especial As guerras dos EUA

Reportagem publicada em 2 de julho de 1969

A paz da bomba

As guerras já tiveram vencidos e vencedores. Algumas, além da miséria habitual, fizeram a glória de reis, o nome de heróis, a auréola de mártires. Se vier outra Grande Guerra, a maior de todas as guerras, não haverá vencidos e vencedores - nem heróis, nem glória, nem um mártir particular. Pois ela trocará a força dos exércitos pela fúria dos megatons, o fuzil e a espada pelo míssil intercontinental, a miséria comum pelo mais sinistro de todos os horrores. Os homens e as nações repudiam a idéia desse conflito apocalíptico. "Pensar na guerra nuclear é pensar sobre o impensável", diz Herman Kahn, estrategista americano, autor de "O Ano 2000". "Nenhum cidadão sensato, nenhum líder político, nenhuma nação a deseja", disse Robert McNamara, quando Secretário da Defesa dos Estados Unidos. "O povo soviético é amante da paz e nunca será o primeiro a desencadeá-la", afirmou Nikita Kruschev, quando Primeiro-Ministro da União Soviética.

Mas, no fim de julho, provavelmente em Genebra, às margens do tranqüilo lago Léman, embaixadores soviéticos e americanos vão reunir-se com dois objetivos: pensar na guerra impensável e falar das novas e fantásticas armas que desenvolveram para empregar no conflito inadmissível. Enquanto isso, na retaguarda dos diplomatas, dos dois lados do mundo, quase 7 milhões de russos e americanos, como o fazem dia e noite há mais de dez anos, estarão prontos para iniciar a guerra impossível, inimaginável.

MISSÃO DEFENSIVA - "O que o senhor acha da guerra nuclear, Major Charles Belt?" "A guerra nuclear é como eu ter 1 bilhão de dólares, ou como o tamanho da dívida nacional: simplesmente não consigo entender." Neste momento, o Major Belt está enterrado nas planícies geladas de Dakota do Norte, perto da fronteira com o Canadá. Ele faz parte de uma equipe de oficiais da Força Aérea encarregada de controlar e disparar os 150 mísseis intercontinentais tipo Minuteman que os Estados Unidos mantêm dentro de abrigos bem escondidos, no Norte do país. Na linguagem militar, os Minutemen, brilhantes tubos de cabeça cônica, 18 m, 32 toneladas, feitos pela Boeing Corporation e agora cuidados em suas covas por Belt e seus amigos, constituem parte da "força estratégica de defesa". Trinta e dois segundos após receberem o único tipo de missão que sabem executar, eles podem deixar velozmente seus túmulos e - depois de um vôo máximo de trinta minutos - cair sobre qualquer ponto do globo, com uma ou três cargas não inferiores a 1 megaton.

Os estrategistas americanos acreditam que os povos do mundo, sabedores da fúria desses colossos e seus semelhantes guardados no céu, na terra e no mar, não se atreverão a um ataque nuclear contra os Estados Unidos. Por seu lado, como sabem que os russos têm quase os mesmos mísseis enterrados no mesmo tipo de covas, no mesmo céu e nos mesmos mares, os americanos (ou os chineses) não se atreverão a um ataque nuclear contra a União Soviética. Com isto, a paz está garantida. Pelos menos, assim diz a teoria que pretende o equilíbrio pelo terror. Belt e seus amigos estão ali apenas para não executar a missão específica para a qual se prepararam nas escolas militares durante meses e para a qual estão prontos dia e noite: o disparo dos Minutemen. Estão ali, também, para o caso de todos os conceitos de paz nuclear estabelecidos pelos estrategistas estarem dramaticamente errados.

