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1938 - 1950: Vila Anastácio
Trecho de: Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão (André Barcinski e Ivan Finotti; Editora 34; 448 páginas)

 

Aos 11 anos, ele ganhou de seu pai uma máquina fotográfica e criou uma espécie de cineminha de terror, inspirado no famoso "Bat-sinal" de Batman. O truque era simples: ele tirava fotos com filme preto-e-branco, mandava revelar o filme e colava os negativos na boca de uma lanterna de mão. Depois ia para algum lugar escuro e projetava a luz da lanterna numa parede branca, o que dava às imagens uma aparência fantasmagórica. Quando não havia sessão no Santo Estevão, Antônio deixava o filho projetar as imagens na telona do cinema

(...)

Não demorou para Mojica cansar-se do teatrinho mambembe que fazia com os colegas. Já se julgava um adulto. Como prova de maturidade e macheza, começou a fumar cigarros de folha de chuchu, verdadeiros mata-ratos que ele tragava numa rodinha com os amigos. Folheando uma revista certo dia, Mojica descobriu seu novo sonho de consumo: uma câmera 8 milímetros. Ele tanto insistiu com seu pai que acabou ganhando uma câmera como presente de aniversário de 12 anos. Depois disso, mal parava em casa: eram dias inteiros brincando com a máquina, ao lado de João Português, Abdul e Dinho.

Os primeiros experimentos da turma não passavam de brincadeiras de criança: filmavam o bairro, suas famílias, os vizinhos e colegas. Mojica conseguiu um projetor emprestado e exibiu seus primeiros filmes caseiros num lençol estendido em um varal no porão do cinema. Ele lembra do exato instante em que viu pela primeira vez uma de suas cenas - a fachada do Cine Santo Estevão – projetada na tela improvisada. Foi o dia mais feliz de sua vida.

A turma passou quase três anos-usando a câmera diariamente. Pouco a pouco, seus experimentos foram se tornando mais complexos. Eles ainda não tinham muita preocupação com enredo ou continuidade, mas já haviam começado a filmar cenas esparsas de brigas e perseguições. Mojica era o mais esperto do bando e foi o primeiro a descobrir os conceitos elementares de montagem. Sem dispor de um sistema de edição, ele percebeu que poderia criar seqüências de ação na própria câmera, simplesmente filmando as cenas em ordem e trocando sempre o ângulo de visão.

Assim, para filmar uma cena de briga, ele se postava atrás de um dos atores e mandava que este desse um soco em seu colega. Depois trocava o ponto de vista, filmando nas costas do sujeito que havia levado o murro. Quando projetavam o filme, a seqüência parecia fluida e cheia de movimento (infelizmente, todo esse material, filmado entre os anos de 1948 e 1950, se perdeu).

O primeiro experimento da turma a merecer o nome de "filme" – ou seja, o primeiro a ter um enredo com começo, meio e fim – foi o curta-metragerri 0 Juízo Final, rodado em 1949, quando Mojica tinha apenas 13 anos. O filme contava a história de um ataque de naves espaciais à Terra. Para fazer as naves – que tinham formato de caixão de defunto – Mojica usou novamente o recurso do "Bat-sinal", colando na boca de uma lanterna uma cartolina vazada com um buraco em for ma de caixão e projetando o facho de luz numa parede. Antônio, um tremendo pai-coruja, achou o filme uma obra-prima e deixou que eles o projetassem na tela do Santo Estevão [o pai de Mojica, Antônio, era gerente do cinema Santo Estevão].

 
       
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