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Reportagem
publicada em 27 de dezembro de 1972
Mais um Natal de guerra
O Natal
veio e passou, mas não trouxe a paz - apenas, como irônica
compensação, a modesta e simbólica trégua
tradicional de 24 horas. Na verdade, há mais de uma semana
as esperanças de um acordo no Vietnã, que menos de
dois meses atrás eram quase certezas, já se haviam
reduzido a tênues ilusões de que a guerra não
fosse indiferente às datas marcadas em vermelho nos calendários.
Assim,
a paz, em 26 de outubro apresentada por Henry Kissinger como ao
alcance da mão, em 25 de dezembro já havia escorregado
definitivamente entre os dedos - talvez ansiosos demais, quem sabe
duros demais - de todos os homens de boa vontade que a buscavam.
E, pior que a ausência do cessar-fogo, a semana que antecedeu
ao Natal trouxe consigo um recrudescimento do combate. A partir
da noite de segunda-feira, inesperadamente, uma avalanche diária
de bombas começou a cair sobre o Vietnã do Norte.
Foram os bombardeios mais intensos de toda a guerra, concentrados
na região de Hanói e do porto de Haiphong. Num só
dia, cem dos duzentos bombardeiros B-52 americanos baseados no sudeste
asiático atacaram os dois centros norte-vietnamitas. E, ao
ataque sem precedentes, corresponderam perdas inusitadas: até
sábado, dez B-52 e quatro outros aviões haviam sido
abatidos pela artilharia comunista.
Oficialmente,
a primeira razão apresentada para o reinício dos bombardeios,
que selou a ruptura das negociações, foi a necessidade
de prevenir uma nova ofensiva de Hanói no sul. Em Saigon,
essa era a única informação disponível,
estando toda a operação cercada do mais rigoroso black-out
de notícias já visto na capital sul-vietnamita nos
últimos dez anos. José Roberto Guzzo, de VEJA, ouviu
um porta-voz do comando americano responder a uma enxurrada de perguntas
com um definitivo "não desminto, não confirmo,
não comento". No dia seguinte, o mesmo oficial recebeu
os jornalistas com uma única frase: "Nada tenho a acrescentar
ao que declarei ontem".
Em
Washington, a versão oficiosa era de que as bombas seriam
apenas uma continuação das negociações
por outros meios: Hanói se recusara a atender a um ultimato
para que reconsiderasse sua posição nas conversações,
e os B-52 estariam sendo usados para forçar o governo comunista
a ceder. (Por outro lado, o também recalcitrante presidente
Van Thieu teria recebido o seu ultimato: ou revia sua lista de exigências
ou os EUA retirariam toda a ajuda econômica e militar ao país;
no sábado, o general Alexander Haig, assessor de Henry Kissinger,
entregou a Nixon uma carta sigilosa de Thieu contendo a sua resposta.)
Enquanto
o efeito das bombas sobre o Vietnã do Norte não parecia
até o fim da semana ter levado os comunistas a modificar
sua intransigência - pelo contrário, eles reagiram
abandonando as negociações em todos os níveis,
inclusive os debates de caráter técnico que ainda
se realizavam em Paris -, a sua conseqüência, dentro
e fora dos Estados Unidos, foi de choque e, em alguns casos, de
violenta condenação.
Para
o "New York Times", "o Vietnã do Norte pode
ser levado de volta à Idade da Pedra pelos bombardeios...
mas os EUA estão em perigo de serem reduzidos a uma espécie
de barbarismo da Idade da Pedra, que pode destruir algumas das coisas
que mais valem a pena preservar na civilização americana".
E o papa lamentou a intensificação das hostilidades:
"Temos de manifestar nossa profunda dor pelo repentino reinício
dos atos de guerra, totalmente brutais, nesse Vietnã motivo
de aflição diária".
Em
Key Biscayne, na Flórida, onde passou o Natal, o presidente
Nixon respondeu a todas as acusações com um silêncio
quase absoluto, rompido apenas na sexta-feira com uma declaração
nebulosa de seu secretário de Imprensa, Ron Ziegler: "O
presidente está disposto a apelar a todos os recursos a fim
de levar a situação a um ponto em que um acordo negociado
possa ser conseguido a fim de pôr termo à guerra rapidamente".
A frase
se presta certamente a mais de uma interpretação.
A mais aparente de todas é a de que a paz continua distante.
Não veio no Natal, não é possível que
venha no Ano Novo - resta aos otimistas pensarem na Páscoa,
e, aos pessimistas, falarem no próximo Natal.
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