|
Reportagem
publicada em 2 de julho de 1969
A
paz da bomba
As
guerras já tiveram vencidos e vencedores. Algumas, além
da miséria habitual, fizeram a glória de reis, o nome
de heróis, a auréola de mártires. Se vier outra
Grande Guerra, a maior de todas as guerras, não haverá
vencidos e vencedores - nem heróis, nem glória, nem
um mártir particular. Pois ela trocará a força
dos exércitos pela fúria dos megatons, o fuzil e a
espada pelo míssil intercontinental, a miséria comum
pelo mais sinistro de todos os horrores. Os homens e as nações
repudiam a idéia desse conflito apocalíptico. "Pensar
na guerra nuclear é pensar sobre o impensável",
diz Herman Kahn, estrategista americano, autor de "O Ano 2000".
"Nenhum cidadão sensato, nenhum líder político,
nenhuma nação a deseja", disse Robert McNamara,
quando Secretário da Defesa dos Estados Unidos. "O povo
soviético é amante da paz e nunca será o primeiro
a desencadeá-la", afirmou Nikita Kruschev, quando Primeiro-Ministro
da União Soviética.
Mas,
no fim de julho, provavelmente em Genebra, às margens do
tranqüilo lago Léman, embaixadores soviéticos
e americanos vão reunir-se com dois objetivos: pensar na
guerra impensável e falar das novas e fantásticas
armas que desenvolveram para empregar no conflito inadmissível.
Enquanto isso, na retaguarda dos diplomatas, dos dois lados do mundo,
quase 7 milhões de russos e americanos, como o fazem dia
e noite há mais de dez anos, estarão prontos para
iniciar a guerra impossível, inimaginável.
MISSÃO
DEFENSIVA - "O que o senhor acha da guerra nuclear, Major
Charles Belt?" "A guerra nuclear é como eu ter
1 bilhão de dólares, ou como o tamanho da dívida
nacional: simplesmente não consigo entender." Neste
momento, o Major Belt está enterrado nas planícies
geladas de Dakota do Norte, perto da fronteira com o Canadá.
Ele faz parte de uma equipe de oficiais da Força Aérea
encarregada de controlar e disparar os 150 mísseis intercontinentais
tipo Minuteman que os Estados Unidos mantêm dentro de abrigos
bem escondidos, no Norte do país. Na linguagem militar, os
Minutemen, brilhantes tubos de cabeça cônica, 18 m,
32 toneladas, feitos pela Boeing Corporation e agora cuidados em
suas covas por Belt e seus amigos, constituem parte da "força
estratégica de defesa". Trinta e dois segundos após
receberem o único tipo de missão que sabem executar,
eles podem deixar velozmente seus túmulos e - depois de um
vôo máximo de trinta minutos - cair sobre qualquer
ponto do globo, com uma ou três cargas não inferiores
a 1 megaton.
Os
estrategistas americanos acreditam que os povos do mundo, sabedores
da fúria desses colossos e seus semelhantes guardados no
céu, na terra e no mar, não se atreverão a
um ataque nuclear contra os Estados Unidos. Por seu lado, como sabem
que os russos têm quase os mesmos mísseis enterrados
no mesmo tipo de covas, no mesmo céu e nos mesmos mares,
os americanos (ou os chineses) não se atreverão a
um ataque nuclear contra a União Soviética. Com isto,
a paz está garantida. Pelos menos, assim diz a teoria que
pretende o equilíbrio pelo terror. Belt e seus amigos estão
ali apenas para não executar a missão específica
para a qual se prepararam nas escolas militares durante meses e
para a qual estão prontos dia e noite: o disparo dos Minutemen.
Estão ali, também, para o caso de todos os conceitos
de paz nuclear estabelecidos pelos estrategistas estarem dramaticamente
errados.
