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ESPECIAL
O triunfo do Columbia

22 de abril 1981

Na mais espetacular aventura do homem desde
a descida na Lua, o Columbia vence e abre
uma nova era para a exploração do espaço


Tales Alvarenga, de Cabo Canaveral

"Cinco, quatro, três, dois, um... Agora!" Quando George Page, diretor de lançamentos do Centro Espacial Kennedy de Cabo Canaveral, o tradicional ponto de partida para as viagens americanas ao cosmo, deu a ordem de partida, uma fornalha se abriu embaixo da nave Columbia. O solo tremeu a quilômetros de distância e, sobre fogo e fumaça, impulsionado para cima por alguns dos mais poderosos foguetes jamais disparados pelo homem, o pesado avião espacial americano vacilou por um rápido instante, inclinando-se levemente para lá e para cá - e disparou rumo ao espaço, com sua forma de catedral do ano 2000 e promessa de abrir para a humanidade uma era inteiramente nova na história da conquista do espaço.

Na cabina dos astronautas, o comandante John Young, agressivamente jovem aos 50 anos de idade, mal acusou as maciças vibrações que sacudiam sua poltrona. O ritmo cardíaco de Young, um veterano que partia então para sua quinta viagem ao espaço, passou simplesmente de setenta para oitenta batidas por minuto. Já o coração de seu companheiro de bordo Robert Crippen, um astronauta estreante de 44 anos, marcou 130 batidas por minuto nos mostradores eletrônicos de Cabo Canaveral, no litoral do Estado de Flórida. Entre as duas marcas, a de Young e a de Crippen, bateu o coração dos Estados Unidos que naquele momento, às 7 horas da manhã de domingo, dia 12, assistiam em seu solo à arrancada de um novo sonho americano - a mais sensacional aventura do homem no espaço desde que, doze anos atrás, o americano Neil Armstrong pisou pela primeira vez na Lua.

Oito minutos e meio depois, o Columbia estava voando a 28 000 quilômetros por hora, na primeira viagem jamais realizada ao espaço com um veículo que será utilizado novamente para ir ao cosmo depois de retomar à Terra. Uma explosão de alegria ecoou no solo - e dois dias depois, quando a nave aterrou suavemente sobre a areia dura do deserto de Mojave, na Califórnia, dentro da Base Aérea de Edwards, a excitação do lançamento já dera lugar a uma transbordante sensação de triunfo. "O êxito do avião espacial americano mostra a nossos amigos e a nossos adversários que somos um povo livre e capaz de grandes realizações", exultou na Casa Branca o presidente Ronald Reagan. "Hoje o mundo nos viu triunfar." Com os pés já em terra firme, o comandante Young completou: "Nós, a raça humana, já não estamos muito longe de ir até as estrelas".

CRUZAR 0 ESPAÇO - De fato, a raça humana acabou de dar na última terça-feira um passo comparável ao de Colombo, 500 anos atrás - ao provar que a humanidade, daqui para frente, poderá freqüentar rotineiramente o espaço em naves que pousam de volta à Terra como aviões. Da mesma maneira que as caravelas Santa Maria, Pinta e Niña mostraram que o homem podia cruzar regularmente o oceano desconhecido, de ida e volta, e incorporar a seu mundo um novo continente, o Columbia abre uma nova era de descobrimentos. Com ele, será possível trafegar pelo espaço com uma liberdade até agora desconhecida - a liberdade que faltava para o homem poder reivindicar o cosmo como terreno regular de sua ação.

Até a semana passada, o ser humano ia ao espaço e dele voltava, como tem feito desde o vôo pioneiro do soviético Yúri Gagárin em 1961, mas sempre a bordo de artefatos que, uma vez de regresso à Terra, não mais podiam ser utilizados para vôos espaciais. O Columbia e as naves que a ele se seguirão põem fim a essa crucial, decisiva limitação aos movimentos do homem no espaço: não mais será necessário construir uma nova astronave a cada viagem e as implicações disso são imensas, da redução dos custos à abertura de possibilidades inteiramente novas na exploração espacial. É como se tivesse sido dado, nas 54 horas em que o Columbia orbitou, o primeiro passo efetivo para a colonização do cosmo.

Após o longo jejum de conquistas dramáticas que se seguiu ao primeiro desembarque na Lua, a viagem do Columbia foi um eletrizante estímulo para a aventura espacial - e um marco tão fundamental na linhagem dos vôos tripulados quanto a entrada do homem em órbita, o pouso na superfície lunar e a acoplagem de naves no espaço. Está encerrada, afinal, a fase das "naves burras", sintetizada no velho argumento, sempre apresentado com desdém pelos pilotos de jato, de que a diferença entre uma astronave e um avião está no fato de que a primeira podia, basicamente, ser tripulada por um macaco - como efetivamente o foram, no final dos anos 50 -, enquanto um avião sempre dependerá de seu piloto.

