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1963
- 1964: Nasce Zé do Caixão
Trecho
de: Maldito A Vida e o Cinema de José Mojica
Marins, o Zé do Caixão (André Barcinski
e Ivan Finotti; Editora 34; 448 páginas)
O
fracasso de Meu Destino em Tuas Mãos foi uma lição
amarga. Mojica decidiu que nunca mais faria um filme apenas para
agradar aos outros.
De que adianta agradar aos padres e fazer um filme que ninguém
quer ver? disse a seus alunos. Temos que fazer os
filmes que o povão quer ver! E o povão quer é
ação e sexo! Ninguém quer pagar pra ver coisa
chata!
Mojica
sugeriu filmarem Geração Maldita, um roteiro policial
que ele tinha guardado há quase dez anos. Augusto Pereira,
ainda abalado financeiramente pelo prejuízo de Meu Destino
em Tuas Mãos, não quis nem saber de produzir o
novo filme. A única solução para Mojica seria
convencer seus alunos a comprar cotas da fita.
Ele
reuniu a turma e contou a trama em detalhes, caprichando na dramaticidade.
Prometeu um filme cheio de ação e aventura, com muitas
reviravoltas na história e um final apoteótico, em
que bandidos e polícia se enfrentariam num tiroteio até
a morte. Seu poder de persuasão era realmente extraordinário,
e os alunos ficaram extasiados. Eles já se viam filmando
arriscadas cenas de perseguição, tiroteios sangrentos
e panca-darias mil. Ficou combinado que o filme seria rodado em
35 milímetros e financiado novamente pelo nebuloso sistema
de cotas. Mojica não perdeu tempo e ordenou à turma
que começasse imediatamente a arrecadação da
verba:
Vale qualquer coisa: façam pedágio nos bairros, arrumem
patrocínios com lojas, vendam cotas... Se for preciso, implorem
para seus pais! Dinhei-ro é dinheiro, não me importa
de onde venha!
Enquanto
seus devotos tratavam de conseguir a verba para o filme, Mojica
passou os dias seguintes pensando no roteiro. Ele gostava da história,
mas sentia que estava faltando um ingrediente crucial: sexo.
Temos bastante ação e violência, mas precisamos
de algumas cena mais quentes! disse a Mário Lima.
Não tem nenhuma sacanagem nesse filme!
Mojica
foi para casa, prometendo pensar em seqüências da pesada.
No dia seguinte, já entrou no estúdio aos gritos:
Venham todos! Tive uma idéia!
A
turma reuniu-se em volta de Mojica. Ele fechou os olhos e levanto
os braços para o céu, como se estivesse tendo uma
visão. Depois começou a narrar:
A câmera passeia por uma igreja lotada. Está acontecendo
um casamento. Não é um casamento qualquer... O noivo
é um dos bandido mais perigosos da cidade. É o chefe
de uma quadrilha de assassinos.. Todos os comparsas estão
na igreja... O padre diz: "Se alguém tiver algu ma coisa
contra este casamento, que fale agora ou cale-se para sempre..."
Daí um membro de uma gangue rival entra na igreja e diz:
"Pera lá, seu padre, que eu tenho uma coisa aqui que
pertence à noiva", e tira do bolso uma calcinha. Ele
diz: "Essa vagabunda esqueceu isso ontem lá no hotel!"
O noivo fica revoltado, puxa um 3 8 e começa um tiroteio
do cacete dentro da igreja!
Os
alunos ficaram perplexos:
É boa a cena, mestre, mas não tem muito a ver com
a trama, né? perguntou um deles.
Não se preocupe, depois a gente inventa alguma cena de ligação.
Mas não vai ficar meio pesado? Esse troço de calcinha
no hotel não é direito, e ainda mais dentro da igreja!
Que nada, o público quer é isso mesmo! Não
viu o que acontece quando a gente foi confiar na opinião
dos outros? Agora temos que botar pra quebrar! Nesse filme vai ter
sexo e tiro de sobra!
O
próximo passo seria selecionar os atores. Para isso, Mojica
usou um tática tão esdrúxula quanto oportunista:
em vez de dividir o elenco base do no talento de cada aluno, distribuiu
os papéis de acordo com a quantia que cada um havia desembolsado
para ajudar a produção.
Se alguém se sacrificou pelo filme, merece um bom papel.
