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Reportagem
publicada em 17 de maio de 1972
As
armadilhas do bloqueio
Ao
amanhecer do 54o. dia da ofensiva comunista no Vietnam do Sul, na
última segunda-feira, o general Vo Nguyen Giap, ministro
da Defesa do Vietnã do Norte, falou em Dien Bien Phu. Era
o 18o. aniversário de sua vitória na batalha que pôs
fim à ocupação francesa na Indochina. E também
era, para ele, o momento certo de lembrar a Washington e Saigon
que, às vezes, a História se repete.
Na
Casa Branca, no entanto, o espectro de Dien Bien Phu já.estava
presente em todas as preocupações e em todos os debates.
Assim como as lições da História. Na noite
da mesma segunda-feira, dois outros episódios saíram
de seus volumes recentes para ajudar a colocar em perspectiva as
flutuações da guerra. O bloqueio marítimo do
Vietnã do Norte, decretado pelo presidente Richard Nixon,
evocou os precedentes de 1948 - quando os Estados Unidos neutralizaram,
pelo ar, o bloqueio soviético em Berlim - e 1962 - quando
Washington, cercando Cuba com seus navios, levou Moscou a demolir
suas bases de foguetes na ilha. Um bloqueio frustrado, um bloqueio
bem sucedido - o Kremlin, por sua vez, também poderia recordá-los
e, ao chegar a sua vez de jogar, escolher entre a determinação
e o esforço dos americanos em Berlim e o recuo prudente de
Kruschev no Caribe.
No
final da semana, enquanto os soviéticos falavam grosso mas
ameaçavam pouco, Hanói mostrava que a sua decisão
não se alterava. Estreitando o cerco a Hué, redobrando
os esforços em An Loc (que, segundo despachos contraditórios,
teria ou não caído em suas mãos) e bombardeando
Saigon, os norte-vietnamitas deixavam bem claro que, em seu passado,
existe apenas a lição de Dien Bien Phu.
O
DISCURSO - O novo capítulo da guerra iniciou-se exatamente
às 20 horas de segunda-feira. Do pequeno estúdio da
Casa Branca, Richard Nixon dirigiu-se aos americanos através
de uma rede nacional de televisão. Falou durante dezoito
minutos; sempre sério, apenas duas vezes esboçou um
sorriso. Praticamente não chegou a baixar os olhos para o
texto à sua frente, e parecia pesar e medir cada palavra,
como a não deixar dúvidas sobre a gravidade do momento.
Ao terminar, com um seco "obrigado e boa noite", nenhuma
dúvida poderia haver. E o presidente só relaxou quando,
já fora do ar, comentou para os cameramen: "Ainda bem
que não interrompemos a transmissão de nenhum jogo
de basquete".
Nixon
anunciara o bloqueio, através de minas, dos sete principais
portos do Vietnã do Norte, o bombardeio de todas as rotas
terrestres de abastecimento de Hanói - inclusive as ferrovias
que ligam com a China - e a manutenção dos ataques
aéreos contra todo o país. Nessa escalada da resposta
americana à ofensiva comunista, apenas uma porta se mantinha
aberta: tudo seria cancelado se o inimigo libertasse todos os prisioneiros
de guerra americanos e concordasse com um cessar-fogo sob controle
internacional. "Então, cessaremos todos os atos de força
na Indochina e, no prazo de quatro meses, procederemos a uma retirada
completa de nossas tropas."
A
ESCALADA - Pela primeira vez, as condições americanas
não incluíam a sustentação do governo
de Saigon. E, aparentemente, o grande interesse de Washington era
conseguir desvencilhar-se do Vietnã a curto prazo, dependendo
a pacificação do país apenas do respeito ao
compromisso do cessar-fogo pelos dois governos vietnamitas. Uma
interpretação simples - simples demais para poder
confundir Saigon ou Hanói. Nem o presidente Thieu se declarou
traído - ao contrário, recebeu o pronunciamento de
Nixon com euforia - nem o Vietnã do Norte considerou a proposta
sequer negociável. Na sexta-feira, em Paris, Le Duc Tho,
membro do Politburo de Hanói, dizia ser inaceitável
qualquer acordo que não incluísse previamente uma
decisão sobre o político do Vietnã do Sul.
