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O mais estranho é que tudo começou por acaso. Durante uma tranqüila sessão da Comissão de Justiça da Câmara, no dia 29 de agosto, o vice-líder da Arena, deputado Élcio Álvares, empunhando o texto do Acordo Atômico Brasil-Estados Unidos, resolveu ironizar: "Este é um projeto tão tranqüilo que nem o deputado Lysaneas Maciel terá restrição alguma a fazer". Tudo indicava que Alvares tinha razão. O acordo fora assinado em junho, na sala do subsecretário para Assuntos Políticos do Departamento de Estado, Alexis Johnson, numa breve e despercebida cerimônia. Na Comissão de Relações Exteriores, havia sido aprovado por unanimidade, com o voto do presidente do MDB, deputado Ulysses Guimarães. Ainda assim, Maciel, um mineiro de 44 anos lançado na política pelo MDB carioca, eleito com poucos votos e conhecido pela sua combatividade na comissão, resolveu tomar a brincadeira como um desafio e pediu vistas do projeto. Assim, descobriu que o acordo estava bafejado pelos ventos da pressa governista, pois o pedido foi negado. Paciente, o antigo pregador da Igreja Presbiteriana limitou-se a solicitar a interrupção da votação. "Li o projeto com atenção e resolvi votar contra. Expliquei o porquê num voto em separado escrito na hora", disse mais tarde. Perdeu, mas atrapalhou - O voto era improvisado, porém incisivo: "Este acordo, aparentemente inócuo, poderá gerar conseqüências imprevisíveis para o país, notadamente no que concerne à segurança e à soberania nacional". Maciel rebelara-se contra as cláusulas que demarcavam o campo da fiscalização concedida ao governo americano depois da venda de uma cota de 12.300 quilos de urânio enriquecido, para ser usado como combustível no reator da projetada usina nuclear de Angra dos Reis. Pelo documento, os Estados Unidos adquiriam o direito de fiscalizar qualquer reator ou equipamento atômico brasileiro desde que operasse com matéria-prima americana. A veemência do deputado carioca não conseguiu salvá-lo de uma fragorosa derrota na comissão, de maioria arenista. Mas deu-lhe a convicção de que poderia atrapalhar bastante. Resolveu obstruir a tramitação do acordo e apresentou duas emendas na sessão plenária do dia 31, obrigando-o a descer novamente às comissões. Em algumas votações, nem mesmo colegas de partido ouviram-no, mas novamente na Comissão de Justiça ele esteve perto do triunfo. Descobriu que a documentação enviada ao Congresso era incompleta e encaminhou um pedido de informações ao ministro das Minas e Energia Antônio Dias Leite. Três deputados da Arena votaram com ele, a contagem empatou em 7 a 7, mas o presidente desempatou a favor da urgência. No dia 5 de setembro, os poucos parlamentares que estavam em Brasília sabiam apenas vagamente da existência de um acordo atômico e de um certo deputado Lysaneas Maciel. A Arena, cevada na sua maioria esmagadora, esperava resolver a questão naquela tarde. Mas, quando o presidente da sessão contou 81 votos a favor do acordo e 40 contra, o partido sofrera sua primeira derrota na atual legislatura, por falta de quorum, pois eram necessários 156 para a aprovação. No dia seguinte, uma nova tentativa não conseguiu ir além dos cem e, novamente batido, o líder Geraldo Freire resolveu adiar a votação para depois da Semana da Pátria, quando deveriam chegar os reforços ocupados nas frentes das campanhas municipais. Falta de fundo - Quando chegaram, a Arena venceu. Na terça-feira da semana passada o assunto foi liquidado na Câmara e na quarta no Senado. Contudo, o MDB conseguiu levantar a poeira das negociações atômicas. Mesmo dispondo de informações precárias, a oposição mobilizou sua artilharia convencional. "A rigor, este acordo transforma os brasileiros em meros apertadores de botões na usina de Angra dos Reis. Em primeiro lugar, porque os Estados Unidos podem, tranqüilamente, negar o fornecimento de informações fundamentais aos nossos técnicos, desde que as julguem ‘sigilosas’ ou ‘para fins não- específicos’. Ele coloca a tecnologia brasileira numa situação de eterna dependência", denunciou Maciel. E o deputado Francisco Pinto acrescentou: "O que é estranhável nessa apressada ratificação do