especial As guerras dos EUA

Reportagem publicada em 11 de junho de 1969

O Complexo Militar Industrial

Nos sete mares, nos cinco continentes, nos cinqüenta Estados Unidos da América do Norte, em 429 grandes bases estratégicas espalhadas pelo mundo, em países diferentes, nos pólos gelados, e quase no espaço estelar, 3 450 000 homens, bem treinados e bem armados, guardam seus postos de combate à espera de uma guerra. Para manter seu poder e seu lugar no mundo, os Estados Unidos consomem por ano 79 bilhões de dólares com sua segurança - 10 por cento do Produto Nacional Bruto, 92 centavos de cada 10 dólares gastos no país. Quanto a 1970, os militares americanos já estão pedindo que o Governo aumente o orçamento bélico para 101 bilhões de dólares, praticamente a metade das despesas nacionais previstas em 1969. Na semana passada, pela primeira vez desde que o Senador Gerald Nye acusou os famosos "mercadores da morte", na década de 30, governantes; políticos, intelectuais e empresários voltaram a se envolver em violentos debates sobre a verdadeira força e a verdadeira influência dos militares americanos. Ago-ra, está em jogo o chamado Complexo Militar Industrial - uma expressão também famosa, embora muito menos ofen-siva que "mercadores da morte".

Situação de guerra - Em poucas palavras, o Military-Industrial Complex, tão dissecado por Fred J. Cook no seu livro "0 Estado Militarista", compreende o Pentágono e toda a sua vasta rede de fornecedores industriais e laboratórios de pesquisa. Para o ex-presidente Dwight Eisenhower, que inventou a expressão no discurso de despedida, "o desenvolvimento desse amplo conjunto de forças representa um grande perigo para os próprios americanos". De qualquer maneira, o velho General Ike sempre defendeu o complexo como vital na defesa do país - e isso é perfeitamente lógico. Completava Eisenhower: "Mas devemos nos prevenir contra a posse de um poderio demasiado grande". De fato, enquanto alguns programas domésticos de extrema importância não têm dinheiro para sua completa execução (as necessidades chegam ao trilhão de dólares), o Complexo Militar Industrial é acusado de ter crescido demais - e de ter-se tornado influente demais. Para o Senador democrata William Proxmire (Wisconsin), presidente do comitê que investiga a compra de aviões militares, "nesse tipo de transações quase sempre acontecem violações da lei criminal". Para o Senador Edward Kennedy, a maioria das operações militares americanas, como as recentes batalhas na Colina "Hamburguer", no Vietnã, são "inúteis, sem o menor sentido estratégico". Para o General David Shoup, herói da guerra da Coréia, "os Estados Unidos se transformaram num país militarista e agressivo". E para o Senador democrata Gaylord Nelson, também do Wisconsin, "os americanos estão vivendo uma verdadeira situação de guerra".

Cidades inteiras - Além disso, ainda existe muita crítica latente. Durante toda esta semana, o comitê do Senador Proxmire estará estudando "o orçamento militar e as prioridades nacionais" através de conferências pronunciadas por John Kenneth Galbraith ("O novo Estado Industrial"), velho assessor da dinastia Kennedy, e pelo presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, J. William Fullbright. O ponto principal desses debates: a que tamanho chegou o Complexo Militar Industrial? Com o efeito, o CMI, como ele é carinhosamente chamado pelos senadores do Comitê, em- prega um em cada dez americanos - e a sua lista de assalariados relaciona tanto aqueles que estão em serviço diretamente ligado à atividade militar, como os operários comuns que trabalham nos 120 mil fornecedores particulares das Forças Armadas dos Estados Unidos.
Ela também inclui gente de centenas de universidades - onde milhares de cientistas fazem desde a pesquisa pura até o desenho e o aperfeiçoamento de novas ogivas nucleares. As despesas do CMI correm desde os gastos com aviões (7 bi-lhões de dólares) até navios (898 mi-lhões), móveis (20 milhões) e instrumentos musicais (1,6 milhão). Esse dinheiro vem de todos os cinqüenta Esta-dos, de pelo menos 63 dos 435 distritos nacionais. Além disso, espalhadas pelos 9 400 000 metros quadrados de terras americanas, cidades inteiras dependem completamente dos orçamentos militares para viver.