A NOVA SEMENTE - Depois de meia hora de viagem na estrada que vai de Grand Forks (Dakota do Norte) para o norte, tudo que um observador desatento pode perceber vagamente ao longo da margem da rodovia são manchas escuras sobre a neve, na vasta extensão antes povoada por trigais. A região, contudo, abriga hoje em dia outro tipo de sementes. No seu subsolo, o que de longe parecem pontos negros sob pequenos montes de neve são portas de 80 toneladas de concreto cobrindo silos de 24 metros de profundidade, onde se escondem vigilantes os 150 Minutemen da 321a. Ala de Mísseis Estratégicos da Força Aérea Americana. Viajando num dos carros militares especiais da base de Grand Forks, através da planície branca, chega-se a um edifício baixo, massudo, cinzento, cercado de arame farpado. Ali, Belt, de 33 anos, e Eugene Tattini, de 25, oficiais da Força Aérea, se preparam para descer ao lugar onde, durante quarenta horas, vão controlar e estar prontos para o disparo de dez dos Minutemen da 321a. Ala. No portão, guardas armados pedem ao recém-chegado para recitar um número em código que ele deve ter recebido ao sair da base central e que foi comunicado ao posto por um sinal de rádio numa freqüência especial. Alguns soldados têm o número escrito nas costas da mão, como uma tatuagem, ou como a cola que o estudante leva para o exame. Neste edifício da superfície há uma sala com três guardas armados de pistola, outra para refeições e recreio, uma cozinha totalmente equipada e sete dormitórios. Nele vivem os vigias do posto, os técnicos das turmas de manutenção dos mísseis e dois oficiais para substituir os dois outros que devem sempre estar ao lado dos botões que acionariam os Minutemen na guerra nuclear.

Os antimísseis - Descendo para o posto subterrâneo de comando dos Minutemen, Belt e Tattini estariam garantindo a prontidão do terror nuclear do lado americano; seus dedos diante dos botões de disparo constituem a promessa de represália que mantém a paz.

O que faz com que as potências nucleares ainda não estejam satisfeitas com este tipo de paz? Atualmente os americanos estão instalando complexas redes antimísseis na região da Ala Estratégica 321, em Dakota do Norte: é preciso garantir que os mísseis intercontinentais não sejam destruídos num ataque-surpresa e deixem os americanos sem seu poder de represália. Os antimísseis tentarão destruir - além de foguetes que tiverem sido atirados por engano - os atacantes cuja missão seja silenciar a fúria vingativa dos Minutemen. O projeto de uma rede antimíssil ABM de proteção aos silos subterrâneos dos mil Minutemen espalhados pelo país e à cidade de Washington, sede do comando militar dos EUA, custará inicialmente 11 bilhões de dólares. Posteriormente, como parece ser a estratégia do Pentágono, a rede seria estendida para tentar proteger todo o país (custo estimado atualmente: 400 bilhões de dólares, a serem gastos num prazo de dez anos).

Há uma possibilidade de os estrategistas estarem gastando perdulariamente esses bilhões? Segundo os partidários de uma parada para descanso na corrida por novas armas, os antimísseis não trarão qualquer proveito estratégico: 1) se os russos quisessem efetuar um ataque de surpresa, disparariam várias bombas em direções diferentes (algumas com ogivas falsas) capazes de enganar qualquer tipo de defesa baseado na tecnologia atual; 2) os chineses não seriam tão estúpidos ao ponto de atacarem os americanos com a minúscula frota de intercontinentais que terão na metade da década de 70) os chineses não serão duplamente estúpidos ao ponto de efetuar sua tola ofensiva com balísticos que sabidamente iriam ser abatidos pelos antibalísticos dos EUA. De acordo com esses críticos, o formidável esforço industrial-militar para tornar os túmulos dos Minutemen invulneráveis (3.000, das 120.000 firmas que suprem o Pentágono, já estão comprometidas com o ABM) será inútil: representará o pretexto para que russos e chineses criem novas armas e gastem mais de seus orçamentos nas fábricas militares. E quando os russos conseguirem defesas antimísseis completas como as projetadas pelos EUA e os chineses obtiverem intercontinentais sofisticados e penetrantes, o balanço do terror voltará a ser como antes. Além do gasto de incontáveis bilhões nos vários países, nada terá sido ganho. Outro argumento contra as novas armas: para as nações pobres mas guerreiras, só resta uma saída bélica de baixo custo - a guerra química e biológica. Por um punhado de dólares, que não pagam a porta do silo de um Minuteman, se pode educar uma bactéria capaz de contaminar todo o abastecimento de água de uma cidade e de matar toda a sua população. Do ponto de vista da moral, último obstáculo à instalação de bases e quartéis da guerra química, é muito difícil condenar a violência das bactérias e aceitar a fúria dos megatons e sua poeira radiativa.

