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Reportagem
publicada em 20 de fevereiro de 1991
A armação do Iraque
A
proposta de cessar-fogo de Hussein vem acoplada a uma lista de exigências
que torna incertos os rumos da guerra no golfo
Rebatizada
como Rádio Mãe das Batalhas, a Rádio Bagdá
se especializou em despejar as mais tonitruantes ameaças
contra as forças multinacionais que lutam para expulsar o
Iraque do Kuwait, invadido há seis meses. Dia a dia, a emissora
anuncia que o deserto se tingirá de vermelho, com o sangue
dos soldados americanos, e o presidente George Bush vai arder para
sempre no fogo do inferno. Na manhã de sexta-feira passada,
dois dias antes de a guerra completar seu primeiro mês e a
coligação liderada pelos Estados Unidos contabilizar
72 000 missões de bombardeio, a expressão radiofônica
do regime de Saddam Hussein, transmitindo de algum lugar ainda não
destruído pelos aliados, surpreendeu o mundo com a proclamação
mais conciliatória emitida por Bagdá desde o início
da crise: "A fim de chegar a um acordo digno e aceitável,
o Conselho do Comando Revolucionário decidiu aceitar a Resolução
660 do Conselho de Segurança da ONU, incluída a cláusula
da retirada iraquiana do Kuwait. Esta decisão está
vinculada a um cessar-fogo imediato de todas as operações
terrestres, aéreas e marítimas".
Descontada
a possibilidade de uma deposição de Saddam, que chegou
a ser comentada na sexta-feira de manhã mas não se
confirmou no correr do dia, o aceno de paz pode ser inócuo.
Ele parece mais uma cartada de truco, um blefe do Iraque, que está
semidemolido e procura uma saída com a bazófia que
sempre caracterizou suas declarações. Para ficar numa
posição favorável aos olhos de seu povo e dos
árabes de países vizinhos, para atrair a simpatia
dos governos indiferentes e abrir uma brecha para a ação
da diplomacia em seu favor, o governo iraquiano levantou o lenço
branco, mas tirou do bolso uma lista de exigências que torna
impossível para as forças aliadas qualquer tipo de
interrupção imediata do combate. Isso só começou
a ficar claro depois que os termos da proposta iraquiana começaram
a ser disparados em direção ao Ocidente, mas as primeiras
reações foram de euforia, diante do que parecia ser
o prelúdio do fim da guerra.
Com
um ouvido colado no rádio e outro nas sirenes que anunciam
os ataques aliados, muitos iraquianos saíram imediatamente
às ruas para comemorar da maneira como estão acostumados:
tiros para o alto, rajadas de metralhadoras Kalashnikov e até
disparos de artilharia antiaérea. "0 mundo não
nos deixou alternativa", disse um jovem entrevistado em Bagdá
pelo repórter Peter Amett, da rede americana CNN. "Temos
que sair do Kuwait." Nos Estados Unidos, a expectativa da paz
fez o preço do petróleo despencar de 18 para 16 dólares
o barril, e as Bolsas de Valores se reanimaram. Em Tel Aviv, a cidade
israelense castigada pelos imprecisos Scud disparados pelo Iraque,
a novidade foi recebida com vivas, segundo informa o enviado especial
de VEJA Fábio Altman. "Acabou, tudo terminou",
gritou Nomi Lev-Yahm, que passeava com a filha e a neta quando ouviu
a notícia. Os kuwaitianos, que tiveram seu país milimetricamente
pilhado pelas tropas iraquianas, reagiram com um misto de alívio
e apreensão. "Ninguém pode calcular agora o tamanho
da conta da reconstrução", disse à enviada
especial de VEJA Vilma Gryzinski o empresário Sager AI Beaijan,
do Departamento de Informações do governo no exílio,
que ocupa duas pequenas salas do Hotel Dhahran International.
