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Entrevista
publicada em 27/05/1992
A
opção pela vida
O
ator admite que está com Aids

Ele
descobriu que está com Aids há três anos e já
sofreu várias das manifestações mais terríveis
da doença. Passou oito meses num hospital, viu amigos queridos
lhe darem as costas, outros discriminados porque permaneceram
a seu lado. Mergulhou, segundo suas palavras, no bíblico
vale das sombras. Teve raiva, revolta, vontade de morrer logo
para acabar com o sofrimento. Passou por uma experiência
mística e encontrou dentro de si força suficiente
para ficar ainda mais um tempo" ao lado dos três filhos
e das pessoas mais amadas. Aos 46 anos, o ator Carlos Augusto Strazzer,
o pérfido conselheiro Crespy Aubriet da novela Que Rei
Sou Eu? E o místico Argemiro de Mandala, está
de volta à ativa. Ele assina a direção da peça
Dorotéia, de Nelson Rodrigues, que estreou sextafeira
passada, no Rio de Janeiro.
Não
foi uma volta suave. Cercado pelos cochichos sobre a doença
que o havia mantido fora de cena nos últimos tempos, Strazzer
resolveu abrir o verbo - e o coração. Na semana passada,
ele declarou publicamente pela primeira vez que tem Aids. A decisão
levou tempo para amadurecer. "Este assunto em tratado de forma
muito preconceituosa e desrespeitosa. Por que eu me exporia para
ser achincalhado? Não estou em julgamento Nem eu, nem nenhum
outro doente, seja de Aids, de câncer ou de lepradiz
Strazzer, bissexual assumido que acredita ter se contaminado com
o vírus da Aids em uma relação sexual há
cerca de dez anos, quando a doença e suas formas de transmissão
ainda não eram conhecidas. Sem nenhuma aura de herói
dos tempos da Aids, e com uma serenidade conquistada a duras penas,
Strazzer fala nesta entrevista a VEJA sobre sua experiência
- a experiência limite pela qual todo ser humano inexoravelmente
vai passar, mas na qual só os que convivem com a mortete
são obriga dos a pensar. Alguns, como Strazzer, aprendem
muita coisa.
VEJA-
Por que o senhor decidiu tornar público que tem Aids?
Strazzer-
A doença é uma coisa mais natural para mim, agora.
Eu tive todo um processo de aceitação, de compreensão
do que estava vivendo. Fui obrigado a fazer um recolhimento. Primeiro,
porque tive de combater crises físicas muito sérias
e tinha de estar completamente concentrado nesse embate pela minha
saúde. Segundo, porque imagem ficou ligada a esse problema.
Mas não foi uma decisão clara falar sobre a Aids.
Não estou levantando bandeira alguma. As pessoas não
separam a minha vida particular, meus problemas pessoais, da minha
vida pública.
VEJA-
O senhor sentiu-se mais maduro para falar sobre o assunto?
Strazzer
-
Sim. Assim como eu amadureci, talvez a imprensa tenha amadurecido.
Desta forma, me sinto disponível para conversar, debater,
contar a minha experiência, que pode ser útil para
outros doentes, parentes de doentes e para quem não tem o
suporte espiritual e financeiro que eu tenho. Sou contratado da
Rede Globo e, além do meu salário, a empresa paga
todo o meu tratamento, que é extremamente caro. A Globo paga
todos os meus remédios e internações e vem
renovando anualmente o meu contrato. Sou um privilegiado.
VEJA
- A Aids mudou a sua maneira de encarar a morte?
Strazzer-
Sempre
fui fascinado pela morte. Eu sempre fui um especulador das ciências
ocultas, um estudioso do espiritismo cristão, de religiões
que tentassem explicar a morte de uma forma menos ingênua
que a cristã tradicional. Desde adolescente, eu reflito sobre
o que poderá acontecer após a morte. Quando a Aids
veio, achei que minha hora havia chegado. Pensei em morrer educada
e dignamente. Não podia decepcionar a galera. Afinal, por
tudo o que eu havia lido, ter Aids significava ficar com aquela
figura cadavérica publicada pelos jornais e morrer. Até
que eu percebi que havia uma possibilidade de não ser assim.
VEJA
- Como surgiu essa possibilidade?
Strazzer - Não foi um médico quem me deu isso.