A
NOVA SEMENTE - Depois de meia hora de viagem na estrada que
vai de Grand Forks (Dakota do Norte) para o norte, tudo que um observador
desatento pode perceber vagamente ao longo da margem da rodovia
são manchas escuras sobre a neve, na vasta extensão
antes povoada por trigais. A região, contudo, abriga hoje
em dia outro tipo de sementes. No seu subsolo, o que de longe parecem
pontos negros sob pequenos montes de neve são portas de 80
toneladas de concreto cobrindo silos de 24 metros de profundidade,
onde se escondem vigilantes os 150 Minutemen da 321a. Ala de Mísseis
Estratégicos da Força Aérea Americana. Viajando
num dos carros militares especiais da base de Grand Forks, através
da planície branca, chega-se a um edifício baixo,
massudo, cinzento, cercado de arame farpado. Ali, Belt, de 33 anos,
e Eugene Tattini, de 25, oficiais da Força Aérea,
se preparam para descer ao lugar onde, durante quarenta horas, vão
controlar e estar prontos para o disparo de dez dos Minutemen da
321a. Ala. No portão, guardas armados pedem ao recém-chegado
para recitar um número em código que ele deve ter
recebido ao sair da base central e que foi comunicado ao posto por
um sinal de rádio numa freqüência especial. Alguns
soldados têm o número escrito nas costas da mão,
como uma tatuagem, ou como a cola que o estudante leva para o exame.
Neste edifício da superfície há uma sala com
três guardas armados de pistola, outra para refeições
e recreio, uma cozinha totalmente equipada e sete dormitórios.
Nele vivem os vigias do posto, os técnicos das turmas de
manutenção dos mísseis e dois oficiais para
substituir os dois outros que devem sempre estar ao lado dos botões
que acionariam os Minutemen na guerra nuclear.
Os
antimísseis - Descendo para o posto subterrâneo de
comando dos Minutemen, Belt e Tattini estariam garantindo a prontidão
do terror nuclear do lado americano; seus dedos diante dos botões
de disparo constituem a promessa de represália que mantém
a paz.
O que
faz com que as potências nucleares ainda não estejam
satisfeitas com este tipo de paz? Atualmente os americanos estão
instalando complexas redes antimísseis na região da
Ala Estratégica 321, em Dakota do Norte: é preciso
garantir que os mísseis intercontinentais não sejam
destruídos num ataque-surpresa e deixem os americanos sem
seu poder de represália. Os antimísseis tentarão
destruir - além de foguetes que tiverem sido atirados por
engano - os atacantes cuja missão seja silenciar a fúria
vingativa dos Minutemen. O projeto de uma rede antimíssil
ABM de proteção aos silos subterrâneos dos mil
Minutemen espalhados pelo país e à cidade de Washington,
sede do comando militar dos EUA, custará inicialmente 11
bilhões de dólares. Posteriormente, como parece ser
a estratégia do Pentágono, a rede seria estendida
para tentar proteger todo o país (custo estimado atualmente:
400 bilhões de dólares, a serem gastos num prazo de
dez anos).
Há
uma possibilidade de os estrategistas estarem gastando perdulariamente
esses bilhões? Segundo os partidários de uma parada
para descanso na corrida por novas armas, os antimísseis
não trarão qualquer proveito estratégico: 1)
se os russos quisessem efetuar um ataque de surpresa, disparariam
várias bombas em direções diferentes (algumas
com ogivas falsas) capazes de enganar qualquer tipo de defesa baseado
na tecnologia atual; 2) os chineses não seriam tão
estúpidos ao ponto de atacarem os americanos com a minúscula
frota de intercontinentais que terão na metade da década
de 70) os chineses não serão duplamente estúpidos
ao ponto de efetuar sua tola ofensiva com balísticos que
sabidamente iriam ser abatidos pelos antibalísticos dos EUA.
