especial As guerras dos EUA

Reportagem publicada em 16 de janeiro de 1991

A hora do pesadelo

O prazo chega ao fim: se Saddam Hussein não recuar
e sair do Kuwait, os Estados Unidos arrastam o Golfo Pérsico
para uma guerra devastadora

"Sempre comparei meu comportamento ao deserto", escreveu o presidente do Iraque, Saddam Hussein, em sua romântica e precoce autobiografia. "À primeira vista ele parece calmo e suave, até que explode furiosamente, lutando contra as tempestades e as rajadas de vento." O que restava de esperança de que o Golfo Pérsico não estoure numa guerra alucinada a partir do prazo final imposto pelos Estados Unidos e endossado pela ONU repousava até o fim da semana passada na personalidade confessadamente enganadora de Saddam. Se a superfície calma predominar, ele dará um jeito de admitir que a anexação do Kuwait, desfechada na madrugada de 2 de agosto do ano passado, não é tão irreversível como tem jurado desde então. Mas se as profundezas sombrias falarem mais alto e Saddam persistir em desafiar as doze resoluções da ONU que condenam e exigem a devolução do país invadido, não restam mais dúvidas: a hora do pesadelo vai chegar a qualquer momento a partir da meia-noite desta terça-feira, horário de Washington, 8 da manhã do dia seguinte em Bagdá.

O sonho mau vai começar sob a forma de um ataque aéreo fulminante, com o qual os Estados Unidos pretendem desencadear uma guerra incrivelmente rápida, fabulosamente violenta e com potencial para se espalhar em diversas direções. Pode terminar num inferno cujas chamas vão se espalhar sobre as maiores reservas de petróleo do planeta, envolver Israel e seu arsenal nuclear, insuflar os ânimos terroristas mundo afora, deprimir a economia dos países ricos e estraçalhar a dos pobres que não têm nada a ver com essa história, como o Brasil, onde o governo trabalha com a hipótese do barril de petróleo triplicado para 90 dólares e do inevitável racionamento de energia.

DIÁLOGO DE SURDOS - Durante cinco meses e doze dias, o mundo esperou que, colocados frente a frente, os Estados Unidos e o Iraque encontrassem uma saída para evitar a guerra. Em seis horas e meia, na quarta-feira passada, essa expectativa foi demolida. "Lamentavelmente, não ouvi nada que sugerisse qualquer flexibilidade por parte do Iraque", declarou com expressão sombria o secretário de Estado americano, James Baker, depois do diálogo de surdos que manteve com o chanceler Tariq Aziz no Hotel Intercontinental de Genebra. "A escolha agora é do Iraque. Se persistir na brutal ocupação do Kuwait, estará optando por um confronto militar que não pode vencer." Como Baker, Aziz saiu dizendo exatamente o que dizia antes do encontro. "Os Estados Unidos se recusam a discutir a questão palestina", retrucou o chanceler, ao referir-se à condição inventada por Saddam Hussein para abandonar o vizinho ocupado na condição de herói da causa árabe e não como um aventureiro intimidado por um adversário infinitamente mais poderoso.

Com fleuma notável, especialmente considerando-se que sairia das margens serenas do Lago de Genebra para se colocar na mira dos mísseis americanos em Bagdá, Aziz explicou por que se recusou a levar até seu chefe a carta enviada pelo presidente George Bush - "termos pouco corteses", uma alegação extraordinária diante dos insultos que os dois presidentes já trocaram em público. Ele desfilou também uma série de argumentos para explicar a irredutibilidade iraquiana que poderiam soar até convincentes: existe a possibilidade de uma solução árabe para a crise, a questão palestina tem que ser resolvida e os Estados Unidos não podem ditar as regras de comportamento dos outros países. O problema é que todas essas ponderações foram usadas para justificar o injustificável - a invasão e anexação de um país soberano, transformado na marra na província do Iraque, contra os princípios mais elementares do direito internacional.

JOGO DE CINTURA - A alta ansiedade criada pela perspectiva crescentemente próxima da guerra atingiu um nível tal que, quanto mais Saddam insistia em público nas horrendas promessas de ir até o fim, arrastando os americanos e seus aliados para "a mãe de todas as batalhas", mais se tentava vislumbrar, nos bastidores, os desenhos de uma solução de undécima hora. "Em particular, os dirigentes iraquianos já não dizem mais que o Kuwait faz parte do Iraque", garantiu um diplomata ocidental depois de conversar com o presidente da Argélia, Chadli Bendjedid, um dos interlocutores privilegiados de Saddam. Com base nas informações de um grupo de diplomatas árabes, o jornal The Nem, York Times noticiou na quinta-feira um plano detalhado: "um ou dois dias" depois do prazo final dado pela ONU, de forma a não parecer apavorado demais, Saddam anuncia que se dispõe a sair do Kuwait, desde que se arme uma conferência sobre a questão palestina.

