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Reportagem
publicada em 20/05/1992
Raio
X na renda
As
exóticas declarações de PC Farias ao Fisco
vê a público e Pedro Collor intensifica seus
ataques ao irmão do presidente
Nos
gabinetes políticos de Brasília, nas salas acarpetadas
das sedes de grandes empresas, nas rodas de fofocas de restaurantes
da moda e nos telefonemas da família mais em evidência
do país, o assunto obrigatório da semana passada foi
a briga provinciana entre dois empresários de Alagoas. Que
os círculos do poder tenham parado para discutir essa disputa
ridícula tem algo de espantoso. Afinal, de um lado da contenda
está o proprietário de um jornal, Gazeta de Alagoas,
cuja tiragem é de 10 000 exemplares diários. Do outro,
um empresário que quer lançar diariamente 4 000 exemplares
de um outro jornal, a Tribuna de Alagoas. o primeiro homem de negócios
é Pedro Collor, 39 anos, o irmão caçula do
presidente da República, e o segundo é Paulo César
Cavalcante Farias, o PC, 46 anos, que centralizou a caixa da campanha
eleitoral de Collor e teve um poder imenso no primeiro ano do governo.
0 destaque do nome de ambos ajuda a explicar por que a briga é
acompanhada com tanto interesse. Mas ela não é suficiente
para deixar esclarecer por que Pedro Collor vem atacando PC com
tanta virulência. O fundo da questão é outro:
Pedro Collor não está mirando em PC Farias. Seu alvo
é o irmão, o presidente.
Não
me importa o que o presidente está achando de meu comportamento.
Fernando gosta das pessoas que se curvam a ele, e eu nunca me submeti
nem a meu pai. Não vou me submeter a uma pessoa cuja vida
conheço muito bem e não respeito, disse Pedro
Collor a Luis Costa Pinto, de VEJA, com quem o irmão do presidente
conversou durante cinco horas na semana passada. As atitudes e palavras
de Pedro provocaram uma súbita mobilização
do clã Collor de Mello para recuperar a ovelha desgarrada.
No domingo dia 10, quando Leda Collor, a mãe dos irmãos
em litígio, deparou com a reportagem de VEJA a respeito do
capítulo internacional do Dossiê Pedro Collor contra
PC, chamou o seu caçula ao apartamento onde vive, no Rio
de Janeiro. A intenção não era comemorar o
Dia das Mães. "Meu filho, eu sei que você tem
uma bomba nas mãos. Estou assustadíssima. Não
dá para aliviar um pouco?", pediu Leda a Pedro Collor.
A resposta foi cheia de ódio: "Só vou parar quando
colocar PC na cadeia, quando acabar com a vida dele". Na noite
do mesmo domingo, a irmã de Pedro, Leda, casada com o embaixador
Marcos Coimbra, secretário de Collor, telefonou para o caçula
num hotel em São Conrado e lhe passou uma longa descompostura.
Caim
e Abel - Na terça-feira, Leopoldo Collor, o irmão
mais velho, deu um telefonema apaziguador. "Pedro, o PC vai
acabar te processando por falsidade ideológica. Pensa um
pouco, sai do circuito", pediu. Pedro Collor não quis
contemporizar. "Não saio do circuito porcaria nenhuma",
respondeu. "Quero mais é que ele me processe, porque
aí estarei na frente de um tribunal para falar o que bem
sei e incendiar o circo. Você sabe muito bem que eu posso
tocar fogo em tudo, Leopoldo." Na quinta-feira à noite,
segundo Pedro Collor, Leopoldo serviu de intermediário do
presidente para uma nova tentativa de se acalmar os ânimos.
O irmão mais velho telefonou ao caçula e disse que
o irmão do meio queria conversar com Pedro Collor no Palácio
do Planalto. "Respondi a Leopoldo que só iria falar
com Fernando no Palácio depois que PC estivesse atrás
das grades", conta Pedro. Desde que Caim teve aquela desavença
letal com Abel, briga entre irmãos é um espetáculo
lamentável de se acompanhar. Quando um dos irmãos
é o presidente de um país com tantas dificuldades
políticas e econômicas como o Brasil, a briga adquire
um caráter de irresponsabilidade temerária.