Mas
a importância das decisões de Nixon não se extinguia
nessas reações. Pelo contrario, a sua gravidade, e
a extensão da armadilha que representava, estava no fato
de que, pela primeira vez, o desafio era principalmente dirigido
aos aliados de Hanói. À primeira vista colocando em
xeque a União Soviética e passando para ela a decisão
de furar ou não o bloqueio, Nixon eliminou os limites previsíveis
da escalada. E, criando para a China a possibilidade, ou a necessidade,
de passar a ser o grande fornecedor do Vietnã do Norte, ele
simultaneamente introduziu no equilíbrio de forças
na Ásia um fator de peso e conseqüências também
incalculáveis.
A
DECISÃO - A idéia do bloqueio naval dos portos
norte-vietnamitas, embora não seja novidade no leque de opções
do Estado-Maior Conjunto dos EUA, ocorreu a Nixon num ambiente apropriado:
durante um passeio noturno pelo rio Potomac, na semana anterior.
Foi a bordo do iate "Sequoia" que ele ouviu, de Henry
Kissinger, o relato de sua frustrada missão em Paris, quando
uma série de propostas secretas esbarraram na intransigência
de Le Duc Tho.
Depois,
durante o fim de semana em Camp David, o presidente e seu principal
assessor discutiram os riscos da medida e suas alternativas: abandono
do Vietnã, emprego de armas atômicas, retorno em massa
de tropas ao combate. Nenhuma era aceitável. Na manhã
de segunda-feira, foi convocado o Conselho de Segurança Nacional,
e o secretário de Estado William Rogers, que viajava pela
Europa, era obrigado a tornar às pressas a Washington. Mas
a decisão já estava tomada. Nela, tanto quanto Kissinger,
influíra o secretário do Tesouro, John Connally, defensor
insistente dos bombardeios contra Hanói e Haiphong.
A grande
preocupação era a reação de Moscou -
e havia indícios de que Moscou, em mais de um sentido, não
estava muito longe de Washington. No bairro de Georgetown, naquela
noite de segunda-feira, o oficial mais graduado da Marinha soviética
jantava com o secretário da Marinha, John Warner. Com um
drinque na mão, o almirante Wladimir Kasatonov assistiu,
ao lado de um intérprete, ao discurso de Nixon pela televisão.
Após, voltou à mesa e, imperturbável, comportou-se
durante toda a noite como se nada houvesse acontecido. Poucas horas
antes, o embaixador soviético Anatol Dobrynin deixava um
coquetel para, como anunciou à dona da casa, "ver o
professor Kissinger". Mais tarde, o próprio Kissinger
chegava. "Onde você meteu o Dobrynin? No bolso?"
perguntaram-lhe. "Gostaria que sim", respondeu, sabendo
que naquele momento o embaixador falava com Moscou.
AS
REAÇÕES - Enquanto Kissinger comunicava a decisão
a Dobrynin, Nixon reservara para si um interlocutor possivelmente
menos cordial: o Congresso. Uma comissão bipartidária
lhe pedira uma audiência e o presidente a fez esperar diversas
horas antes de recebê-la. Quando o fez, limitou-se a informar
os congressistas sobre as medidas tornadas. Mais uma vez deixando
de pedir o conselho e consentimento do Legislativo para suas decisões
sobre a guerra, Nixon se expôs ao fogo de sua artilharia,
talvez por achar que dele não escaparia de qualquer maneira.
A reação da bancada pacifista do Capitólio
veio como prevista - desde a condenação eloqüente
de Edward Kennedy, George McGovern e William Fulbright até
o extremo do pedido de impeachment, apresentado pela agressiva deputada
e líder feminista Bella Abzug.
Outras
manifestações também não trouxeram surpresas.
Enquanto Fidel Castro afirmava enfaticamente que "1972 não
é 1962" e prometia não levar o bloqueio em consideração,
o vice-presidente Spiro Agnew confessava: "Estou orgulhoso
de Richard Nixon". O papa Paulo VI, equanimemente, pedia "a
maior cautela" a todas as partes interessadas; e a Bolsa de
Nova York, compreensivelmente, caía 15 pontos em apenas meia
hora.