RICOS
E POBRES - À medida que os termos da iniciativa iraquiana
foram divulgados, o entusiasmo inicial se dissipou. A resolução
da ONU exige a retirada incondicional do Kuwait, mas o Iraque inventou
condições que vão desde o fim da monarquia
no emirado kuwaitiano através de eleições livres,
privilégio que Saddam nunca concedeu aos cidadãos
de seu próprio país, até a reivindicação,
ao estilo Robin Hood das Arábias, de que os países
mais ricos passem a ajudar os mais pobres, como se esse fosse o
motivo da invasão do Kuwait. Seria o mesmo que, no Brasil,
um assaltante acuado pela polícia condicionar sua rendição
a uma mudança na injusta distribuição de renda
no país. "Quando ouvi a proposta pela primeira vez,
senti alegria", afirmou o presidente americano George Bush,
ao discursar, horas depois, para os trabalhadores da fábrica
que produz os antimísseis Patriot. "Lamentavelmente,
ela parece ser um embuste", fulminou. "Às velhas
e inaceitáveis condições, Saddam Hussein acrescentou
mais algumas." Ou seja: a guerra continua. Na mesma noite,
o general americano Richard Neal, porta-voz do comando aliado em
Riad, anunciou que os bombardeios prosseguirão "até
ordem em contrário". A réplica do Iraque não
demorou: na madrugada de sábado, um míssil Scud foi
disparado contra a cidade saudita de Jubail. Interceptado por um
Patriot, caiu no mar.
FINAL
DO JOGO - Aparentemente, tudo como de costume. Mas a realidade,
como o próprio Bush admitiu, é que há algo
de novo na oferta de Saddam Hussein. Pela primeira vez, ele mencionou
claramente que está disposto a cumprir a resolução
da ONU ordenando sua retirada do Kuwait. "É uma proposta
que merece ser analisada cuidadosamente", comentou, lacônico,
o secretário-geral da organização, Javier Perez
de Cuellar, antes de seguir para uma reunião a portas fechadas
do Conselho de Segurança da ONU, onde, seguramente, não
se falou de outro assunto. Lá, como em toda a parte, os representantes
estavam divididos entre as duas maneiras de se interpretar a iniciativa
iraquiana. A primeira é que o Iraque, submetido há
quase um mês ao fogo cerrado da aviação aliada,
está estropiado e não tem outra alternativa a não
ser o recuo, caso ainda queira salvar o que restou do seu arsenal.
"Estamos; chegando ao final, do jogo", opinou Wilham Quandt,
ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional dos Estados
Unidos. "Esta é a primeira vez que ouvimos a palavra
retirada e, para nós, o ideal seria concluir a guerra agora,
antes de uma batalha terrestre que provocará muitas mortes."
Dentro
dessa linha de raciocínio, até mesmo as exigências
de Saddam devem ser encaradas não como um pacote fechado,
mas como uma proposta para início de conversa, como as reivindicações
que um sindicato apresenta aos patrões numa campanha salarial
- pede-se muito, para no final, ficar com pouco e ainda cantar vitória.
"As condições impostas pelo Iraque não
passam de uma lista de desejos que Saddam gostaria de ver realizados",
garante Judith Kiper, da Brookings Institution, um centro de estudos
de Washington. Seu erro pode ter sido esticar excessivamente as
condições para a retirada, a ponto de torná-las
um obstáculo, e não um caminho aberto para as negociações.
A interpretação
oposta é bem mais simples: tudo não passaria de mais
uma jogada maquiavélica do ditador iraquiano, interessado
em dividir seus inimigos e aproveitar o burburinho criado pelo bombardeio
aliado a um abrigo civil em Bagdá, que deixou centenas de
vítimas. É inegável que o governo iraquiano
foi preciso na escolha do momento para jogar sua carta na mesa.
Ninguém se incomoda demais com uma guerra na qual os generais
prometem uma exatidão cirúrgica no ataque a alvos
militares; e garantem a incolumidade dos civis. Tudo muda de figura
quando um bombardeio cirúrgico explode um abrigo antiaéreo
cheio de gente desarmada que nada tem a ver diretamente com a guerra,
como ocorreu na quarta-feira passada em Bagdá. Nesse caso,
os árabes que fazem parte da aliança com os Estados
Unidos, a Inglaterra e outros países poderiam sentir-se tentados
a retirar seu apoio. A União Soviética, que vem trabalhando
com afinco na busca de uma solução negociada para
a guerra, ganharia um terreno mais seguro para sua operação.