NA TUMBA DO FARAÓ - Por enquanto, Tattini e Belt esperam a instalação de antimísseis que darão mais confiança no serviço de seus Minutemen. Depois de uma refeição rápida, os dois iniciam a descida até "Mike", o posto de comando dos Minutemen. No fundo do poço de um elevador que desce sem pressa, os dois oficiais chegam, 20 metros abaixo do solo, a uma enorme porta de 8 toneladas, à prova de sopro nuclear. que se abre para um túnel de apenas 1,5 metro de altura. Agachados, eles entram em "Mike".

"Mike" é como o túmulo de um faraó, uma escura e vasta catacumba de concreto, de 15 metros de comprimento por 9 de largura, parcialmente coberta de painéis acústicos e toda suspensa da terra por quatro gigantescas molas. Se uma carga nuclear inimiga explodir perto de "Mike", as molas absorverão as vibrações maiores do solo e manterão agarrados a ele o centro de comando, com seu aparato eletrônico de computação e comunicação, os painéis e os dois oficiais - pelo menos, assim dizem os manuais. "Tudo tremerá desesperadamente", diz Belt, enquanto explica como ele e Tattini se fixariam em suas poltronas vermelhas e robustas. "Mas tremeremos por igual, agarrados a estes botões." Os russos têm bombas de 15 a 25 megatons em seus mísseis intercontinentais, mas Belt só teme uma coisa: "Poderíamos receber tudo, menos um golpe direto em cima de nossa toca. Se a bomba cair um pouco de lado, quando a poeira assentar, lá vamos nós". Vão contra quem, Belt? O major da Força Aérea não sabe responder.

Quem é o inimigo? - A confusão do oficial é fácil de entender. Enquanto foi possível distinguir entre guerra e paz, os soldados profissionais puderam compreender suas funções com certa tranqüilidade. Era possível distinguir facilmente entre o bem e o mal. Na Segunda Guerra os inimigos eram os nazistas. Mesmo na Coréia, os adversários eram comunistas que pretendiam ampliar seu domínio pelo mundo. Os militares recebiam missões claras: derrotar alemães e japoneses, salvar Berlim, manter no lado ocidental a Coréia do Sul, conter a Rússia na Cortina de Ferro. Mas a perspectiva da guerra nuclear nesta última década tomou tudo diferente. Destruir quem? Os russos, com quem os americanos assinam tratados e tentam conter a China?

Treinados para a mesma guerra que obriga Belt a viver sob a terra, e talvez com os mesmos e difusos inimigos e objetivos, 3.450.000 americanos guardam permanentemente seus postos nos sete mares e nos cinco continentes. São quase 2 milhões dentro dos EUA e mais 1,5 milhão em 429 bases estratégicas em trinta países diferentes. Sob as águas vivem as tripulações de 41 submarinos nucleares, cada um com dezesseis mísseis e cada um com uma ou três ogivas de 1 megaton. Ao todo, 656 mísseis mergulhados. Atualmente, esses foguetes mar-terra são do tipo Polaris. Até a segunda metade da década de 70 serão substituídos por mísseis MIRV-Poseidon, já aprovados em testes e que podem conduzir dez ogivas de 1 megaton e dispará-las simultaneamente contra dez alvos diferentes. Dos submarinos nucleares americanos, 21 estão em patrulha, sempre. Os 256 tripulantes destes barcos passam turnos de sessenta dias sem ver a luz do sol, com as mãos prontas para apertar botões que farão emergir seus mísseis e megatons, se Armagedon vier. Na mesma expectativa, enterrados no solo soviético e de países aliados, nos mesmos mares, diante de máquinas de botões com o mesmo significado, 3.220.000 russos mantém idêntica espera. Os soviéticos já estiveram atrasados na sofisticação de seus foguetes e submarinos. Atualmente, de acordo com informações que transpiraram de um relatório confidencial feito pelo Secretário da Defesa dos EUA a uma subcomissão do Senado americano, três semanas atrás, os soviéticos estão dando a seus homens máquinas mais eficientes. Já teriam testado: 1) antimísseis ultra-sofisticados com capacidade de esperar no ar, por alguns instantes, a chegada do Minuteman ou outro qualquer míssil atacante; 2) intercontinentais MIRV, com ogivas múltiplas dirigíveis independentemente contra até doze alvos. Além disso, constroem cinqüenta submarinos nucleares de dezesseis mísseis (como os americanos) que mergulhariam para suas vigílias ao longo dos próximos anos; nove deles já estariam no mar. O relato de Laird parece mostrar que a máquina da guerra cresce obedecendo a um instinto próprio e aproveitando-se do duelo entre os dois sistemas do mundo. A própria tecnologia cria a necessidade de novas armas e cada lado acredita que o outro sempre está analisando a guerra do futuro. E os homens, como se comportam diante dessas máquinas sempre mais fantásticas, Porém destinadas a serem apenas uma ameaça? Não seriam tentados a ver suas terríveis engrenagens em funcionamento? Tattini tem uma resposta.

