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Reportagem
publicada em 30 de janeiro de 1991
Será longa, dura e sangrenta
Dura
pouco a euforia inicial dos americanos e Saddam
mostra que vai resistir golpeando onde puder acertar
"O
início de toda guerra é como abrir uma porta para
uma sala escura. Nunca se sabe o que está escondido na escuridão."
A reflexão foi feita em 1941 por um homem que entendia pouco
de estratégia militar, embora fosse um especialista em trevas
(Adolf Hitler), na véspera da data em que ele próprio
colocou a mão na maçaneta da porta que acabaria por
levá-lo à escuridão final (a invasão
da Rússia pela Alemanha nazista). É inconcebível
imaginar o general Norman Schwarzkopf, o comandante das forças
da frente antiiraquiana, assinando a rendição perante
Saddam Hussein às portas da Cidade do Kuwait, como aconteceu
em 1943 com o general Friedrich Paulus, derrotado e preso pelo Exército
Vermelho em Stalingrado. As surpresas que Saddam escondia por trás
da porta da guerra, no entanto, bastaram para desmentir as promessas
triunfalistas com que desde sempre os povos são levados a
guerras que não sabem como vão acabar. E surpresas
não faltaram. Usando táticas que revelam um inimigo
"engenhoso e cheio de recursos", segundo definiu o general
Colin Powell, o chefão militar americano, na clássica
manobra de levantar a bola do adversário para justificar
os próprios percalços, os iraquianos mostraram urna
sortida coleção de truques. Aviões escondidos
debaixo da terra, bunkers inacessíveis, mísseis Scud
que se recusavam a cumprir as ordens dos militares americanos que
os davam por "neutralizados", alvos falsos que enganavam
os atacantes e até uma penca de sósias do ditador
para despistar eventuais assassinos.
Com
ou sem sósias, Saddam Hussein, submetido a uma blitzkrieg
high tech como jamais se viu na História, não só
continuava ileso até o início da manhã de sábado
como mantinha as linhas de comunicação com seus comandados
- um dos primeiros alvos declarados do ataque aéreo americano.
Em nove dias de guerra, os iraquianos lançaram vinte mísseis
Scud contra Israel e mais 23 na direção da Arábia
Saudita. O terrorismo contra a população civil de
um país que não está envolvido na guerra não
havia conseguido até então o objetivo principal -
arrastar Israel para o conflito -, mas os soldados de Saddam mostraram
serviço e exasperaram os americanos, aliados e israelenses
com a teimosa sobrevivência dos Scud.
TERRORISMO
ECOLÓGICO - Num golpe de guerra psicológica, abriram
uma ferida na psique do público americano ao desfilar diante
das câmaras de TV pilotos capturados em depoimentos dolorosos
e evidentemente forçados. Somados aos dezoito aviões
que a coalizão antiiraquiana admitia ter perdido e a um ato
de terrorismo ecológico na forma do vazamento deliberado
de cerca de 20 milhões de litros de petróleo por dia
nas águas do Golfo Pérsico, foram estas suas únicas
vitórias táticas. No plano estratégico, porém,
continuavam a deter o maior trunfo de um Exército em sua
situação: não haviam sido derrotados. "A
lenda de uma rápida vitória americana está
se desfazendo", martelou o sempre sorridente ministro da Informação
do Iraque, Latif Jassem. Contra a linguagem da sofisticação
tecnológica, Saddam vem usando o baixo calão dos ataques
a civis, com mísseis sem pontaria.
Rápida,
maciça e decisiva. Estes três adjetivos freqüentaram
obsessivamente a retórica oficial americana durante os meses
que antecederam o início da Tempestade no Deserto para definir
o tipo de guerra com a qual os Estados Unidos pretendiam arrancar
as forças de Saddam do Kuwait ocupado. A insistência
era tamanha, e tão amparada na lógica ditada pelo
poder de fogo, que praticamente o mundo inteiro acreditou - os aliados
na frente contra o Iraque, os cidadãos comuns americanos
e até muitos dos incomuns, aqueles que deveriam saber o que
estavam falando, pelas posições de comando que ocupam.
Foi só depois de iniciada a guerra que se informou que ela
será longa, dura e cara em sangue humano, tão cara
quanto Saddam consiga fazê-la.