BARCO DE CRUZEIRO - Para eliminar a diferença, a aeronáutica e a astronáutica deram-se as mãos e, pela primeira vez na história dos aviões e foguetes surgiu um veículo que não é foguete, nem avião, mas ambos ao mesmo tempo - na verdade, a mais complexa máquina de voar jamais criada pelo homem. Basicamente, ela se compõe de três elementos: o corpo, em forma de avião, destinado a orbitar em volta da Terra; o tanque externo de combustível e os foguetes propulsores. Este veículo híbrido ergue-se ao espaço acoplado seu mais vistoso componente - o colossal tanque externo de combustível, cor branca e em forma de bala - e seus poderosos foguetes, que o propelem para fora da Terra e, a exemplo do tanque, vão-se desligando de seu corpo.

Do ponto de vista tecnológico, o Columbia não tem concorrentes. Sua principal vantagem, porém, é o parentes com o velho aeroplano. No espaço, contrário das outras naves feitas até hoje para o homem sair da Terra, ele é capaz de subir, descer, Zigzaguear. Depois, fim da jornada, transforma-se num planador - um planado de 36,60 metros e 75 toneladas -, desliga os motores, embica e mergulha na atmosfera. Este barco de cruzeiro espacial e atrás da cabina dos lotos de um compartimento de 18 por metros, suficiente para o transporte 32 toneladas de carga. Elas podem satélites, armas, máquinas telescópios, estações orbitais são possibilidades quase ilimitadas exploração do espaço.

ÚLTIMA HORA- Foi em busca dessas possibilidades que Young e Crippen, sob as vistas de 500 000 em Cabo Canaveral e milhões de outras pelo mundo afora, se ajeitaram em seus postos no último dia 10 e passaram a esperar a contagem regressiva. Ainda uma vez, não deu certo. Após atrasos - o Columbia deveria estar voando desde 1978 - e estouros de orçamento, que levaram seu perto de 10 bilhões de dólares, novamente foi necessário adiar a partida. A causa estava justamente no cérebro da operação: os cinco computadores da nave, instrumentos de complexidade difícil de imaginar e desenvolvidos para eliminar a possibilidade de erro, apresentaram uma falha de última hora.

Na verdade, não é possível pensar no Columbia sem sua fenomenal bateria de computadores eletrônicos. Dentro da nave, os pilotos sentam-se diante de 2.200 mostradores e 1.295 comandos diferentes - e só podem operá-los porque contam com o trabalho dos computadores, capazes de realizar até 325 000 opera-ções num segundo. Cada comando dos pilotos para uma manobra se transforma instantaneamente em impulsos elétricos, mergulha de imediato nas entranhas dos computadores e só depois de assimilado pela máquina - e com seu aval - é que toma de novo a forma de um impulso mecânico para, por exemplo, abrir uma escotilha ou mudar o curso da nave no espaço. Nesta tarefa, os computado-res seguem um rígido e democrático sis-tema de voto, descartando sempre a opi-nião da minoria, caso surjam diferenças entre eles.

Essa maravilha não estava funcionando direito no dia 10, apenas 9 minutos antes do lançamento. O vôo foi então suspenso e os homens da NASA, a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, gastaram um dia inteiro para descobrir o que acontecia. Acontecia, simplesmente, um descompasso entre os cinco computadores que funcionam trocando informações entre si o tempo todo - um deles, o principal, liberava seus dados com um atraso, particularmente inimaginável, de 40 milésimos de segundo. Mas era o quanto bastava para que os computadores, máquinas de delicadíssima precisão, acusassem a falha.

PÓLVORA DE ALUMÍNIO - Não houve desânimo. No domingo, o meio milhão de assistentes voltou a se reunir em Cabo Canaveral, a alguns quilômetros do ponto de lançamento - e, aí, sim, puderam então ver o Columbia disparar triunfalmente para o alto. Uma dúzia de ex-astronautas, políticos diversos e artistas estavam presentes, incluindo os cineastas George Lucas (Guerra nas Estrelas) e Steven Spielberg (Contatos Imediatos do Terceiro Grau), considerados mais ou menos como "do ramo" pelos homens da NASA. "Achei maravilhoso", exclamou Lucas enquanto o Columbia desaparecia no céu. "Que mais poderia dizer?" Spielberg ficou surpreso. "Não foi como eu esperava", disse. "Excedeu, e muito, a imaginação cinematográfica que alguns me atribuem."