Veio de foro íntimo, de esforços consideráveis
para compreender o que estava acontecendo e não me entregar.
Eu tenho um poder dentro de mim, que é um poder decisório,
uma vontade. Tenho que ter vontade de viver e descobri motivações
verdadeiras para continuar vivo. Essas motivações
estão ligadas às pouquíssimas pessoas, que
atravessaram comigo o vale da sombra da morte, inesquecíveis
amigos que conseguiram imprimir na minha alma e no meu coração
uma vontade de estar com eles ainda mais um tempo. Meus três
filhos fazem parte desse grupo. Mas tenho uma amiga, por exemplo,
cujo ex-marido ameaçou tirar a filha da guarda dela se ela
continuasse me ajudando no hospital. Esse ex-marido é da
classe teatral e hoje me cumprimenta como se nada tivesse acontecido.
VEJA-
Não é apenas o doente de Aids, então, que enfrenta
o preconceito?
Strazzer
-
De jeito algum. As pessoas que ficaram do meu lado enfrentaram um
preconceito muito sério, cíúmes de marido,
ameaças de mãe. Esse esforço atingiu meu, psiquismo
e meu coração. Percebi como era bom o amor, esse amor
que só doa. Eu não tinha nada para oferecer, a não
ser dor, dor, dor.
VEJA
- Quando o senhor soube que estava com Aids?
Strazzer
- Estava
fazendo a novela Que Rei Sou Eu? Tive uma grande crise e houve muitos
erros médicos e laboratoriais. Os exames davam negativo e
só descobriram a doença quando eu fui para São
Paulo quase morrendo. Fiquei meses sem saber o que tinha. A doença
oportunista que primeiro apareceu foi sífilis secundária.
Fiquei com feridas no corpo inteiro, do couro cabeludo à
sola do pé. Permaneci internado oito meses.
VEJA-
O senhor teve vontade de morrer?
Strazzer
-
Não exatamente. Eu achei que a agonia era uma coisa muito
sem graça. Será que não existia outra forma
de morrer, na qual eu não tivesse que passar por aquela dor,
aquela porta estreita, aquele buraco de agulha? Mas tive vivências
muito particulares nesses momentos. Foi bom analisar quem era eu
e qual era a minha historinha. E minha historinha era quase medíocre,
mas gostei dela. Não fui um grande sujeito, nem um grande
ator, mas era um cara legal, bom caráter, tinha vivido bem,
cercado de bons amigos, com três lindos filhos e uma ex-mulher
maravilhosa. Comecei a montar a minha biografia: Carlos Augusto
Strazzer nasceu assim, foi um adolescente, em adulto fez uma porção
de coisas; aí pegou uma doença terrível e morreu.
Que morte boba! Será que não dava para mudar o script?
Que final piegas e melodramático... Tive, então, vontade
de mudar o final.
VEJA
- Aconteceu alguma coisa que propiciou essa virada?
Strazzer
- Eu
estava muito mal e não agüentava mais sentir tanta dor
física. Comecei a rezar, mas me senti meio ridículo,
beato, e questionei se Deus existia mesmo. Mas a dor era tanta que
a revolta passou e eu rezei o pai-nosso mantricamente, ou seja,
pensando em cada frase. Quando cheguei no "seja feita a Tua
vontade", não consegui continuar. Se ou acreditava que
Deus estava em mim e não era um velhinho de barbas brancas
inacessível, mas um estado de consciência interna,
então eu tinha de entrar em contato comigo mesmo. "Seja
feita a Tua vontade" não significava a vontade de alguém
de fora em relação a mim. Abriu-se um telão
azul deslumbrante e uma voz, muito parecida com a minha, só
que em dolby-stereo, me perguntou se eu queria a cura ou não.
VEJA
- Qual foi sua resposta?
Strazzer
-
Meu primeiro instinto foi dizer "sim. Mas será
que era isso mesmo? O outro lado era tão maravilhoso... Por
que eu iria ficar nesta Terra tão complicada? Aí,
a voz me disse que eu precisava querer alguma coisa, que eu devia
usar a vontade correta. Eu precisava de uma motivação
para viver, senão minha vontade não seria legitima.
Pensei nas opções. Voltar a fazer novela e brilhar?
Gostaria. Mas, depois, seria nio bobagem. Fazer uma peça
de teatro e ganhar prêmio? Seria maravilhoso, mas viraria
também bobagem. Fazer uma viagem, visitar Paris de novo?