Acordo é que os homens como o general Affonso Albuquerque Lima e o cientista César Lattes não tenham sido ouvidos". A Arena, apanhada de surpresa num assunto tão complicado, de início ficou perplexa diante das investidas oposicionistas. O deputado Etelvino Lins, a caminho do plenário, admitia: "Não estudei o assunto a fundo, mas vou votar ‘sim’. É a orientação do partido". Salvou-a o deputado Aureliano Chaves, um mineiro gordo e sorridente, de 43 amos, que coleciona títulos de engenharia mecânica. Bem documentado, mostrou que os dispositivos da aparência draconiana existentes no Acordo para garantir a fiscalização sobre o uso de urânio enriquecido nada tinham de original e já haviam sido aceitos pelo Japão, Áustria e Inglaterra. A severidade americana é compreensível quando se verifica que, com apenas 1,5 kg do urânio a ser fornecido ao Brasil, se pode construir uma bomba atômica relativamente barata e de receita elementar. O bonde certo – A preocupação do governo, porém, não estava no campo doutrinário e, com a discussão, verificou-se que até mesmo a pressa tinha seus motivos. Caso o documento não tivesse sido ratificado até a semana passada, o empréstimo conseguido junto ao Export- Import Bank – Eximbank – seria automaticamente cancelado e, com ele, o início dos trabalhos para a construção do reator de Angra dos Reis, pela companhia Westinghouse. Na verdade, o MDB não só fora obrigado a tentar apanhar um bonde em disparada, como correra atrás da composição errada. O Acordo, em cujas cláusulas foram localizadas dragões na moita, é apenas a conseqüência lógica da solução de um dos mais velhos problemas da política atômica brasileira: a escolha do tipo e dos meios para a montagem do primeiro reator nuclear de potência capaz de produzir energia elétrica a preços competitivos. Para fins de registro civil, o Acordo nasceu ao ser ratificado pelo Congresso, mas ele foi gerado antes disso. O dia exato está na segunda metade de 1970, quando a Atomic Energy of Canada Limited se retirou da concorrência aberta pela Eletrobrás para o fornecimento da usina de Angra dos Reis, que deverá produzir, entre 1975 e 1976, 600.000 quilowatts de energia elétrica. Os canadenses eram os únicos candidatos capazes de apresentar um projeto de reator alimentado a urânio natural e, ao retirarem-se, deixaram a vitória da concorrência para um dos seis interessados em vender uma central alimentada por urânio enriquecido. Assim, fosse qual fosse a empresa ou sua nacionalidade, os dispositivos de proteção do precioso combustível seriam os mesmos. A pergunta a Brandt – As lutas e as negociações que envolveram a escolha do tipo de reator e até mesmo da empresa sempre passarm ao largo da polêmica de um acordo. Em 1968, quando mal se falava na usina de Angra, o primeiro-ministro alemão Willy Brandt, que estava visitando o Rio, pareceu muito pouco surpreendido ao lhe ser perguntado se a Alemanha estava disposta a vender um reator ao Brasil, durante a entrevista coletiva que estava concedendo na Associação Brasileira de Imprensa. A pergunta, que evidentemente teve uma solícita e interessada resposta, havia sido plantada por interessados em vincular o interesse de alguma companhia com a boa vontade do primeiro-ministro. Afinal de contas, o custo global da usina nuclear brasileira deverá girar em torno de 250 milhões de dólares. Para dezenas de cientistas, a escolha do modelo de urânio enriquecido representou o fim de uma discussão iniciada na tarde do dia 2 de dezembro de 1942, quando o italiano Enríco Fermi, em Chicago, tomou o primeiro gole do seu copo de Chianti Bertolli, comemorando o início do funcionamento da primeira pilha atômica. O fato de a discussão ter acabado não significa, porém, que haja motivos para comemorações gerais. Em seu apartamento em Campinas, onde está estudando flauta- doce, o professor Marcelo Damy, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear durante os governos Jânio Quadros e João Goulart, adverte: "Se vier a ser instalado, que seja o primeiro, único e último". Defensor intransigente dos reatores que consomem urânio natural, acrescenta: "É a mesma coisa que importar Cadillacs". Durante sua gestão na CNEN, o