Reportagem publicada em 27 de fevereiro de 1991

O último capítulo

Com o Iraque em ruínas e seu Exército
mutilado, Saddam Hussein sai em busca
de um final honroso para salvar seu governo
e disfarçar a humilhação da derrota

Ele queria se tomar o líder dos 200 milhões de árabes, transformar seu país numa superpotência e dominar as fontes por onde jorra o ouro negro que movimenta o planeta. Na madrugada do dia 2 de agosto do ano passado, despachou seus soldados para uma marcha triunfal sobre um vizinho rico e indefeso, incorporado ao seu território como mais uma província. Quando o mundo estarrecido respondeu com uma gigantesca mobilização militar para obrigá-lo a soltar sua presa, ele permaneceu impassível. Ignorou solenemente doze resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas e ameaçou transformar o deserto num oceano com o sangue dos 700 000 soldados mobilizados para reverter a invasão. Deflagrada a guerra, suportou, durante cinco semanas, um dos mais pesados bombardeios aéreos de toda a História.

Na semana passada, a aventura de Saddam Hussein se aproximava do final. Com o Iraque em ruínas, seu Exército mutilado antes de conseguir acertar praticamente um único tiro e a coligação de 28 países liderada pelos Estados Unidos em ponto de bala para o fulminante assalto às posições iraquianas no Kuwait, o ditador se agarrava às derradeiras chances de escapar à humilhante rendição ou ao massacre inexorável no campo de batalha. Derrotado antes mesmo do início dos combates em terra, Saddam admitia a retirada e procurava salvar o que fosse possível do que tinha antes da invasão - o Exército, o regime e, até mesmo, a própria vida.

Na manhã de sábado parecia que era tarde demais para salvar essas três coisas ao mesmo tempo. Boa parte da máquina de guerra de Saddam já parecia irremediavelmente perdida, a permanência no poder ameaçada e, quanto à sobrevivência física, dificilmente uma companhia de seguros se arriscaria a fazer uma apólice para o ditador. À exceção de um ataque com armas químicas de duvidosa eficácia militar, todos os cartuchos de Bagdá já haviam sido queimados, com o mesmo destino dos Scud - os paleolíticos mísseis que de início causaram pânico em Israel e na semana passada já eram até motivo de piada. Os israelenses, que agora raramente carregam consigo as incômodas máscaras antigás, inventaram um nome para se referir à região oeste do Iraque, de onde são lançados os Scud: Scudnávia.

Bom humor à parte, o fato é que Saddam fracassou em sua tentativa de arrastar Israel à guerra. Também não conseguiu dividir os aliados ou mobilizar os pacifistas no Ocidente, nem mesmo depois que a televisão mostrou as imagens dramáticas de um abrigo civil em Bagdá com centenas de cadáveres, arrasado por engano num bombardeio. E a tão falada rebelião das massas muçulmanas contra os governos árabes que se alinharam com os "infiéis" americanos não deu sinais de ser um perigo real. Para completar, o último fantasma com o qual Saddam ainda tentava incutir medo aos aliados - a perspectiva de pesadas baixas caso ousassem enfrentar os soldados iraquianos em terra - mostrava-se a cada dia menos pavoroso na medida em que os estragos produzidos pelos ataques aéreos pulverizavam a capacidade de resistência das tropas entrincheiradas no Kuwait.

O amigo soviético - Na situação do enxadrista que perdeu todas as peças importantes e ainda assim se recusa a derrubar o rei em sinal de derrota, Saddam Hussein passou a última semana inteira tentando negociar uma saída diante de inimigos que não escondiam a disposição de só aceitar do tirano de Bagdá uma única atitude: a rendição. Com um desespero de náufrago, o regime iraquiano se agarrou à tábua salvadora lançada por um mediador de última hora, o presidente soviético Mikhail Gorbachev, prêmio Nobel da Paz de 1990. Fazendo uma parte do percurso por terra, através do Irã, porque os aliados se recusaram a dar garantias de que seu avião não seria abatido, o ministro das Relações Exteriores do Iraque, Tariq Aziz, viajou duas vezes a Moscou até conseguir fechar os termos de urna proposta de cessar-fogo anunciada pelos soviéticos na madrugada de quinta para sexta-feira. Novo fracasso, mas, ainda assim, um caminho para se chegar ao fim da guerra.