Quase invisível - No vale de Santa Clara, bem ao sul da baía de San Francisco, Califórnia, fica Sunnyvale, antigamente a capital mundial das ameixas. Mas, desde a guerra da Coréia, Sunnyvale trocou suas ameixas por mísseis e bombas, "A morte é a nossa principal indústria", comenta com ironia um dos seus 95 000 habitantes. Na realidade, a principal indústria da cidadezinha é a Lockheed Missiles & Space Co., que emprega 21000 pessoas na construção dos mísseis Polaris e Poscidon e do foguete Agena. Suas folhas de pagamentos chegam a 6 milhões de dólares por semana. Outros 3 000 habitantes trabalham para a Westinghouse, que fabrica tubos de lançamento para os Polaris. A preocupação com a construção militar está presente nos menores detalhes, e até os alunos da escola primária têm miniaturas de foguetes nas salas de aula. Paradoxalmente, o próprio complexo industrial é quase invisível quando se chega a Sunnyvale. De nenhuma fábrica sobem nuvens de fumaça, os mísseis e os foguetes ficam armazenados em prédios limpos e insuspeitos, e nenhum cartaz anuncia a mudança de "capital mundial das ameixas" para "capital mundial dos Polaris". A população é bastante móvel: ninguém fica em Sunnyvale mais do que quatro anos. Todos, no entanto, possuem nível de educação bastante alto e
ganham muito bem - para uma família média, a renda anual de Sunnyvale chega facilmente aos 10 000 dólares anuais.

Esbanjamento de influência -Evidentemente, nem os habitantes de Sunnyvale, nem os generais do Pentágono, nem o Secretário da Defesa Melvin Laird, nem os fornecedores do CM1 são pérfidos conspiradores ou desonestos homens de negócio como pretendem os alegres revolucionários da Nova Esquerda americana. Para a maioria dos seus próprios opositores, o Complexo Militar Industrial cresceu naturalmente. De qualquer modo, alguns políticos, como o Senador George McGovern (Dakota do Norte), acreditam que "muita gente está ganhando dinheiro com a Guerra do Vietnã". Embora sabendo que sua iniciativa nunca será aceita pelo Congresso, McGovern apresentou, na semana passada, uma lei criando novos impostos para esse tipo de lucros. Afinal, o próprio Governo americano reconhece que gasta bilhões de dólares com armamentos desnecessários, 'pois é impossível controlar as despesas com as armas realmente necessárias". Um bom exemplo é o Sistema Nacional de Defesa contra Mísseis Balísticos Inimigos. Como já tinha feito Lyndon Johnson com o Projeto Sentinel, Richard Nixon criou sua própria versão do sistema, revista e melhorada - o -Projeto Safeguard. Os primeiros cálculos, bem pessimistas, indicavam. que o custo de todas as instalações chegaria a 7 bilhões de dólares. Hoje, muita gente acredita que o Projeto, para ser verdadeiramente eficiente, Precisará ganhar uma dotação especial de 400 bilhões. Isso levando-se em conta que o Presidente Nixon reduziu bastante o sistema idealizado pela Administração Johnson. E por que o reduziu? Temor da oposição? Na verdade, há muito tempo o Senado americano não se põe contra os projetos governamentais para a defesa do país. Mas, nos últimos dias, a oposição contra o Sistema Safeguard vem ficando tão forte que vários observadores acreditam numa derrota presidencial. Mesmo que os "pacifistas" do Congresso não consigam deter o andamento do projeto, terão exigido que Richard Nixon promova um grande esbanjamento de influência de tal modo cansativo, que o próprio Presidente aceitará abandonar outros projetos militares menos importantes.

Nas escadarias - Se o Congresso americano já tinha muitas razões para combater o crescimento do Complexo Militar Industrial, um fato consumado e divulgado acabou por revoltar de uma vez os menos radicais pacifistas. Depois de várias negativas, o Exército admitiu, finalmente, que estava fazendo experiências com gás de nervos no Estado de Utah, e que problemas inesperados durante um dos testes haviam provocado a morte de 6 000 ovelhas no ano passado. Depois disso, os mais ardorosos defensores do CMI perderam a fala. 0 Deputado George Mahon, presidente do Subcomitê de Compras do Congresso, sempre liderou o grupo de partidários do CMI. Semanas atrás, no entanto, ele próprio admitiu que "os militares cometeram tantos erros que geraram no Congresso uma atmosfera de desconfiança a seu respeito". Para muitos políticos o maior desses enganos é a Guerra do Vietnã, a mais longa e sacrificada guerra da história americana, onde quase 35 000 soldados morreram em sete anos. E todos admitem que chegou a hora de examinar a participação do CMI nessa batalha. É verdade que o Alto Comando Militar recomendou que os Estados Unidos despejassem poderosas forças no Vietnã, em 1965. É verdade que os generais americanos, como Bill Westmoreland, Earle Wheeler e Creighton Abrams, os principais estrategistas da guerra, vêm sendo otimistas sobre o andamento das lutas desde 1965. Mas, também, é verdade que as maiores decisões sempre partiram das escadarias da Casa Branca, Johnson e seus assessores civis.