professor Damy não conseguiu sincronizar seu projeto de compra de um reator a urânio natural corri as radiações da política brasileira. Em agosto de 1961, quatro dias depois de autorizar a abertura da concorrência, o presidente Jânio Quadros renunciou. E em 1964, dias antes de enviar a mensagem de sua central a Congresso, o presidente João Goulart caiu. A diferença básica entre os dois modelos está no combustível. O reator de urânio enriquecido é umbilicalmente dependente de fornecedores externos. O de urânio natural daria a um país como Brasil, que tem tecnologia para obter minério nuclearmente puro, absoluta autonomia. Esse modelo é 10% mais caro, mas diz Damy: "O preço da energia produzida pelo reator de urânio natural ainda é mais baixo que o de muitas usinas termelétricas em funcionamento no país". Átomos e eletricidade - Na nervosa comunidade científica, os dois modelo dividem as opiniões com a mesma paixão que Marilyn Monroe e Gina Lollobrigida dividiram a juventude da década de 50. Quem defende o urânio natural diz que o enriquecido tem preços artificialmente baixos, onde não estão computadas as inversões para a montagem das usinas de beneficiamento, realizadas no esforço econômico da Segunda Guerra. Além disso, acenam com a catástrofe de um corte de fornecimento do urânio capaz de levar as usinas ao colapso. Os advogados do urânio enriquecido empunham a bandeira da qualificação tecnológica. "Os países que escolheram reatores cujo combustível é o urânio natural fizeram investimentos enormes e estão agora na difícil situação de terem de abandonar esses projetos pela metade e começar tudo de novo com base em combustíveis de urânio enriquecido", diz o professor Hervásio Guimarães de Carvalho, atual presidente da CNEN. A melhor explicação, porém, parece ser a do professor Abraham Friedman, diretor da divisão de programas internacionais da Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos. Ele disse a Roberto Garcia, de VEJA, na sexta-feira da semana passada, em Washington: "Durante os últimos anos foram vendidos no comércio internacional cerca de trinta reatores de potência. Destes, só cinco funcionam com urânio natural. A experiência tem mostrado que, se o objetivo é produzir energia elétrica, o caminho é o reator a urânio enriquecido". A solução do desvio - Assim, a discussão do problema brasileiro passa a girar em torno do objetivo. Segundo o ministro Costa Cavalcanti, do Interior - que durante o governo Costa e Silva, como ministro das Minas e Energia, tomou as principais decisões que levaram à opção final -, "para nós o mais importante era não perder tempo". "Quando se confundia energia atômica com bomba atômica um cientista americano lembrou que se cometia o erro que misturar energia elétrica com cadeira elétrica. Agora, confunde-se energia atômica com corrente elétrica", rebate Damy. Fumando uma longa cigarrilha, levemente mal-humorado, o lendário cientista César Lattes, que há anos solicitado matrícula para seu cachorro na biblioteca do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas alegando que o animal se equiparava à média dos matriculados, limitou-se a dizer: "É um mau começo". De qualquer forma, acompanhando-se as curvas da política atômica brasileira nos últimos 25 anos, verifica-se que, pelo menos, o fim da novela poderia ter sido melhor. No Palácio do Planalto, em Brasília, circula um pesado e minucioso relatório onde estão analisadas todas as possibilidades de desenvolvimento do programa nuclear brasileiro. Segundo esse estudo, além dos caminhos normais de conhecimento científico, não se deve esquecer da possibilidade de vazamento de informações estratégicas: "O desvio que deu autonomia ao beneficiário foi sempre um ato de indisciplina, a revolta bíblica da criatura contra o criador". A chance desperdiçada - Admitindo-se que cada país tenha uma chance a cada cinqüenta anos de ser banhado por tão oportunos desvios, a próxima oportunidade do Brasil ocorrerá no ano de 2001. Isso porque a primeira ocasião já foi insistentemente perdida. Em 1951, o almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva, presidente do Conselho Nacional de Pesquisas, entrou em contato com o