Todos eles acabavam de ver a primeira nave espacial americana que subia, já em sua viagem de estréia, com pilotos a bordo. Num impulso fenomenal, o Columbia alçou vôo sobre o Atlântico queimando meia tonelada de combustível por segundo e dando cabo em menos de 10 minutos, até atingir a órbita terrestre, de oxigênio e hidrogênio líquidos numa quantidade suficiente para encher dez piscinas de tamanho médio. Também a contento funcionaram os foguetes propulsores sólidos, queimando sua pólvora de alumínio altamente explosiva - e isso era mais um feito inédito do Columbia. Até então, nenhum homem tinha voado em cima de foguetes sólidos, artefatos de utilização militar e difíceis de controlar - uma vez feita a ignição, não há como voltar atrás. Só se pode ir para cima.

"Estamos emocionados e orgulhosos", comovia-se o diretor de lançamentos George Page. "É um dia de orgulho para a América, também". De fato, o Columbia teve um funcionamento perfeito como máquina. O sistema de computadores guiou corretamente a nave para sua órbita prevista de 270 quilômetros de altura. Os foguetes propulsores separaram-se no momento determinado e flutuaram seguramente, com a ajuda dos maiores pára-quedas já construídos pelo homem, de volta à Terra, caindo a pouco mais de 30 quilômetros dos navios preparados para resgatá-los na costa da Flórida. O gigantesco tanque externo de combustível - o único componente da nave que não será reutilizado - separou-se do Columbia no ar, como planejado, e despencou em queda livre no ocea-no Índico, longe da terra, a 16 quilôme-tros do ponto de mergulho previamente calculado pela NASA.

TELHAS DE SILÍCIO - Assim, nove anos após o mesmo comandante Young ter divertido o mundo dando um pequeno pulo de alegria no solo da Lua, ao ser informado ali de que a Câmara dos Representantes havia aprovado o início do programa dos aviões espaciais, sua primeira criatura, o Columbia, voava por fim no espaço. "É um passeio fantástico", encantava-se o tripulante Robert Crippen falando pelo rádio ao entrar em órbita e ao ver, de lá, o mar azul sob céu limpo, num momento em que a nave viajava com a barriga voltada para cima, como num avião de acrobacias, e ele, Crippen, ia de cabeça para baixo. O experiente Young falava no mesmo tom: "Não mudou nada desde que estive aqui. O espaço continua maravilhoso".

Não continuava, visto de Cabo Canaveral. No chão, passada a euforia, os rostos dos técnicos logo se carregaram de preocupação com um acidente: no momento em que o Columbia deixava o solo, alguns ladrilhos de sua capa isolante, destinados a proteger a nave do excesso de calor que enfrentaria ao retornar à Terra, desprenderam-se em conseqüência da vibração. Essa capa é essencial para o Columbia e para a sobrevivência de quem viaja dentro dele. Composta de 31.000 telhas de um material chamado silício, grudadas com cola especial alumínio do Columbia, ela o defende das infernais temperaturas de até 1.400 graus centígrados q graus centígrados que suporta ao mergulhar como um bólido contra a atmosfera terrestre, a 28 000 quilômetros por hora, no momento de sua volta.

Com a textura e a resistência da espuma de plástico, essas telhas de silício são um material leve e quebradiço: é possível, com a unha, riscar ou tirar um pedaço elas. Mas, diante do fogo, seus poderes são excepcionais. O material praticamente não absorve calor - tanto que uma pessoa pode segurar com os dedos as extremidades de uma dessas telhas imediatamente após retirá-la de um forno com 2 500 graus de calor. Tão fortes e tão fracos ao mesmo tempo, os ladrilhos de silício - que a NASA planeja fabricar no próprio espaço, no futuro - não podem ser dobrados para acompanhar uma superfície cheia de curvas como a do Columbia. Por isso a capa refratária se compõe de milhares deles.

ARMA SECRETA - Ao decolar no domingo, o Columbia perdeu dezesseis de suas telhas protetoras - mas, por sorte, ficaram descobertas apenas algumas partes de sua cauda. O nariz e toda a parte inferior do casco, que enfrentam as temperaturas mais intratáveis, continuaram com sua capa intacta. Na verdade, o receio desapareceu logo nas primeiras evoluções do Columbia em torno da Terra. Do Havaí e da Califórnia, câmaras fotográficas da Força Aérea americana, extraordinariamente potentes e de existência até então desconhecida, esquadrinharam todo o casco da nave. E, pelas fotos obtidas, de espetacular precisão, soube-se que não havia danos graves. Com isso os Estados Unidos revelaram a existência de uma arma secreta de sua Força Aérea - capaz de fotografar com detalhes, a partir de um satélite artificial, objetos que no chão tenham as dimensões de uma caixa de sapatos.