Na sexta-feira, Saddam negou que estivesse negociando a retirada, mas anunciou seu apoio ao cumprimento de todas as resoluções da ONU - "a começar por aquelas que se referem à Palestina". Foi a primeira vez que admitiu se contentar com dezoito províncias no seu país - a única concessão que pode, no último minuto, evitar a guerra no Golfo. Apesar das bravatas cada vez mais violentas, Saddam tem jogo de cintura. Menos de um mês depois da invasão do Kuwait, ele avisou que estava disposto a "conversar sobre qualquer assunto" com o presidente Bush. No dia 6 de dezembro passado, libertou todos os reféns estrangeiros.

BAGUNÇA GERAL - E sobre essa margem imprevisível de flexibilidade que se apoiamos esforços derradeiros. Na quarta-feira passada, desafiando a fúria indisfarçada dos americanos, o presidente François Mitterrand partiu na busca solitária da virada. Propôs um plano pessoal de paz vinculando a saída iraquiana do Kuwait ao debate da questão palestina, anunciou que seus esforços em busca de uma saída diplomática só terminarão na manhã do dia 16 e prometeu despachar para Bagdá o chanceler Roland Dumas. O secretário-geral da ONU, Javier Pérez de Cuéllar, também começou na sexta-feira da semana passada uma última tentativa de paz voando para o bunker de Saddam Hussein. "É minha missão como secretário-geral", disse, sem muito entusiasmo.

A olimpíada de gestões diplomáticas que vai de Genebra a Teerã, de Paris a Argel, de Nova York a Trípoli tenta reverter a bagunça geral no mundo criada por Saddam ao assaltar um país vizinho e acirrada por Bush, ao reagir com a maior mobilização de tropas americanas desde a Guerra do Vietnã e fixar prazos rígidos que cortam o caminho para uma saída negociada. Quando desembarcaram no Kuwait no melhor estilo bandoleiro, os soldados de Saddam foram direto aos cofres milionários para roubar de 3 a 4 bilhões de dólares e 70 toneladas de ouro. Somente doze dias depois do início do assalto, quando viu o tamanho da reação internacional, foi que Saddam se lembrou de vincular a crise ao problema dos palestinos com Israel. Bush, por sua vez, prosseguiu com a política americana de cevar o ditador como equipamento de equilíbrio de poder em relação aos aiatolás do Irã, em seguida ignorou todos os indícios sobre o bote que se preparava contra o Kuwait e, depois do golpe, se lançou numa escalada militar ao longo da qual parece contar os minutos para ter a chance para abrir fogo contra seu novo inimigo-mor.

CAMPEONATO DE BEISEBOL - Bater na mesa e bater forte, principalmente quando o adversário é um tipo como Saddam Hussein, faz parte do jogo. Quem está interessado numa saída não bélica, no entanto, sabe que o grande porrete tem que ser acompanhado por alguma fala macia. "O modelo de negociação está na crise dos mísseis cubanos", sugeriu o deputado Les Aspin, presidente da Comissão das Forças Armadas da Câmara, ao lembrar como o presidente John Kennedy evitou uma guerra quando a União Soviética instalou mísseis nucleares em Cuba em 1962. "Kennedy ateve-se à exigência da retirada dos mísseis, mas concordou em não atacar Cuba e retirar velhos mísseis americanos da Turquia." A concessão americana só foi conhecida meses depois. Para Les Aspin, Bush poderia ceder diante de algumas reivindicações do Iraque e aplicar o truque de só anunciá-las quando a opinião pública americana estivesse preocupada com o campeonato nacional de beisebol.

A diferença, naturalmente, é que Kennedy tinha como adversário um país com capacidade de retaliação nuclear contra os Estados Unidos e Bush teme que um recuo de última hora possa lhe tirar a oportunidade de aplicar uma lição arrasadora a um inimigo incomparavelmente mais fraco. Se Saddam disser que fecha o negócio e sai do Kuwait, em troca das duas ilhas que lhe dariam um acesso marítimo seguro ao Golfo Pérsico, do gigantesco poço de petróleo na fronteira dos dois países e de algum arranjo em dinheiro com seus vizinhos árabes - as condições mais objetivas para uma barganha -, o presidente perde a força de seu argumento.

CARNE DE CANHÃO - Quem, nos Estados Unidos, vai arriscar vidas americanas por causa de duas ilhotas de nome impronunciável? Para Bush, no entanto, a máxima segundo a qual não existe guerra boa nem a paz ruim, enunciada por um compatriota ilustre - Benjamin Franklin -, não vale nesse caso. "O preço da paz agora, nas condições de Saddam Hussein, terá que ser pago muitas vezes no futuro, com muito mais sacrifício e sofrimento", repisou ele na semana passada, enquanto tratava de se preparar para dividir a conta já, assinando uma ordem executiva que permite ao governo requisitar meios de transportes, alimentos, energia e prioridade na produção industrial que for necessária para sustentar o esforço de guerra. Como não precisa de decreto nenhum para definir suas prioridades materiais, Saddam requisitou uma reserva extra de carne de canhão, convocando até os jovens de 17 anos para ir à luta e fazer os americanos "nadar em seu próprio sangue". Se nenhum dos dois ceder, será uma sangueira capaz de envergonhar até mesmo o final de um século marcado pelas duas maiores guerras já travadas pela humanidade.

 
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