Todas,
reações previsíveis. Com ansiedade, aguardava-se
apenas a resposta de Moscou. Duas semanas antes do discurso de Nixon,
Kissinger passara quatro dias na União Soviética,
em longa conferência com Leonid Brezhnev - e dificilmente
o governo americano estaria no escuro quanto à sua provável
atitude. No entanto, a expectativa tinha seus motivos: nem sempre
a vontade do secretário-geral do partido é lei na
URSS.
MOSCOU
- Dentro das muralhas do Kremlin iniciara-se uma discussão
que ainda não terminou. Já antes, logo após
a visita de Kissinger, a liderança militar soviética,
indignada diante desse sinal de "entendimentos com o inimigo
imperialista", havia sumariamente exigido explicações
de Brezhnev. Estas não parecem ter convencido os amigos do
marechal Andrei Grechko, ministro da Defesa. E a imprensa soviética,
normalmente sensaborona, começou a apresentar o interessante
espetáculo das dissensões agudas. Enquanto o "Pravda",
jornal do partido, e o "Izvestia", órgão
do governo, apresentavam Nixon como "homem interessado numa
geração de paz", o "Krasnaia Svezda"
("Estrela Vermelha"), diário do Exército,
chamava a atenção para o fato de que "a agressividade
do imperialismo" impõe a "preparação
militar constante".
E insinuava
que esse alerta permanente deveria exercer-se "no mais alto
nível". Alguns não hesitaram em atender imediatamente
ao apelo do Exército. O todo-poderoso Yuli Andropov, chefe
do Comitê de Segurança do Estado - a temível
KGB -, resolveu-se, quase pela primeira vez em sua vida, a divulgar
suas opiniões. Publicamente, afirmou que "não
se pode confiar em Nixon".
O bloqueio
surgiu assim como uma erupção violenta em meio a uma
situação já em si volátil. Ele parecia
dar razão, do ponto de vista soviético, aos inimigos
militantes do funcionário-modelo Brezhnev, o "primeiro
entre iguais". Encurralada, a primeira reação
da liderança soviética foi ambígua. Ao mesmo
tempo em que condenava a ação de Nixon, chamava a
atenção para o fato de que o bloqueio "não
era dirigido contra terceiros países", e que o presidente
Nixon mantivera sua insistência sobre a necessidade da paz.
Em suma, através do noticiário, Brezhnev e seus aliados
procuravam minimizar os acontecimentos. O próprio comunicado
oficial, nascido de um parto difícil de 72 horas, apenas
exigia a suspensão do bloqueio.
HORA
DE OUVIR - Paralelamente, a missão americana que prepara
a viagem de Nixon, chegada a Moscou na véspera do anúncio
do bloqueio, continuou suas reuniões diárias com os
funcionários soviéticos. Não se pode dizer,
porém, que os trabalhos estejam sendo normais. Até
uma semana antes da viagem, ainda se ignorava seu programa. Também
prosseguiam os entendimentos sobre armas estratégicas, em
Helsinque; sobre comércio, em Washington; sobre ciência
e espaço, em Moscou. Mas os soviéticos suspenderam
abruptamente, sem maiores explicações, as conversações
sobre comércio marítimo no Departamento de Estado.
Na
quarta-feira, um indício particularmente eloqüente de
indecisão: nenhum dos discursos ou artigos sobre o Dia da
Vitória na Segunda Guerra foi feito por figuras importantes
da hierarquia. Não era hora de falar.
Mas
era hora de ouvir. Nos dias seguintes, novamente os jornais mantinham
uma mudez significativa. A falta de uma definição
da liderança soviética não decorre apenas do
dilema entre o socorro a um aliado e a necessidade de assegurar
o futuro dos entendimentos com os Estados Unidos e a Europa ocidental.
Existe um outro problema. Para Brezhnev, dar agora uma resposta
vigorosa ao desafio de Nixon poderia significar um recuo perigoso
e a queda quase fatal, a prazo curto ou médio. Para manter-se
como líder, ele tem de provar que estava com a razão
desde o início.