Se
ainda restava alguma dúvida de que o estonteante videogame
dos dias iniciais da guerra não significava exatamente uma
vitória fácil, o próprio presidente George
Bush se encarregou de desfazê-la. Depois de pronunciamentos
dosados com precisão cirúrgica para preparar os espíritos
para o que ainda virá pela frente e ao mesmo tempo não
baixar demais o moral do público, Bush encarregou seu porta-voz,
Marlin Fitzwater, de exercer o lado mais amargo de seu posto, o
de porta-más notícias. No recado mais explicitamente
pessimista desde o início tonitroante da Tempestade no Deserto,
Bush avisou via Fitzwater que a guerra provavelmente vai durar "meses"
e reserva ainda muitas surpresas. "Haverá altos e baixos,
haverá vitórias do inimigo, haverá surpresas
do inimigo, haverá dias em que veremos perdas dos aliados",
disse o porta-voz na quinta-feira passada. "Precisamos nos
enquadrar num estado de espírito que nos permita aceitar
esses reveses."
EXIBIÇÃO
RADICAL - Se esta fosse uma guerra entre dois adversários
com forças relativamente equilibradas e precedida de menos
bravatas, os americanos teriam tudo para estar comemorando. O início
espetacular da Tempestade no Deserto, embora não tenha decidido
a guerra em "dois ou três dias" como se vangloriavam
os generais mais presunçosos, mostrou que as engenhocas da
alta tecnologia jamais testadas em combate pelo menos funcionam.
Os americanos evidentemente garantiram a superioridade aérea
- nas poucas ocasiões em que o Iraque desentocou seus aviões,
eles foram derrubados, dois deles de uma vez só por um piloto
saudita. Segundo o general Powell, das 66 pistas que o Iraque tinha
no começo da guerra, só cinco continuavam funcionando
até o fim da semana passada.
As
fábricas de armas químicas e biológicas, sem
contar os dois reatores nucleares de pesquisa do Iraque, são
dadas por destruídas. As bases iraquianas de mísseis
terra-ar foram atingidas e a rede de radares está fora de
ação. "Saddam literalmente não tem mais
controle de qualquer tipo com radar", garantiu o general Schwarzkopf
"Então, cada vez que acontece um ataque aéreo,
ele dispara tudo o que tem para o ar, o que é ótimo
porque vai acabar sem munição se continuar fazendo
isso."
Numa
guerra em que a ponta externa - os duelos dos Patriot americanos
contra os Scud iraquianos sobre os céus de Tel Aviv e Riad
- é transmitida ao vivo pela televisão enquanto as
profundezas tenebrosas permanecem censuradas, é difícil
para quem está de fora avaliar os efeitos dos bombardeios
constantes sobre as linhas de suprimento e as tropas iraquianas
desde o sul de Basra até a fronteira do Kuwait com a Arábia
Saudita. É nesta fase do ataque aéreo que os americanos
estão se concentrando desde o começo da semana passada.
Numa rara demonstração pública de exibicionismo,
o general Powell foi radical ao resumir o que está reservado
para os soldados iraquianos com este bombardeio maciço. "Nossa
estratégia é muito, muito simples", disse Powell.
"Primeiro nós vamos isolá-los. Depois, matá-los."
PORCO-ESPINHO
- Por trás das palavras de efeito e das arrasadoras bombas
americanas, porém, ocultava-se a mensagem mais importante:
o superataque aéreo não havia produzido nenhuma prova
de que as forças de Saddam vão capitular ou entrar
em colapso num futuro próximo. "Saddam Hussein e o Iraque
se recuperaram do primeiro choque. Ele está pronto para uma
longa guerra de atrito", analisou o porta-voz das Forças
de Defesa de Israel, Nachman Shai, o jovem general que aparece a
toda hora na CNN falando em inglês fluente. Esta constatação
deixou o governo americano numa posição singular.
Da ofensiva militar, diante de um inimigo limitado às armas
menos expressivas de seu arsenal, Bush e seus comandantes passaram
à defensiva política, face a uma opinião pública
que foi levada a crer que tudo se resolveria no ritmo frenético
de uma minissérie de televisão. Um, dois, três
e pronto, Saddam seria catapultado para o rodapé da História,
os rapazes no front voltariam para casa e Bush pilotaria a nova
ordem mundial que tanto tem prometido.
À
estratégia da águia americana, Saddam Hussein opôs
a tática do "porco-espinho": enrolar-se sobre si
mesmo enquanto os bombardeios desabam os céus sobre sua cabeça,
preservando uma capacidade de reação suficiente para
arrancar um preço alto no ataque terrestre que freqüenta
os pesadelos da coalizão antiiraquiana. Para não dar
de presente seus aviões ao inimigo, Saddam enfiou-os sob
a terra. "Na guerra Irã-lraque, ele teve este mesmo
reflexo", lembra o analista inglês Charles Tripp, do
Instituto de Estudos Orientais e Africanos. Além da óbvia
motivação militar desse truque, Tripp identifica também
razões políticas.
