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Depois
de anos de arrastadas discussões, o Brasil entra com atraso no mundo
da HDTV adotando o padrão japonês 
Letícia Sorg
"Quem
apostar que o sistema de alta definição japonês, com algumas
adaptações, será o adotado pelo Brasil não vai perder
a aposta", disse a VEJA Hélio Costa, no início deste mês.
O ministro das Comunicações foi ainda mais longe: afirmou acreditar
que transmissões experimentais ocorram já em junho do ano que vem,
durante a Copa do Mundo da Alemanha. A decisão oficial deve ser anunciada
em janeiro, o que representa um avanço em uma discussão que já
se arrasta há alguns anos, mas não significa que esteja próximo
o dia em que os brasileiros poderão trocar seus televisores analógicos
pelos novos aparelhos de HDTV, como já ocorre nos Estados Unidos e em outros
países do Primeiro Mundo (veja quadro).
A introdução da TV de alta definição no Brasil vinha
sendo retardada pela dúvida quanto ao padrão a adotar. Eram três
os sistemas que concorriam pela predileção do Brasil: americano,
europeu e japonês. No último ano, foram exaustivamente analisados
por um consórcio de empresas, universidades e associações
convocado pelo ministério. Nas gestões anteriores no Ministério
das Comunicações, cogitou-se a adoção de um padrão
próprio, nacional, mas isso representaria um investimento de bilhões
de dólares, de utilidade duvidosa. Cada
padrão tem sua vantagem. Numa análise resumida, o americano prima
pela alta qualidade de imagem. O europeu, pela interação entre telespectador
e emissora. O japonês, pela facilidade no uso da imagem em aparelhos móveis,
como PDAs e celulares, além de ter um sistema de transmissão robusto,
adequado ao terreno acidentado de algumas cidades do país. Esse último
argumento pode ter sido decisivo. A Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão
e Telecomunicações, que congrega as empresas e profissionais, divulgou
sua preferência pelo pacote japonês. A ela, o Ministério das
Comunicações atribui um peso de 50% na decisão. Pesquisas
realizadas pela Universidade de São Paulo apontam na mesma direção
e prevêem também melhorias em relação aos padrões
adotados pelos japoneses. Quem já teve
oportunidade de assistir a uma transmissão em alta definição
sabe que o investimento vale a pena. A imagem tem resolução pelo
menos duas vezes superior à dos aparelhos tradicionais. Em uma partida
de futebol, por exemplo, isso permitirá captar melhor detalhes como a expressão
do rosto de um jogador, aproximando a experiência de ver o jogo em casa
daquela vivida pelo torcedor no estádio. O serviço digital também
possibilitará escolher por qual câmera assistir a um show, responder
com o controle remoto a uma enquete instantânea ou até obter informações
sobre o vestido da estrela da novela. Além
de permitir imagens em alta resolução, o padrão brasileiro
deverá comportar transmissões em baixa definição
adequadas principalmente aos dispositivos móveis como os celulares
uma tendência que não era prevista pelo modelo americano, o primeiro
a entrar no mercado. O risco da caduquice tecnológica galopante, como ocorreu
com os americanos, é uma das maiores preocupações quando
se toma uma decisão como essa. Para evitá-lo, o sistema brasileiro
deve prever compatibilidade com tecnologias ainda mais avançadas, como
a transmissão de televisão via protocolo de internet, por exemplo.
Tida como um passo além na direção do futuro, a TVIP não
foi esquecida por Marcelo Zuffo, coordenador do grupo que estuda os terminais
de acesso à TV digital e professor da Escola Politécnica da USP.
"A arquitetura do terminal de acesso que desenvolvemos funcionará independentemente
do tipo de rede, seja sinal terrestre, como temos agora, sejam protocolos de internet",
afirma Zuffo. A compatibilidade foi pensada mesmo se sabendo que, para o Brasil,
a televisão via IP é uma realidade distante: ela pressupõe
acesso à internet rápida, recurso utilizado por cerca de 3% da população
do país. A demora brasileira não é necessariamente ruim,
desde que se aproveite o atraso para adotar uma tecnologia já testada e
consolidada. Uma decisão equivocada pode custar bilhões.
O consumidor que quiser aproveitar algumas das possibilidades
permitidas pela TV digital sem trocar de aparelho, como comércio pela TV
e escolha de uma câmera diferente para assistir à programação,
terá de investir entre 100 e 150 dólares por um aparelho conversor,
chamado set-top box. Para ter a imagem de alta definição, só
comprando uma TV nova. As de plasma, no início, deverão custar cerca
de 10 000 reais. Atualmente, nem os conversores nem os aparelhos de televisão
digital são produzidos no país, mas se espera que as empresas o
façam assim que o padrão for anunciado. Nos Estados Unidos o preço
dos aparelhos tem caído 40% ao ano, fenômeno que deve se repetir
no Brasil conforme aumente a procura. Segundo
Roberto Franco, diretor do SBT e presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia
de Televisão e Telecomunicações, uma vez definido o padrão,
um período de um ano a um ano e meio será necessário até
o início da operação comercial da TV digital no Brasil. É
o prazo para adaptar a produção e a transmissão, estabelecer
um novo modelo de publicidade e conteúdos específicos e atingir
"escala de público" entenda-se as classes A e B, que devem aderir
em até cinco anos. Que ninguém pense,
porém, que a transmissão analógica será abandonada
em um prazo tão pequeno: o modelo de transição brasileiro
exige que as emissoras usem um segundo canal para transmitir digitalmente, mantendo
o modelo tradicional até que a grande maioria da população
tenha aderido. O ministro das Comunicações calcula que seja necessária
uma década. Nos Estados Unidos, onde o processo foi iniciado em 1997, apenas
12% da população já está adaptada à TV digital.
Lá, o prazo final para pegar o bonde do futuro é abril de 2009.
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