professor alemão William Groth, assistente do cientista Otto Hahn, o pai da fissão nuclear, que hoje é nome de navio atômico, numa ambiciosa e romanesca negociação. Durante a guerra, Hahn havia desenvolvido um método de beneficiamento do urânio por meio de ultracentrifugadoras. O equipamento havia sido desmontado e estava sendo oferecido ao Brasil. Encontrando-se com Groth na Alemanha, o almirante concordou em pagar 80.000 dólares e ficou acertado que o dinheiro chegaria por meio do Banco da Alemanha. Cercando-se de todos os cuidados, Álvaro Alberto enviou uma carta ao governo brasileiro repetindo onze vezes a necessidade de "absoluto segredo". Para evitar surpresas, pediu aos cientistas alemães que desmontassem as máquina e espalhassem as peças por diversos portos da Europa, onde elas haveriam de ser embarcadas simultaneamente. Cremalheiras atômicas - O que sucedeu de fato, ninguém conseguiu descobrir. Fala-se de um misterioso informante brasileiro, bem como suspeita-se da inabilidade de um funcionário consular. A verdade, porém, é que, numa operação fulminante, o governo de ocupação aliado na Alemanha apreendeu todas as peças. O presidente do CNPq voou para Hamburgo e entrevistou-se com o comissário aliado, o almirante inglês Harvey Smith, que lhe disse: "Aqui sou o fiel cumpridor da vontade das quatro potências que ocupam o país. Sou o eventual governador e recebi instruções de apreender esse equipamento. Quem me transmitiu essa instrução foi o professor James Connant". Álvaro conhecia o professor e foi vê-lo em Bonn. Mas sua batalha estava praticamente perdida. Connant aconselhou-o: "Desista deste negócio". Quando terminou a ocupação da Alemanha, finalmente as centrifugadoras vieram para o Brasil. Se tivessem continuado a trabalhar para o professor Hahn, certamente milhares de pessoas haveriam de julgá-las instrumentos milagrosos capazes de explicar por que motivos o povo alemão consegue desenvolver-se tanto no campo científico. Contudo, foram desembarcadas como maças de discórdias políticas internas. Por isso, enquanto uns diziam que eram máquinas capazes de atualizar o Brasil no campo do enriquecimento de urânio, outros chamavam-nas de "cremalheiras", "chocolateiras" e "batedeiras de manteiga", devido ao seu formato. As centrifugadoras foram manipuladas por cientistas brasileiros, chegaram a produzir urânio enriquecido. ainda que a preços antieconômicos, e aos poucos foram sendo deixadas de lado. Hoje estão no Instituto de Tecnologia de São Paulo, num prédio que serve a pesquisas habitacionais, e não podem ser utilizadas nem vistas, pois após tantas peripécias acabaram sendo literalmente emparedadas, como certos infelizes personagens de Edgar A. Poe. As obras do Instinto - Terminada essa aventura, o Brasil continuou a tatear em busca de um futuro nuclear. E ele sempre esteve vinculado a projeto para a construção de usinas. Assim, estudou-se uma em Mabucaba, no Estado do Rio, e outra em Cabo Frio, ensaiada pela American Foreign Power Company, com capacidade para produzir 100.000 quilowatts. Na década de 60, quando agentes da Central Inteligence Agency descobriram que o grande letreiro de uma indústria têxtil israelense protegia importantes instalações nucleares, a França já conseguira montar uma usina de enriquecimento para fins militares e a Índia começava a encaminhar o programa de seu primeiro reator, o Brasil tomou a mais importante de suas decisões ligadas à central. Resolveu-se subordinar a Comissão Nacional de Energia Nuclear ao Ministério das Minas e Energia, desvinculando-a da Presidência da República. Logo depois, entregou-se o poder de decisão para a escolha do equipamento da usina à Eletrobrás, que o transferiu para as centrais de Furnas. Sem dúvida, tratou-se de uma fórmula discutível, mas é inegável que, depois de vinte anos de vacilações, era no mínimo uma solução capaz de conduzir a resultados práticos. Durante as discussões de modelos de reatores, voltou a aparecer algo de original da política atômica brasileira. Um grupo de treze engenheiros vinculados ao Instituto de Pesquisas Radiativas de Belo Horizonte chegou à conclusão de que o Brasil possuía conhecimentos técnicos suficientes