De acordo com esses críticos, o formidável esforço
industrial-militar para tornar os túmulos dos Minutemen invulneráveis
(3.000, das 120.000 firmas que suprem o Pentágono, já
estão comprometidas com o ABM) será inútil:
representará o pretexto para que russos e chineses criem
novas armas e gastem mais de seus orçamentos nas fábricas
militares. E quando os russos conseguirem defesas antimísseis
completas como as projetadas pelos EUA e os chineses obtiverem intercontinentais
sofisticados e penetrantes, o balanço do terror voltará
a ser como antes. Além do gasto de incontáveis bilhões
nos vários países, nada terá sido ganho. Outro
argumento contra as novas armas: para as nações pobres
mas guerreiras, só resta uma saída bélica de
baixo custo - a guerra química e biológica. Por um
punhado de dólares, que não pagam a porta do silo
de um Minuteman, se pode educar uma bactéria capaz de contaminar
todo o abastecimento de água de uma cidade e de matar toda
a sua população. Do ponto de vista da moral, último
obstáculo à instalação de bases e quartéis
da guerra química, é muito difícil condenar
a violência das bactérias e aceitar a fúria
dos megatons e sua poeira radiativa.
NA
TUMBA DO FARAÓ - Por enquanto, Tattini e Belt esperam
a instalação de antimísseis que darão
mais confiança no serviço de seus Minutemen. Depois
de uma refeição rápida, os dois iniciam a descida
até "Mike", o posto de comando dos Minutemen. No
fundo do poço de um elevador que desce sem pressa, os dois
oficiais chegam, 20 metros abaixo do solo, a uma enorme porta de
8 toneladas, à prova de sopro nuclear. que se abre para um
túnel de apenas 1,5 metro de altura. Agachados, eles entram
em "Mike".
"Mike"
é como o túmulo de um faraó, uma escura e vasta
catacumba de concreto, de 15 metros de comprimento por 9 de largura,
parcialmente coberta de painéis acústicos e toda suspensa
da terra por quatro gigantescas molas. Se uma carga nuclear inimiga
explodir perto de "Mike", as molas absorverão as
vibrações maiores do solo e manterão agarrados
a ele o centro de comando, com seu aparato eletrônico de computação
e comunicação, os painéis e os dois oficiais
- pelo menos, assim dizem os manuais. "Tudo tremerá
desesperadamente", diz Belt, enquanto explica como ele e Tattini
se fixariam em suas poltronas vermelhas e robustas. "Mas tremeremos
por igual, agarrados a estes botões." Os russos têm
bombas de 15 a 25 megatons em seus mísseis intercontinentais,
mas Belt só teme uma coisa: "Poderíamos receber
tudo, menos um golpe direto em cima de nossa toca. Se a bomba cair
um pouco de lado, quando a poeira assentar, lá vamos nós".
Vão contra quem, Belt? O major da Força Aérea
não sabe responder.
Quem
é o inimigo? - A confusão do oficial é
fácil de entender. Enquanto foi possível distinguir
entre guerra e paz, os soldados profissionais puderam compreender
suas funções com certa tranqüilidade. Era possível
distinguir facilmente entre o bem e o mal. Na Segunda Guerra os
inimigos eram os nazistas. Mesmo na Coréia, os adversários
eram comunistas que pretendiam ampliar seu domínio pelo mundo.
Os militares recebiam missões claras: derrotar alemães
e japoneses, salvar Berlim, manter no lado ocidental a Coréia
do Sul, conter a Rússia na Cortina de Ferro. Mas a perspectiva
da guerra nuclear nesta última década tomou tudo diferente.
Destruir quem? Os russos, com quem os americanos assinam tratados
e tentam conter a China?
Treinados
para a mesma guerra que obriga Belt a viver sob a terra, e talvez
com os mesmos e difusos inimigos e objetivos, 3.450.000 americanos
guardam permanentemente seus postos nos sete mares e nos cinco continentes.
São quase 2 milhões dentro dos EUA e mais 1,5 milhão
em 429 bases estratégicas em trinta países diferentes.