O ex-menino
pobre que, no poder, se cercou dos membros da sua tribo da pequena
cidade de Tikrit não vê com olhos benignos os pilotos
e comandantes da Força Aérea, saídos da burguesia
urbana - um argumento a mais a favor das notícias não
confirmadas segundo as quais mandou executar um punhado deles depois
do início da guerra. "Esta desconfiança influencia
sua concepção tática e estratégica",
diz Tripp. "Ele confia mesmo é no Exército, é
com ele que vai à luta. Os aviões são quase
armas secretas para serem utilizadas em último caso."
PATOS
NA LAGOA - Segundo os americanos, este último caso não
vai acontecer: os aviões subterrâneos do Iraque não
vão conseguir decolar porque as pistas estão todas
inutilizadas pelo bombardeio, se decolarem não terão
cobertura de radar para entrar em ação e, se finalmente
chegarem nessa fase, acabarão derrubados pelo aparato tecnológico
superior dos Estados Unidos e seus aliados. A se julgar pelas avaliações
atrapalhadas que já foram feitas até agora, porém,
não causaria surpresa estarrecedora se algum Mirage ou MiG-24
do Iraque despontasse nos céus para um ataque de efeito.
Quatro dias depois de iniciada a guerra, o general Schwarzkopf declarava
"confiar muito" que todas as plataformas fixas de lançamento
de mísseis Scud (ele calculou seu número em cerca
de trinta) haviam sido "neutralizadas". Das mais de vinte
plataformas móveis, segundo sua estimativa, dezesseis estavam
destruídas. No mesmo dia, um subalterno de Schwarzkopf, o
general Burton Moore, dizia que as forças aliadas não
estavam "nem perto" de eliminar todas as plataformas iraquianas,
fixas ou móveis.
Os
Scud disparados contra Israel e a Arábia Saudita provaram
quem estava falando a verdade. Escondendo-os sob pontes para escapar
aos satélites espiões, aproveitando para colocá-los
em ação nas horas nubladas do dia - impenetráveis
ao mais avançado equipamento fotográfico -, Saddam
continuou de posse dos mísseis, militarmente irrelevantes,
mas de grande impacto político e psicológico. "Uma
dificuldade adicional é que os iraquianos usam alvos falsos
e os usam muito bem", informou o general Thomas Kelly ao introduzir
no teatro de operações outro truque de Saddam: as
réplicas perfeitas, geralmente em fibra de vidro, de aviões
ou plataformas de mísseis que constam do inventário
de qualquer Exército bem equipado para enganar o inimigo
da mesma forma como os patos de madeira dos caçadores atraem
para a lagoa os bichos de verdade.
O objetivo
dos estratagemas de Saddam não poderia ser mais claro - e
ele mesmo se encarregou de anunciá-lo. "Nossas forças
terrestres não foram usadas em batalha até agora.
Nem o foram as forças aéreas de nosso Exército
e nossas forças navais", provocou o ditador. "As
forças lideradas pelos Estados Unidos pensaram que a guerra
duraria apenas alguns dias, mas agora são obrigadas a repensar
a situação. Quando a batalha se ampliar, com todos
os tipos de armas, as mortes do outro lado aumentarão, com
a ajuda de Deus." Ninguém duvida de que Saddam pretende
fazer exatamente isso: prolongar a guerra o quanto puder, desgastar
os americanos, expandir o conflito para Israel e, com a confusão
generalizada, provocar um cessar-fogo. Só o fato de ter resistido
mais do que seis dias - o tempo que Israel levou, em 1967, para
derrotar os exércitos do Egito, da Jordânia e da Síria
diante da portentosa máquina de guerra da superpotência
americana já lhe salva a honra face à parcela mais
do que considerável dos árabes que o celebram como
um herói.
Para
chegar até o cessar-fogo - uma palavra da qual Bush não
quer nem ouvir falar -, o caminho de Saddam passa por um mar de
sangue: a única chance é que consiga matar um número
de americanos insuportável para o público interno,
o mesmo que vai votar nas eleições presidenciais de
1992. E o jeito de matar a maior quantidade possível de inimigos
é por terra, onde as forças iraquianas estão
entrincheiradas em posições defensivas. Como o comando
americano não tem a menor intenção de lançar
suas tropas na armadilha, a ofensiva aérea vai continuar
- a previsão inicial era de nove dias, mas agora já
se fala em um mês. "A chuva de bombas vai continuar.
Se não quebrarmos a espinha da Guarda Republicana ou se suas
unidades não começarem a se render, teremos uma guerra
longa pela frente", avaliava um funcionário do Pentágono,
referindo-se à força de elite do Iraque.
