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24 de junho de 1981
Ligaηυes perigosas

Uma aliança com o Iraque, que inclui remessas
sigilosas de material bélico, custa ao Brasil
denúncias de conexões nucleares

No rastro dos caças de Israel que bombardearam e destruíram a central atômica do Iraque em Tamuz, alguns estilhaços, na semana passada, sobraram para o Brasil - e o país, subitamente, viu-se arremessado para a órbita do aceso debate sobre a proliferação nuclear, como parceiro dos iraquianos em escuras transações que poderiam acabar por capacitá-los a conseguir sua bomba atômica. Ao final da semana, as versões sobre embarques secretos de urânio do Brasil para o Iraque estavam moribundas, e desesperados esforços para mantê-las à tona começavam a assumir contornos cômicos - parecendo sepultada, igualmente, uma incipiente crise entre as chancelarias de Brasília e Jerusalém. Mas nessa turbulência acabou emergindo para a luz uma até então pouco comentada conexão nuclear e militar entre Brasil e Iraque - ampla, profunda e capaz de causar preocupações no cenário internacional.

Uma nota de quarenta linhas publicada discretamente pelo jornal inglês The Guardian, em sua edição do último dia 12, foi o primeiro capítulo desse folhetim que se desdobraria ruidosamente durante a semana - uma das mais agitadas desde que o Brasil iniciou seu polêmico programa nuclear. Nesse curto despacho, enviado por seu correspondente brasileiro dois dias antes, o jornal londrino informava que, em fevereiro deste ano, um avião comercial do Iraque decolara do aeroporto de São José dos Campos, a 100 quilômetros de São Paulo, transportando uma carga de urânio com destino a Bagdá. Nenhuma publicação brasileira republicou a denúncia. Três dias depois, contudo, uma ligeira menção ao Brasil num boletim de cinco laudas, distribuído em Tóquio por funcionários do Ministério das Relações Exteriores de Israel, faria detonar o segundo capítulo do enredo - e abriria, agora com toda força, o debate em tomo do tema.

No documento, o governo israelense incluiu o Brasil num grupo de países "que poderiam vir a fornecer urânio ou equipamentos de enriquecimento de urânio", ao Iraque. O Itamaraty reagiu de imediato: não, o Brasil não estava fazendo nada disso, e protestava formalmente contra a acusação. O embaixador de Israel em Brasília, Shaul Ramati, foi convocado ao Ministério das Relações Exteriores para saber que o governo "estranhava a menção ao Brasil no documento". Foi um recado energético. "O Brasil não podia permitir que o ladrão culpasse o guarda pelo roubo do banco", explicou um assessor do ministro Ramiro Saraiva Guerreiro, que acabava de chegar de uma viagem oficial de três dias ao Senegal. Ramati ofereceu as desculpas possíveis: "O documento tratava apenas da tentativa do Iraque de conseguir a bomba", argumentou. "Nós só dissemos que o Iraque estava tentando conseguir isso no Brasil". Israel, efetivamente, abandonaria com rapidez a acusação – inclusive tomando o cuidado de retirar de circulação o polêmico boletim. A essa altura, contudo, a questão da denúncia israelense já começara a ser empurrada para fora do noticiário por versões ampliadas da acusação divulgada no Guardian.

Parceiro da aventura – No domingo, dia 14, o correspondente em Beirute do Jornal do Brasil enviara para o Rio de Janeiro – de Telavive, para onde se deslocara poucos dias antes, um despacho praticamente idêntico ao divulgado na véspera pelo Guardian. Segundo o jornalista, naquele dia um informante do serviço secreto de Israel, o Mossad, o procurara em Telavive com a notícia de que, "em fevereiro", o Brasil teria remetido ao Iraque um grande carregamento de dióxido de urânio, camuflado em meio a armas e peças de reposição embarcadas num avião iraquiano. A informação, condicionou o agente Mossad, deveria ser creditada a "fontes da comunidade científica de Israel".

O Jornal do Brasil, diante da origem da notícia, preferiu examiná-la com cuidado – e não a publicou. Mas a denúncia, soprada pelo correspondente do Guardian a um repórter de São Paulo, acabaria explodindo com o estardalhaço no meio da semana. Nessa versão, o Brasil seria um parceiro secreto de aventuras nucleares do Iraque, decidido a abastecer o sócio com o urânio necessário a implantar no Oriente Médio o cogumelo atômico. Segundo ela, nos dias 14 e 15 de janeiro últimos (e não mais em fevereiro), dois aviões do Iraque – um Boeing – 727 e um Iliushin IL – 76, de fabricação soviética – teriam sido carregados, no aeroporto do Centro Tecnológico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos, com 8 toneladas de dióxido de urânio, processadas pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, um órgão do governo de São Paulo, e vendidas ao governo iraquiano pelo Brasil.

A história, progressivamente, foi ganhando cores e detalhes dramáticos. Os dois aviões iraquianos teriam usado o motivo oficial de seu pouso – carregar mísseis fabricados pela Avibrás Aeroespacial, uma empresa de São José dos Campos – para camuflar o embarque do urânio. O material, ia adiante a versão, teria sido colocado no avião em forma de pó, acondicionado em cilindros metálicos – e tudo isso durante a noite. Ele estaria na forma de dióxido de urânio, um pó escuro retirado dos sais do minério, que, submetido a determinados processos científicos, pode ser transformado em plutônio. Essa versão teria sido confirmada por Pedro Vial, assessor da presidência da Avibrás, que além de mísseis fabrica foguetes e antenas para satélites . Por fim, o pacote era amarrado com um fantástico fecho: um dos aviões iraquianos com o urânio fora interceptado por caças, provavelmente israelenses, sobre os céus do Atlântico, e forçado a descer no aeroporto de um país africano. Ali a carga foi confiscada.

Acoplagem confusa – "Isso me parece uma bela história de capa-e-espada", resumiu na quarta-feira o chanceler Saraiva Guerreiro. Ao longo da semana, de fato, a versão do embarque secreto de urânio foi vergando ao peso de sucessivos desmentidos - subscritos tanto por homens do governo quanto por técnicos em cujos depoimentos a versão supostamente se apoiara. O engenheiro Pedro Bento de Camargo, diretor do Instituto de Pesquisa Energéticas e Nucleares (IPEN), por exemplo, negou seu endosso à teoria de que ocorrera algum embarque clandestino de urânio e rechaçou a suspeita de que o Brasil monta nas sombras um programa nuclear secreto.