O CÓDIGO - O Capitão Tattini fala e gesticula nervosamente, exibindo um revólver calibre 38, preto e de nariz achatado, que mal se distingue em seu coldre acinturado no uniforme azul-escuro. "Vê isto? Na realidade, é para nós mesmos." O que ele quer dizer é que qualquer um dos dois oficiais dentro de um posto como "Mike" atiraria no outro se percebesse subitamente seu companheiro furioso, tentando destruir o centro de controle ou lançar os Minutemen sem autorização. A Força Aérea garante que a chance de um disparo acidental é igual à chance de um asteróide cair sobre a cidade de Nova York. Mas todas as informações e o equipamento para disparar esses mísseis estão à disposição dos homens sentados nas poltronas vermelhas. A Força Aérea diz que os dois homens do posto de controle e disparo, sozinhos não podem fazer o Minuteman subir sem que um oficial superior perceba em tempo. A partida do míssil depende do comando de Belt e Tattini e de uma segunda ordem, de confirmação, lançada de algum outro centro de comando, na mesma área. Mesmo sem essa confirmação, uma ordem de disparo isolada - também chamada de "voto" - pode trazer graves conseqüências, pois inicia um processo de lançamento retardado. A falta do segundo "voto" só detém o tiro fatal por duas horas - tempo em que um mecanismo automático desenvolve sua lenta marcha até o disparo ordenado pela primeira ordem. A Força Aérea explica essa complicação de comando, onde o "voto" isolado não deve, mas ao mesmo tempo pode, depois de duas horas, iniciar a guerra nuclear. O mecanismo automático possui dupla função: evita que dois oficiais malucos soltem seus pássaros atômicos antes que os oficiais ajuizados possam impedi-los; e impede que oficiais perigosamente pacifistas paralisem os mísseis indefinidamente, no dramático dia do ajuste final das contas. Resta uma perspectiva menor, quanto ao disparo acidental: as quatro pessoas envolvidas na história dos dois "votos" estarem simultaneamente enfurecidas com o mundo. Para prevenir tal pesadelo, a USAF constantemente vigia o comportamento de todos os escolhidos para o programa de mísseis. E seus comandantes acham que essa reunião fantástica de quatro psicóticos, na mesma base, na mesma hora e nas mesmas funções, continua sendo menos provável que o asteróide de Nova York.

A ORDEM - Sem a irresponsável ajuda do azar, o futuro do mundo só passaria para as mãos de Belt e Tattini depois que o Comando Aéreo Estratégico lhes transmitisse uma ordem em código, autorizada por decisão expressa do Presidente dos Estados Unidos. Até os últimos anos da década de 40, uma lei atribuía ao Chefe da nação toda a responsabilidade e toda a autoridade para ordenar o lançamento de armas nucleares. Hoje, antes de decidir, o Presidente deve ouvir o Secretário da Defesa e o chefe da Junta de Estado-Maior (atualmente, os homens são Richard Nixon, Melvin Laird e o General Earle Wheeler). Por lei, Nixon é o Chefe Supremo dos Exércitos Americanos e não precisaria aceitar os conselhos dessa reunião a três. Mas, desde o General Eisenhower (1953-1961), os presidentes assinam um compromisso particular com seus colaboradores prometendo acolher suas opiniões no momento decisivo do disparo atômico. A lei não reconhece esse juramento entre amigos. E o mais equilibrado dos governantes americanos, num momento de extrema tensão, poderia ignorar os argumentos dos auxiliares e ordenar um massacre nuclear. Particularmente, se estivesse apenas alucinado, poderia esquecer seu juramento e apertar o botão da máquina atômica. Nesse caso, só o Vice-Presidente (hoje Spiro Agnew) possui a chave para evitar o holocausto de mísseis e bombas: solicitará o impedimento constitucional do Presidente, por julgá-lo fora de sua razão normal - e, em 24 horas, deverá apresentar as provas de seu pedido numa reunião do Gabinete.

