Índice
Carta ao leitor
Cenários: As parcerias entre grandes empresas na disputa pelo mercado global
Entrevista: John Battelle, autor de um livro que disseca o Google
Celulares: Os modelos que fazem sucesso no mundo inteiro
Foto digital: Um guia para armazenar, compartilhar e imprimir suas imagens
Informática: Vem aí a próxima geração de processadores, de 64 bits
TV digital: O Brasil adota um padrão de alta definição semelhante ao japonês
Medicina: Os novos equipamentos que mostram detalhes milimétricos do corpo humano
Inteligência: Ela já chegou às roupas, aos carros e aos eletrodomésticos
Sem fio: Como funciona o WiMax, que permitirá acesso à internet de banda larga em cidades inteiras
Entrevista: Jean Paul Jacob, o futurólogo brasileiro da IBM
Games: Os novos jogos e máquinas que transformaram o entretenimento em arte
Tradução: O primeiro software que ouve uma frase em um idioma e a pronuncia em outro
Rádio: A transmissão digital chega ao Brasil e renova um velho meio de comunicação
MP3: Por que o iPod faz tanto sucesso com suas diferentes versões
Entrevista: Ted Nelson, o pai do hipertexto, critica a internet atual
Guia de produtos: Os lançamentos no mercado de eletrônicos deste fim de ano
Celulares
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Depois de anos de arrastadas discussões,
o Brasil entra com atraso no mundo
da HDTV adotando o padrão japonês


Letícia Sorg

"Quem apostar que o sistema de alta definição japonês, com algumas adaptações, será o adotado pelo Brasil não vai perder a aposta", disse a VEJA Hélio Costa, no início deste mês. O ministro das Comunicações foi ainda mais longe: afirmou acreditar que transmissões experimentais ocorram já em junho do ano que vem, durante a Copa do Mundo da Alemanha. A decisão oficial deve ser anunciada em janeiro, o que representa um avanço em uma discussão que já se arrasta há alguns anos, mas não significa que esteja próximo o dia em que os brasileiros poderão trocar seus televisores analógicos pelos novos aparelhos de HDTV, como já ocorre nos Estados Unidos e em outros países do Primeiro Mundo (veja quadro).

A introdução da TV de alta definição no Brasil vinha sendo retardada pela dúvida quanto ao padrão a adotar. Eram três os sistemas que concorriam pela predileção do Brasil: americano, europeu e japonês. No último ano, foram exaustivamente analisados por um consórcio de empresas, universidades e associações convocado pelo ministério. Nas gestões anteriores no Ministério das Comunicações, cogitou-se a adoção de um padrão próprio, nacional, mas isso representaria um investimento de bilhões de dólares, de utilidade duvidosa.

Cada padrão tem sua vantagem. Numa análise resumida, o americano prima pela alta qualidade de imagem. O europeu, pela interação entre telespectador e emissora. O japonês, pela facilidade no uso da imagem em aparelhos móveis, como PDAs e celulares, além de ter um sistema de transmissão robusto, adequado ao terreno acidentado de algumas cidades do país. Esse último argumento pode ter sido decisivo. A Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão e Telecomunicações, que congrega as empresas e profissionais, divulgou sua preferência pelo pacote japonês. A ela, o Ministério das Comunicações atribui um peso de 50% na decisão. Pesquisas realizadas pela Universidade de São Paulo apontam na mesma direção e prevêem também melhorias em relação aos padrões adotados pelos japoneses.

Quem já teve oportunidade de assistir a uma transmissão em alta definição sabe que o investimento vale a pena. A imagem tem resolução pelo menos duas vezes superior à dos aparelhos tradicionais. Em uma partida de futebol, por exemplo, isso permitirá captar melhor detalhes como a expressão do rosto de um jogador, aproximando a experiência de ver o jogo em casa daquela vivida pelo torcedor no estádio. O serviço digital também possibilitará escolher por qual câmera assistir a um show, responder com o controle remoto a uma enquete instantânea ou até obter informações sobre o vestido da estrela da novela.

Além de permitir imagens em alta resolução, o padrão brasileiro deverá comportar transmissões em baixa definição – adequadas principalmente aos dispositivos móveis como os celulares – uma tendência que não era prevista pelo modelo americano, o primeiro a entrar no mercado. O risco da caduquice tecnológica galopante, como ocorreu com os americanos, é uma das maiores preocupações quando se toma uma decisão como essa. Para evitá-lo, o sistema brasileiro deve prever compatibilidade com tecnologias ainda mais avançadas, como a transmissão de televisão via protocolo de internet, por exemplo. Tida como um passo além na direção do futuro, a TVIP não foi esquecida por Marcelo Zuffo, coordenador do grupo que estuda os terminais de acesso à TV digital e professor da Escola Politécnica da USP. "A arquitetura do terminal de acesso que desenvolvemos funcionará independentemente do tipo de rede, seja sinal terrestre, como temos agora, sejam protocolos de internet", afirma Zuffo. A compatibilidade foi pensada mesmo se sabendo que, para o Brasil, a televisão via IP é uma realidade distante: ela pressupõe acesso à internet rápida, recurso utilizado por cerca de 3% da população do país. A demora brasileira não é necessariamente ruim, desde que se aproveite o atraso para adotar uma tecnologia já testada e consolidada. Uma decisão equivocada pode custar bilhões.

O consumidor que quiser aproveitar algumas das possibilidades permitidas pela TV digital sem trocar de aparelho, como comércio pela TV e escolha de uma câmera diferente para assistir à programação, terá de investir entre 100 e 150 dólares por um aparelho conversor, chamado set-top box. Para ter a imagem de alta definição, só comprando uma TV nova. As de plasma, no início, deverão custar cerca de 10 000 reais. Atualmente, nem os conversores nem os aparelhos de televisão digital são produzidos no país, mas se espera que as empresas o façam assim que o padrão for anunciado. Nos Estados Unidos o preço dos aparelhos tem caído 40% ao ano, fenômeno que deve se repetir no Brasil conforme aumente a procura.

Segundo Roberto Franco, diretor do SBT e presidente da Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão e Telecomunicações, uma vez definido o padrão, um período de um ano a um ano e meio será necessário até o início da operação comercial da TV digital no Brasil. É o prazo para adaptar a produção e a transmissão, estabelecer um novo modelo de publicidade e conteúdos específicos e atingir "escala de público" – entenda-se as classes A e B, que devem aderir em até cinco anos.

Que ninguém pense, porém, que a transmissão analógica será abandonada em um prazo tão pequeno: o modelo de transição brasileiro exige que as emissoras usem um segundo canal para transmitir digitalmente, mantendo o modelo tradicional até que a grande maioria da população tenha aderido. O ministro das Comunicações calcula que seja necessária uma década. Nos Estados Unidos, onde o processo foi iniciado em 1997, apenas 12% da população já está adaptada à TV digital. Lá, o prazo final para pegar o bonde do futuro é abril de 2009.