Como Pedro Camargo, o superintendente do IPEN, Hernâni Amorim, acredita que a versão nasceu da confusa acoplagem de episódios reais com a história dos aviões. A mais de um repórter, ambos informaram que, até julho de 1980, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), órgão que controla todos os institutos de pesquisa nessa área, costumava enviar ao IPEN pequenas partidas de urânio, para que recebessem o processamento inicial de purificação - cada uma delas tinha, no máximo, 200 quilos. Subitamente, o volume das encomendas feitas pela CNEN deu um salto - no segundo semestre, houve dias em que o IPEN mobilizou seus técnicos ao longo de 24 horas seguidas - e até dezembro próximo deverão estar processadas 70 toneladas de urânio. Feito o processamento, o urânio é devolvido à CNEN, que o incorpora a seus estoques. "Nós só prestamos serviços", explica Amorim. "Cabe à CNEN decidir o que fazer com esse material".

À falta de esclarecimentos oferecidos pela CNEN - que não revelou o que tem feito com o urânio tratado pelo IPEN, nem disse por que aumentou suas encomendas - a versão conspiratória decidira que, desse total, 8 toneladas subiram a bordo de um avião iraquiano - suposição que nenhum técnico do IPEN avaliza. Da mesma forma, é provável que a fantasia do "programa nuclear clandestino" tenha resultado da informação - verdadeira - de que o Brasil juntou, nos últimos vinte anos, 100 toneladas de matéria-prima nuclear que mantém estocadas. "É o chamado urânio sem salvaguardas", esclarece Camargo, "porque foge à fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica" - a AIEA, órgão ligado à ONU que é responsável pela vigilância dos países que assinaram o Tratado de Não- Proliferação de Armas Nucleares.

"Que sigilo?" - A partir disso, especulou-se que esses estoques estavam apenas à espera de equipamentos destinados à construção de um laboratório nuclear, que a Alemanha efetivamente doou nos últimos meses ao IPEN - sem que a tanto estivesse obrigada pelo acordo com o Brasil. Um novo laboratório, para análise de materiais irradiados, será inaugurado em 1983. "Mas nada tem de secreto", corrige Hernâni Amorim. "Esse laboratório é a base fundamental para a existência de uma usina de reprocessamento de urânio. Por enquanto", ressalva, "o IPEN não tem autorização nem capacidade para trabalhar com material irradiado". O esclarecimento foi energicamente encampado pela embaixada da Alemanha em Brasília - colocando a pique um outro equívoco, o de que os alemães teriam admitido a existência do "programa secreto".

Os rumores talvez sequer decolassem se também o governo evitasse uma certa inclinação pelo mistério. Em janeiro, quando foi noticiada a presença de aviões iraquianos em São José dos Campos, Brasília tentou negar sua existência - só agora admitida. "Os dois aviões ficaram cinco dias estacionados no aeroporto do Galeão antes de seguirem para São José dos Campos", contou na semana passada o embaixador do Iraque em Brasília. "Que sigilo é esse?" Ainda que transportassem o minério, Oswaldo Palma, secretário da Indústria, Comércio, Ciência e Tecnologia de São Paulo, pasta à qual está subordinado o IPEN, acha que não haveria razão alguma para segredos. " O dióxido de urânio é um item de exportação como outro qualquer", observa Palma.

É certo, além disso tudo, que o Iraque, mesmo recebendo urânio brasileiro, não tem a mais remota chance de produzir bombas atômicas a curto prazo. Ainda que pudesse, pouco proveito teriam 8 toneladas de dióxido de urânio, um volume demasiado ralo na opinião de especialistas americanos. Para completar, o urânio em forma natural, ou apenas superficialmente beneficiado, é material abundante, disponível no mercado e que dispensa operações clandestinas para ser obtido.

Mesmo o governo de Israel, apesar de justificadamente animado com a possibilidade de repercussão da denúncia - eventualmente, por ter tentado plantá-la por intermédio do Mossad - acabou por não levar a sério a folhetinesca trama.

Caças Mig - Se não embarcou urânio algum, é certo que o Brasil está envolvido a fundo numa conexão sem precedentes com o Iraque, incluindo cooperação nuclear e extensas transações com armas - e amarrada na total dependência do Brasil em relação aos países árabes produtores de petróleo, a começar pelo próprio Iraque. Afinal, o próprio vice-presidente da República, Aureliano Chaves, sugeriu na semana passada que transações com material nuclear não são liminarmente excluídas pelo Planalto. "Se o Brasil tivesse realmente vendido urânio para o Iraque, que mal haveria nisso?", perguntou Aureliano.

Escrúpulos do gênero - bem menos estratégicos, aos olhos do governo, que os 400.000 barris de petróleo por dia que o Iraque garante - têm sido descartados com desenvoltura pelo Planalto. Desde o começo da guerra entre Irã e Iraque, por exemplo, o Brasil produz secretamente em São José dos Campos, nas instalações da Embraer, peças de reposição para os caças Mig do sócio árabe. Para buscá-las, pousam discretamente em nossos aeroportos aviões Iliushin iraquianos transportando modelos de peças que precisam ser reproduzidas. Esse material certamente engrossava a carga dos aviões que em janeiro decolaram de São José dos Campos. Assim, a carga transportada para Bagdá violou sigilosamente a posição oficialmente neutra que o Brasil ostenta no conflito do Oriente Médio.

Conversas no deserto – O Itamaraty faz o possível para aparentar eqüidistância, num esforço que inclui uma estreita vigilância sobre embaixadores um tanto afoitos. Nomeado para a embaixada em Bagdá, o general Samuel Alves Correia afirmou que o Brasil estava disposto a ceder ao Iraque "tecnologia sensível" – ou seja, as mesmas técnicas de enriquecimento e processamento de urânio usadas para chegar à bomba atômica. O general desmentiu a declaração no dia seguinte, mas, em setembro de 1980, duas semanas depois da eclosão da guerra entre Irã e Iraque, montou em Bagdá um estande de vendas de armas brasileiras – que exibia tanques Urutu e Cascavel comprados pelos Iraquianos.

A transação fora feita sigilosamente, sob o controle do Conselho de Segurança Nacional – e o Itamaraty viveu momentos de pânico, certo de que o Irã interpretaria como gesto de hostilidade essa amostra da inexperiência diplomática do embaixador. O chanceler Saraiva Guerreiro ordenou ao general que fechasse o estande. Na semana passada, chamado à cena pelo caso do urânio, o ministro Camilo Penna, da Indústria e Comércio, afinal reconheceu que o Brasil embarcara para o Iraque, em janeiro, mísseis ar- terra fabricados pela Avibrás.