Quanto mais grana, mais destaque!
Mas
a época era de vacas magras. Por mais que os alunos se esforçassem,
não estavam conseguindo arrecadar o suficiente. Era, afinal,
uma produção cara, com diversas locações,
perseguições de automóvel, tiroteios e um elenco
numeroso. Os alunos eram uns pobretões, e os trocados que
haviam juntado de parentes e amigos não seriam suficientes
para rodar nem um terço da fita. Mojica pressentiu que não
conseguiria a verba para o filme. Mais um fracasso, mais um projeto
inacabado. Ou, pior, sequer inicia-do! Seu nervosismo e insegurança
voltaram com força redobrada. Voltou para casa deprimido.
Naquela noite, demorou horas para pegar no sono...
***
Era
uma noite fria e Mojica estava deitado de costas no chão,
ao relento. Por mais que tentasse, não conseguia mover seu
corpo. Estava paralisado. De olhos abertos para o céu, via
as estrelas e, no canto dos olhos, alguns galhos de árvores.
Julgou estar num jardim. Sentiu a aproximação de al-guém.
Viu o vulto de um homem. A imagem estava turva. Na escuridão,
distinguia apenas uma silhueta.
A
figura começou a se delinear com mais claridade. Era um sujeito
baixo, magro, vestido de negro da cabeça aos pés.
Havia, no entanto, algo de muito peculiar naquela figura: o rosto.
Sim, o rosto era familiar. O quei-xo pontudo, as sobrancelhas espessas,
a barba rala... Ele lhe lembrava al-guém... A imagem fez-se
mais clara, e Mojica pôde ver o rosto da figura... Não,
não era possível! Não podia ser! Olhou fixamente
para o homem e confirmou o que temia... Era ele próprio!
Mas como podia ser? Existiriam dois Mojica?
Sem
dizer nada, o clone o pegou pelos braços e começou
a arrastá-lo pelo terreno acidentado. Não era um jardim,
mas um cemitério! Mojica foi arrastado por entre sepulturas,
gritando em desespero. O clone parou em frente a uma cova aberta.
Mojica levantou os olhos e leu a inscrição na lápide:
JOSÉ MOJICA MARINS 1936 ...
Num
reflexo, fechou os olhos, para não ler a data da morte. O
clone começou a empurrá-lo para a cova aberta...
-
Não! Socorro! Pelo amor de Deus, me ajuda!
***
Acordou
empapado de suor. Rosita o abraçava.
O que foi, José? Meu Deus, como você gritou!
Foi um pesadelo horrível, Rosita! Nossa Senhora, se eu contar
você nem acredita!
Eram
quatro da manhã quando acordou. Estava suando frio e seu
coração batia a mil por hora. Que medo sentiu! Que
pânico! Teria sido um sinal? O que significava aquele pesadelo?
Estaria ele se matando pouco a pouco? Sim, deve ser isso, penso
ti, "eu estou me matando, estou me arruinando!". Sua vida
estava em frangalhos, sua carreira também, e ele próprio
era o culpado. Mojica não conseguiu mais pregar o olho. Decidiu
levantar. Rosita havia voltado a dormir. Ele se vestiu e foi para
a cozinha. Preparou um café, sentou-se à mesa, e começou
a recordar o pesadelo... já estava mais calmo. Os primeiros
raios de sol entravam pela janela da cozinha. O bairro continuava
em silêncio. Sozinho com seus pensamentos, pôde analisar
o sonho com mais frieza... Que cena! Que dramaticidade! Se conseguisse
passar para um filme um décimo da força daquela cena,
faria um filme genial!
Até que não era má idéia...
O
sonho foi como urna fagulha que incendiou sua imaginação:
come-çou a lembrar dos filmes de Boris Karloff e Bela Lugosi
que assistira no Santo Estevão. Como gostava de Drácula!
E Frankenstein! Ninguém conse-guia tirar os olhos da tela!
Lembrou-se de Torre de Londres, com Karloff, e do Drácula
de Lugosi....
É
isso! Um filme de terror! Por que não havia pensado nisso
antes?
Mojica
correu para o quarto, despediu-se da sonolenta Rosita com um beijo
displicente e saiu de casa. Andou apressado pelas ruas de terra.