Por fim, nenhum país deixaria de ficar mais predisposto a
uma conversa sobre a paz, depois de ver os corpos carbonizados que
saíram do abrigo antiaéreo de Bagdá. Na sexta-feira,
porém, as forças que cercam o Iraque no Golfo pareciam
surdas a essa música. Foram ao ataque como de costume e chegaram
ao placar médio de todos os dias cerca de 1600 missões
aéreas contra os adversários.
FORA
DE COMBATE - No final da semana passada, o tom otimista dos
relatos militares aliados reforçava a alternativa mais dura.
Com os bombardeios cada vez mais voltados para as concentrações
de tropas de Saddam Hussein no sul do Iraque e norte do Kuwait,
os aliados acreditam ter destruído nas primeiras quatro semanas
da Operação Tempestade no Deserto 1 300 tanques, 1
100 peças de artilharia e 800 blindados, o equivalente a
um terço das forças inimigas. Com a aviação
do Iraque fora de combate e sua defesa antiaérea debilitada,
os céus do Golfo estão entregues aos aliados, que
até podem se dar ao luxo de sobrevoar o território
inimigo sem ter um alvo determinado previamente - os pilotos simplesmente
saem em busca de uma presa, qualquer que seja ela.
"No
início, quando eu decolava, sabia que ia destruir uma ponte",
contou o coronel William Home, comandante de um esquadrão
de caças americano. "Agora, me pedem apenas para atacar,
por exemplo, 'alvos móveis', como tanques e caminhões.
Fico no ar até encontrar algum e liquidá-lo."
A menos que os pilotos aliados continuem a atacar os alvos de plástico
plantados pelo Iraque para enganar os inimigos como se fossem tanques
de verdade, o bombardeio maciço está começando
a afetar seriamente a capacidade de combate das forças iraquianas.
Segundo
cálculos baseados em jogos de guerra conduzidos pelo Exército
americano, uma vez que as perdas atingem a marca de 30%, o inimigo
entra em processo de desagregação - os buracos nas
linhas de defesa não são preenchidos pelas forças
de reserva, as linhas de comunicação são interrompidas
e o moral das tropas deteriora. As deserções mais
de 1000 até agora - só não são maiores
pelas ameaças de fuzilamento e de topar, no caminho em direção
a um posto aliado, com uma das 500 000 minas plantadas pelos iraquianos
no Kuwait. Os que chegam vêm tão famintos que engolem
até os chicletes oferecidos pelos soldados aliados.
MUTIRÃO
MILITAR - Na prática, o comando militar afiado só
enfrenta dois obstáculos para iniciar a ofensiva em terra,
além das tempestades de areia, que devem começar em
março e podem ter um efeito devastador sobre o sofisticado
equipamento bélico americano. O primeiro é de política
interna dos Estados Unidos - uma pesquisa do jornal The New York
Times revelou que 79% dos americanos são a favor de prosseguir
os ataques aéreos, até que o assalto possa se efetuar
sem maior resistência dos iraquianos. Até o final da
semana passada, apenas 42 militares haviam morrido nas forças
americanas, menos do que na invasão da minúscula ilha
de Granada, em 1983.
O segundo
obstáculo é de política externa. Com sua iniciativa
de paz, Saddam Hussein pode não ter conseguido aliviar o
sufoco de suas tropas na frente de batalha, mas na frente diplomática,
se o objetivo era embaralhar o jogo, ele conseguiu um certo sucesso.
Ao contrário do que se poderia esperar, a primeira rachadura
na coligação costurada a duras penas por George Bush
não surgiu entre os Estados árabes que integram a
aliança - que chegaram a divulgar um comunicado afirmando
que a oferta do Iraque "não é séria"
-, mas na União Soviética, que forneceu, desde o início,
cobertura política para o mutirão militar armado contra
Saddam Hussein.