O dossiê
contra PC, informa Pedro Collor, está materializado numa
fita de videocassete, guardada no cofre de um banco em Nova York.
Segundo Pedro Collor, se vier a morrer subitamente, os depositários
do dossiê em Nova York estão instruídos a remeter
a fita para os principais órgãos de imprensa brasileiros.
Na fita, o irmão do presidente discorre na frente da câmara
sobre os negócios de PC Farias e fala de Fernando Collor.
Na primeira parte, o tema são os negócios internacionais
de PC. Na segunda, os nacionais. No terço final da fita Pedro
Collor se estende a respeito de questões pessoais e familiares.
Para o bem do Brasil, acho bom Pedro Collor fazer um tratamento
da sua esquizofrenia, que nos últimos dias vem se agravando",
diz o deputado Augusto Farias, irmão de PC. "Não
estou louco", rebate Pedro Collor. "Estou sendo muito
disciplinado na forma como venho divulgando os fatos." O cronograma
de Pedro Collor avançou mais um passo na quinta-feira passada,
quando ele expôs a segunda parte de seu dossiê a VEJA
- aquela referente à corrupção, tráfico
de influência e extorsão de PC Farias em território
brasileiro. Ao contrário do capítulo sobre as maracutaias
internacionais de PC, Pedro Collor não apresentou um mísero
documento para comprovar suas acusações. E que acusações:
- PC
embolsou 15 milhões dos 100 milhões de dólares
que arrecadou na campanha para a eleição de Cofior.
Como
prêmio por ter conseguido que o Instituto Brasileiro de Formulários
ganhasse a concorrência para a impressão dos cartões
da raspadinha federal, PC estaria recebendo 3,3 bilhões de
cruzeiros por mês da empresa desde o final de 1990. Por ter
resolvido o problema da dívida dos usineiros alagoarios com
o Midland Bank, da Inglaterra, PC também estaria ganhando
1 milhão de dólares por mês. O deputado Clero
Falcão levava a mala, mas quem colocou os dólares
que corromperam os deputados da Assembléia Legislativa de
Alagoas, para aprovar as contas do governador Fernando Collor em
1989, foi Paulo César Farias. Depois da eleição
de Collor, quando o presidente eleito estava nas Ilhas Seychelles,
PC começou a extorquir empresários, argumentando que
ainda havia dívidas de campanha. PC teve um papel fundamental
na fraude que levou Geraldo Bulhões a vencer as eleições
para governador de Alagoas, em 1990, derrotando Renan Calheíros.
PC Farias presenteou Zélia Cardoso de Mello com um colar
de pérolas e vestidos finos para fazer com que ela atendesse
seus pleitos no Ministério da Economia.
Numa
conversa com Mário Rosa e Mário Sergio Conti, de VEJA,
que se estendeu por seis horas na noite de quinta-feira passada,
num bonito apartamento carioca com vista para o Pão de Açúcar
e o Corcovado, PC Farias rebateu ponto por ponto as novas denúncias
de Pedro Collor. A declaração de princípios
de PC sobre o affaire do dossiê é o oposto exato da
de Pedro Collor. "Não quero tocar fogo no circo,
diz. "Quem tinha vocação de incendiário
era Nero, que era louco." No plano pessoal, apesar dos maus
bocados que vem passando, PC ainda se mostra otimista. "Minha
filha, a Ingrid, chorou, quando viu naquele programa Aqui Agora
que a festa de seu aniversário de 12 anos tinha sido regada
a champanhe francês. Isso é uma indignidade. Mas no
final de tudo isso, vou ter passado um atestado público de
honestidade. Vai acabar essa história de que se choveu canivete
no Piauí a culpa é do PC. No plano político,
Paulo César Farias está preocupado. 0 maior
risco com esse tipo de denúncia é institucional. Como
é que o país pode ser abalado por um sujeito que é
louco? Pedro Collor é um insano, chantagista e irresponsável.