Mísseis ar-terra e mesmo peças para os Mig iraquianos, entretanto, são apenas uma parte do envolvimento brasileiro no Iraque – que começou a entrar em zona delicada em 1979, quando o ministro Penna comandou uma equipe encarregada de inaugurar, em Bagdá, negociações para um acordo nuclear com o Iraque. Em meio às conversas, o Itamaraty conseguiu, com o argumento de que o país se meteria em complicações internacionais, que Camilo Penna e sua comitiva decolassem de volta ao Brasil. Mas os retornados cruzaram nos ares com um jatinho francês que uma equipe da Petrobrás estacionada no Iraque havia fretado para buscar no Brasil o presidente da Nuclebrás, Paulo Nogueira Batista.

Os emissários da Petrobrás estavam negociando a questão do poço de Majnoon, uma imensa reserva de petróleo que o Iraque entregara às sondas da Braspetro. Com Batista à mesa, as conversas recomeçaram numa pequena cidade no meio do deserto iraquiano e, quatro dias depois, o acordo de cooperação nuclear estava acertado. O trato deveria permanecer secreto - mas a presença do jatinho francês, parado quatro dias no aeroporto, acabou chamando a atenção e a notícia vazou. A Braspetro recebeu, pela devolução de Majnoon, uma indenização pouco satisfatória. Em contrapartida, nem o conflito com o Irã fez com que o Iraque negligenciasse as encomendas brasileiras de barris. O que não puderam entregar ao Brasil, por causa da guerra, os iraquianos conseguiram que a Arábia Saudita entregasse em seu lugar.

Máquina xereta - O final relativamente feliz das negociações mudou o apelido de Paulo Nogueira Batista na intimidade do Planalto: em vez de "PNB", ele passou a ser chamado de "o homem da bomba" por amigos que difundiram a versão de que a inalem 007 do presidente da Nuclebrás "faz tique-taque". Nessa maleta repousaram os itens do acordo divulgado só em janeiro de 1980. Desde então, o Brasil forma técnicos iraquianos nas diversas fases das atividades nucleares, abriga estagiários na Nuclebrás e em São Paulo e acolhe missões em visitas a instalações proibidas a brasileiros comuns.

Tais ligações já há tempos preocupam Israel. Em sua publicação Weekly Media Abstract, distribuída às embaixadas israelenses em todo o mundo, o governo de Jerusalém costuma chamar a atenção sobre o envolvimento brasileiro no Iraque. O número 78, de 17 de fevereiro último, diz que o Brasil está disposto a fornecer armas "sem levantar questões", por sua dependência do petróleo iraquiaio. Outro número, de 22 de julho de 1980, afirma que o acordo com o Iraque prevê que o Brasil deverá "fornecer urânio, ajudar a localizar urânio no Iraque e fornecer treinamento técnico"- além de equipamentos e serviços para os reatores.

O Iraque, de seu lado, acolhe com entusiasmo visitantes brasileiros, e se dispensa de maiores cautelas diante deles. Em novembro do ano passado, o secretário particular do presidente da República, Heitor Ferreira, viajou reservadamente para o Iraque e, durante quatro dias, pôde constatar que ali não se pratica o culto ao segredo. Com uma máquina fotográfica Xereta, Ferreira registrou flagrantes dos silos que abrigam Migs comprados à União Soviética. Apresentando-se como "funcionário da Petrobrás", converso com três ministros. Seus interlocutores não sabiam com quem falavam mas falaram muito.

De qualquer forma, os iraquiano costumam ser bastante cuidadosos na escolha de amigos - prova disso é que negociaram seu programa nuclear com os dois países, Brasil e França que mais dependem de seus barris de petróleo. Na opinião de analistas americanos, o Brasil foi até pressionado pelo Iraque a aceitar a colaboração nuclear, em troca da garantia de suprimentos de óleo. Presa a tão fortes laços, Brasília procura cuidadosamente afrouxá-los com proveitosas transações comerciais.

2.000 carros - Uma ferrovia em construção renderá 1,3 bilhão de dólares à Construtora Mendes Júnior, a Esusa projetou dois hotéis no valor de 30 milhões de dólares e carros fabricados pela Volkswagen brasileira circulam pelo país. O Brasil também vende para o Iraque 100.000 toneladas de açúcar, frangos congelados, farelo e soja, café solúvel, carne enlatada, tanques da Engesa, mísseis da Avibrás e, ultimamente, peças de reposição de aviões processadas pela Embraer.

Até o bombardeio do porto de Basrah pelos iranianos, esse comércio rendia ao Brasil algo em torno de 300 milhões de dólares por ano. Com o estrangulamento da via marítima, as transações comerciais ficaram limitadas à construção da ferrovia e dos hotéis - e, naturalmente, ao fornecimento por via aérea de material bélico, que só em carros de combate já atingiu a expressiva cifra de 2.000 unidades.

Fissuras nessa aliança entre Brasília e Bagdá são tão improváveis quanto retrocessos no programa nuclear brasileiro, apesar de desconfianças internacionais, excitadas com o advento do acordo com o Iraque. Elas não incluem apenas Israel. Há dois meses, com a missão oficial de representar seu país numa reunião bilateral para debater direitos sobre o mar, o americano James Malone veio ao Brasil conversar sobre questões nucleares entre elas, o acordo com o Iraque. Os Estados Unidos parecem temerosos de que as silhuetas erguidas no litoral fluminense não tenham finalidades exclusivamente pacíficas. As desconfianças seriam menores se o Brasil rasgasse o véu de mistério que cerca se programa atômico - uma providência que também fulminaria fantasias protagonizadas por minérios nucleares e aviões iraquianos.

 

 

O ciclo do urânio, do minério à bomba atômica

O bombardeio do reator de Tamuz pela aviação israelense e as especulações sobre as ligações nucleares entre Brasil e Iraque trouxeram para a linguagem do dia-a-dia termos como urânio yellow cake, reprocessamento e urânio enriquecido - relativos a fases por que o urânio passa entre sua extração do minério e sua utilização como agente nuclear. A seguir, alguns dos principais termos usados no ciclo nuclear:

• URÂNIO: O urânio, ponto de partida essencial para o processo nuclear, e seu combustível básico, é um minério que está presente em abundância no mundo. O difícil é encontrar concentrações que permitam sua exploração em termos econômicos. Mesmo nas jazidas ricas, a proporção oscila entre apenas 3 e 4 gramas de urânio puro por tonela de minério.