Dentro da nave, enquanto isso, tudo corria basicamente como estava previsto. Os dois astronautas, heróis de milhões de americanos, ocuparam suas primeiras horas no espaço com serviços de dona-de-casa. Como havia poeira e alguns cacos metálicos sofrendo a ausência de gravidade dentro da nave, eles saíram em captura desse material esvoaçante armados com um aspirador de pó. A cabina de pilotagem do Columbia parece a de um jato comercial. Mas, na prática, os pilotos só precisam vigiar o que a máquina faz sozinha, porque, na realidade, quem dirige o vôo são os cinco computadores postados atrás de suas poltronas.

Houve tempo de sobra para o bom humor. Depois de oito horas de sono na primeira noite orbital - uma noite em que o Sol surgiu no horizonte a cada 45 minutos - Young e Crippen foram despertados por uma canção, "Blast off, Columbia" ("Arranque para o Alto, Columbia"), escrita por um técnico de Cabo Canaveral e cantada por Roy McCall, um sofrível intérprete de baladas country. No jantar, o centro de controle da missão emitiu música novamente para a cabina dos astronautas. Só que, desta vez, desafinada: um grupo de controladores de vôo reuniu-se junto a um microfone e, com pretensão de serenata, entoou "Boogie Woogie Bugle Boy", canção da época da II Guerra Mundial, que, nos últimos tempos, tem voltado às rádios americanas. Crippen não se conteve: "Parem com isso".

FORÇA CENTRÍFUGA - Fora a música, não havia o que reclamar da vida a bordo do Columbia - um verdadeiro palácio se comparado às outras naves espaciais, meras bolas de metal onde o astronauta era mais uma peça de equipamento que propriamente um tripulante. Seu mais notável equipamento talvez seja o banheiro, semelhante às toaletes de avião. Como fora da Terra não há força de gravidade necessária para os dejetos caírem numa direção desejável, a NASA desenvolveu para o Columbia um sistema artificial de atrair corpos para uma câmara onde o ar se movimenta em círculos e que se localiza na área da privada normalmente ocupada pela água. Esse movimento circular cria uma corrente centrífuga que atrai tudo em volta, suavemente, e lança o que capturou no reservatório de lixo da nave.

Na mesma área do banheiro - abaixo da cabina de comando, no andar inferior da nave -, haverá futuramente camas parecidas com beliches de trem. Young e Crippen, no vôo de estréia, não tiveram esse tipo de regalia. Dormiram em suas próprias poltronas de pilotos. Seu equipamento pessoal incluía pente, sabonete, escova de dentes, aparelho de barbear, batom para lábios ressecados, desodorantes e tesoura, tudo acoplado numa caixa de plástico. O cardápio a bordo não variou muito em relação ao passado mas, quando o programa estiver mais desenvolvido, os tripulantes terão comida típica de avião: frutas, pudins, suco de laranja gelado, carne cozida em forno de microondas.

Quanto à execução do cardápio operacional do Columbia, não houve problemas. Young e Crippen abriram e fecharam, corretamente e mais de uma vez, as duas enormes portas do compartimento de carga da nave, que desta vez nada levou, mas que em missões futuras deverá carregar todo tipo de material para o espaço. Os astronautas também experimentaram os comandos que acionam, como nos aviões, os mecanismos de pouso das asas e da cauda, transmitiram para a Terra leituras de mostradores, posaram para a televisão em vários compartimentos da nave e receberam um telefonema do vice-presidente George Bush. "Acredito que seu vôo", disse Bush, "entusiasme a nação e a faça pensar no futuro."-

NA CORRENTEZA - Depois de 35 voltas em torno da Terra - treze delas cortando o território brasileiro, do Rio Grande do Sul ao Amazonas -, o Columbia finalmente se preparou para aterrar. Sobre o oceano Índico, na última volta, Young e Crippen receberam ordem para virar a espaçonave. Os motores tinham sido desativados desde que o Columbia entrara em órbita. E, a não ser por alguns disparos de foguetes direcionais como experiência, vagava pelo espaço com a passividade de um morto. Na verdade, apesar de seu brilhante desempenho em comparação com qualquer outro artefato que o homem fez voar até hoje, o Columbia ainda faria má figura entre os mágicos veículos de combate que cirandam entre as galáxias no filme Guerra nas Estrelas.