para projetar sua própria usina nuclear. Propunham um reator alimentado a urânio natural e tório e batizaram seu plano com o nome do capital inicial de suas pesquisas: Projeto Instinto. E em seguida a própria equipe começou a ser chamada de "Grupo do Tório". A partir de 1966, o Instinto passou a ser executado em cooperação com o Comissariado Francês de Energia Atômica, com intercâmbio de informações que eram mandadas para um computador em Saclay, onde eram feitos os cálculos necessários. Um ano depois, uma copiadora a álcool gerava o resultado mais importante dos trabalhos da equipe: 61 páginas onde, num "texto preliminar", eram apresentadas as características essenciais da usina. Meu ponto de vista - Amareladas pelo tempo, as folhas desse relatório vagam hoje pelas gavetas de alguns cientistas. Em menos de um ano, o Grupo do Tório sofreu fissão política e administrativa. Hoje, seus principais técnicos estão espalhados por diversos projetos ou estabelecimentos oficiais. Em alguns casos trabalham em projetos importantes. Em outros, em estabelecimentos inócuos. O único vestígio da equipe e a reduzida dotação orçamentária que o projeto, mesmo depois de morto, continua recebendo, graças ao poder de inércia da burocracia. Uma coisa, porém, é certa: mesmo que os trabalhos do Grupo do Tório não tenham a mesma importância que as centrifugadoras de Otto Hahn, os treze cientistas nunca poderão ser acusados de amadorismo. Isso porque, em 1956, quando depunha na Comissão Parlamentar de Inquérito da Energia Atômica, o então professor Hervásio de Carvalho anunciou suas opiniões a respeito do futuro nuclear do Brasil: "Este é meu ponto de vista: acho que no Brasil deveríamos começar com reatores de água pesada* e gradualmente desenvolver à base desses reatores a nossa indústria, inicialmente com urânio natural e em seguida passar para o tório". Contudo, acima de todas as discussões em torno de modelos ou de origens de reatores de potência, o Brasil fixou, durante o governo Costa e Silva, a mais importante de suas diretrizes de política nuclear. Em 1965, os Estados Unidos e a União Soviética resolveram se associar na tarefa de desnuclearizar o mundo por meio do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. O espírito desse acordo é bastante simples. Seus signatários nuclearizados - Inglaterra, EUA e URSS - não se comprometem a parar de produzir suas bombas para todos os fins, bem como não oferecem qualquer garantia de não descarregar parte de seus arsenais em terras alheias. Os países não nucleares se comprometem a não fabricar artefatos e passam a esperar, embevecidos, pela paz do mundo e pela assistência técnica dos possuidores de bombas. O Tratado é um passo a favor da paz porque restringe a proliferação, um dos melhores caminhos para a guerra, mas não chega sequer a ser uma tênue esperança de que ela não ocorrerá. Colonato nuclear - Excluídos os raciocínios de esoterismo político, o Tratado, ou TNP, como é conhecido nos corredores do Itamaraty, tem sérias lacunas práticas. Como até hoje ainda não são conhecidas as possibilidades da utilização de explosões pacíficas e como os primeiros resultados de um programa de pesquisas realizado nos Estados Unidos desde 1957 - o Plowshare - têm acenado com excelentes resultados, há a suspeita de que, abrindo-se mão das bombas, perde-se um elemento de progresso. O Brasil, pelo menos, convenceu-se de que não deveria assinar o Tratado, no governo Castello Branco. Em março de 1967, o marechal afirmou: "Reagimos ao que seria, afinal, abdicar de um instrumento hoje indispensável ao futuro da nação qual seja a utilização plena do progresso da ciência atômica para fins conscientemente pacíficos". Os planejadores da política brasileira caíram em algumas ilusões diante do TNP. Primeiro acreditaram que os Estados Unidos e a União Soviética nunca haveriam de chegar a um acordo. Depois julgaram que a Alemanha Ocidental não aderisse. Finalmente surpreenderam-se com o número de assinaturas - 115 até hoje. A posição, porém, fortaleceu-se. Na sua primeira reunião ministerial, o presidente Arthur da Costa e Silva denunciou "uma nova e mais perigosa modalidade de subdesenvolvimento, que