Tudo bobagem. Puxa, será que eu não tinha nenhuma
motivação para viver? Aí, apareceram nessa
tela azul os três rostos dos meus filhos. Eles me pediam para
ficar. Descobri que queria mais um tempo aqui e dar a eles um pouquinho
de conforto 3 estruturação psicológica, para
que os meus filhos segurassem a barra quando eu fosse embora. Acho
que é por isso que continuo aqui.
VEJA
- O senhor estava no hospital quando isso aconteceu?
Strazzer
- Eu
estava em meu apartamento no Rio, antes de ir para o hospital e
começar minha saga. Não aconteceu de eu viver essa
experiência e no dia seguinte ficar bom. Fui internado, entrei
em coma, tive sofrimentos consideráveis que não teria
suportado se não tivesse passado por aquele momento. Fiquei
sem veias, porque tinha de tomar injeções de antibiótico
de seis em seis horas. Tinha uma sudorese; tão intensa que
trocava de lençóís e de roupas quinze vezes
por dia. A diarréia era tão forte que eu ia ao banheiro
umas trinta vem por noite. É intenso o sofrimento de uma
pessoa doente de Aids. Se quem tem preconceito tivesse uma noção
mínima do que é esse sofrimento, não ousaria
ir com pensamento negativo frente a um doente.
VEJA
- Além da sífilis, o senhor teve outras doenças
oportunistas?
Strazzer
- Desenvolvi
doenças viróticas, tuberculose, um monte de coisas
ao mesmo tempo. Era um inferno, uma dor só. Nessas horas,
apareceram aquelas pessoas infinitamente amorosas que, quando eu
não agüentava, simplesmente deitavam sobre mim, me abraçavam
e ficavam me beijando até eu conseguir sentir o calor físico
delas. Quando eu acordava com febre de 40 graus, definhava, pesava
50 quilos, essas pessoas puseram a mão na massa. Eu tive
anjos da guarda.
VEJA
- Como é seu tratamento?
Strazzer
-
Tomo AZT e cerca de trinta remédios por dia. Cheguei a tornar
45 remédios, consegui diminuir e espero reduzir mais um pouco.
Sou atendido por uma equipe: um ínfectologista, um oncologista,
um cirurgião plástico - precisei fazer enxertos pele,
em função das feridas, um psiquiatra e um homeopata.
VEJA
- Como o senhor pegou o vírus da Aids?
Strazzer
- Tenho
minhas suposições, mas não poderia dizer com
segurança. Sou bissexual convicto. Minha geração
nunca viu limites para o prazer. Mas não sei se fui contaminado
por uma relação com homem ou mulher.
VEJA
- Sua ex-mulher e filhos fizeram o exame anti-HIV?
Strazzer
- Fizeram
e está tudo bem, graças a Deus.
VEJA
- Sua última aparição na TV foi uma participação
especial na minissérie 0 Sorriso do Lagarto. É díficil
ser ator, estar com Aids e aparecer na TV?
Strazzer-
Diante da produção difícil que é a de
uma novela, ou mesmo uma minissérie, que exige tempo, disponibilidade,
saúde, acho que os produtores, diretores e autores ficam
constrangidos em me escalar e de repente eu não dar conta.
VEJA
- O senhor acha que devia ser escalado?
Strazzer
- A
televisão faz parte da minha vida há mais de vinte
anos. Sinto falta, sem dúvida. Mas não gostaria que
alguém pensasse "vamos dar para aquele infeliz que está
com Aids um papel para ele aparecer um pouco". Pelo amor de
Deus, não pode ser isso. Se houver uma oportunidade interessante,
posso ser aproveitado de várias maneiras que não seja
na frente das câmaras. Uma pessoa doente é incômoda,
desagradável. Quem lida com o doente acaba refletindo sobre
sua própria vida e morte. Quando as pessoas deparam com um
doente como eu, ficam assustadas. Eu encontro às vezes pessoas
que são muito queridas e que preferiam francamente não
ter me encontrado, ter fingido que não me viram.
VEJA
- Como essas pessoas podem ser queridas se agem dessa forma?