Nenhum país do Oriente Médio tem urânio para participar do mercado internacional do produto. Os maiores produtores fora do bloco soviético são Estados Unidos, Canadá, África do Sul, Níger, França e Austrália. O Brasil é pequeno produtor mas, em termos de reservas, está entre os dez primeiros colocados. Hoje há um excesso de oferta de urânio no mercado internacional. O preço, que era de 40 dólares no início do ano passado, está em 25 dólares a libra-peso (454 gramas).

• YELLOW CAKE: O primeiro passo do ciclo nuclear é o de limpar o urânio das impurezas. Com isso, produz-se o yellow cake - ou " bolo amarelo" – ainda com impurezas da mina, mas com algo entre 70% e 80% de urânio puro. Normalmente, é nessa forma que o produto é fornecido no mercado. O urânio que, segundo as versões da semana passada, o Brasil teria passado ao Iraque, estaria no estado de yellow cake.

• ENRIQUECIMENTO: Para poder ser utilizado com fins nucleares, o urânio tem que passar pelo processo conhecido como "enriquecimento". Este processo é essencial porque só um tipo de átomo de urânio, o U – 235, libera energia aproveitável quando seu núcleo é rompido. Apenas 0,72% dos átomos de urânio é de U – 235. A maior parte, 99,28%, é de U – 238, que não serve como combustível para movimentar reatores nucleares – os equipamentos que geram a energia nuclear, cujas aplicações vão da produção de eletricidade e usos medicinais à confecção de bombas.

O objetivo do enriquecimento é aumentar a proporção de U – 235 no urânio de modo que ele possa ser usado pelo reator. Para a produção de bombas, porém, a proporção precisa ser muito maior, superior a 90%.

O reator de Tamuz, destruído pelos israelenses, funcionaria com urânio contendo 93% de U – 235 – uma das causas da alegação de Israel de que se destinava, também, a produzir artefatos nucleares. A suposta partida de yellow cake brasileiro não serviria para Tamuz – o material teria de ser submetido, primeiro, a uma operação de maior beneficiamento para conseguir um grau mais alto de pureza; depois, teria de passar por uma operação de enriquecimento. Este trabalho só poderia ser feito num terceiro país, pois o Iraque não tem instalações para enriquecer o urânio. São capazes disso, atualmente, apenas os Estados Unidos, a URSS, a França e um consórcio formado pela Inglaterra, Alemanha e Holanda.

- REPROCESSAMENTO: Terminado seu aproveitamento pelo reator, o urânio enriquecido ali utilizado como combustível é reprocessado para a separação dos outros elementos surgidos durante a reação atômica. Em seguida, é devolvido à usina de enriquecimento, que coloca em condições de ser novamente aproveitados.

- PLUTÔNIO: É nessa fase do processo nuclear que ocorre a separação do plutônio, um elemento que não existe na natureza. Ele aparece só como resultado do bombardeio dos núcleos de U – 235 dentro do reator. Como combustível para usinas atômicas, o plutônio é tão bom como o U – 235. Para a fabricação de bombas atômicas, também. Um reator como o de Tamuz produziria, a cada dois anos, a quantidade de plutônio – cerca de 6 quilos – necessária para a fabricação de uma bomba.

- BOMBA: As bombas atômicas podem ser feitas com urânio altamente enriquecido ou com plutônio. A bomba de Hiroxima era de urânio enriquecido; a de Nagasáqui, de plutônio. A maioria dos peritos acha difícil que um país interessado em produzir armas atômicas secretamente seguisse o caminho do urânio enriquecido. Os poucos países que fornecem o produto controlam estritamente seu uso. A alternativa, caso o país interessado ignore os fatores custo e tempo, seria usar o plutônio procedente de um reator de pesquisas – como fez a Índia para detonar a sua bomba atômica, em 1974.

 

A bomba sem controle

Cada vez mais países têm programas nucleares, está cada vez mais difícil evitar que eles tenham a bomba – e o perigo de uma guerra atômica aumenta

De repente, o tique-taque do relógio imaginário no qual se marca o tempo que separa a humanidade do apocalipse atômico deu um salto. Em janeiro deste ano, depois de passar doze meses registrando "7 minutos" para a meia-noite – a "hora" em que, nessa representação, um país vai lançar uma bomba contra outro -, o relógio pulou para "4 minutos" antes da meia-noite e está lá até hoje. Só uma vez o relógio esteve mais perto da marca da destruição: em 1949, quando a URSS fez explodir sua primeira bomba atômica na Sibéria e os Estados Unidos perderam o monopólio das armas nucleares. O registro, então, foi de 3 minutos para a meia-noite.

O relógio, impresso nas capas das edições do Bulletin of the Atomic Scientists, dos EUA, tornou-se o símbolo de uma preocupação que atinge a população mundial desde 1945, quando os Estados Unidos, lançando duas bombas em cidades japonesas, apressaram o fim da II Guerra Mundial. Quando apareceu pela primeira vez, em 1947, o relógio marcou 7 minutos para a meia-noite, o mesmo registro que vigorou para 1980. Por que o salto súbito para os 4 minutos, no início deste ano? Os cientistas do Bulletin afirmaram que o mundo, hoje, parece estar caminhando de maneira mais implacável para o desastre nuclear. Entre os motivos citados estão a suspensão das negociações para a limitação das armas estratégicas entre EUA e URSS, a freqüência com que governantes desses dois países levantam a possibilidade de uma guerra nuclear - e, sobretudo, a crescente perda de controle sobre a proliferação dos materiais, equipamentos e armas nucleares, que hoje circulam através do mundo numa escala sem precedentes.

Mercado de bilhões - O debate sobre a questão da não-proliferação nuclear, além de quase sempre alçado às alturas de um assunto incompreensível, em geral tem parecido acadêmico. Não mais, agora. Desde que jatos israelenses arrasaram o reator iraquiano de Tamuz, há duas semanas, a não-proliferação pulou para os primeiros lugares na agenda de problemas concretos de muitos governos. Não poderiam estar em incidentes desse tipo, envolvendo dois países que até relativamente pouco tempo atrás jamais poderiam pensar num confronto nuclear, os germes do holocausto?

O ataque também ampliou o foco sobre o aparente fracasso dos acordos internacionais destinados a deter a corrida nuclear – ou pelo menos sobre sua incapacidade de atingir outro de seus objetivos, que é convencer alvos em potencial, como o Iraque, das vantagens e da segurança de aderir a programas nucleares teoricamente destinados a fins civis. Por fim, a destruição do reator de Tamuz lançou poderosos holofotes sobre as atividades, freqüentemente obscuras, do círculo cada vez mais amplo de países com algum tipo de capacidade nuclear – como foi o caso, na semana passada, do Brasil e de sua conexão com o próprio Iraque.

