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Reportagem
publicada em 6 de maio de 1970
Uma guerra ainda maior
Durante
uma semana, a hora difícil foi evitada. Como nos momentos
mais graves da vida americana, o Presidente Nixon iria à
televisão na semana anterior para fazer um comunicado importante
à nação - mas o regresso dramático da
Apolo 13 fez com que ele preferisse reservar o vídeo para
o espetáculo mais estimulante das operações
de resgate e da recepção aos três astronautas.
Na noite da última quinta-feira, entretanto, Nixon decidiu
que tinha chegado finalmente a hora de falar. E, em 22 minutos de
um discurso tenso, o presidente confirmou que, para os Estados Unidos,
a guerra do Vietnã se tinha transformado, de maneira praticamente
oficial, na guerra de toda a Indochina.
Duas
horas antes do discurso de Nixon, 8.000 soldados americanos, apoiados
pelo fogo de cem peças de artilharia pesada e pelas bombas
dos imensos B-52, tinham cruzado a fronteira do Vietnã do
Sul e entrado no território do Camboja. Objetivo: atacar
as posições comunistas - norte-vietnamitas, vietcongs
e guerrilheiros cambojanos na região fronteiriça,
em conjunto com os 15.000 soldados sul-vietnamitas que desde a véspera
já combatiam dentro do Camboja.
Ao
dar a ordem expressa para essa intervenção, o Presidente
Nixon admitia que a guerra do Vietnã não pode mais
ficar presa a fronteiras. "Cheguei à conclusão
de que era a hora de agir", disse ele, "porque as atividades
comunistas no Camboja, evidentemente, põem em perigo a segurança
dos americanos no Vietnã e constituiriam um risco inaceitável
para os que ali permanecerem após a retirada de 150.000 de
nossos soldados." 0 perigo realmente existe. Pois os comunistas,
instalados em toda a Indochina - Vietnã do Norte, Vietnã
do Sul, Laos e Camboja -, consolidaram a tal ponto sua implantação
em territórios oficialmente fora da guerra, que ganharam
condições para manter numa espécie de grande
cerco às tropas americanas que combatem no Vietnã
do Sul.
SANTUÁRIOS
- 0 ataque americano da semana passada pretende romper um dos pontos
principais deste cerco. Com efeito, a operação "Vitória
Total" sacode desde a noite da última quinta-feira as
regiões que a linguagem da guerra chama de "Bico de
Papagaio" e "Anzol" - partes do território
cambojano que se encravam em território sul-vietnamita, e
nas quais os comunistas tinham instalado seus santuários.
Ali, durante os últimos anos, protegidos pela benevolente
neutralidade do "premier" cambojano Norodom Sihanouk,
eles haviam construído o seu oásis: era o lugar onde
preparavam seus ataques contra o Vietnã do Sul e para onde
voltavam em segurança após as incursões. Um
refúgio tranqüilo, a 70 ou 100 quilômetros de
Saigon.
Ao
cruzarem a fronteira para ir combater no Camboja, os americanos
encontraram os objetivos que já conheciam há tanto
tempo. Os superbombardeiros B-52 e as centenas de tanques engajados
na operação, além das ondas sucessivas de helicópteros,
atacaram maciçamente campos de treinamento, hospitais de
campanha, armazéns de suprimentos, depósitos de munições,
fortificações subterrâneas, os habituais labirintos
de túneis - todo o complexo militar que norte-vietnamitas
e vietcongs haviam instalado na região.