A resposta do presidente americano, George Bush, numa rápida declaração à imprensa nos jardins da Casa Branca, não poderia ser mais clara: "É desnecessário dizer que não aceitaremos nenhuma condição para a retirada iraquiana", afirmou na sexta de manhã, depois de empunhar durante horas sua arma favorita - o telefone - em consultas aos dirigentes aliados. Bush acusou o Iraque de praticar no Kuwait uma política de "terra arrasada", ao atear fogo aos poços de petróleo do país ocupado (urna denúncia confirmada por um filme da televisão inglesa com as torres em chamas), e deu um prazo até o meio-dia de sábado, no horário de Washington, para uma retirada incondicional. Bush elogiou o esforço soviético, mas sua concessão maior foi adiar o início da invasão do Kuwait por terra até o meio-dia de sábado. Horas depois, os soviéticos voltavam à cena com um aderido, imediatamente endossado pelo Iraque, que tomava explícitas as concessões apenas sugeridas na véspera (veja as propostas no quadro).

Plano da URSS
Retirada incondicional das forças iraquianas do Kuwait
Retirada em três semanas, a partir do dia seguinte ao cessar-fogo
Suspensão das resoluções da ONU contra o Iraque após a retirada total
Libertação dos prisioneiros de guerra 72 horas depois do cessar-fogo
Supervisão da retirada por uma força de paz

Resposta Aliada
Início da retirada até as 12 horas do sábado dia 23, hora de Washington, com prazo de 7 dias
Evacuação da Cidade do Kuwait e retorno do emir Al-Sabah ao palácio 48 horas após o início da retirada
Remoção das defesas e dos explosivos plantados ao longo das fronteiras
Libertação imediata dos prisioneiros de guerra

O plano soviético, anunciado depois de duas horas e meia de conversa entre Gorbachev e Aziz, no Kremlin, continha, aparentemente, todos os ingredientes necessários para satisfazer os países da coligação antiiraquiana. Ao contrário da primeira proposta iraquiana de paz, divulgada pela "Rádio Mãe das Batalhas" uma semana antes, no dia 15 de fevereiro, a iniciativa soviética deixava de lado a exigência, inaceitável para os aliados, de que a retirada do Kuwait fosse acompanhada da devolução, por Israel, dos territórios palestinos ocupados depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967. A saída das tropas é uma realidade. A diferença, materializada na proposta de Gorbachev aceita por Saddam Hussein e na contraproposta americana, diz respeito aos prazos e mecanismos pelos quais o Exército iraquiano sairá do Kuwait.

Saddam aceita sair do país que ocupou num prazo de 21 dias, a começar no dia seguinte ao cessar-fogo. Depois de dois terços de suas forças terem abandonado o Kuwait, a resolução da ONU que estabelece o embargo ao Iraque perderia sua validade. Já Bush quer que o Exército do Iraque saia do Kuwait em sete dias. O cessar-fogo, na contraproposta americana, só teria início no momento em que houvesse manifestações inequívocas de que Saddam estivesse tirando suas tropas do país que invadiu. Quarenta e oito horas depois do início da retirada, a capital do país, Cidade do Kuwait, teria de estar completamente livre, para que o governo do emir pudesse se instalar.

Bombas eloqüentes - O nó da discórdia está numa retirada de sete ou 21 dias. Em uma semana, Saddam não poderá sair com boa parte de seus tanques e armamentos do Kuwait. Terá menos chances, portanto, de recompor seu poder de fogo e voltar a ameaçar os países vizinhos. Em 21 dias, terá mais forças militares a seu dispor. Saddam não aceitou o prazo de sete dias, e desferiu mais uma torrente de bravatas na sexta-feira. Bush não aceitou a retirada em 21 dias, e continuou a despejar sua torrente de bombas sobre as tropas e instalações militares iraquianas. Como bombas são sempre mais eloqüentes que palavras, é razoável supor que Bush está em grande vantagem no xadrez da negociação final. Mesmo assim, o xeque-mate, na forma da ofensiva terrestre postergada para depois do meio-dia de sábado, é uma manobra arriscada. No bombardeio aéreo, as perdas dos aliados foram mínimas. Numa batalha no deserto, mesmo com. a máquina militar iraquiana em pane, a possibilidade de morrerem centenas de americanos é real. Nessas condições, os americanos podem continuar a bombardear o Iraque por um longo período, até a capitulação irrestrita. "Em vez da paz, Saddam escolheu a guerra", sentenciou o secretário de Estado americano, James Baker. "O Iraque terá de sair do Kuwait por bem ou por mal, e bem depressa."