AS CHAVES - Quando recebessem a ordem fatal - de um louco ou de qualquer outro ser humano capaz de pronunciá-la -, os dois oficiais quebrariam o pequeno cofre vermelho que está soldado bem na frente de Tattini e retirariam de lá duas chaves reluzentes. Depois de introduzidas no centro dos painéis, elas iniciarão uma contagem regressiva automática de 32 segundos - até o disparo de dez mísseis. A ordem de partida caminha até os Minutemen através de pesados cabos negros que deslizam sinuosamente dos painéis e correm para os silos onde os mísseis estão acondicionados, de 7 a 48 quilômetros de distância. Ainda que as linhas subterrâneas sejam danificadas por um ataque, Belt e Tattini podem libertar suas aves mecânicas por sinais de rádio. "As chaves devem ser torcidas simultaneamente", explica Belt. "É por isso que nossos painéis ficam 4,5 metros separados um do outro. Fisicamente, é impossível que Gene gire a sua e se estique para girar a minha ao mesmo tempo. Entretanto, uma vez que nós façamos a coisa de comum acordo, ninguém mais segurará nossos pássaros." Depois de torcidas, as chaves travam a entrada de "Mike" e acionam o relógio que mareará os segundos a partir da hora "Armagedon, T minus zero". Distante dali, nos silos dos Minutemen, as pesadas portas subterrâneas se abrirão, quase sem nenhum barulho, e os ICBM se elevarão de seus túmulos zumbindo furiosamente. Daí, nada mais poderá impedir sua trágica marcha.

A GUERRA AUTOMÁTICA - Se Belt e Tattini um dia soltarem os pássaros nucleares, seus gestos serão repetidos por milhares de anônimos oficiais russos e americanos em vários pontos da terra e do mar. Tudo está previsto para Armagedon. Mapas, tempo de disparo a partir da hora zero, opções e instruções para cada uma das atuais 5.730 bombas nucleares americanas e as estimadas 2.645 soviéticas. A guerra ficará como que parada no ar durante cinco minutos, aproximadamente. O primeiro ICBM atacante leva trinta minutos para chegar ao país atacado; quinze minutos depois de sua subida, a vitima saberá da viagem e das intenções do agressor e - em menos de dez minutos para análise e decisão - poderá colocar sua resposta no céu, Durante os cinco minutos de diferença todos saberão que a destruição está no espaço. E não haverá lugar para fugir. Do lado americano subirão para levar suas bombas mil Minutemen, 54 gigantescos Titan 11, de 25 metros e 5 megatons, mais 656 mísseis Polaris. Seiscentos velhos superbombardeiros B-52 (como os usados atualmente no Vietnã) e mais os oitenta novos modelos B-58 carregarão 2.720 bombas nucleares para uma segunda onda de ataques. As instruções estratégicas recomendam a destruição do inimigo - de suas bases, fábricas, recursos, cidades -, de forma a "deixá-lo inviável como nação do século XX". Do lado russo estarão voando também mil intercontinentais, oitocentos foguetes de alcance intermediário (alguns com ogivas de 25 megatons), 155 superbombardeiros, 144 mísseis tipo Polaris e algumas centenas de outros lançados de submarinos não movidos a energia atômica. Até cálculos aproximados do que seria a destruição deste dia de juízo final já estão feitos. Se os russos fizerem o primeiro disparo, os americanos terão entre 80 e 95 megamortes; os atacantes, 50 e 60. Se a iniciativa for dos EUA, mais de 100 megamortes russas contra 25 a 40 americanas. Os números valem para a guerra nesta semana, por exemplo, ou até o fim do ano. De acordo com alguns estrategistas, se o dia fatal tem de vir, melhor que venha o quanto antes. Em 1975, os americanos terão quadruplicado o número de suas ogivas submarinas (trocando Polaris por Poseidons) e triplicado as cabeças nucleares dos Minutemen (que terão três ogivas independentemente orientáveis). Os russos contarão com bombas orbitais (FOBS), cinqüenta submarinos com mísseis tipo Polaris e Poseidon (hoje são nove) e terão crescido seu arsenal de ICBMs. Resultado: pelo menos mais 15 ou 20 megamortes de cada lado, não importa quem ataque primeiro. Os grandes protagonistas deste apocalipse não se preocuparam em calcular o número de mortes nos países não diretamente implicados na guerra. O Brasil, por exemplo.