Sob as águas vivem as tripulações de 41 submarinos
nucleares, cada um com dezesseis mísseis e cada um com uma
ou três ogivas de 1 megaton. Ao todo, 656 mísseis mergulhados.
Atualmente, esses foguetes mar-terra são do tipo Polaris.
Até a segunda metade da década de 70 serão
substituídos por mísseis MIRV-Poseidon, já
aprovados em testes e que podem conduzir dez ogivas de 1 megaton
e dispará-las simultaneamente contra dez alvos diferentes.
Dos submarinos nucleares americanos, 21 estão em patrulha,
sempre. Os 256 tripulantes destes barcos passam turnos de sessenta
dias sem ver a luz do sol, com as mãos prontas para apertar
botões que farão emergir seus mísseis e megatons,
se Armagedon vier. Na mesma expectativa, enterrados no solo soviético
e de países aliados, nos mesmos mares, diante de máquinas
de botões com o mesmo significado, 3.220.000 russos mantém
idêntica espera. Os soviéticos já estiveram
atrasados na sofisticação de seus foguetes e submarinos.
Atualmente, de acordo com informações que transpiraram
de um relatório confidencial feito pelo Secretário
da Defesa dos EUA a uma subcomissão do Senado americano,
três semanas atrás, os soviéticos estão
dando a seus homens máquinas mais eficientes. Já teriam
testado: 1) antimísseis ultra-sofisticados com capacidade
de esperar no ar, por alguns instantes, a chegada do Minuteman ou
outro qualquer míssil atacante; 2) intercontinentais MIRV,
com ogivas múltiplas dirigíveis independentemente
contra até doze alvos. Além disso, constroem cinqüenta
submarinos nucleares de dezesseis mísseis (como os americanos)
que mergulhariam para suas vigílias ao longo dos próximos
anos; nove deles já estariam no mar. O relato de Laird parece
mostrar que a máquina da guerra cresce obedecendo a um instinto
próprio e aproveitando-se do duelo entre os dois sistemas
do mundo. A própria tecnologia cria a necessidade de novas
armas e cada lado acredita que o outro sempre está analisando
a guerra do futuro. E os homens, como se comportam diante dessas
máquinas sempre mais fantásticas, Porém destinadas
a serem apenas uma ameaça? Não seriam tentados a ver
suas terríveis engrenagens em funcionamento? Tattini tem
uma resposta.
O
CÓDIGO - O Capitão Tattini fala e gesticula nervosamente,
exibindo um revólver calibre 38, preto e de nariz achatado,
que mal se distingue em seu coldre acinturado no uniforme azul-escuro.
"Vê isto? Na realidade, é para nós mesmos."
O que ele quer dizer é que qualquer um dos dois oficiais
dentro de um posto como "Mike" atiraria no outro se percebesse
subitamente seu companheiro furioso, tentando destruir o centro
de controle ou lançar os Minutemen sem autorização.
A Força Aérea garante que a chance de um disparo acidental
é igual à chance de um asteróide cair sobre
a cidade de Nova York. Mas todas as informações e
o equipamento para disparar esses mísseis estão à
disposição dos homens sentados nas poltronas vermelhas.
A Força Aérea diz que os dois homens do posto de controle
e disparo, sozinhos não podem fazer o Minuteman subir sem
que um oficial superior perceba em tempo. A partida do míssil
depende do comando de Belt e Tattini e de uma segunda ordem, de
confirmação, lançada de algum outro centro
de comando, na mesma área. Mesmo sem essa confirmação,
uma ordem de disparo isolada - também chamada de "voto"
- pode trazer graves conseqüências, pois inicia um processo
de lançamento retardado. A falta do segundo "voto"
só detém o tiro fatal por duas horas - tempo em que
um mecanismo automático desenvolve sua lenta marcha até
o disparo ordenado pela primeira ordem. A Força Aérea
explica essa complicação de comando, onde o "voto"
isolado não deve, mas ao mesmo tempo pode, depois de duas
horas, iniciar a guerra nuclear. O mecanismo automático possui
dupla função: evita que dois oficiais malucos soltem
seus pássaros atômicos antes que os oficiais ajuizados
possam impedi-los; e impede que oficiais perigosamente pacifistas
paralisem os mísseis indefinidamente, no dramático
dia do ajuste final das contas. Resta uma perspectiva menor, quanto
ao disparo acidental: as quatro pessoas envolvidas na história
dos dois "votos" estarem simultaneamente enfurecidas com
o mundo. Para prevenir tal pesadelo, a USAF constantemente vigia
o comportamento de todos os escolhidos para o programa de mísseis.