A Casa Verde estava acordando. Operários começavam
a deixar suas casas rumo ao trabalho; padarias abriam as portas
para receber os primeiros fregueses. Absorto em seus pensamentos,
ele andava como um sonâmbulo, sem olhar para os lados, sem
falar com ninguém. Parecia estar vagando por outra dimensão.
Andou por quase uma hora e chegou ao estúdio na Frederico
Abranches. Mas não subiu. Antes, tocou a campainha num apartamento
no mesmo prédio.
Quem é? - gritou uma voz sonolenta.
Sou eu, o Mojica! Preciso falar com você!
-
Mas tão cedo assim?
-
É uma emergência!
Mojica
ouviu o barulho de movimento dentro da casa. Depois de alguns minutos,
uma moça abriu a porta. Era exatamente a pessoa que ele estava
procurando: sua aluna e secretária da Apolo, uma moça
simpática e muito prestativa cujo nome em nada refletia sua
eficiência e boa vontade. Chamava-se Neutra.
Desculpe acordar você numa hora dessas, Neutra, mas preciso
da sua ajuda. Você tem que ir comigo pra escola, já!
Quando
os alunos começaram a chegar para a aula, lá pelas
quatro da tarde, viram Mojica andando de um lado para o outro do
escritório, ditando cenas em voz alta para Neutra, que batia
tudo à máquina. A moça, exausta, se esforçava
para acompanhar o ritmo frenético da imaginação
de Mojica:
Mais devagar, mestre, que eu não sou datilógrafa profissional!
Algum
tempo depois, Mojica finalmente disse "Fim", para felicidade
da moça, que estava prestes a desmaiar de fome e cansaço.
Ele mandou reunir os alunos e, erguendo numa das mãos um
calhamaço de papel dati-lografado, como um pastor exibindo
a Bíblia, disse:
Vocês
sabem o que é isso aqui? É a nossa salvação!
Tratava-se
de um filme de terror, explicou Mojica. Chamava-se À Meia-Noite
Levarei Sua Alma e era a história de um coveiro chamado
Zé do Caixão, que aterrorizava uma cidade, matava
um monte de gente e no final era morto pelos espíritos de
todas as pessoas que ele havia assassinado. Os alunos acharam aquilo
tudo uma tremenda palhaçada.
Mas mestre, e o filme de bandido? É, nós gostamos
tanto daquele filme! - reclamou outro.
Mojica
explicou que Geração Maldita seria muito caro
e que já havia outros filmes policiais sendo feitos. Terror,
não, ninguém fazia filmes de terror no Brasil. Eles
seriam os primeiros. Seus discípulos não gostaram
nada da idéia de desistir do filme policial, mas Mojica estava
obcecado, e eles sabiam que, quando o mestre punha alguma coisa
na cabeça, era impossível fizê-lo mudar de idéia.
Ele contou seu pesadelo, disse que aquilo era um aviso do Além,
e que eles se arrependeriam se contrariassem uma men-sagem dos céus.
A maioria se convenceu. Alguns, no entanto, desistiram de colaborar
com dinheiro para o novo filme.
Cerca
de quarenta alunos toparam arriscar seu dinheiro na empreitada,
Mojica estipulou um preço por cota 100 mil cruzeiros,
o equivalente na época a 100 dólares e começou
a vendê-las. Mário Lima comprou três cotas; Arildo
de Lima comprou logo quinze de uma vez. Até os pais de Mojica
colaboraram, com três cotas. Em duas semanas, Mojica havia
vendi-do oitenta cotas e arrecadado 8 milhões de cruzeiros
(cerca de 8 mil dólares).
Sem
Augusto para organizar as coisas, o esquema das cotas virou uma
bagunça: ninguém sabia a porcentagem que cada uma
representava sobre o orçamento total do filme, e a única
prova que tinham de seu investimento eram pequenos pedaços
de papel que Mojica recortou, escrevendo em cada um "vale uma
cota". Nem ele próprio tinha idéia do que estava
fazendo. A única coisa que lhe interessava era que agora
tinha algum dinheiro para começar o filme. Fez alguns cálculos
rápidos e concluiu que ainda precisa-ria de pelo menos 6
milhões de cruzeiros.