Bodes expiatórios - Mais ainda: de todos os congressistas, apenas uma pequena minoria pode afirmar que em 1965 já fazia protestos sérios contra a escalada americana no Vietnã. Só depois que a guerra provou não ser muito agradável aos pacatos e práticos olhos do homem americano, muitos políticos passaram a atacá-la de maneira sistemática. Em outras palavras, a atual posição de determinados congressistas mais se parece com uma desesperada busca de bodes expiatórios. O Secretário da Defesa Melvin Laird, antigo líder dos "falcões" no Congresso, -sempre procurou retirar dos militares qualquer responsabilidade pela escalada americana no Vietnã. E o que ele disse numa reunião em Chicago na semana passada, define bem sua maneira de pensar: "São os civis que determinam a estrutura de nossas Forças Armadas. Os homens e mulheres do nosso Exército, da nossa Marinha, da nossa Aeronáutica, apenas seguem suas diretrizes com coragem e lealdade". Laird tem razão. Mas, talvez, ele não pensasse que os civis pertencem a uma família muito especial de cidadãos. Como o próprio Subsecretário da Defesa David Packard, ex-presidente da Hewlett-Packard, firma vinculada diretamente aos projetos armamentistas.

Os superpatriotas - A trama toda é bastante complexa. Muitas vezes, o próprio Congresso aprovou verbas que nem os militares do Pentágono tinham lutado para receber. De fato, com poucas exceções, os comitês parlamentares que tratam da defesa americana são compostos por homens bastante ligados ao Complexo Militar Industrial - ou que pelo menos se aproximaram dele depois de sua eleição. Os presidentes dos quatro maiores comitês vieram do Sul - e representam o típico americano superpatriota. Para alguns observadores mais sacársticos, seus Estados já possuem tantas instalações de defesa que, se receberem mais alguma, acabarão afundando com o peso. Charleston, Carolina do Sul, na região mais -racista dos Estados Unidos, reduto eleitoral de George Corley Wallace, é o exemplo característico dessa afirmação. O Senador Mendel Rivers é quase o dono de Charleston. E através da sua influência, o distrito conseguiu uma enorme base aérea, um depósito do Exército, um estaleiro da Marinha, uma base de fuzileiros navais, dois hospitais militares, um posto de recruta-mento da Marinha, um centro de inten-dência da Marinha, um centro de treina-mento para tripulações de submarinos lança- mísseis, uma instalação para manutenção de mísseis Polaris, fábricas Avco Corp (ogivas de foguetes), fábricas da Lockheed (aviões e helicópteros), uma fábrica da General Electric, e um vasto campo de provas. Só na região de Charleston, as folhas de pagamentos do pessoal chegam a 2 bilhões de dólares por ano - mais de 8 bilhões de cruzeiros novos. O portão de entrada da base aérea é conhecido como "A Porta de Rivers". Uma unidade residencial foi nomeada "Parque Rivers". E o próprio senador orgulha-se de ter conseguido pessoalmente os créditos para a construção de 90 por cento dessas obras todas.

Amigos de uniforme - De qualquer maneira, mesmo que Rivers não fizesse na-da, todas as instalações militares de Charleston acabariam vinco como um conseqüência lógica do Complexo. Com feito, muitos oficiais da Reserva ganham cargos importantes nas principais empresas ligadas aos serviços de defesa. o Senador Proxmire relacionou, recentemente, nada menos que 2000 desses ex-coronéis, ex-generais, que trabalham como relações-públicas ou consultores técnicos, recebendo altos salários. Lee Atwood, diretor da American Rockwcll, se justifica: "Nós os empregamos por seus méritos". Mas completa: "Seria ridículo, entretanto, dizer que não nos esforçamos para conseguir muitos amigos de uniforme". Quando as coisas começaram. nem os militares, nem os industriais se preocupavam com contratos ou outras normas de procedimento. Tudo era feito na base da fé e da confiança. Foi assim com os irmãos Wright, ainda no século passado: receberam no Exército americano uma oferta de 25 000 dólares pela sua " maravilhosa máquina voadora" que deveria fazer, no mínimo, 60 km por hora. Se a "máquina" fizesse mais 5 km horários, eles receberiam mais 5 000 dólares. Se ela fizesse menos 5 km horários, receberiam 5 000 dólares menos. Os Wright não tinham a precisão dos técnicos da NASA, mas acabaram acertando. Nos dias de hoje ninguém mais faz qualquer contrato desse tipo - e os militares americanos exigem precisões milimétricas.