Todo o debate deflagrado pela ação de Israel coloca emposição pouco confortável os EUA. Na verdade, os EUA são o maior fornecedor mundial de combustível, componentes e know- how nuclear, respondendo por 70% do comércio mundial da energia atômica – um vasto, multibilionário mercado que compreende hoje nada menos que 815 reatores de pesquisa ou de geração de eletricidade em operação ou em construção num total de 46 países, quase um terço das nações do planeta.

Curiosamente, vieram dos Estados Unidos as primeiras preocupações com o problema. Pouco depois da primeira explosão nuclear da História, realizada pelos EUA em julho de 1945 perto de Alamogordo, no deserto do Novo México, o presidente Harry Truman previu que o controle da bomba atômica logo seria "o problema número 1 do mundo" – preocupação compartilhada pelo próprio "pai da bomba atômica", o cientista americano Robert Oppenheimer.

Radiação em Carter – Hoje, o governo do presidente Ronald Reagan pretende, justamente, abrandar a política antiproliferação que herdou do governo Jimmy Carter. O ex- presidente tinha até razões pessoais para empenhar-se como o fez na qustão: durante o período em que serviu como oficial num submarino nuclear americano, no final da década de 40, o então tenente Carter esteve exposto certa vez a uma dose perigosa de radiação enquanto participava dos trabalhos de desativação de um reator canadense com defeito.

Reagan, agora, parte de uma posição diferente. Em primeiro lugar, seu governo está preocupado com o ônibus político de uma política antiproliferação muito restritiva – como Carter constatou, inclusive junto ao Brasil, esta é uma das melhores formas de criar inimizades com nações que querem manipular a tecnologia nuclear. Além disso, Reagan tem considerado o peso econômico que tal política representaria para a indústria nuclear americana. Sua tese, em conseqüência, é atacar o que considera as causas da proliferação, não seus sintomas. O bombardeio ao Iraque não alterou a posição americana. Para Washington, não adianta impor barreiras internacionais para os países que desejam a todo custo possuir armas atômicas – mesmo assim, eles as acabarão conseguindo.

O melhor meio dissuasório, portanto, é diminuir o apetite nuclear desses países por meio do alívio das tensões regionais e do fornecimento de ajuda militar convencional. Ao mesmo tempo, o governo Reagan planeja aumentar as exportações da tecnologia nuclear para países desejando implementar programas nucleares para fins pacíficos.

O centro da questão da proliferação atômica está no que Oppenheimer assinalou há 35 anos - o fato de que, em essência, a mesma tecnologia usada para gerar energia a partir do átomo pode também ser usada para produzir a bomba. Os esforços internacionais para que essa tecnologia fosse compartilhada vieram desde o início associados a restrições quanto a suas aplicações militares. Essa política, defendida tanto pelos EUA quanto pela URSS, desembocou no famoso Tratado de Não- Proliferação de Armas Nucleares (NPT), de 1968, cujo objetivo era convencer nações não- nucleares a renunciarem a programas militares em troca de assistência a programas civis. Como contrapartida, as potências nucleares - na época, os EUA (que detonaram sua primeira bomba em 1945), a URSS (em 1949), a Inglaterra (em 1952), a França (em 1960) e a China (em 1964) - comprometiam-se a reduzir seus arsenais nucleares.

Isso na verdade nunca aconteceu a ponto de os EUA, por exemplo, terem hoje, segundo algumas estimativas, mais de 30.000 bombas armazenadas. A soma de bombas soviéticas é igualmente aterradora: algo em torno de 10.000. De todo o modo, 114 países assinaram o Tratado e cinqüenta decidiram não assinar. Entre esses, França, China, Índia - sexto membro do clube nuclear, que explodiu sua primeira, e até agora única, bomba em 1974 -, Paquistão, Israel, África do Sul, Argentina e Brasil, todos eles considerados países em vias de obter a bomba, ou já possuidores de artefatos ainda não testados, como se acredita que seja o caso de Israel e da África do Sul.

Alarma de banco - O embargo do petróleo praticado contra os EUA e a Europa ocidental pela OPEP em 1973-1974 complicou o quadro da proliferação. Muitos países, diante da escassez de petróleo, começaram a busca por fontes alternativas de energia, decidindo acelerar ou mesmo iniciar seus programas nucleares. E o caso, por exemplo, do Brasil - que, aliás, arredondou sua política a respeito formando um tratado de cooperação nuclear com seu principal fornecedor de petróleo, o Iraque. Do outro lado da linha, as nações exportadoras de petróleo do Terceiro Mundo, inundadas por súbitas vagas de petrodólares, começaram a buscar freneticamente tecnologia nuclear para comprar - e encontraram, fechando o círculo, as nações européias dependentes de petróleo ansiosas por fazer vendas bilionárias no setor.

O Tratado de Não- Proliferação requer que as nações- membros submetam suas instalações e seus embarques à supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), sediada em Viena e ligada à ONU. Mas, a despeito de visitas de inspeção regularmente feitas e da portentosa rede de computadores e câmaras de televisão instaladas em reatores ao redor do mundo e ligadas a seu quartel-general, a capacidade e a autoridade da AIEA são limitadas. Para começar, a Agência tem pouco mais de 100 técnicos para vigiar programas em mais de quarenta países. Além disso, não dispõe de poderes próprios para implementar decisões. Finalmente, os países- membros podem evitar visitas de inspeção, sempre programadas, desde que avisem seu cancelamento com três meses de antecedência.

Mais importante ainda, as salvaguardas da AIEA não prevêem a emissão de alertas quando um programa nuclear de determinado governo envolve tecnologia mais sofisticada ou estoque de combustível maior que aqueles que seu programa deveria produzir. Há também, para tomar ainda mais turvo o panorama, todo o universo de operações clandestinas envolvendo materiais nucleares, inclusive o roubo puro e simples. Existem, por fim, os "mercenários nucleares", que disseminam know how - cientistas insatisfeitos em países desenvolvidos que são cooptados por países do Terceiro Mundo. Em resumo, diz um especialista em Londres, os procedimentos de salvaguarda parecem mais um alarma contra assaltantes que um dispositivo para travar portas: "Eles dizem se um banco está sendo assaltado – mas não impedem o assalto".