HAMBÚRGUER
- No teatro oculto da guerra, que o Iraque permitiu vislumbrar
apenas em cenas relâmpago mostrando o estrago sobre áreas
civis em Bagdá, era impossível saber o efeito dessa
chuva de fogo e morte. Mas o coronel David Hackworth, o mais condecorado
soldado americano vivo, veterano das guerras da Coréia e
do Vietnã - que abandonou por divergências políticas
- e agora na Arábia Saudita como observador da revista Newsweek,
dá uma idéia do que pode estar acontecendo. O poder
destruidor da guerra aérea moderna é quase inimaginável
para quem nunca viu uma bomba de perto. Cada uma das bombas de 1.000
quilos levadas pelos B-52 abre uma cratera de 13 metros de profundidade
por 17 metros de diâmetro. Numa única missão,
três B-52 - na formação típica chamada
de célula - espalham essas crateras por uma área de
3 quilômetros, despejando 60 toneladas de bombas.
"Os
soldados norte-vietnamitas ficavam com os olhos esgazeados. Sangravam
pelo nariz e pelos ouvidos. Não sobrava nenhum ânimo
combativo neles", lembra Hackworth. "O general Tra, comandante
das forças vietcongues no Vietnã do Sul, me contou
numa recente conversa em Nova York que os B-52 quase derrubaram
seu Exército, embora eles estivessem protegidos em posições
subterrâneas, reforçadas." É para garantir
que o "quase" do Vietnã não se repita que
o terrível bombardeio de duas décadas atrás
parece uma festa de São João em comparação
com o que está acontecendo com as forças iraquianas.
Bomba é o que não vai faltar. Dos 500 mísseis
Tomahawk enviados ao Golfo Pérsico, os Estados Unidos já
lançaram a metade. Outros 600 podem ser enviados em pouco
tempo. Se escassearem as bombas "inteligentes" - o que
não é o caso, garantem os especialistas -, sobram
os modelos mais antigos, que acertam o alvo do mesmo jeito quando
lançadas por um bom avião, podem pesar até
1.000 quilos e custam menos de 2 dólares por quilo. "Mais
barato que um hambúrguer", compara um funcionário
do Pentágono.
Diante
desse Armagedon, o arsenal de truques de Saddam corre o risco de
ficar parecido com a cartola de um mágico de circo de periferia
- não fosse pelo fato de que ele está desafiando o
cronograma do Pentágono. O vazamento proposital de petróleo
é um desses complicadores. A mancha, que já tem mais
de 17 quilômetros de largura, pode arruinar as usinas de dessalinização
da Arábia Saudita. A usina de Jubail, a maior do mundo, abastece
de água Riad e as tropas americanas. Não se sabe também,
com uma mancha de tais proporções, qual seria o desempenho
dos hovercrafts com os quais os 16.000 fuzileiros navais americanos
a bordo de navios no Golfo contam para o desembarque anfíbio.
Se isso tudo falhar, Saddam pode tocar fogo no petróleo e
transformar os eventuais atacantes em churrasco.
Restam
ainda outros coelhos na cartola do mágico de Bagdá.
Ninguém descarta a possibilidade de que alguns mísseis
de longo alcance estejam bem guardados em algum bunker subterrâneo
para um futuro ataque químico. O uso de armas químicas
"depende do desenrolar dos acontecimentos", avisou o embaixador
iraquiano em Paris, Abdel Razzak al-Achemi. Especula-se ainda sobre
a arma secreta de Saddam - um suposto artefato nuclear, classificado
de grosseiro pelos especialistas, mas eficiente o bastante para
provocar conseqüências inimagináveis. Atentados
terroristas de grande porte, cuja perspectiva já vem apavorando
a Europa, também poderiam chacoalhar o mundo - na guerra
sangrenta de Saddam, vale tudo.
A prazo
mais longo, um golpe na Jordânia, reunindo uma ala do Exército,
fundamentalistas muçulmanos e palestinos, lançaria
o rei Hussein ao espaço. A radicalização do
inimigo vizinho daria a Saddam a chance que a chuva de mísseis
sobre Tel Aviv lhe tinha negado até o fim da semana passada:
obrigar Israel a entrar na briga e mudar assim o eixo da guerra.
Ao se recusar a responder às provocações, Israel
infligiu a maior derrota política a Saddam e, por ironia,
colheu as maiores vitórias desse conflito.
Israel
apresentou uma conta de 13 bilhões de dólares aos
Estados Unidos por seu bom comportamento, conquistou simpatias perdidas
pela persistente recusa em negociar uma solução para
a questão palestina e ainda viu seu maior adversário
militar ser sistematicamente demolido sem que precisasse fazer um
único disparo. Pelo que se conhece da biografia de Saddam,
no entanto, ele vai continuar tentando. Pelo menos até que
a vitória prometida por George Bush se concretize ou se realize
a previsão da ex-primeira-ministra Margaret Thatcher, que
relembrou seus tempos ainda recentes de Dama de Ferro e avisou:
"Os ditadores jamais se rendem e devem ser completa e totalmente
esmagados".
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