É um herdeiro incompetente. Se não fosse irmão
do presidente, não era nada."
Na
semana passada, os fatos saíram do âmbito alagoano-familiar
e adquiriram um peso institucional. Na reunião das 9 horas
de segunda-feira, quando o presidente Collor reúne-se com
os ministros que formam o núcleo do governo, tocou-se no
assunto. Jorge Bornhausen, ministro da Secretaria de Governo, alertou
para a possibilidade de convocação de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito sobre o Dossiê Pedro Collor.
"Para abrir uma CPI é preciso apenas um terço
do Congresso, o que é relativamente fácil de se conseguir,
disse Bornhausen. Na quarta-feira, o deputado José Dirceu,
do PT paulista, conseguiu a convocação do secretário
da Fazenda Nacional, Luiz Fernando Wellisch, para prestar um depoimento
na Câmara nesta quinta-feira. Wellisch, por ordem do ministro
Marcílio Marques Morem vem investigando há mais de
quarenta dias as declarações de renda e o patrimônio
de PC Farias. Na sexta-feira, outros três fatos se precipitaram.
Primeiro, PC Farias divulgou o seu pedido para que a Receita Federal
investigue suas últimas declarações de renda.
Depois, o procurador-geral da República em exercício,
Moacir Antonio Machado da Silva, enviou um oficio de seis linhas
a Pedro Collor e, em anexo, a reportagem da edição
passada de VEJA sobre o dossíê anti-PC. O procurador
solicita "a apresentação do dossiê, para
o devido exame e eventuais providências". Pedro Collor
recebeu o ofício com satisfação. "Vou
passar o dossiê ao procurador, e já nesta segunda-feira
vou marcar a data de entrega e o meu depoimento", diz Pedro.
Por fim, o deputado José Dirceu recebeu no seu escritório
em São Paulo documentos que lhe foram encaminhados anonimamente.
Um
Bugre e um Landau- José Dirceu analisou as 214 páginas
da papelada, separadas em 24 blocos grampeados. Ficou impressionado
a ponto, de horas depois, disparar três ofícios via
fax. Um para o presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro, outro
para o presidente da Comissão de Finanças e Tributação
da Câmara, deputado Francisco Dornelles, e um terceiro para
a Procuradoria Geral da República. Nos ofícios ele
comunica o achado, anexa fartos exemplos dos documentos e pede providências.
Os documentos recebidos pelo deputado são as declarações
de renda de PC de 1987 a 1991. Além da pessoa física,
há cinco declarações de pessoas jurídicas,
de empresas de PC. "As declarações de renda de
Paulo César Farias não são compatíveis
com seu padrão de vida e com o volume de seus negócios",
diz José Dirceu. "Acho que esse assunto deve ser analisado
com documentos, e não com base em denúncias sem comprovação."
Pelas
declarações de renda encaminhadas por PC ao Fisco
fica-se sabendo que desde 1986 ele é o feliz proprietário
de um carro Bugre e que em 1988 comprou um Ford Landau, que manteve
pelo menos até 1990. Em compensação, o seu
IR não registra que tenha casa própria em Maceió,
onde mora. Em Maceió, ele é dono de um terço
de uma ilha na Lagoa Mundaú e de um terreno em Guaxuma. Em
São Paulo, tem um apartamento em um condomínio privado
no bairro chique de Cidade Jardim. Entre suas empresas figuram a
Tratoral (de tratores), a Florag (de reflorestamento e agropecuária),
a EPC (de participações e construções),
a Honor (de hotéis), a Brasil Jet (de táxis aéreos)
e também a Rio Tejo (incorporadora, hoje fechada). Pelas
declarações de PC ao Leão, ele não tem
nenhuma empresa ou conta no exterior.