Combinação feliz - 0 projeto do míssil Polaris é um exemplo clássico da maneira como o Complexo Militar Industrial trabalhou da melhor maneira possível. O Vice-Almirante William Rahorn, então chefe-assistente de Operações Navais, convocou unia importantíssima reunião secreta em 1955, com a participação de cientistas e projetistas das seis maiores empresas ligadas ao Pentágono. Raborn desejava um foguete nuclear movido a combustível sólido que pudesse ser lançado de um submarino submerso. Os funcionários da Lockheed comprometeram-se a construí-lo, e receberam o primeiro dinheiro para pesquisas em 1956. Distribuíram tarefas paia o Instituto de Tecnologia de Massachussets (que executa mais trabalhos para o Governo do que qualquer universidade), para o Instituto de Pesquisas da Universidade de Stanford, para a Universidade John Hopkins (que vem em segundo lugar). e para o Laboratório de Radiação Lawrence, da Universidade da Califórnia. Depois de quatro anos, a Lockheed já tinha foguetes para testar (esse processo geralmente dura oito), e um ano mais tarde entregou à Marinha os primeiros mísseis operacionais. A Lockheed atraiu um total de 20 000 fornecedores de produção do foguete. "Foi uma combinação feliz de indústrias, instituições educacionais e Departamento da Defesa", comentou um porta-voz da Lockheed.

Redução - Felizmente para os Estados Unidos, muitos êxitos semelhantes podem ser contados. Mas também houve muitos fracassos. E esses fracassos custaram muito dinheiro. Nos últimos anos, projetos no valor de 9 bilhões de dólares foram sumariamente cancelados. Por exemplo: o superbombardeiro, B-70 (uma perda de 1,5 bilhão de dólares); o bombardeiro automático Snark (678 milhões de dólares); o foguete Navajo (680 milhões); o aeroplano espacial Dyna-Soar (405 milhões); o foguete ar-terra Skybolt (440 milhões). A maior parte desses projetos foi concebida antes que o ex-Secretário da Defesa Robert McNamara, hoje presidente do Banco Mundial tivesse assumido a direção do Pentágono, em 1961, depois da eleição de John Kennedy. Mas, também McNamara teve seus problemas, como o cancelamento do avião caça de asas móveis TFX. Sua contribuição, contudo, acabou garantindo procedimentos mais ordenados nas compras do Pentágono -como resultado, os excessos nos custos foram reduzidos a uma média de 100 por cento, em comparação com a média de 200 por cento, tão comuns nos anos 50.

Altas demais - Por que os custos são tão altos? Em primeiro lugar, ninguém, nem indústria, nem Governo, pode calcular o preço final de um novo projeto, na maioria das vezes sujeito a acidentes imprevisíveis. De qualquer forma, a indústria sempre consegue novos contratos e o Governo novas armas. Mas, nada indica que a indústria tenha lucros fantásticos trabalhando para o Pentágono. Logicamente, muita gente enriqueceu com o CMI. James McDonnell fundou a McDonnell Aircraft, em 1939, quase com a venda de seus próprios móveis. Hoje, seu pequeno barracão de madeira se transformou na poderosa McDonnell Douglas. Sua fortuna pessoal já foi avaliada em 150 milhões de dólares. Mas Wall Street pode também provar que as ações das empresas ligadas ao Pentágono não são as mais valiosas. Os cinco principais líderes do Complexo Militar Industrial, no ano passado, foram a General Dynamics (caça-bombardeiro F-111, submarinos Polaris, 2,2 bilhões de dólares em vendas para a Defesa); a Lockheed (transporte C-141, foguetes Polaris, 1,9 bilhão); a General Electric (motores a jato, equipamento eletrônico, 1,5 bilhão); a United Aircraft (motores a jato, helicópteros, 1,3 bilhão) e a McDonnell-Douglas (caça-bombardeiro Phantom F-4. bombardeiro Douglas A-4, 1,1 bilhão). Recente estudo sobre essas cinco firmas, realizado pelo Instituto Americano de Administração Logística, mostrou que seus lucros, em cada dólar recebido do Pentágono, eram de 4,2 cents - contra uma média de 8,7 cents de toda a indústria americana. Muitos críticos acham que essa média ainda é alta demais. Uma alternativa estaria no sistema de arsenais governamentais sem finalidade lucrativa. Entretanto, esse sistema foi amplamente experimentado entre as duas Guerras Mundiais, com resultados bastante pobres.