Para
os 25 000 soldados americanos e sul-vietnamitas que atacaram os
santuários comunistas, os primeiros resultados foram aparentemente
animadores. Ao contrário de outras regiões da fronteira
cambojano-vietnamita, cobertas por florestas, a Província
de Svay Rieng, onde se desenvolve a operação, é
plana e seca após as colheitas de arroz - um terreno favorável
para a movimentação dos tanques e outras peças
de artilharia. No fim da semana, os americanos já combatiam
numa extensão de 300 quilômetros e os comunistas, rudemente
pressionados, cediam em vários pontos. Toda a região
fronteiriça mudou rapidamente de fisionomia: em lugar dos
habituais ciclistas carregando cestos de laranja, dos comerciantes
cambojanos negociando com os vietcongs, ou dos contrabandistas trazendo
cigarros e rações militares americanas pela estrada
que liga Saigon a Phnon Penh, a Província de Svay Rieng só
tem lugar, agora, para os soldados. Na sua ofensiva, os americanos
já começaram mesmo a construir uma base militar de
apoio - depois de limparem devidamente a área com um pesado
bombardeio. E, durante todo o fim de semana, as operações
eram intensificadas com um motivo bem preciso: a captura do quartel-general
comunista que comanda toda a ação militar dos guerrilheiros
no Vietnã do Sul e que, ao longo dos anos, se tem deslocado
de um lado para outro no Camboja, beirando a fronteira.
À
MARGEM - A extensão da guerra ao Camboja poderá afastar
o quartel-general comunista da região, mas é pouco
provável que uma vitória local solucione o problema
cambojano. "Nosso objetivo não é ocupar a área",
disse Nixon em seu discurso. "Quando as tropas inimigas forem
expulsas e suas linhas de abastecimento destruídas, nós
nos retiraremos." Resta saber se essas intenções
poderão ser cumpridas. Os norte-vietnamitas, vietcongs e
cambojanos comunistas controlam a maior parte das cinco províncias
mais populosas do país, e seu recuo no Bico de Papagaio e
no Anzol, embora desafogue Saigon, não impedirá que
continuem se infiltrando no Vietnam do Sul por outras regiões,
ao longo dos 900 quilômetros de fronteira. 0 perigo anunciado
por Nixon, assim, continuará subsistindo em sua essência.
E o Camboja, que de uma forma ou de outra se equilibrava à
margem do conflito, agora só sairá dele quando seus
vizinhos também saírem.
Por
mais de dez anos, o reino do Camboja parecia menos uma parte da
turbulenta Indochina do que uma terra imaginária. Enquanto
batalhas selvagens agitavam os vizinhos Vietnã e, em menor
escala, o Laos, Jackie Kennedy ainda podia visitar as preciosas
ruínas de Angkor e o Príncipe Norodom Sihanouk, o
alegre chefe de Estado cambojano, encontrava tempo para realizar
festivais de cinema, normalmente mostrando filmes de sua própria
autoria. A economia capengava, enquadrada em sistemas pouco ortodoxos
- o Camboja vendia seu arroz para o Vietcong, importava da China
e reexportava para a Costa do Marfim -, mas Sihanouk sempre tinha
uma promessa para prolongar um pouco mais a paciência dos
descontentes. Na atmosfera tropical de Phnom Penh, as intrigas palacianas
se sucediam - a Rainha-Mãe Kossomak, por exemplo, chegou
a ser acusada de manter bordéis, instalados com dinheiro
que desviara da Cruz Vermelha -, mas o príncipe conseguia
manter sua popularidade junto aos 5,5 milhões de camponeses
e pescadores, 90% da população do país.
Mais
que tudo isso, Norodom Sihanouk, mestre de dubiedade, realizava
a proeza de manter o Camboja fora da guerra, através de uma
neutralidade que consistia principalmente em fechar os olhos para
fatos incômodos - como a presença de tropas estrangeiras
em seu país. Em relação à guerra, Sihanouk
agia como o devedor que vai fazendo empréstimos sucessivos,
um para cobrir o outro, sem nunca ter o dinheiro necessário
para encerrar a dívida.
EM
VIETNAMITA - No começo, eram alguns grupos de guerrilheiros
vietcongs que se refugiavam nas florestas e palmeirais da região
oriental do Camboja, ao longo da fronteira vietnamita. Com o tempo,
os grupos se foram multiplicando, se fortificando. Logo chegaram
também norte-vietnamitas, descendo a Trilha Ho Chi Minh,
que corta o Laos de alto a baixo para desembocar no nordeste do
Camboja. Aos poucos, as províncias a leste do rio Mekong
foram passando tacitamente para um controle de fato por parte dos
comunistas - em certas regiões, o vietnamita era idioma corrente
- e não houve dificuldades quando eles começaram a
instalar seu potente complexo militar, dirigido contra o Vietnã
do Sul, nas vizinhanças da fronteira.