Mojica
organizou uma coleta entre parentes e tomou dinheiro empres-tado
de amigos. Seus pais, sempre dispostos a sacrifícios para
ajudá-lo, venderam o velho Mercury Sedan 1947 e investiram
tudo na fita. Mas ain-da não era suficiente. Mojica começou
a pressentir outro fracasso e entrou em depressão. Rosita
estava preocupada. Nunca vira seu marido tão nervo-so e irritado.
Os dias passavam e o desespero de Mojica só aumentava. Ele
chegava a chorar na mesa de tanta tristeza. A mulher tentava acalmá-lo:
Calma, José, que as coisas vão se ajeitar!
Mas como, Rosa? Eu não tenho mais a quem pedir dinheiro!
Minha carreira está acabada! Se eu não conseguir fazer
esse filme, vou fazer uma maluquice!
Ah é? Que maluquice?
Vou
me matar!
Deixa de drama, homem!
Não é drama não! Juro que me mato!
Mojica
aproveitou a cena altamente dramática para dizer o que vinha
ensaiando há dias:
Rosita, só tem uma solução: vamos sair de casa!
Assim dá pra economizar o dinheiro do aluguel!
E morar onde, José? Debaixo da ponte?
Não, Rosa, você pode ficar um tempo com seus pais enquanto
eu filmo, e logo depois que eu terminar a gente aluga outra casinha.
É o único jeito!
Ainda não entendi como é que sair de casa vai economizar
tanto dinheiro assim!
Não é só sair de casa, não, Rosa, tem
mais... Nós precisamos vender os móveis também...
Você está maluco, José?! Vender a mobília?
Você deve estar é com um parafuso a menos!
Mas
José implorou. Agarrou os joelhos de Rosita e chorou como
uma criança. Era a única solução, disse.
Prometeu que era só por um tempo, que logo ele conseguiria
recuperar o dinheiro e comprar uma mobília nova.
Eu juro por Deus, Rosa! Eu preciso fazer esse filme! Rosita, me
ajuda! Esse filme vai ser um sucesso e quando eu recuperar o dinheiro,
prometo que compro tudo novinho!
Rosita
sabia que era inútil brigar com o marido. Quando o assunto
era cinema, ele não enxergava mais nada. Mojica acabaria
vendendo toda a mobília, mesmo que ela se amarrasse à
cômoda. Furiosa, Rosita fez as ma Ias e foi para a casa dos
pais, na via Anchieta, em São João Clímaco.
Seu pai que já não ia com a cara do genro, passou
a abominá-lo: "Bem que falei pra você não
casar com aquele débil mental!".
Mojica
disse para Rosita que passaria os meses seguintes morando num hotelzinho
qualquer no centro, mas na verdade foi correndo para o apartamento
de Maria, no Brás. A separação "provisória"
entre ele e Rosita duraria para sempre. Os dois nunca mais morariam
sob o mesmo teto.
Depois
de despachar a esposa, Mojica chamou o dono de uma loja de móveis
de segunda mão para avaliar a mobília. O sujeito ofereceu
um mixaria e levou tudo: cama, estantes, armários, mesa de
jantar, poltronas sofá, até a geladeira. Mojica aproveitou
o embalo e vendeu também sua roupas. Ficou só com
duas camisas, uma calça e um par de sapatos, mas havia conseguido
juntar quase 6 milhões.
(...)
Quando
faltavam apenas dois dias para o início das filmagens, Dráusio
de Oliveira desistiu de interpretar Zé do Caixão.
A decisão foi tomada assim que ele descobriu que teria de
pegar numa caranguejeira de verdade. A notícia pegou Mojica
de surpresa: ele teria apenas 48 horas para encontrar um substituto.
Furioso, mandou convocar uma reunião de urgência com
os alunos e disse que precisava de um novo Zé do Caixão.
Os testes come-çariam imediatamente.
Foram
mais de seis horas de testes. Um por um, os alunos desfilaram na
frente de Mojica. Eles gritavam, rogavam pragas, faziam caretas
pavorosas e invocavam as forças do mal, mas nenhum foi capaz
de interpretar um vilão convincente. Pareciam constrangidos.
Suas falas saíam sôfregas; suas pragas, vacilantes.
Zé do Caixão parecia mais um frouxo do que um enviado
de Belze-bu. "Esse Zé do Caixão de vocês
não assusta nem barata!", reclamou Mojica. A cada teste
fracassado, aumentava seu nervosismo. Chegou a dar chutes na pare-de
de raiva. Depois de um teste particularmente ruim, perdeu a paciência:
Chega de testes! Querem saber de uma coisa? Eu mesmo vou fazer o
papel!