A hora do Brasil - É possível prever o que acontecerá no Brasil no dia em que as nações dispararem tantas bombas quantas forem necessárias para que seus inimigos deixem de existir "como nação viável do século XX". No primeiro "intercâmbio nuclear", troca de bombas entre os dois lados, o Brasil será esquecido porque não abriga bases militares de nenhuma das prováveis nações envolvidas diretamente no conflito. A Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte, será desprezada na lista de prioridades: serve apenas para lançamento de foguetes científicos. Mas, antes mesmo que os ventos tragam do hemisfério norte grandes nuvens de poeira radiativa ou que as correntes marinhas empurrem para cá os restos atômicos, chegarão as primeiras bombas. A lógica da estratégia nuclear não permite que uma grande potência conte com o refúgio de um território aliado tão vasto e rico como o do Brasil. Nas desabitadas florestas amazônicas e em inúmeras outras áreas ainda não densamente povoadas qualquer povo poderá abrigar-se por um longo período e sobreviver organizadamente, ainda que de forma precária. Daqui também partem fluxos de matéria-prima essenciais a qualquer tentativa de sobrevivência de uma nação devastada pelo átomo descontrolado. Parece implacável: a doutrina da retaliação maciça reserva algumas bombas para o Brasil. Os lugares mais prováveis e os motivos que os beligerantes teriam para atacá-los: Serra do Navio, Amapá - tem instalações de
extração de manganês, uma cidade industrial, técnicos americanos que trabalham exportando o minério para os EUA e além disso é o ponto mais próximo do território americano e poderia servir de cabeça de ponte para uma penetração na Amazônia; Grande São Paulo - o maior centro industrial latino-americano; Recôncavo Baiano - grandes reservas e refinaria de petróleo exportável; Baixada Fluminense - usina siderúrgica (Volta Redonda) e eixo da ligação ferroviária do grande centro industrial Rio-São Paulo-Minas; Rio de Janeiro e Santos - portos estratégicos.

A MANCHA VERDE - Muitas pessoas estão preparadas para a guerra que não pode acontecer. O Ministério da Defesa britânico já distribuiu uma cartilha com instruções práticas para os dias seguintes aos megatons. Exemplo: não usar a manteiga de lata antes de tirar uma camada superficial de 3 milímetros; não sair do mais precário abrigo onde estiver e, se obrigado a se deslocar, cuidar para não levantar poeira; nunca olhar para o terrífico cogumelo de fogo que é a marca da bomba. Nos EUA, arquitetos previdentes oferecem ao consumidor vários tipos de abrigos antiatômicos, acessíveis a qualquer nível de renda. Além de imensos abrigos coletivos que já existem em quase todas as grandes cidades dos países mais desenvolvidos, em alguns lugares as casas são construídas tendo "aposentos antiatômicos" como prolongamentos naturais. Mas os abrigos serão inúteis nos locais próximos ao ponto de explosão da bomba. Num raio de 8 a 10 quilômetros da cratera formada pela explosão de 1 megaton, o primeiro impacto destruirá um terço da população. O calor intenso - 300.000 graus centígrados no centro de impacto - e a radiação queimarão a pele de 15% dos sobreviventes. Ainda mais longe as crianças não resistirão à intensa hemorragia e aos vômitos provocados pelo calor. A chuva e os ventos alastrarão a desgraça, espalhando as partículas radiativas. Estourarão tubos de gás e redes subterrâneas de eletricidade: grandes incêndios tomarão conta dos esqueletos das cidades agonizantes. A guerra mesma será fulminante e rápida, mas seus efeitos prolongados e não menos terríveis. Nos primeiros meses, milhares de mortes por queimaduras e lesões internas. A inanição ou o envenenamento progressivo matarão parte dos sobreviventes: a água, o leite, as frutas e legumes trarão a morte em "doses homeopáticas".

Dez anos depois - segundo cálculos da ONU feitos em relação a Hiroxima - as mortes por leucemia atingirão o ponto máximo. Repentinas manchas verdes na pele de sobreviventes saudáveis até aquele momento indicarão retardadas marcas da bomba: são sinais de leucemia. Em Genebra, no fim de julho, russos e americanos tentarão tornar menos prováveis estas perspectivas sinistras. A cidade suíça já assistiu a 375 conferências, todas elas feitas com as mesmas intenções. Mas, até agora, estas conferências conseguiram riscar Armagedon do calendário.

 
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