"A
oferta do Iraque inaugura um novo capítulo na história
do conflito", Proclamou o ministro soviético das Relações
Exteriores, Alexander Bessmertnykh. O mais preocupante, para os
aliados, foi a reação da Itália, um país
que engrossa o contingente militar no Golfo com 1300 soldados, cinco
navios e dez caças-bombardeiros Tornado. O chanceler italiano,
Gianni de Michelis, saudou a proposta de Bagdá como "um
sinal importante e positivo", destoando da nota oficial do
comando aliado - do qual participa -, que descarta por completo
a iniciativa. Pior ainda: na sexta-feira, a Itália ensaiava
juntar-se a uma delegação de representantes da Holanda
e de Luxemburgo que parte para Moscou a fim de acompanhar uma reunião,
marcada para segunda-feira, entre o ministro das Relações
Exteriores do Iraque, Tariq Aziz, e o presidente soviético
Mikhail Gorbachev, para tratar da paz no Golfo.
Última
esperança de um cessar-fogo antes que a tão anunciada
ofensiva americana no Kuwait leve a guerra a um novo patamar de
violência, a reunião Gorbachev-Aziz é o ponto
culminante de um balé diplomático que transformou
Moscou no centro mundial de uma barulhenta romaria pela paz. O sinal
de largada foi dado pelo próprio Mikhail Gorbachev, que há
duas semanas insinou que os bombardeios ao Iraque estavam extrapolando
os limites da resolução da ONU. Na quarta-feira regressava
a Moscou o diplomata soviético Yevgueni Primakov, enviado
especial de Gorbachev a Bagdá, onde conversou com Saddam.
"Tenho esperanças", afirmou, no desembarque, ao
anunciar a vinda de Aziz Na quinta-feira, o Kremlin recebeu o ministro
do Exterior do Kuwait, Sabah Ahmed. AI-Sabah, e no dia seguinte
o chanceler do Irã, Ali Akbar Velayati, que também
elogiou como "positiva" a proposta iraquiana.
O receio
dos governos ocidentais é que Gorbachev esteja se preparando
para puxar o tapete da coligação anti-Saddam com um
bombástica proposta de paz que permitiria ao ditador, senão
abocanhar uma fatia do Kuwait, ao menos manter boa parte de sua
máquina de guerra intacta - e, ainda por cima, posar para
o mundo árabe como o herói que enfrentou, durante
um mês inteiro, a maior aliança militar já formada
desde a II Guerra Mundial. "Gorbachev está de olho no
futuro", avalia a revista inglesa The Economist. "Com
os americanos no controle das operações militares,
ele precisa se certificar de que a União Soviética
não será deixada de lado no processo de paz que mais
cedo ou mais tarde terá de ocorrer." Há ainda
outro motivo por trás da insuspeitada vocação
soviética para pomba da paz: a cúpula do Exército
Vermelho, uma voz cada vez mais influente nas decisões do
Kremlin, e que não está gostando de ver as Forças
Armadas do Iraque, equipadas e treinadas por Moscou, transformadas
em objeto para a prática de tiro-ao-alvo pela aviação
americana.
Na
frente de batalha, no entanto, a iniciativa diplomática de
Saddarri está causando tanto impacto como uma gota de chuva
num oceano. "Eu não acredito naquele bastardo",
disse o cabo do Exército americano Jared Mullins, de 22 anos.
"Nós vamos entrar no Kuwait de qualquer jeito",
acrescentou. Com exceção de uma incursão à
cidade saudita de Kafli, há três semanas, com fins
meramente propagandísticos, as forças iraquianas não
dispararam até agora um único tiro em combates de
verdade - e estão apanhando feio. A menos que o ditador iraquiano
prove a sinceridade de sua proposta de cessar-fogo, mandando seus
soldados saírem dos esconderijos subterrâneos com bandeiras
brancas na mão, os aliados prosseguirão a rotina sistemática
dos bombardeios. E, donos absolutos do calendário da guerra,
escolherão meticulosamente a melhor hora de levar a batalha
para o chão. Saddam, se quiser preservar a vida e o poder,
ainda tem a chance de sair do Kuwait pura e simplesmente, sem exigências
complicadas como as que apresentou na semana passada. Mas o tempo
que lhe resta está se esgotando rapidamente.
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