Abuso do poder - "Durante 25 anos a Marinha produziu torpedos - em Newport", relembra Dan Kimball, ex-Secretário da Marinha. "Mas, quando chegou a II Guerra Mundial, os torpedos não corriam direito, nem atingiam qualquer navio, por mais perto que ele estivesse. Nossos aviões, construídos pela Força Aérea em Filadélfia, eram lindos. Mas não queriam voar." Os críticos mais ferrenhos do CMI reconhecem as dificuldades que o Governo teria para construir todos os seus armamentos. No entanto, como observa John Kenneth Galbraith, "nosso combate ao Complexo Militar Industrial vai muito além da simples repreensão ao Governo pelos seus altos gastos com armamentos". 'Para esses pacifistas, não interessa tornar o poder militar "mais eficiente" ou mais "virtuosamente honesto". Na verdade, eles pretendem submetê-lo a um controle imparcial. "Não desejamos apenas eliminar os custos excessivos", diz Galbraith, "nem os abusos oficiais de poder. Queremos eliminar completamente os projetos armamentistas, reduzir drasticamente o que já existe - e conceder total prioridade aos gastos com os problemas sociais dos Estados Unidos." Para o General da Reserva John Gavin, a culpa toda é do próprio Governo que "não controla a fome de segurança que se espalhou pelo Pentágono. Nixon quer dois campos de provas para mísseis, e tem razão", diz Gavin. "Mas no Pentágono já se fala em doze. Depois, os homens orçam tudo em 10 bilhões de dólares. E o projeto acaba custando 30."

Apoio geral - Quanto ao Pentágono e à Administração Federal, eles não são totalmente impotentes para defender suas posições. Afinal, possuem amigos seguros no Congresso. "Viva o Complexo Militar e Industrial", declarou recentemente o Senador Barry Goldwater, do Arizona, candidato à Presidência e derrotado por Lyndon Johnson em 1964. Além desses defensores gratuitos, o Pentágono paga altos salários para 6 140 homens fazerem suas relações públicas através do mundo inteiro. Mais ainda, os militares têm 339 assessores parlamentares, com um orçamento anual de 4,1 milhões de dólares em 1969 - exclusivamente para defender os interesses da Defesa no Capitólio. E logicamente eles possuem o apoio geral de toda a indústria armamentista. Na semana passada, com os primeiros debates mais fortes no Senado, as linhas dessa grande briga começaram a se definir. Nos próximos dias, os críticos do CMI apresentarão seu desafio em diversas frentes: nas universidades, em conferências, em comícios públicos, e principalmente no Congresso. Além dos tradicionais ataques contra o sistema de antimísseis balísticos, senadores e deputados estarão afiando suas facas para fazer cortes nos mais variados pedidos do Pentágono: 525 milhões para o Laboratório Orbital da Força Aérea 100 milhões para o Sistema Avançado de Bombardeios Estratégicos, 75 milhões para um sistema de radar aerotransportado e 150 milhões para o desenvolvimento de uma frota capaz de transportar tropas da maneira mais rápida possível. (Dias atrás, o próprio Pentágono cancelou um contrato de 875 milhões de dólares com a Lockheed, que produziria os helicópteros Cheyenne. Motivo apresentado: defeitos mecânicos no desenho. Provavelmente, os pacifistas ganharão essa batalha. Afinal, mesmo os mais devotados defensores do CMI, como o Senador John Stennis, democrata do Mississipi, já estão aceitando como tranqüilo o grande corte que o Governo pretende fazer nas despesas militares assim que a guerra do Vietnã terminar. Enquanto isso, Ted Kennedy, McGovern, Proxmire, Galbraith, vão continuar lutando por outras reduções - nos efetivos militares, nas bases no exterior, nos custos com os foguetes espaciais. "Afinal", dizem os pacifistas, "os tempos dos cheques em branco já se foram."

 
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