A pedido
de VEJA, as declarações de PC Farias foram analisadas
em São Paulo por um técnico da empresa de consultoria
Arthur Andersen, um ex- fiscal da Receita que hoje é sócio
de uma empresa especializada em imposto de renda de empresas e por
um funcionário graduado da Secretaria da Fazenda de São
Paulo. Ao saber que as declarações eram do famoso
Paulo César Cavalcante Farias, os três técnicos
tiveram uma reação semelhante: quase caíram
da cadeira. "Essa declaração é de alguém
que se considera acima da lei, é óbvio que PC Farias
leva uma vida clandestina", diz o auditor da Arthur Andersen.
"Essas declarações não resistem a uma
peritagem séria de uma semana, um Eliot Ness pegaria esse
Al Capone, afirma -o ex-fiscal da Receita. Estamos diante
de um empresário de renda modesta, patrimônio declarado
médio e vida real inexplicada pelos documentos", avalia
o funcionário da Secretaria da Fazenda paulista.
O consultor
da Arthur Andersen nota que PC Farias é um homem de posses
que, estranhamente, vive com uma renda igual à de uma secretária
executiva e provavelmente menor que o salário de um piloto
da Brasil Jet, a sua empresa de táxi aéreo. Na declaração
de 1991, referente ao ano-base de 1990, teve uma renda mensal equivalente
a 2 100 dólares, ou 5,5 milhões de cruzeiros. Mas
como teve despesas com o financiamento de seu apartamento em São
Paulo, sua renda baixou para pouco mais de 1000 dólares ao
mês. Sua mulher, Elina, ajudou nas despesas com outros 1 200
dólares. Talvez por ganhar pouco, os dois dependentes de
PC, os filhos Paulo Augusto e Ingrid, não tiveram gastos
com escola, dentista ou médico. PC também não
pagou empregadas domésticas, telefone e teve de morar numa
casa que não é sua - a enorme mansão onde vive
desde março de 1990, por coincidência data da posse
de Collor, e permanentemente guardada por seguranças armados
de espingardas. Não consta na declaração que
os seguranças tenham sido pagos pelo empresário. Tampouco
que pague aluguel.
Penúria
- Nas declarações dos anos anteriores, constam
pequenas despesas médicas e de colégio, mas PC continuava
ganhando menos que seus pilotos. Em 1989, teve uma renda mensal
média de 1400 dólares, e Elma contribuiu com apenas
570 dólares. Em 1988, sua renda mensal foi de 2 700 dólares,
e a mulher ajudou com menos de 150 dólares. Em 1986, PC rondou
a penúria: ganhou 1 000 dólares por mês. A renda,
baixa para sustentar os dependentes, é corroída pelas
despesas do empresário. Ele paga IPTU de seus três
imóveis e o terço IPVA do Bugre e do Landau. O apartamento
em São Pauto lhe consome todos os meses 500 000 cruzeiros
de condomínio, 10% de sua renda. É curioso que, com
esses parcos rendimentos, PC prefira deixar o apartamento desocupado
a alugá-lo por 1,3 milhão de cruzeiros, o valor de
mercado. "O seu Paulo César não aparece aqui
desde a campanha do Collor para presidente", diz um funcionáno
do condomínio Privé. Há uma explicação
para esse descompasso entre a renda baixa e o padrão de vida
de PC. Como uma parte considerável do empresariado brasileiro,
Paulo César Farias faz com que suas pessoas jurídicas
paguem a conta da pessoa física. O colégio das crianças
é pago por uma empresa, a conta nos restaurantes por outra,
as viagens ao exterior por uma terceira, outra banca a gasolina,
os carros de verdade estão em nome de uma quarta companhia,
as empregadas domésticas entram na folha de pagamento em
alguma outra, e o mesmo com os seguranças que o protegem.