E seus comandantes acham que essa reunião fantástica
de quatro psicóticos, na mesma base, na mesma hora e nas
mesmas funções, continua sendo menos provável
que o asteróide de Nova York.
A
ORDEM - Sem a irresponsável ajuda do azar, o futuro do
mundo só passaria para as mãos de Belt e Tattini depois
que o Comando Aéreo Estratégico lhes transmitisse
uma ordem em código, autorizada por decisão expressa
do Presidente dos Estados Unidos. Até os últimos anos
da década de 40, uma lei atribuía ao Chefe da nação
toda a responsabilidade e toda a autoridade para ordenar o lançamento
de armas nucleares. Hoje, antes de decidir, o Presidente deve ouvir
o Secretário da Defesa e o chefe da Junta de Estado-Maior
(atualmente, os homens são Richard Nixon, Melvin Laird e
o General Earle Wheeler). Por lei, Nixon é o Chefe Supremo
dos Exércitos Americanos e não precisaria aceitar
os conselhos dessa reunião a três. Mas, desde o General
Eisenhower (1953-1961), os presidentes assinam um compromisso particular
com seus colaboradores prometendo acolher suas opiniões no
momento decisivo do disparo atômico. A lei não reconhece
esse juramento entre amigos. E o mais equilibrado dos governantes
americanos, num momento de extrema tensão, poderia ignorar
os argumentos dos auxiliares e ordenar um massacre nuclear. Particularmente,
se estivesse apenas alucinado, poderia esquecer seu juramento e
apertar o botão da máquina atômica. Nesse caso,
só o Vice-Presidente (hoje Spiro Agnew) possui a chave para
evitar o holocausto de mísseis e bombas: solicitará
o impedimento constitucional do Presidente, por julgá-lo
fora de sua razão normal - e, em 24 horas, deverá
apresentar as provas de seu pedido numa reunião do Gabinete.
AS
CHAVES - Quando recebessem a ordem fatal - de um louco ou de
qualquer outro ser humano capaz de pronunciá-la -, os dois
oficiais quebrariam o pequeno cofre vermelho que está soldado
bem na frente de Tattini e retirariam de lá duas chaves reluzentes.
Depois de introduzidas no centro dos painéis, elas iniciarão
uma contagem regressiva automática de 32 segundos - até
o disparo de dez mísseis. A ordem de partida caminha até
os Minutemen através de pesados cabos negros que deslizam
sinuosamente dos painéis e correm para os silos onde os mísseis
estão acondicionados, de 7 a 48 quilômetros de distância.
Ainda que as linhas subterrâneas sejam danificadas por um
ataque, Belt e Tattini podem libertar suas aves mecânicas
por sinais de rádio. "As chaves devem ser torcidas simultaneamente",
explica Belt. "É por isso que nossos painéis
ficam 4,5 metros separados um do outro. Fisicamente, é impossível
que Gene gire a sua e se estique para girar a minha ao mesmo tempo.
Entretanto, uma vez que nós façamos a coisa de comum
acordo, ninguém mais segurará nossos pássaros."