No
fim da semana, com a situação interna ainda indefinida,
o governo de Washington vinha em socorro de Brezhnev. O "Le
Figaro" de Paris divulgava as garantias formais de Nixon, de
que durante sua visita a Moscou não haverá bombardeios
sobre o Vietnã do Norte.
A
LIÇÃO DE RUSSO - A existência de interesses
comuns entre Washington e Moscou (ou, mais precisamente, entre Nixon
e Brezhnev) já houvera sido demonstrada, fotografada e filmada
na manhã de quinta-feira. Chamados inesperadamente ao gabinete
do presidente, os jornalistas credenciados na Casa Branca o encontraram
em alegre bate-papo com Nikolai Patolichev, ministro do Comércio
Exterior da União Soviética, na companhia do embaixador
Dobrynin. Principal assunto: o belo som da língua russa.
- Eu
sei dizer "saúde", "longa vida" e "viva"
em polonês - disse Nixon. - Embaixador, como é "viva"
em russo? Dobrynin o atendeu e repetiu a palavra diversas vezes,
até que seu aplicado aluno a pronunciasse corretamente, e
explicasse: "Pretendo usá-la muitas vezes em Moscou".
O ministro soviético já estava em Washington há
diversos dias, em conversações no Departamento de
Comércio, mas ninguém sabia disso. Na entrada da embaixada
russa, algumas horas depois, jornalistas perguntaram-lhe se a viagem
de Moscou fora discutida na Casa Branca e se haveria mesmo uma viagem.
"Nunca houve qualquer dúvida a respeito. E os senhores
têm alguma dúvida?" - foi a resposta de Patolichev.
Depois
que russos e chineses tiveram reações conhecidas em
Washington, porta-vozes da Casa Branca e do Departamento de Estado
não escondiam sua satisfação com o clima existente.
Nem Pequim nem Moscou haviam desafiado militarmente os EUA nem feito
qualquer ameaça de medidas que abalassem suas relações
com os EUA. Era visível, no entanto, a consciência
de que talvez fosse prematuro demonstrar muito otimismo - sempre
havia, e há, a possibilidade de que a reação
oficial das duas potências comunistas não fosse mais
do que uma forma de ganhar tempo para discutir uma resposta mais
enérgica.
A
DEFESA - Tanto para a URSS como para a China, a prudência
na reação não exige o abandono do aliado. Mesmo
evitando uma confrontação direta com os navios da
VII Frota que patrulham o golfo de Tonquim, podem tentar vencer
as armadilhas do bloqueio sem desafiar os destróieres nem
se arriscar à explosão das minas americanas, No passado
recente, há opiniões insuspeitas no sentido de que
isso é possível: "Mesmo com o bloqueio de Haiphong
e outros portos, Hanói ainda poderá receber diariamente,
por rodovias, ferrovias e vias fluviais, 30% a mais de armamento
do que hoje". (Robert McNamara, agosto de 1967.) "Os dois
ramais ferroviários que ligam Hanói à China
têm urna capacidade de escoamento equivalente à do
porto de Haiphong." (Relatório a Johnson, 1968.) "Na
eventualidade de um bloqueio marítimo bem sucedido, o Vietnam
do Norte poderá receber todo o material de guerra de que
necessita através das ligações ferroviárias
e rodoviárias com a China. Os efeitos de um bloqueio seriam
generalizados mas apenas temporários." (Relatório
da CIA, janeiro de 1969.)
Ao
que se sabe, a capacidade total do transporte por trens, rodovias
e embarcações procedentes da China seria de 16.000
toneladas por dia - duas vezes mais do que o máximo atingido
em todas as rotas, inclusive marítimas. Segundo cálculos
do Estado-Maior Conjunto, seriam necessários 6.000 ataques
aéreos por mês para cortar a ligação
ferroviária com a China. Nem assim os trens deixariam de
correr, uma vez que turmas de transbordo de carga poderiam ser organizadas
para cobrir os trechos de estradas de ferro destruídos.
Segundo
as últimas informações, a defesa das linhas
ferroviárias para o norte, transformada em questão
de alta prioridade para Hanói, já estaria contando,
na semana passada, com a ajuda de operários chineses - sinal
de que Pequim não perdeu tempo em agir para mostrar que o
Vietnã do Norte não tem apenas um aliado no mundo
comunista.
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