Para começar, a nave não dispõe de combustível para se afastar da Terra. Seus três motores principais, ávidos bebedores, liquidam rapidamente, em minutos, toda a reserva de oxigênio e hidrogênio líquidos que viaja no externo da nave. A partir daí, o Columbia só fica com o combustível de seus tanques internos, suficiente apenas. Para manobras que não exigem tanta força. Como uma canoa num rio de correnteza forte, ele não tem como navegar contra a corrente - em torno da Terra, ele submete humildemente ao mesmo e descomunal jogo de forças que faz a Lua girar em torno da Terra e a Terra em volta do Sol. Sua diferença e vantagem em relação aos satélites artificiais é ter remos: dois foguetes auxiliares na cauda e menores espalhados por todo o casco. Com eles, pode sair em perseguição a algo que esteja à deriva na correnteza, po de encostar nesse objeto - no rio, um tronco; no espaço, um satélite - trazê-lo para seu porão de carga, consertá-lo ou destruí-lo.

O primeiro passo para o futuro desenvolvimento dos aviões espaciais aviões espaciais será multiplicar a duração de seus vôos, de 54 horas e 30 minutos atuais para semanas ou meses, com o carregamento de tanques extras de combustível ou com a adaptação de um futuro motor movido a energia solar . Na semana passada, porém, tudo o que importava era sua subida na Flórida e sua descida no outro extremo dos Estados Unidos, na Califórnia - e isso ocorreu com perfeição. A descida repetiu o espetáculo da ascensão. Young virou o nariz do Columbia para a frente, acionou os motores dire-cionais e começou a descer para a cama- da da atmosfera. A velocidade da nave caiu nos mostradores, devido à resistên-cia do ar, e sua parte inferior passou a refletir um avermelhado de brasa. Ela cortou todo o oceano Pacífico em desci- da vertiginosa. Aproximou-se da costa da Califórnia. Deu uma longa volta no céu já perto de seu campo de pouso na Base Aérea de Edwards - a mesma on- de, em 1947, o piloto americano Char-les Yeager quebrou pela primeira vez a barreira do som com um avião a jato - e deixou baixar lentamente sobre a pista de areia suas 75 toneladas de peso. Os motores do Columbia, em toda a descida e também na hora do pouso, estavam desligados.

Havia alguma tensão entre os técnicos e as 150 000 pessoas que esperavam o Columbia no deserto californiano. A descida também era acompanhada com preocupação no Centro Espacial Johnson, em Houston, no Texas, onde trabalhava o batalhão de técnicos que guiaram todo o vôo do Columbia desde o momento em que seus colegas de Cabo Canaveral puseram o avião em órbita e deram sua missão por encerrada.

A apreensão dos técnicos durou uma eternidade de 16 minutos. Durante esse tempo, o calor provocado pela reentrada da nave na atmosfera fez com que as comunicações ficassem interrompidas. Mas o contato foi restabelecido, tudo ia bem e o pouso, macio como o de um avião comercial bem pilotado, acabou arrancando palmas da multidão na pista de pouso de Edwards, um árido terreno plano de mais de 20 quilômetros de extensão, freqüentado apenas por aviões em teste e as serpentes venenosas que habitam o deserto.

O triunfo do Columbia em seu vôo de estréia, na opinião dos especialistas, coloca os Estados Unidos pelo menos dez anos na frente da União Soviética na corrida pela supremacia no espaço um avanço tão grande, na verdade, que já se questiona se os soviéticos ainda podem ser considerados como concorrentes sérios nesta disputa. Não se acredita que eles possam ter algo parecido com o Columbia antes de 1990 - ocasião em que a nave pioneira estará aposentando-se. Ela já está escalada para mais de 100 viagens ao longo dos próximos dez anos. Em agosto, será realizada a primeira, com os astronautas Joe Engle e Richard Truly nos comandos.

Crippen e Young, finda a aventura, foram recebidos como heróis em Edwards -e entraram para a História como protagonistas do perene e emocionante sonho americano. Mais uma vez, na grande tradição de uma sociedade que não gerou filósofos maiores mas, por sua natureza, sempre estimulou as mais belas conquistas na invenção e na criação individuais - de Franklin, Bell e Edison aos homens do Columbia -, os Estados Unidos chegavam na frente. Para os homens de todo o mundo, também mais uma vez, transmitiam a fé na indestrutível permanência da aventura humana.