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Reportagem
publicada em 6 de março de 1991
O
fim da farsa
A
derrota humilhante do Iraque confirma a velha
verdade de que os ditadores armados só combatem
e matam o seu próprio povo
Em
menos de seis horas o Iraque de Saddam Hussein invadiu e ocupou
o Kuwait. Em menos de seis meses os Estados Unidos de George Bush
forjaram uma aliança de 28 países para pressionar
Saddam a sair do Kuwait. Em seis semanas do maior bombardeio aéreo
da História do planeta a aliança dizimou as instalações
militares iraquianas e transformou em escombros a infra-estrutura
do país. Na semana passada a guerra no Golfo teve o seu desenlace
apocalíptico: em quatro dias de batalha terrestre, que Saddam
prometia transformar na Mãe das Batalhas, o Exército
iraquiano foi esmigalhado pelas tropas aliadas. "A Mãe
das Batalhas transformou-se na Mãe das Rendições",
ironizou o general Norman Schwarzkopf, comandante das forças
aliadas na operação Tempestade no Deserto. A gracinha
do general apelidado de "Urso" tinha sua razão
de ser: em apenas 100 horas de combate cerca de 170.000 soldados
do Iraque, inclusive da badalada Guarda Republicana, a suposta força
de elite de Saddam, se entregaram de braços abertos aos inimigos.
Foi um colapso abjeto, humilhante.
O esmigalhamento
das Forças Armadas do Iraque confirmou uma velha verdade
e introduziu um novo conceito na arte da guerra. Mais uma vez se
constatou que tipos como Saddam, sargentões ditatoriais fantasiados
de heróis militares, causam um mal terrível aos povos
que controlam com mão de ferro. Mas na hora de enfrentar
inimigos de verdade, os Saddam mostram toda sua inépcia e
covardia. Foi o que aconteceu com a Junta Militar Argentina em 1982.
Os militares dos pampas foram capazes de assassinar mais de 9.000
argentinos durante o período da ditadura. Na hora de enfrentar
a Inglaterra na disputa pelas ilhas Malvinas, fizeram com que o
Exército argentino levasse uma sova histórica. Processo
semelhante aconteceu com os coronéis gregos nos anos 60 e
70. Eles foram muito bons para aterrorizar os gregos. No momento
de enfrentar os turcos na Ilha de Chipre, perpetraram um fracasso.
No Brasil, se um ditador nos moldes de Saddam tivesse uma bomba
atômica, acabaria explodindo-a em Volta Redonda.
MENTIRAS
NA RÁDIO - A mesma verdade vale para o ditador do Iraque.
Primeiro, ele guerreou durante oito anos com o Irã, enredando-se
num conflito que matou 1 milhão de pessoas. No fim da guerra,
havia conquistado uns poucos quilômetros de deserto na fronteira,
que devolveu ao Irã logo depois que invadiu o Kuwait, tentando
buscar o apoio dos seus ex-inimigos aiatolás. Depois, assassinou
curdos do Iraque com armas químicas. E durante todo o seu
reino de medo torturou, prendeu e fuzilou iraquianos. Quando teve
de enfrentar os americanos, foi um desastre. Com menos de quinze
dias de guerra, Saddam ordenou que o grosso de sua força
aérea fugisse para o Irã. Paulatinamente, enterrou
seus tanques, soldados e artilharia em bunkers. Seus mísseis
Scud viraram motivo de piada. A grande maioria de seus 5.000 tanques
foi inutilizada. Por fim, na guerra terrestre o alardeado quarto
Exército do mundo mostrou sua face verdadeira: milhares de
soldados esfomeados e insones, de moral baixo, rendendo-se como
quem celebra a libertação. Os aliados chegaram a 160
quilômetros de Bagdá sem travar um único combate
sério. A obra de Saddam é um país em escombros,
de 85.000 a 100.000 iraquianos mortos ou feridos e de humilhação
em toda linha. Através da censura, mesmo com esse naufrágio
portentoso, Saddam continua mentindo a seu povo. Na semana passada
ele garantiu através da Rádio Bagdá que o Iraque
venceu a guerra. Nem os palestinos dos territórios ocupados
por Israel acreditaram nas novas lorotas da Rádio Bagdá.
"Saddam
não é um estrategista, nem um tático, nem um
general, nem um soldado - afora isso ele é um bom militar",
brincou Schwarzkopf na semana passada. Na guerra das seis semanas,
o máximo que o Iraque conseguiu em termos militares foi matar
138 soldados e oficiais americanos. Num mesmo número de semanas,
cerca de 820 pessoas são assassinadas na Grande São
Paulo. No baixíssimo número de perdas americanas está
o novo conceito na arte da guerra. A vida humana, esse valor último,
entrou até no terreno da guerra, uma atividade mortífera
por definição. Toda a campanha aliada no Golfo foi
desenvolvida no sentido de evitar baixas. A guerra aérea
limpou o terreno, colocou em pane a linha de comando iraquiana,
aniquilou a sua capacidade ofensiva e paralisou todas as tentativas
de contra-ataque. A guerra terrestre foi o xeque-mate veloz e letal,
contra um exército em frangalhos, sem condições
físicas e vontade de combater. Saddam e sua força
bélica formidável eram uma farsa. Uma farsa trágica.
Para ser desmascarada, um país e um povo tiveram de ser moídos.
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