Ambigüidade – O Iraque, aliás, é um bom exemplo da deficiência das inspeções da AIEA. Bagdá assinou o Tratado de Não- Proliferação. Os inspetores da AIEA visitaram duas vezes a central de Tamuz e anunciaram que ela satisfazia a todos os requisitos das salvaguardas. Um porta- voz da própria AIEA, porém, mais tarde admitiu que nenhuma câmara de televisão à prova de violação nem lacre tinham sido colocados no reator. Além do mais, as atividades nucleares do Iraque não deixavam de encerrar ambigüidade. Tamuz destinava-se teoricamente apenas a propósitos de pesquisa – mas duas vezes no passado o Iraque tinha recusado uma oferta francesa para fornecimento de urânio de baixo teor de enriquecimento, insistindo, ao contrário, no combustível enriquecido a 93%, passível de utilização militar. O Iraque também operava um laboratório menor, construído na Itália, para a extração de plutônio.

Se os países filiados ao Tratado podem operar sem controles 100% eficazes, pode-se imaginar o que fazem as demais nações que desenvolvem programas nucleares. A Índia, por exemplo, insiste até hoje com a olímpica tranqüilidade até que a bomba atômica que explodiu em 1974 no deserto de Rajasthan – de potência igual à que riscou Nagasáqui do mapa de 1945 – era "um artefato nuclear de fins pacíficos". O também miserável Paquistão, arqui- rival da Índia e igualmente não- signatário do Tratado, está construindo um supersecreto centro de enriquecimento de urânio tecnicamente capaz de brevemente produzir material para seis bombas atômicas por ano. Muitos especialistas consideram que o Brasil e a Argentina podem ter a bomba até 1985.

Israel, é opinião geral da comunidade nuclear, tem a bomba – a única dúvida é saber quantas já conseguiu produzir em suas instalações secretas de Dimona, no deserto de Negev. E a África do Sul quase certamente foi responsável por um suspeito "clarão" detectado em 1979 por um satélite americano – talvez uma explosão atômica realizada no Atlântico sul.

Atirar para Matar – Ainda mais difícil de controlar, talvez, seja um dos pesadelos da era atual – o que os especialistas chamam de "microproliferação". Existe, por exemplo, a hipótese de que grupos terroristas tentem furtar plutônio. Mesmo a Máfia, segundo imaginam autoridades americanas, poderia pensar em ações semelhantes para exercer chantagem. A verdade é que a segurança física de instalações nucleares não é absoluta.

Anos atrás, um lunático conseguiu entrar sem ser notado na sala de controle de uma usina nuclear francesa e começou a ligar e desligar os botões a esmo antes de ser preso. Em 1973, terroristas do Exército Revolucionário do Povo ocuparam durante horas as obras da usina atômica de Atucha 1, perto de Buenos Aires, na Argentina. O perigo de que fatos como esse se repitam é tão real que nos EUA guardas têm ordem de atirar para matar em catorze instalações nucleares federais.

Por todas estas razões é que a tendência do risco de guerra atômica, ou de um incidente nuclear de proporções de guerra, é de aumentar. Também por isso países, como o Brasil, estarão sob crescente escrutínio internacional em suas atividades nucleares – e controvérsias como a da semana passada, com troca de notas diplomáticas e fragor na imprensa, são algo com que o país terá de aprender a conviver. Uma pesquisa realizada no ano passado nos EUA entre 32 cientistas do mundo inteiro chegou à conclusão de que, na década de 90, o relógio da destruição marcará apenas 1 minuto para a meia- noite. Até lá, dez países terão armas atômicas prontas – outros cálculos chegam a falar em 3.000 bombas atômicas em poder de países não– desenvolvidos.

Significativamente, os peritos concluíram que a guerra atômica mais provável na década de 90 ocorrerá entre Israel e os países árabes. Segue-se, em grande probabilidade, uma guerra entre a Índia e o Paquistão, e, em terceiro lugar, uma que oporia a URSS à China. Só depois, bem abaixo na lista, figuram uma guerra entre a OTAN e o Pacto de Varsóvia, limitada à Europa, e um conflito localizado entre a URSS e os EUA, provavelmente no Oriente Médio. Agora que o gênio da garrafa nuclear foi solto, e apesar dos perigos que o jogo atômico cada vez mais encerra, potências menores, freqüentemente pouco responsáveis e engalfinhadas em disputas regionais, parecem ainda assim dispostas a jogar. O resultado, como os fatos recentes têm indicado, será um mundo cada vez mais próximo do encontro dos ponteiros no relógio nuclear.

 

O cenário do horror

Um arrepiante foco de luz sobre o leque de
probabilidades do uso de armas atômicas no mundo

Os americanos Jerry e Diane Allen vivem com as filhas Michele e Julie, de 8 e 12 anos de idade, a 3 quilômetros da sede do Strategic Air Command (SAC) dos Estados Unidos, na cidade de Omaha, Nebraska – o centro nevrálgico de todas as forças estratégicas nucleares americanas e provavelmente o alvo número 1 de um ataque soviético em caso de choque nuclear entre as duas superpotências. Na semana passada, enquanto a destruição do reator iraquiano por parte de Israel ainda reverberava, expondo o despreparo da comunidade internacional para lidar com a proliferação nuclear, um superdocumentário da televisão americana – "A defesa dos Estados Unidos", exibido pela CBS – lançava um arrepiante foco de luz sobre os cenários inimagináveis que se multiplicam em progressão geométrica pelo mundo afora, com a acumulação de milhares de armas atômicas. Dos 1 milhão de dólares consumidos nos nove meses de produção da série – apresentada ao longo de cinco noites e assistidas por mais de 25 milhões de pessoas – 87.000 foram gastos para mostrar, com efeitos especiais à la Hollywood, o que aconteceria com Jerry, Diane e suas filhas se uma única bomba de 15 megatons aterrasse, de frente, diante dos portões de ferro da SAC.

A explosão, equivalente à detonação simultânea de quase 1.000 bombas similares à de Hiroxima em um mesmo lugar, reduziria a cidade de Omaha a pó em exatos 20 segundos – tempo em que uma bola de fogo permaneceria no chão abrindo uma cratera de 1,2 quilômetro de diâmetro. Depois, ela ascenderia a uma altitude de 53.000 metros em menos de 1 minuto, gerando calor suficiente para causar queimaduras de segundo e terceiro graus num raio de 25 quilômetros. A família Allen estaria, é claro, entre os 2 milhões de pessoas da região que morreriam com essa hipotética explosão.