Mágica
- 0 estranho é que as empresas de PC Farias não
vão muito bem das pernas, à exceção
da Tratoral, conforme a avaliação do ex-fiscal da
Receita feita a Joaquim de Carvalho, de VEJA. Cinco empresas funcionam
na Rua Durval de Goes Monteiro, em Maceió. Em 1987 e 1988,
ele declarou que teve prejuízo de 8 000 dólares com
a Rio Tejo. Em 1989, fechou a empresa, com um prejuízo acumulado
de 13 500 dólares. Desde julho de 1986, PC é dono
da Honor, Hotéis do Nordeste Ltda. Até 1990, ano-base
da última declaração obtida por José
Dirceu, o hotel não teve receita. "A Honor nunca saiu
do papel, ou seja, existe mas não tem vida ativa", explica
Paulo Jacinto Oliveira Nascimento, 42 anos, cuja banca de advocacia
assessora as empresas de PC. "Paulo César pensou em
construir hotéis mas nunca levou o projeto adiante. Outra
empresa, a Florag, de reflorestamento e pecuária, não
funcionou em 1986. Em 1987, continuou inativa. Em 1988, nada. Em
1989, num espasmo. teve um lucro de 156 000 dólares. A EPC.
de Participações e Construções, também
teve trajetória curiosa. Ela existe desde outubro de 1986,
e não teve receita no primeiro ano de atividade. Em 1987,
teve um lucro de 3 800 dólares. No ano seguinte, o lucro
da EPC foi de 6 500 dólares. Em 1989. seu lucro subiu espantosamente
para 680 000 dólares. Segundo Paulo Jacinto, a EPC atua somente
na área de consultoria a usineiros. "A EPC cuida da
alavancagem de recursos: ninguém tem dinheiro e a empresa
se encarrega de conseguir verbas junto a órgãos públicos",
explica o advogado. "É o próprio PC que dirige
a EPC." Em outras palavras, PC faz lobby e consegue verbas
públicas para usineiros.
Depois
de ter estado em concordata em 1983 e 1984, a empresa mais sólida
de PC, pelas declarações, é a Tratoral, que
vende uma média de seis tratores por mês a usineiros
e teve um lucro de 346 000 dólares em 1989. PC tem 98% das
ações da empresa, 1,5% estão com sua mulher
e 0,5% com seu irmão Augusto. Ainda assim, há um dado
estranho na declaração da Tratoral. As despesas operacionais
não especificadas correspondem a 40% de todas as despesas
da empresa. Pode ser nessas despesas não especificadas que
coloque alguns de seus gastos como pessoa física, o que é
irregular.
O ex-fiscal
da Receita e o funcionário da Secretaria da Fazenda captaram
um fato absolutamente inexplicável na constituição
da Brasil Jet. Pelo contrato social da empresa de táxi aéreo,
ele constituiu a empresa em 1988 e ficou com 80% das cotas da empresa
por 12 223 368 cruzados - o equivalente a 178 000 dólares.
As cotas restantes ficaram com sua mulher, Elma. O que chama a atenção
é que essas cotas, na prática, não lhe custaram
um centavo. No mesmo ano em que formou a Brasil Jet, ele tomou um
empréstimo da empresa pelo mesmo valor de compra. Vale dizer:
ele tomou dinheiro emprestado da empresa que estava montando, e
da qual era o sócio majoritário. É uma mágica.
Nas declarações referentes a 1988 e 1989, a dívida
com a Brasil Jet é reconhecida, embora sem correção
monetária. Na declaração de 1991, opera-se
uma outra mágica: a dívida desaparece e a Brasil Jet
se incorpora ao patrimônio de PC Farias. É óbvio
que PC está esquentando a Brasil Jet, dando-lhe uma aparência
de negócio normal, apesar da sua origem mais que suspeita,
diz o ex-fiscal da Receita.
Lembrando
dos seus tempos de fiscal, esse técnico considera que poderia
fazer PC responder a vários processos da Receita. Ele iria
nas contas bancárias das empresas, averiguaria o trânsito
do dinheiro, analisaria os balanços e, com autorização
do superintendente da Receita Federal, faria uma devassa nos livros
das companhias de PC Farias. Como esse especialista trabalha hoje
ajudando empresas a resolverem seus problemas com o Fisco, ele que
PC Farias deveria retificar alguns itens de suas declarações
dos últimos anos. Com isso, ele reconheceria erros e pagaria
multas. Em contrapartida, evitaria uma devassa que, dada a notoriedade
de PC, se transformaria num espetáculo que provocaria o deleite
de Pedro Collor.