Era
a melhor solução. Já que ninguém conseguia
interpretar o persona-gem de forma convincente, ele mesmo faria.
Era melhor não depender de ninguém. Resolveu também
fazer de Zé do Caixão o bandido mais diabó-lico
que já se viu. "Vai ser pior que o Diabo!" Antes
pecar pelo excesso que pela covardia, pensou. Lembrou-se de como
havia freado seus instintos em Meu Destino em Tuas Mãos,
e do resultado constrangedor. Não, não cometeria o
mesmo erro. Nem que À Meia-Noite Levarei Sua Alma
fosse um fracasso, pelo menos faria tudo à sua maneira.
Mojica
decidiu também incrementar o visual de Zé do Caixão:
achou que o personagem ficaria bem usando uma capa preta, como Drácula.
Não adiantaram os argumentos dos alunos de que coveiro não
usava capa. "Não importa, Zé não é
um coveiro normal", disse, antes de pedir à sua sogra
que costurasse uma capa preta. Depois, inspirado pelo logotipo do
cigarro que fumava, o Clássico , que tinha duas bençalas
cruzadas sobre uma cartola, mandou comprar uma cartola preta. Para
finalizar, pediu ao maquiador Gilberto Marques que conseguisse longas
unhas postiças para suas mãos, Marques levou-o ao
famoso salão Antoine, no centro, onde uma mani-cure fez as
unhas especialmente para ele. O dono do salão gostou tanto
do trabalho que pediu a Mojica para exibir as unhas no programa
Clube do Lar, apresentado por Walter Forster e patrocinado
pelo próprio Antoine, que ia ao ar toda tarde no Canal 5,
das Organizações Vitor Costa. Mojica, louco por uma
publicidadezinha grátis, vestiu-se de Zé do Caixão
e correu para a emissora. Seria a primeira aparição
pública de Zé.
Walter
Forster apresentou Mojica como "um jovem diretor, que está
fazendo um filme de terror brasileiro." Assim que ele apareceu,
de capa preta, cartola e com aquelas unhas enormes, algumas senhoras
do auditó-rio soltaram gritos de espanto. Forster acalmou
as donas de casa e começou a entrevista. Primeiro perguntou
se ele se considerava discípulo de Drácula.
Não, meu personagem não é o Drácula.
respondeu Mojica Meu personagem é brasileiro
mesmo, um coveiro chamado Zé do Caixão.
Mas um agente funerário com capa?
Mojica
respondeu corri uma frase que se tornaria sua marca registrada:
Você sabe como é, Walter, quem não aparece,
desaparece!
O
público se descontraiu e dali em diante a entrevista foi
um sucesso: Mojica mostrou suas longas unhas, fez propaganda do
salão Antoine e falou do filme que estava prestes a rodar.
No encerramento, Forster perguntou como Zé do Caixão
reagiria se alguém lhe rogasse uma praga. Mojica respondeu:
É simples, eu rogaria outra praga de volta! Que tal essa:
Que a maldição se volte contra você e que você
vague pela eternidade sentindo as dores de um leitão assado!
O auditório
quase desabou de aplausos e gargalhadas. Zé do Caixão
era um sucesso, antes mesmo de seu primeiro filme.
No
dia seguinte, ainda embalado pelo triunfo na TV, Mojica foi ao estú-dio
da Odil Fono Brasil contratar dubladores para o filme. Naquela época
eram poucos os diretores que usavam som direto. No caso de À
Meia-Noite, todos os atores teriam de ser dublados, inclusive
ele. Seu maior problema não era exatamente a voz, mas sua
pronúncia sofrível e seu português horroroso.
Mojica travava duras batalhas com o plural e desde pequeno sofria
para pronunciar o "L". "Problema" virava "pobrema";
"alvará" era "arvarau"... Na Odil lhe
mostraram vários filmes, para que escolhesse um du-blador.
Mojica ficou particularmente impressionado com a voz usada para
dublar o ator italiano Mario Carotemito:
Essa é a voz que eu queria ter!
O dono
da tal voz era Laercio Laurelli, diretor de dublagem da Odial. Laercio
acabou se tornando a "voz oficial" de Zé do Caixão.
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