lembrando dos seus tempos de fiscal, esse técnico considera que poderia fazer PC responder a vários processos da Receita. Ele iria nas contas bancárias das empresas, averiguaria o trânsito do dinheiro, analisaria os balanços e, com autorização do superintendente da Receita Federal, faria uma devassa nos livros das companhias de PC Farias. Como esse especialista trabalha hoje ajudando empresas a resolverem seus problemas com o Fisco, ele que PC Farias deveria retificar alguns itens de suas declarações dos últimos anos. Com isso, ele reconheceria erros e pagaria multas. Em contrapartida, evitaria uma devassa que, dada a notoriedade de PC, se transformaria num espetáculo que provocaria o deleite de Pedro Collor.

Suspeita - Depois da análise técnica, os três especialistas consultados pela revista levantam duas questões de fundo. Primeiro, aquilo que os americanos chamam de sinais exteriores de riqueza: o estilo de vida de Paulo César Farias não se coaduna com sua renda, com seu patrimônio e com o volume de negócios de suas empresas, tais como expostos nas suas declarações de renda. Só isso bastaria, nos Estados Unidos, para que suas contas fossem submetidas a uma análise minuciosa. ‘No Brasil, infelizmente, não há essa tradição de se analisar a fundo os casos de sonegação", lamenta o ex-fiscal da Receita. “É apenas mais um sonegador." A segunda questão, que salta aos olhos, é não haver nas declarações nenhum negocio de PC no exterior até o ano-base de 1990. E o Dossiê Pedro Collor está repleto ramificações de Farias na Europa, Estados Unidos e paraísos fiscais.

Na arena internacional, PC Farias encerrou a semana com um ponto a favor e um contra. PC ganhou em Miami, onde havia um registro de uma procuração para o cubano-americano Andrés Giulio Gómez-Mena fechar uma conta da empresa Dupont investiment no Citibank International e transferir o saldo para um banco na Suíça. PC sustentou que a assinatura em falsa e, agora, não há dúvidas de que, do ponto de vista da legislação americana, ocorreu algo de muito suspeito. Ao contrário do que acontece no Brasil, não existem cartórios para o reconhecimento de firma nos Estados Unidos, mas apenas notários autorizados pelo governo a reconhecer a autenticidade de uma assinatura - desde que ela seja feita na presença do assinante.

Na quinta-feira passada, a notária Patrícia Narino, que reconheceu a firma no documento enviado ao Citibank, admitiu a Flavia Sekles, de VEJA, que apenas Gómez-Mena esteve em seu escritório, o que faz da procuração um documento tão autêntico como um dólar fabricado no Paraguai. A notária explica a falha dizendo que conhece bem Gómez-Mena, e que "já reconheci firma em vários documentos dele". PC Farias chegou a fazer um levantamento em sua papelada financeira para saber se, por acaso, não poderia ter se esquecido de que assinara o documento. Descobriu que nem sequer estava nos Estados Unidos na ocasião. E partiu para o contra-ataque. "Conheço o Gómez-Mena”, diz ele. “E sei que ele trabalha como consultor do Pedro Collor." O único documento apresentado pelo irmão do presidente do qual constava uma assinatura de PC não é referendado nem pela notária que o autenticou. Permanece, no entanto, um mistério: a assinatura que está nesse documento, segundo a análise técnica do perito Celso Del Picchia, é mesmo de PC.

Bode - O contragolpe contra PC fora do Brasil ocorreu em Paris. Descobriram-se duas novidades sobre a S.C.1. Financière Albert ler, empresa de Guy des Longchamps, cidadão francês que os próprios familiares descrevem corno empregado de PC Farias. A sede da S.C.I., descrita em seus estatutos como uma empresa com um modesto capital de 180 dólares, "zero funcionários" e com "zero estabelecimentos", funciona num apartamento de três quartos e um amplo salão, adquirido do empresário brasileiro Antonio José de AImeida Carneiro, presidente do Banco Multiplic e conhecido no mercado financeiro do Rio pelo apelido de "Bode". Depois de ficar três anos com o imóvel, cuja compra fora financiada pelo Lloyds Bank, de Londres, o empresário resolveu colocá-lo à venda, e o mesmo banco se encarregou de fazer o negócio. O Bode jura que não sabia que o comprador seria um brasileiro e "muito menos o PC". Ele garante que nunca viu o tesoureiro de Collor na vida. Dois tubarões da bolsa de valores carioca garantem que o Bode sabia muito bem que estava vendendo o apartamento para PC.