Depois de torcidas, as chaves travam a entrada de "Mike"
e acionam o relógio que mareará os segundos a partir
da hora "Armagedon, T minus zero". Distante dali, nos
silos dos Minutemen, as pesadas portas subterrâneas se abrirão,
quase sem nenhum barulho, e os ICBM se elevarão de seus túmulos
zumbindo furiosamente. Daí, nada mais poderá impedir
sua trágica marcha.
A
GUERRA AUTOMÁTICA - Se Belt e Tattini um dia soltarem
os pássaros nucleares, seus gestos serão repetidos
por milhares de anônimos oficiais russos e americanos em vários
pontos da terra e do mar. Tudo está previsto para Armagedon.
Mapas, tempo de disparo a partir da hora zero, opções
e instruções para cada uma das atuais 5.730 bombas
nucleares americanas e as estimadas 2.645 soviéticas. A guerra
ficará como que parada no ar durante cinco minutos, aproximadamente.
O primeiro ICBM atacante leva trinta minutos para chegar ao país
atacado; quinze minutos depois de sua subida, a vitima saberá
da viagem e das intenções do agressor e - em menos
de dez minutos para análise e decisão - poderá
colocar sua resposta no céu, Durante os cinco minutos de
diferença todos saberão que a destruição
está no espaço. E não haverá lugar para
fugir. Do lado americano subirão para levar suas bombas mil
Minutemen, 54 gigantescos Titan 11, de 25 metros e 5 megatons, mais
656 mísseis Polaris. Seiscentos velhos superbombardeiros
B-52 (como os usados atualmente no Vietnã) e mais os oitenta
novos modelos B-58 carregarão 2.720 bombas nucleares para
uma segunda onda de ataques. As instruções estratégicas
recomendam a destruição do inimigo - de suas bases,
fábricas, recursos, cidades -, de forma a "deixá-lo
inviável como nação do século XX".
Do lado russo estarão voando também mil intercontinentais,
oitocentos foguetes de alcance intermediário (alguns com
ogivas de 25 megatons), 155 superbombardeiros, 144 mísseis
tipo Polaris e algumas centenas de outros lançados de submarinos
não movidos a energia atômica. Até cálculos
aproximados do que seria a destruição deste dia de
juízo final já estão feitos. Se os russos fizerem
o primeiro disparo, os americanos terão entre 80 e 95 megamortes;
os atacantes, 50 e 60. Se a iniciativa for dos EUA, mais de 100
megamortes russas contra 25 a 40 americanas. Os números valem
para a guerra nesta semana, por exemplo, ou até o fim do
ano. De acordo com alguns estrategistas, se o dia fatal tem de vir,
melhor que venha o quanto antes. Em 1975, os americanos terão
quadruplicado o número de suas ogivas submarinas (trocando
Polaris por Poseidons) e triplicado as cabeças nucleares
dos Minutemen (que terão três ogivas independentemente
orientáveis). Os russos contarão com bombas orbitais
(FOBS), cinqüenta submarinos com mísseis tipo Polaris
e Poseidon (hoje são nove) e terão crescido seu arsenal
de ICBMs. Resultado: pelo menos mais 15 ou 20 megamortes de cada
lado, não importa quem ataque primeiro. Os grandes protagonistas
deste apocalipse não se preocuparam em calcular o número
de mortes nos países não diretamente implicados na
guerra. O Brasil, por exemplo.