Caso viva o suficiente para escrever seu livro de memórias, Saddam Hussein não poderá se queixar de que os aliados não lhe deixaram uma porta de saída. Uma fórmula de retirada do Kuwait bem mais generosa do que a soviética - incluía até mesmo uma conferência para tratar da questão palestina - foi apresentada nas vésperas da guerra pelo presidente François Mitterrand, da França, e descartada pelo Iraque com desprezo. A proposta, que destoava da linha dura praticada desde o início pelos Estados Unidos, na época quase provocou um racha na coligação. Agora, por efeito da própria lógica da guerra, as metas da aliança antiiraquiana não se resumem mais à pura e simples retirada do Kuwait. Já não basta voltar para trás o relógio da História até o dia 12 de agosto, raciocinam os aliados. É necessário garantir que o agressor, desmoralizado e enfraquecido, nunca mais possa repetir a agressão. "A Casa Branca não quer receber, daqui a dois anos, um telefonema dizendo que Saddam Hussein não só continua firme no poder como também voltou a ameaçar seus vizinhos no Golfo Pérsico", definiu o jornalista Sam Donaldson, da rede de televisão ABC, dos Estados Unidos.

Moby Dick - "As negociações estão superadas há muito tempo", dizia Baker no início da semana, sem rodeios. "Passamos seis meses tentando o diálogo. Agora não haverá cessar-fogo", martelou. "Não podemos negociar e lutar ao mesmo tempo", concorda o coronel da reserva David Hackworth, o soldado americano vivo mais condecorado da História do país, contratado pela revista Newsweek para acompanhar os preparativos das tropas no deserto saudita. "Fizemos isso em duas guerras e nos demos mal", acrescentou, numa referência aos conflitos na Coréia e no Vietnã. Para o presidente Bush - que na intimidade da Casa Branca raramente se refere a Saddam pelo nome, preferindo dizer simplesmente "aquele bastardo mentiroso" -, o conflito no Golfo se tornou uma batalha do bem contra o mal. "Ele é como o capitão Ahab perseguindo Moby Dick", define o professor de Literatura Edward Said, um palestino exilado que dá aulas na Universidade de Columbia, em Nova York. "Bush está completamente obcecado por Saddam." O presidente americano, segundo seus assessores mais próximos, estava convencido até a noite de sexta-feira passada de que ainda era cedo para apelar tão-somente para a diplomacia, deixando os bombardeios em segundo plano. "Ele não está procurando uma saída para a guerra, e sim uma vitória militar", analisa o jornalista Thomas Friedman, do The New York Times, autor de um dos livros mais importantes já publicados sobre os conflitos do Oriente Médio. E vitória, no caso, não é simplesmente a volta das tropas iraquianas para casa: se Saddam é uma versão moderna de Hitler, como o presidente americano não se cansa de repetir, qualquer resultado que não lembre um pouco a rendição da Alemanha nazista na II Guerra terá o gosto de uma vitória inacabada, um trabalho interrompido pela metade. Para que isto não aconteça, é necessário apertar até o fim o torniquete contra o ditador, de modo que, aos olhos de seu próprio povo e dos demais povos da região, não paire a menor dúvida de que foi Saddam quem perdeu a parada. "Quanto menos ambíguo for o fim da guerra, maior estatura terão os Estados árabes moderados que cooperaram com a operação Tempestade no Deserto", opinou Henry Kissinger, ex-secretário de Estado americano e uma das primeiras vozes, no cenário político americano, a defender desde o início que a queda-de-braço com o Iraque deveria ser levada até as últimas conseqüências.

Gangue de motoqueiros - A destruição da terça parte da máquina militar do Iraque no Kuwait - conforme a avaliação que o comando aliado faz dos resultados dos bombardeios até agora - não é considerada suficiente. Se a guerra terminasse na sexta-feira passada, Saddam não apenas permaneceria no poder, embora sem a força militar que exibia há seis meses, como seu Exército ainda seria mais forte do que o de todos os vizinhos, com a possível exceção do de Israel. Para a Arábia Saudita, a anfitriã das forças multinacionais que lutam contra Saddam, o desconforto de conviver com o ditador depois da guerra seria comparável ao de um cidadão comum que tem como vizinho do lado uma gangue de motoqueiros. Os sauditas não são os únicos a manifestar inquietação. "A espinha daquele homem tem que ser quebrada", afirmou o presidente Turgut Ozal, da Turquia, um país que faz fronteira com o norte do Iraque e cede suas bases aéreas para os bombardeios americanos.