Suspeita
- Depois da análise técnica, os três especialistas
consultados pela revista levantam duas questões de fundo.
Primeiro, aquilo que os americanos chamam de sinais exteriores de
riqueza: o estilo de vida de Paulo César Farias não
se coaduna com sua renda, com seu patrimônio e com o volume
de negócios de suas empresas, tais como expostos nas suas
declarações de renda. Só isso bastaria, nos
Estados Unidos, para que suas contas fossem submetidas a uma análise
minuciosa. No Brasil, infelizmente, não há essa
tradição de se analisar a fundo os casos de sonegação",
lamenta o ex-fiscal da Receita. É apenas mais um sonegador."
A segunda questão, que salta aos olhos, é não
haver nas declarações nenhum negocio de PC no exterior
até o ano-base de 1990. E o Dossiê Pedro Collor está
repleto ramificações de Farias na Europa, Estados
Unidos e paraísos fiscais.
Na
arena internacional, PC Farias encerrou a semana com um ponto a
favor e um contra. PC ganhou em Miami, onde havia um registro de
uma procuração para o cubano-americano Andrés
Giulio Gómez-Mena fechar uma conta da empresa Dupont investiment
no Citibank International e transferir o saldo para um banco na
Suíça. PC sustentou que a assinatura em falsa e, agora,
não há dúvidas de que, do ponto de vista da
legislação americana, ocorreu algo de muito suspeito.
Ao contrário do que acontece no Brasil, não existem
cartórios para o reconhecimento de firma nos Estados Unidos,
mas apenas notários autorizados pelo governo a reconhecer
a autenticidade de uma assinatura - desde que ela seja feita na
presença do assinante.
Na
quinta-feira passada, a notária Patrícia Narino, que
reconheceu a firma no documento enviado ao Citibank, admitiu a Flavia
Sekles, de VEJA, que apenas Gómez-Mena esteve em seu escritório,
o que faz da procuração um documento tão autêntico
como um dólar fabricado no Paraguai. A notária explica
a falha dizendo que conhece bem Gómez-Mena, e que "já
reconheci firma em vários documentos dele". PC Farias
chegou a fazer um levantamento em sua papelada financeira para saber
se, por acaso, não poderia ter se esquecido de que assinara
o documento. Descobriu que nem sequer estava nos Estados Unidos
na ocasião. E partiu para o contra-ataque. "Conheço
o Gómez-Mena, diz ele. E sei que ele trabalha
como consultor do Pedro Collor." O único documento apresentado
pelo irmão do presidente do qual constava uma assinatura
de PC não é referendado nem pela notária que
o autenticou. Permanece, no entanto, um mistério: a assinatura
que está nesse documento, segundo a análise técnica
do perito Celso Del Picchia, é mesmo de PC.
Bode
- O contragolpe contra PC fora do Brasil ocorreu em Paris. Descobriram-se
duas novidades sobre a S.C.1. Financière Albert ler, empresa
de Guy des Longchamps, cidadão francês que os próprios
familiares descrevem corno empregado de PC Farias. A sede da S.C.I.,
descrita em seus estatutos como uma empresa com um modesto capital
de 180 dólares, "zero funcionários" e com
"zero estabelecimentos", funciona num apartamento de três
quartos e um amplo salão, adquirido do empresário
brasileiro Antonio José de AImeida Carneiro, presidente do
Banco Multiplic e conhecido no mercado financeiro do Rio pelo apelido
de "Bode". Depois de ficar três anos com o imóvel,
cuja compra fora financiada pelo Lloyds Bank, de Londres, o empresário
resolveu colocá-lo à venda, e o mesmo banco se encarregou
de fazer o negócio. O Bode jura que não sabia que
o comprador seria um brasileiro e "muito menos o PC".