Apesar da força das imagens, o documentário é sereno e equilibrado, não resvalando em nenhum momento para o melodrama apocalíptico. Apenas mostra que uma catástrofe como essa – impensável anos atrás, quando armas nucleares ainda eram fabricadas com fim dissuasivo, não para serem usadas – hoje faz parte normal dos cálculos de guerra de americanos e soviéticos. De fato, embora a selvagem proliferação nuclear mundo afora seja alvo das inquietações oficiais das grandes potências, são justamente os formidáveis arsenais atômicos dos EUA e da URSS que mais justificam o temor do "fim do mundo" – e não as canhestras caçadas à tecnologia nuclear empreendidas por países sem maior expressão militar. Afinal de contas, hoje os EUA e a URSS possuem, juntos, quase 2.500 mísseis intercontinentais – cada um deles capaz de destruir várias Omahas -, sem falar nas milhares de ogivas que rondam todos os mares a bordo dos 121 submarinos nucleares dos dois países.

A possibilidade de que um desses milhares de supermísseis seja utilizado – intencionalmente ou, pesadelo dos pesadelos, por erro humano – crescerá consideravelmente nos próximos anos, já que as negociações EUA – URSS para controle de armas estão estancadas e os americanos, diante do impasse, preparam-se para despejar uma soma sem precedentes em sua máquina de guerra – um total de 1,5 trilhão de dólares nos próximos cinco anos, metade dos quais destinada à construção de armas mais destrutivas e sofisticadas.

Sobreviver e vencer – Desde a emergência da bomba atômica na cena mundial, em 1945, acreditava-se que uma explosão com a imaginada sobre Omaha seria o começo do fim do mundo. As estratégias militares, tanto dos soviéticos quanto dos americanos, apoiavam-se no conceito de que uma guerra nuclear terminaria sem vencedores – caso um dos dois lados atacasse, o outro seria, também, irremediavelmente aniquilado. Agora, porém, o conceito de "guerra nuclear limitada" – em que a destruição do mundo seria apenas parcial – começa a consolidar-se como viável. "A União Soviética" já deixou claro que acredita ser possível sobreviver a uma guerra nuclear", afirma o presidente Ronald Reagan em uma de suas investidas contra o Kremlin.

Numa raríssima entrevista de um dirigente de seu porte, concedida em Moscou, o general Mikhail Milshtein, membro da GRU (o organismo de inteligência soviético) e durante quarenta anos oficial do Exército da URSS, rebate: "Há muita propaganda nos estados Unidos contra a União Soviética, no sentido de que estaríamos planejando um ataque nuclear. Esse tipo de acusação é extremamente perigoso porque leva as pessoas a acreditarem que uma guerra nuclear é possível, quando na verdade não é". Na mesma linha dois especialistas, o professor de Medicina Comunitária do New York City College, Jack Geiger, e o diretor do Departamento de Física do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Kosta Tsipsis, que assessoraram a CBS na concepção da réplica de um ataque atômico sobre Omaha, consideram a sobrevivência a um conflito nuclear inconcebível.

"No caso de Hiroxima, tínhamos uma bomba em uma cidade", pondera Geiger. "Em questão de dias, os trens começaram a chegar trazendo socorro, víveres, médicos. Não haveria nada disso na hipótese de uma guerra nuclear, mesmo uma guerra nuclear limitada. Teríamos milhares de detonações atômicas em vários lugares... Até um ponto em que os países envolvidos estariam tão completamente destruídos que a vida como a conhecemos tornar-se-ia impossível neles". Por menores que sejam as possibilidades de sobrevivência, porém, o fato é que pela primeira vez os soldados americanos estão sendo treinados para lutar em uma guerra convencional e nuclear ao mesmo tempo. E es operariam aquilo que o jargão militar chama de um "campo de batalha integrado" - com armas químicas, nucleares e convencionais.

O general alemão Wolff Graf Von Baudissin, assistente do marechal Rommel na II Guerra Mundial, ex -vice- comandante da OTAN na Europa e atualmente professor da Universidade de Hamburgo, recorda que grande parte dos oficiais europeus não sabia sequer o que eram armas nucleares quando os americanos começaram a enviar as primeiras remessas ao continente, no começo da década de 50. Hoje, o general Niles Fulwyler, comandante da Agência Química e Nuclear do Exército Americano, admite claramente que as armas atômicas teriam um papel a cumprir também na resposta a um ataque convencional. Ao mesmo tempo, vozes autorizadas do establishment militar americano manejam a hipótese de um embate nuclear com certa desenvoltura - mesmo considerando os cálculos segundo os quais um conflito nuclear mataria em cinco dias ou talvez até em cinco horas mais americanos e russos do que o total de vítimas fatais da II Guerra Mundial.

Pane e incongruências – "Sei que parece inacreditável imaginar a morte de 10 milhões de americanos. Mas os soviéticos tiveram 20 milhões de mortos na II Guerra e sobreviveram", pondera o almirante da reserva dos EUA Powell Carter. Porém, se uma conflagração atômica começa a deixar o domínio da ficção científica para materializar-se nos cálculos de generais e almirantes, isso não quer dizer que se sabe exatamente que formas concretas ela tomaria. Americanos e soviéticos têm, é claro, suas estratégias de guerra, ou war games, repetidamente testadas - no caso dos Estados Unidos, o Single Integrated Operational Plan (SIOP) designa especificamente que tipo de mísseis atingiram quais alvos inimigos. Mas após nove meses de exaustiva pesquisa, a equipe responsável pelo documentário da CBS chegou à conclusão de que "quanto mais se fala com pessoas envolvidas com armas nucleares, mais se percebe quão pouco se sabe de fato sobre o que aconteceria durante uma guerra atômica".

Nem americanos nem soviéticos sabem, por exemplo, se seus mísseis nucleares seriam capazes de localizar e atingir seus alvos após um primeiro ataque, em uma atmosfera já radioativa. Também não se sabe que impacto as primeiras detonações teriam nos sistemas de comunicações, essenciais para determinar as explosões seguintes. Outra dúvida: nenhum míssil, até hoje, foi sequer testado cruzando o eixo magnético da Terra. Além disso, por mais que se repitam explosões nucleares simuladas para treinamento de tropas - o que é feito com um barril de óleo carregado de dinamite e de explosivos especiais que reproduzem a simbólica forma do cogumelo -, é impossível saber com absoluta certeza como os soldados de qualquer um dos lados reagiriam quando fosse deflagrada uma guerra de verdade.