A hora
do Brasil - É possível prever o que acontecerá
no Brasil no dia em que as nações dispararem tantas
bombas quantas forem necessárias para que seus inimigos deixem
de existir "como nação viável do século
XX". No primeiro "intercâmbio nuclear", troca
de bombas entre os dois lados, o Brasil será esquecido porque
não abriga bases militares de nenhuma das prováveis
nações envolvidas diretamente no conflito. A Barreira
do Inferno, no Rio Grande do Norte, será desprezada na lista
de prioridades: serve apenas para lançamento de foguetes
científicos. Mas, antes mesmo que os ventos tragam do hemisfério
norte grandes nuvens de poeira radiativa ou que as correntes marinhas
empurrem para cá os restos atômicos, chegarão
as primeiras bombas. A lógica da estratégia nuclear
não permite que uma grande potência conte com o refúgio
de um território aliado tão vasto e rico como o do
Brasil. Nas desabitadas florestas amazônicas e em inúmeras
outras áreas ainda não densamente povoadas qualquer
povo poderá abrigar-se por um longo período e sobreviver
organizadamente, ainda que de forma precária. Daqui também
partem fluxos de matéria-prima essenciais a qualquer tentativa
de sobrevivência de uma nação devastada pelo
átomo descontrolado. Parece implacável: a doutrina
da retaliação maciça reserva algumas bombas
para o Brasil. Os lugares mais prováveis e os motivos que
os beligerantes teriam para atacá-los: Serra do Navio, Amapá
- tem instalações de
extração de manganês, uma cidade industrial,
técnicos americanos que trabalham exportando o minério
para os EUA e além disso é o ponto mais próximo
do território americano e poderia servir de cabeça
de ponte para uma penetração na Amazônia; Grande
São Paulo - o maior centro industrial latino-americano; Recôncavo
Baiano - grandes reservas e refinaria de petróleo exportável;
Baixada Fluminense - usina siderúrgica (Volta Redonda) e
eixo da ligação ferroviária do grande centro
industrial Rio-São Paulo-Minas; Rio de Janeiro e Santos -
portos estratégicos.
A
MANCHA VERDE - Muitas pessoas estão preparadas para a
guerra que não pode acontecer. O Ministério da Defesa
britânico já distribuiu uma cartilha com instruções
práticas para os dias seguintes aos megatons. Exemplo: não
usar a manteiga de lata antes de tirar uma camada superficial de
3 milímetros; não sair do mais precário abrigo
onde estiver e, se obrigado a se deslocar, cuidar para não
levantar poeira; nunca olhar para o terrífico cogumelo de
fogo que é a marca da bomba. Nos EUA, arquitetos previdentes
oferecem ao consumidor vários tipos de abrigos antiatômicos,
acessíveis a qualquer nível de renda. Além
de imensos abrigos coletivos que já existem em quase todas
as grandes cidades dos países mais desenvolvidos, em alguns
lugares as casas são construídas tendo "aposentos
antiatômicos" como prolongamentos naturais. Mas os abrigos
serão inúteis nos locais próximos ao ponto
de explosão da bomba. Num raio de 8 a 10 quilômetros
da cratera formada pela explosão de 1 megaton, o primeiro
impacto destruirá um terço da população.
O calor intenso - 300.000 graus centígrados no centro de
impacto - e a radiação queimarão a pele de
15% dos sobreviventes. Ainda mais longe as crianças não
resistirão à intensa hemorragia e aos vômitos
provocados pelo calor. A chuva e os ventos alastrarão a desgraça,
espalhando as partículas radiativas. Estourarão tubos
de gás e redes subterrâneas de eletricidade: grandes
incêndios tomarão conta dos esqueletos das cidades
agonizantes. A guerra mesma será fulminante e rápida,
mas seus efeitos prolongados e não menos terríveis.
Nos primeiros meses, milhares de mortes por queimaduras e lesões
internas. A inanição ou o envenenamento progressivo
matarão parte dos sobreviventes: a água, o leite,
as frutas e legumes trarão a morte em "doses homeopáticas".
Dez
anos depois - segundo cálculos da ONU feitos em relação
a Hiroxima - as mortes por leucemia atingirão o ponto máximo.
Repentinas manchas verdes na pele de sobreviventes saudáveis
até aquele momento indicarão retardadas marcas da
bomba: são sinais de leucemia. Em Genebra, no fim de julho,
russos e americanos tentarão tornar menos prováveis
estas perspectivas sinistras. A cidade suíça já
assistiu a 375 conferências, todas elas feitas com as mesmas
intenções. Mas, até agora, estas conferências
conseguiram riscar Armagedon do calendário.
|