Nos planos da Casa Branca, a idéia de que Saddam ainda possa sair impune da rapinagem no Kuwait ganha os contornos de um pesadelo. Mesmo cumprindo todos os pontos da cartilha da ONU, ele ainda poderia juntar o que sobrou de suas tropas, tanques e mísseis, mais os aviões que escondeu no Irã para poupá-los dos bombardeios, e organizar urna parada apoteótica pelo centro de Bagdá, posando como o herói árabe que desafiou as maiores potências do Ocidente e saiu inteiro para contar vantagem. Diante desse cenário de filme de terror, que obrigaria os Estados Unidos a manter tropas estacionadas no Golfo Pérsico por anos a fio, Bush adotou a única atitude coerente com seus objetivos: rebater as propostas iraquianas com as exigências mais duras que pôde formular dentro das resoluções da ONU - e torcer para que elas não sejam aceitas.

Nos braços de Alá - Para manter o ditador acuado contra a parede, os aliados elevaram a pressão militar ao ponto máximo. Na reta final para a ofensiva terrestre, as forças da coligação avançaram na semana passada 50 quilômetros dentro do Kuwait, de onde voltaram com um saldo de 500 iraquianos capturados e a convicção de que as defesas inimigas são bem mais vulneráveis do que se pensava. Na avaliação do general americano Norman Schwarzkopf, comandante supremo da operação Tempestade no Deserto, os iraquianos estavam perdendo uma média de 100 tanques por dia - nesse ritmo, em mais algumas semanas não restará a Saddam mais nada a retirar do Kuwait, exceto os mortos e os feridos.

"Eles estão à beira do colapso", proclamou Schwarzkopf ao avaliar os estragos causados pelas armas mais mortíferas do arsenal convencional americano, que os generais decidiram só colocar em ação nesta última etapa, com a tarefa que a terminologia militar chama de "preparação do terreno de batalha". Para abrir caminho à passagem das tropas, a aviação começou a usar, maciçamente, a superbomba BLU-82, mais conhecida como daisy cutter, a corta-margaridas. Detonada a poucos metros acima do solo, ela nivela tudo em seu raio de extensão, com um choque equivalente ao de uma bomba atômica, mas sem liberar radiação. A outra arma que estreou na semana passada foram os lançadores múltiplos de foguetes, cujos projéteis, guiados por raio laser, se dividem para provocar uma chuva de 644 bombas pequenas. "Não sei quem está lá embaixo, mas estamos mandando para os braços de Alá", comentou o tenente-coronel americano Scott Lingamfelter.

"Solução Badoglio" - Corno resultado dos ataques maciços, os aliados pretendem abrir, no território atualmente em poder dos iraquianos, verdadeiras "avenidas" no deserto, com até 20 quilômetros de largura, para que os blindados possam avançar com o máximo de velocidade. "Queremos nos deslocar tão depressa quanto pudermos, e destruiremos tudo pelo caminho", afirmou um general americano ao jornal The Washington Post. "Será uma campanha baseada na velocidade e na violência." Entre os especialistas americanos, a opinião predominante era que a parada poderá ser resolvida num tempo muito menor do que se imaginava inicialmente. "Os aliados podem libertar o Kuwait em menos de uma semana, com menos de 1.000 mortes", calculava o cientista político John Mearsheimer, da Universidade de Chicago.

Em Washington, notícias sobre protestos populares no Iraque davam combustível à tese de que a alternativa a uma guerra total não é um acordo de paz, mas a deposição de Saddam. É a chamada "solução Badoglio", alusão ao marechal italiano que derrubou Mussolini nos estertores da II Guerra e assinou a paz com os aliados. Não foi outra coisa, aliás, o que o próprio presidente Bush sugeriu ao afirmar que a melhor maneira de pôr fim à guerra seria o povo do Iraque se livrar do tirano por suas próprias mãos. Fácil de falar, difícil de fazer: diante da perspectiva de acabar como a maioria de seus antecessores - o pelotão de fuzilamento -, Saddam provavelmente resistirá até o fim, como Hitler no seu bunker em Berlim. Aos iraquianos, o consolo é torcer por um improvável acordo ou, pelo menos, para que a tragédia iniciada com a invasão do Kuwait termine logo, e com um mínimo de vítimas. Como disse George Orwell, o autor de 1984, "a maneira mais rápida de acabar com uma guerra é perdê-la."

 
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