Strazzer
- Eu
aprendi a amar apesar de, e não porque a pessoa é
legal contigo. Isso não foi do dia para a noite, é
claro. Tive momentos de muita raiva, ira e ressentimento. Mas conquistei
o aprendizado de que as pessoas têm prioridades. Não
sou prioritário na vida de todos que eu amo. Mas sou na vida
de meia dúzia - e que bom que existe essa meia dúzia.
VEJA
- Foi duro descobrir que não era prioritário na vida
de pessoas queridas?
Strazzer
- Sei
que há pessoas que me querem muito bem, mas que têm
uma série de outras prioridades que não são
cuidar de um amigo doente. Isso me permitiu fazer um balanço
sobre quem eu realmente gostava. Fui obrigado a perdoar de verdade.
Houve gente que era muito amiga e não deu sequer um telefonema,
e gente pouco íntima que apareceu de surpresa no hospital.
Fui aprendendo a lidar com a hipocrisia humana. Não ia ficar
ressentido, amargo. Fiquei, sim, decepcionado com algumas pessoas
a quem eu queria muito. Então, passei a querer mais equilibradamente.
VEJA
- O senhor estava envolvido sentimentalmente com alguém quando
descobriu que estava com Aids?
Strazzer
-
Estava no fim de um relacionamento. Essa pessoa ficou comigo um
tempo, depois se afastou. A gente tem que respeitar os limites do
outro. Não dá
para querer que o outro seja onipotente, tenha condições
de corresponder o tempo todo às nossas expectativas. 0 outro
tem defesas, medos, fragilidades e limites que tenho de compreender
e aceitar. Claro que nem sempre consigo essa simplicidade linear.
Mas é o meu objetivo nas relações com as pessoas
e o mundo.
VEJA
- O senhor tem mantido uma vida sexual?
Strazzer
- Não. Tive uma absoluta falta-de interesse durante muito
tempo. Depois, um absoluto interesse durante muito tempo, mas não
me sentia à vontade para ter relações com ninguém,
embora houvesse até pessoas disponíveis. Achei que
devia transcender um pouco isso.
VEJA
- E a esperança de cura?
Strazzer-
Já pensei muito nisso. Faz um tempo que não penso
mais. Às vezes, acho que estou indo embora. A cura não
é mais um núcleo de ansiedade e reflexão da
minha parte.
VEJA
- A convivência com a Aids modificou sua visão artística?
Strazzer
-
Eu mudei, sim. Compreendo melhor as oportunidades. Antes, achava
que as oportunidades que me eram dadas eram naturais. Eu era tão
talentoso, inteligente, boa pessoa.. Balela. Depois dessa onda toda,
tenho mais a precisão da oportunidade. O meu período
de isolamento e reflexão proporcionou determinadas qualidades,
uma sensibilidade em relação ao outro, uma compreensão
das dificuldades do outro. A peça Dorotéia, que estou
dirigindo, tem impressas algumas coisas que me são particulares.
VEJA
- O senhor pretende voltar a atuar?
Strazzer
- Gostaria
de montar um espetáculo no qual eu recitasse alguns poetas
místicos, como os persas Rumi e Attar e os espanhóis
São João da Cruz e Teresa d'Avila. Seria uma encenação
com uma bailarina, um instrumento, uma coisa simples de meia hora
de duração. São poemas belos, que falam sobre
a noite escura:
Vivo
sem viver em mim e
tão alta a vida espero que morro e
por que não morro?"
É
um universo que eu conheço, de delicadeza sobre a morte e
a espiritualidade.
VEJA
- O trabalho ainda é uma motivação forte?
Strazzer
- Sim,
mas eu não sou mais o mesmo. Isso é difícil
de lidar para quem gostaria que eu fosse o mesmo. 0 trabalho me
motiva quando não existe essa expectativa, como aconteceu
em Dorotéia. Foi um bom suporte terapêutico. As pessoas
já sabiam da minha doença e eu coloquei o problema
para elas. Durante os quatro meses de ensaio, tive que parar duas
vezes para fazer pequenas cirurgias. Quando as pessoas aceitaram
participar da peça, pensaram bem no que significava trabalhar
comigo.
VEJA
- Como o senhor está hoje fisicamente?
Strazzer-
Entre outras doenças, tenho câncer. Às vezes,
ele se manifesta na pele. Tive que tirar alguns tumores no nariz.
É uma vida dolorosa. É preciso querer muito viver.
Se não, dá vontade de dizer até logo.
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