Ele garante que nunca viu o tesoureiro de Collor na vida. Dois tubarões
da bolsa de valores carioca garantem que o Bode sabia muito bem
que estava vendendo o apartamento para PC.
O contrato
de fundação da S.C.1. contém outros esclarecimentos.
Informa que Guy des Longchamps é proprietário de 1
% das cotas da empresa, e que as demais 99% pertencem a Ironildes
Teixeira, um brasileiro com residência em Miami, onde dirige
uma empresa chamada Miami Leasing, especialista numa das mais conhecidas
atividades de PC Farias -aviões. Corretor de jatinhos, Ironildes
já fez pelo menos um negócio com ÊIC FIwias,
envolvendo um avião de origem alemã com prefixo americano.
Os papéis da S.C.1. informam que a empresa foi constituída
em 18 de junho do ano passado: No passaporte CD 050 144, que pertence
a Wanya Guerreiro, conhecida acompanhante de PC Farias em viagens
internacionais, e que recentemente participou de uma rápida
aventura com o arquiinimigo Pedro Collor, consta o carimbo de uma
entrada na França em 19 de junho. "Nós adorávamos
Paris", diz ela. Segundo Wanya Guerreiro, PC Farias chegou
à capital francesa 24 horas depois da fundação
da S.C.I. Que coincidência.
Entre
um Pedro Collor que quer colocar PC na cadeia e um PC que quer sair
com um atestado de idoneidade moral do episódio está
o presidente Collor. O resultado dessa celeuma ainda é incerto,
dado o ziguezague aloprado com que Pedro Collor costuma se movimentar.
Para o país, no entanto, há pelo menos uma lição
a se tirar do episódio: a de que o levantamento de fundos
para as campanhas eleitorais transformou-se num terreno minado cujas
bombas continuam a explodir anos depois de contados os votos. O
país inteiro sabe que PC foi o caixa da campanha de Collor.
Pedro diz que 100 milhões de dólares passaram pelas
mãos do empresário alagoano, doados por empreiteiros,
banqueiros, comerciantes, a fina flor da elite, e que PC embolsou
15 milhões. PC Farias acha que a cifra está em tomo
de 65 milhões de dólares, e que ele não roubou
nada, apenas os dividiu para pagar faixas, camisetas, programas
de horário gratuito na televisão. Mesmo assim, PC
se diverte com uma frase do revolucionário russo Leon Trotsky:
"Aquele que tem algo a dividir nunca se esquece de si mesmo".
A sério, ele argumenta que as contas da campanha de Collor
foram aprovadas pela Justiça Eleitoral.
Passada
a campanha, entra uma característica que é responsabilidade
do presidente Collor: PC teve um poder enorme no primeiro ano de
governo. "Indiquei meu irmão Augusto Farias para trabalhar
no Ministério da Saúde, o Lafaiete Coutinho para a
Caixa Econômica, o Luiz Quattroni para presidente do IRB,
a estatal de resseguros", diz PC. "Mas todos eles tinham
qualificação técnica para os quadros. À
exceção de Lafaiete, que foi promovido para a presidência
do Banco do Brasil, todos os indicados por PC caíram. Assim
como foram derrubados, em meio a escândalos, todos os ministros
com quem PC falava ao telefone ou pessoalmente várias vezes
por semana. O governo mudou, mas a sujeira da campanha, produto
de uma legislação eleitoral anacrônica, continua
a produzir mau cheiro - desta vez na forma de uma quizumba alagoana.
Na semana passada o mineiro Marcos Coimbra, cunhado de Fernando
e Pedro Collor e contraparente dos Malta de Canapi, lembrava com
um amigo uma frase do escritor alagoano Graciliano Ramos. O autor
de Vidas Secas olhava para um mapa do Brasil, apontava para o Estado
de Alagoas e dizia: Eis aqui um bom lugar para se fazer um
golfo.
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