No inverno passado, quando uma divisão americana estacionada na Alemanha foi exposta pela primeira vez a um desses exercícios de explosão simulando um ataque- surpresa desfechado pelos russos, o resultado foi desastroso. Houve pane nas comunicações. A tripulação de um tanque - que detectou, não se sabe como, o ataque antes dos demais - simplesmente trancafiou-se dentro de sua unidade ao invés de reagir conforme prescrito no manual de combate. Quando o supervisor das operações conseguiu finalmente estabelecer contato com o comandante do tanque, este dizia apenas incongruências.

DEZESSETE SEGUNDOS - Mesmo as estimativas sobre o efeito da radiatividade liberada pelas detonações maiores são até certo ponto precárias. "No caso de Hiroxima", compara o médico Geiger, "a bomba explodiu no ar e a radiatividade subiu para a estratosfera. Mas uma bomba explodindo no chão, o impacto radiativo será mais drástico". Também há uma percepção generalizada de que a maioria das salvaguardas planejadas para o caso de um ataque nuclear seriam inúteis na hora do aperto real.

O documentário mostra imagens do Kneecap, o avião que fica estacionado 24 horas por dia na Base Aérea de Andrews, perto de Washington, para transportar o presidente americano a lugar seguro na iminência de um assalto nuclear soviético. Os guardas que rodeiam o Kneecap têm ordens para atirar em quem quer que ultrapasse um faixa vermelha pintada no chão, a certa distância do aparelho. Mas o fato é que o presidente americano teria menos de meia hora para deslocar-se de helicóptero até o avião, a partir do momento em que satélites americanos captassem pelo calor sinais de detonação dos mísseis na URSS e enviassem essa informação para os vídeos e computadores do North American Aero-Space Defense Command, ou Norad - outro QG da Força Aérea, situado no Colorado -, até sua explosão no solo dos EUA.

Só 13 minutos depois de recebida primeira informação, os monitores do Norad e do SAC teriam uma idéia mais precisa do tipo e do alcance do ataque - restando uma fração de 17 segundo para o presidente escapar e tomar o que seria possivelmente a mais grave decisão que jamais pesou sobre as costas de um estadista: "retaliar sob ataque", doutrina que estaria ganhando força sob a nova administração Reagan, ou, conforme reza a estratégia americana tradicional, esperar o primeiro impacto efetivo para então ordenar, de algum ponto de comando, o lançamento da barragem de mísseis americanos.

FORNOS CREMATÓRIOS - A maior parte dos analistas acha provável que as lideranças civil e militar do país venham a ser aniquiladas de alguma forma pelos russos logo no início de um conflito. Nesse caso, as decisões cruciais acabariam recaindo sobre um general de duas estrelas, voando num jato Looking Glass em algum ponto nos céus de Nebraska. Há sempre um Looking Glass, também chamado "avião do Apocalipse", voando nas proximidades do SAC. Sua função é manter um vínculo entre o presidente e as forças nucleares espalhadas pelo país e pelo mundo em caso de guerra. Mas suspeita-se que o comandante do Looking Glass acabaria arcando com a liderança completa.

Também não se sabe o que aconteceria com os radares e computadores do SAC ou do Norad em caso de ataque. O SAC, quase todo subterrâneo, foi construído de forma a suportar, teoricamente, o impacto de uma explosão nuclear. Mas suas estruturas não sobreviveriam a um choque direto, a um míssil que atingisse exatamente o alvo. O mesmo acontece com a sede do Norad, construída no interior de uma cadeia de montanhas de granito no Colorado, e cujas portas de ferro pesam 25 toneladas cada. Os abrigos antiaéreos espalhados por Omaha e outras cidades na mira dos soviéticos – como Hattenbach, na Alemanha Ocidental, a 32 quilômetros da fronteira com a Alemanha Oriental - seriam igualmente imprestáveis diante de um assalto maciço de mísseis, transformando-se em fornos crematórios para as pessoas que neles se abrigassem. Por essa razão o americano Jerry Allen, que cresceu à sombra do SAC, diz que não se daria o trabalho de correr em caso de um alarme nuclear. Ficaria exatamente onde estivesse.

Também não se sabe até que ponto o aparato nuclear americano estaria reservado das falhas e deficiências que afligem sua linha de armamentos convencionais. O avião de transporte Lockeed C5-A, o maior do mundo, tem um defeito nas asas. Além disso, durante um dos testes filmados pela CBS, uma das rodas do aparelho simplesmente despregou-se, provocando o seguinte comentário de um general da Força Aérea, Jack Catton: "Claro que este caso da roda é preocupante. Mas a história mostra que rodas sempre caíram de quase tudo que o homem construiu". Transportadas para a esfera do átomo, não seriam essas possibilidades de erro consideravelmente mais preocupantes? E como assegurar-se contra a possibilidade de erro humano no manejo dessas armas?

"RAZÕES IMPLAUSÍVEIS" - Em um período de 18 meses, o Norad soou 147 alarmas falsos sobre iminentes assaltos soviéticos. Sabe-se que um deles foi provocado pelo teste de lançamento de um míssil na URSS. A culpa de outro alarma foi atribuída a um computador. E em outro ainda os satélites teriam tomado um incêndio num oleoduto da Síbéria como detonação de um míssil nuclear. Outro complicador surgiu na semana passada, quando o almirante Powell Carter confirmou pela primeira vez que os submarinos atômicos americanos são absolutamente autônomos para desfechar um ataque nuclear - ou seja, a decisão nos submarinos está a cargo dos comandantes, porque suas armas, os mísseis Polaris e Poseidon, não dependem de códigos secretos para serem operadas, como é o caso dos mísseis terra-ar e dos mísseis ar-terra, estes disparados de bombardeiros.

Todos esses elementos imponderáveis servem como sombrio contraponto ao comentário de um general da Força Aérea, Kelly Burke. "Sempre achei que todos os cenários hipotéticos para uma conflagração nuclear eram intrinsecamente implausíveis", diz Burke. "Nunca vi um que parecesse plausível. Mas a verdade é que a história das atividades militares e do conflito entre nações mostra que muitas guerras começam por razões absolutamente implausíveis". É certo que o mundo tem vivido nesse equilíbrio precário já há 36 anos, desde que a primeira bomba explodiu - e nunca ocorreu o tão temido incidente fatal que nos conduziria ao fim do mundo. Mas, com a multiplicação cada vez mais frenética das armas nucleares - e, consequentemente, das oportunidades de toda ordem que podem acabar provocando sua utilização -, o controle sobre o leviatã nuclear se toma a cada dia menos seguro.

 
 
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