seria o subdesenvolvimento científico e tecnológico". Em junho, o chanceler Magalhães Pinto subiu duas oitavas. Segundo ele, o Brasil não queria ser "reduzido paulatinamente à condição de mero importador de técnicas alheias, eterno pagador de royalties, sujeito finalmente a uma nova espécie de subordinação - o Colonato da Era Atômico- Espacial". E seu secretário- geral, o atual embaixador do Brasil em Londres, Sérgio Correa da Costa, acompanhava, advertindo: "Cairemos insensivelmente sob uma espécie de colonato nuclear". Pressões - Como o Brasil não assinava o Tratado, a Argentina também não o fazia. Assim, começavam polidas pressões. Os americanos mandaram o professor Glenn Seaborg, presidente da Comissão de Energia Atômica, um Prêmio Nobel de Física a serviço da Casa Branca. Os russos despacharam seu ministro- conselheiro em Washington para dois dias de conversações secretas com o chanceler Magalhães Pinto. Como ocorre freqüentemente na política externa brasileira, o tema murchou. Ainda no governo Costa e Silva as declarações audaciosas esmoreceram até que um profundo silêncio passou a envolver o TNP. Na semana passada descobriu-se que um velho livro de folha mimeografadas, encadernado em cartolina, com o título "Política Nuclear Brasileira" editado e distribuído farta e generosamente em agosto de 1967, estava ornamentado por dois sóbrios carimbos de "Confidencial". À primeira vista pode-se acreditar que tivesse ocorrido um grave erro na distribuição de 1967. Contudo, em suas páginas o dossiê contêm apenas inofensivos discursos, entre vistas e declarações públicas que, com algum cuidado, podem ser recompilados em qualquer biblioteca que tenha coleções de jornais. A menos que tenha havido um equívoco, pode-se acreditar que o Itamaraty só repetiria hoje as afirmações de 1967, senão em caráter confidencial, pelo menos sob a proteção de alguma reserva. Em alguns círculos admite-se que certas autoridades do segundo escalão manifestam um relativo ceticismo diante dos resultados que o Brasil poderá conseguir não assinando o TNP. Oficialmente, o Itamaraty pronuncia-se contra a aprovação do Tratado, mas o tom dos pronunciamentos parece ter muito menos ímpeto do que o das árias do colonato. Esse indício, contudo, é insuficiente, pois, de certa forma, nos últimos anos, as declarações do Ministério das Relações Exteriores adquiriram um novo estilo. Além disso, o Conselho de Segurança Nacional teria congelado a posição brasileira por dez anos. Pesquisas paralelas - De qualquer forma, a preocupação dos países nuclearizados diante da posição brasileira, mesmo não sendo prioritária, não é certamente de desinteresse. Em 1968, em Nova York, durante um encontro com o chanceler Magalhães Pinto, seu colega soviético Andrey Gromiko perguntou secamente: "O Brasil pretende fazer bombas atômicas?" "Queremos energia nuclear apenas para o nosso desenvolvimento econômico", respondeu Magalhães, sem esclarecer a questão. Na verdade, se o Brasil não assina o TNP é porque cogita, a médio ou longo prazo, de produzir artefatos. Engenheiros militares, por meio do Estado- Maior das Forças Armadas, acompanham e coordenam pesquisas nos reatores universitários existentes no país*. E no Instituto Militar de Engenharia já se chegou a elaborar um projeto para a fabricação de água pesada. Em 1959, o general Aurélio Lyra Tavares, atual embaixador do Brasil em Paris, já dizia que "nenhuma nação soberana pode eximir-se do dever de aparelhar-se para atender aos novos tipos de ameaça a que está sujeita". Segundo um técnico, as pesquisas civis e militares "são paralelas". Como é sabido no mundo da alta matemática, as paralelas se encontram, mas ele mesmo esclarece: "Posso garantir que ainda estamos longe". O presidente Emílio Garrastazu Medici, que tem um incontido interesse pelos problemas atômicos, é permanentemente informado a respeito das opções que surgem para o Brasil. Recentemente, os setores científicos foram surpreendidos pela nomeação do general Arthur Façanha para o Conselho Nacional de Pesquisas e pela criação da Companhia Brasileira de Tecnologia Nuclear. As decisões tomadas no Planalto fazem com que o Brasil tenha o segundo maior programa