As
concessões ao Vietcong permitiram mesmo a criação
de uma Trilha Sihanouk dentro do Camboja - as rotas que, partindo
do porto de Sihanoukville, conduziam, para os santuários
comunistas da fronteira, material bélico e suprimentos descarregados
de cargueiros russos ou chineses. Pelos vastos cais de Sihanoukville,
construídos num acesso de grandeza colonial pelos franceses,
entravam 80% dos armamentos usados pelos comunistas em sua campanha
na parte meridional do Vietnã do Sul.
Para
os setores anticomunistas do Camboja, a situação tinha
ido longe demais. Os soldados norte-vietnamitas e vietcongs no país
chegaram à casa dos 40.000 e o pobre Exército Real
de Sihanouk, mal equipado e pior treinado, nada poderia fazer para
obrigá-los a sair do país. Quando o General Lon Nol
e o Príncipe Sirik Matak (de um outro ramo da família
real cambojana) aproveitaram a ausência de Sihanouk (na ocasião
em Paris, fazendo um tratamento para emagrecer) para destituí-lo
do poder, em 18 de março, a situação começou
a mudar radicalmente.
O silencioso,
austero Lon Nol e o brilhante, decidido Matak iniciaram a nova ordem
no Camboja com uma ofensiva aberta contra os comunistas. Depois
de bloquear o porto de Sihanoukville e exigir, evidentemente sem
obter qualquer resposta, que norte-vietnamitas e vietcongs se retirassem
do país, o novo governo de Phnom Penh iniciou o combate armado
que culminaria, sete semanas depois, com a intervenção
americana da última quinta-feira.
PEDRADAS
- Jogo com cartas marcadas? De parte dos novos dirigentes cambojanos
é certo que as cartas foram, pelo menos, corretamente previstas.
Ao se lançar em sua ofensiva pela expulsão dos comunistas,
Lon Nol e Matak sabiam que não poderiam contar com o seu
fraco exército de 40.000 homens - nos choques contra os norte-vietnamitas
e vietcongs, os êxitos do inimigo criariam uma situação
tão precária no Camboja, que os Estados Unidos se
veriam forçados, militar e politicamente, a intervir com
tropas. Seria uma questão de tempo e o tempo, felizmente
para o novo regime, correu depressa.
Dificilmente
se poderia observar uma campanha tão desastrada, do ponto
de vista militar, como a ofensiva cambojana contra os norte-vietnamitas
e vietcongs. Mal armados, tristemente vestidos com uniformes variados
(havia mesmo calças herdadas do tempo dos franceses), calçados
com sandálias, os soldados cambojanos passaram o tempo fazendo
aquilo que podiam - o que, dadas as circunstâncias, significava
no máximo recuar em ordem. Diversas posições
tiveram de ser abandonadas porque a munição tinha
acabado, os oficiais freqüentemente se perdiam por terem recebido
mapas errados e num ataque à vila de Saang os soldados só
avançaram levando pedradas e pontapés de seu exasperado
coronel - assim mesmo, consumiram três horas para vencer 500
metros.
Pouco
depois do início da ofensiva, o contra-ataque comunista tinha
facilmente dominado o país. Toda a região a leste
do rio Mekong estava praticamente sob controle dos norte-vietnamitas
e vietcongs, as tropas comunistas chegaram a 30 quilômetros
de Phnom Penh, as rodovias e ferrovias para a capital foram cortadas.
Com exceção de Phnom Penh e Sihanoukville, os comunistas
controlavam tudo o que há de válido no Camboja: grande
parte dos arrozais, a região produtora de borracha, as balsas
do Mekong, a única fábrica de cimento. Mais que isso,
eles preparavam a volta de Sihanouk ao poder. Depois de sua queda,
o príncipe se asilou em Pequim, com uma escala em Moscou.
e, forçado pelos fatos, abandonou seu versátil neutralismo
para se aliar e ser adotado pelos comunistas.
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