O contrato de fundação da S.C.1. contém outros esclarecimentos. Informa que Guy des Longchamps é proprietário de 1 % das cotas da empresa, e que as demais 99% pertencem a Ironildes Teixeira, um brasileiro com residência em Miami, onde dirige uma empresa chamada Miami Leasing, especialista numa das mais conhecidas atividades de PC Farias -aviões. Corretor de jatinhos, Ironildes já fez pelo menos um negócio com ÊIC FIwias, envolvendo um avião de origem alemã com prefixo americano. Os papéis da S.C.1. informam que a empresa foi constituída em 18 de junho do ano passado: No passaporte CD 050 144, que pertence a Wanya Guerreiro, conhecida acompanhante de PC Farias em viagens internacionais, e que recentemente participou de uma rápida aventura com o arquiinimigo Pedro Collor, consta o carimbo de uma entrada na França em 19 de junho. "Nós adorávamos Paris", diz ela. Segundo Wanya Guerreiro, PC Farias chegou à capital francesa 24 horas depois da fundação da S.C.I. Que coincidência.

Entre um Pedro Collor que quer colocar PC na cadeia e um PC que quer sair com um atestado de idoneidade moral do episódio está o presidente Collor. O resultado dessa celeuma ainda é incerto, dado o ziguezague aloprado com que Pedro Collor costuma se movimentar. Para o país, no entanto, há pelo menos uma lição a se tirar do episódio: a de que o levantamento de fundos para as campanhas eleitorais transformou-se num terreno minado cujas bombas continuam a explodir anos depois de contados os votos. O país inteiro sabe que PC foi o caixa da campanha de Collor. Pedro diz que 100 milhões de dólares passaram pelas mãos do empresário alagoano, doados por empreiteiros, banqueiros, comerciantes, a fina flor da elite, e que PC embolsou 15 milhões. PC Farias acha que a cifra está em tomo de 65 milhões de dólares, e que ele não roubou nada, apenas os dividiu para pagar faixas, camisetas, programas de horário gratuito na televisão. Mesmo assim, PC se diverte com uma frase do revolucionário russo Leon Trotsky: "Aquele que tem algo a dividir nunca se esquece de si mesmo". A sério, ele argumenta que as contas da campanha de Collor foram aprovadas pela Justiça Eleitoral.

Passada a campanha, entra uma característica que é responsabilidade do presidente Collor: PC teve um poder enorme no primeiro ano de governo. "Indiquei meu irmão Augusto Farias para trabalhar no Ministério da Saúde, o Lafaiete Coutinho para a Caixa Econômica, o Luiz Quattroni para presidente do IRB, a estatal de resseguros", diz PC. "Mas todos eles tinham qualificação técnica para os quadros. À exceção de Lafaiete, que foi promovido para a presidência do Banco do Brasil, todos os indicados por PC caíram. Assim como foram derrubados, em meio a escândalos, todos os ministros com quem PC falava ao telefone ou pessoalmente várias vezes por semana. O governo mudou, mas a sujeira da campanha, produto de uma legislação eleitoral anacrônica, continua a produzir mau cheiro - desta vez na forma de uma quizumba alagoana. Na semana passada o mineiro Marcos Coimbra, cunhado de Fernando e Pedro Collor e contraparente dos Malta de Canapi, lembrava com um amigo uma frase do escritor alagoano Graciliano Ramos. O autor de Vidas Secas olhava para um mapa do Brasil, apontava para o Estado de Alagoas e dizia: “Eis aqui um bom lugar para se fazer um golfo”.

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