de prospecção de urânio do mundo, ultrapassado apenas pelos Estados Unidos. Uma projeção futurista de dez anos, quando o Brasil poderia atingir uma situação semelhante à da França de hoje, revela que o caminho ainda é longo, pois, enquanto atualmente gastam-se 6 cruzeiros per capita em pesquisas, os franceses aplicam 250 e têm 120.000 cientistas. Atualmente, o plano brasileiro é possuir cinqüenta reatores até o fim do século, para atender à demanda crescente de energia que vem ocorrendo em todo o mundo. Para seus projetos já teria recebido sondagens discretas da África do Sul, onde se desenvolve um plano de enriquecimento de urânio, para compartilhar dessa tecnologia. Contudo, o Brasil ainda não parece disposto a formar uma aliança, considerada maldita por muitos países, com o regime racista de Johannesburg. Do ponto de vista militar, há sérios indícios de absoluta calma no tratamento da questão atômica. Nos planos de reequipamento do Exército, por exemplo, o ativamento das pesquisas nucleares foi deixado de lado, em benefício do patrulhamento das fronteiras. Cláusula dispensável - Esses indícios fortalecem a idéia de que a estratégia brasileira é de retardar maiores decisões nucleares para a situação confortável do desenvolvimento industrial a ser atingido nos próximos anos. Estabelecida esta premissa, importar um reator a urânio enriquecido pareceu uma decisão adequada ao governo. Mesmo assim, sabe-se que o Acordo Atômico com os Estados Unidos teve negociações bem mais movimentadas do que se poderia supor. O governo brasileiro tentou insistentemente incluir uma cláusula segundo a qual os americanos se comprometiam a não transmitir informações referentes a descobertas ou inovações acrescentadas ao funcionamento do reator por técnicos brasileiros. Abraham Friedman explicou por que o governo americano não concordou: "Por duas razões muito simples. A primeira é que, se concordássemos em incluir essa cláusula, daríamos direito aos outros 25 países que assinaram acordos conosco de pensarem que esse artigo, como não constava dos acordos deles, deixaria que nos arrogássemos o direito de ir copiar suas inovações técnicas. Por outro lado, achamos que isso não caberia num acordo. É claro, por exemplo, que nossos inspetores não têm o direito de ir ao Brasil para roubar móveis ou peças em Angra dos Reis. Evidentemente, não concordaríamos em incluir no Acordo uma cláusula dizendo que não temos direito de roubar peças do reator. Simplesmente achamos que esse tipo de cláusula não é necessário". O comentário de Friedman é espirituoso, mas esquece que tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil há legislação específica para casos de furto de objetos. Falta, porém, algo que defina a transmissão indébita de informações. Todavia, é remota a possibilidade de técnicos brasileiros conseguirem inovar a tecnologia sofisticada dos reatores de urânio enriquecido. Nem lucros nem perdas - Além disso, para o governo, o programa atômico continuará dependendo da instalação de reatores a urânio natural. A central de Angra dos Reis poderá acelerar as pesquisas de prospecção de urânio, pois o Brasil deverá enviar o minério para a Geórgia, onde será beneficiado e vendido a preços de mercado. Contudo, ela mantém-se mais ou menos à margem das grandes decisões de política atômica. E por isso é tão criticada. A menos que se desenvolvam novos projetos, com a compra da central da Westinghouse o Brasil não deverá perder nada, apesar das profecias oposicionistas, mas também pouco terá a ganhar. Com o tempo, é possível que seja dissipada a lenda segundo a qual os reatores Pickering canadenses são caixas de defeitos*. Segundo algumas fontes, eles têm a melhor estatística de operações do mundo e, segundo o ministro Costa Cavalcanti, "o Canadá insiste mas está enfrentando terríveis problemas". Além disso, os programas indiano, israelense e argentino, onde a tecnologia do urânio enriquecido é somada à do natural em reatores diferentes ou até mesmo num só, poderão trazer para o Brasil informações decisivas para novas opções. Por vício, é muito freqüente se julgar que qualquer palavra sobre um assunto tão complicado quanto energia atômica é sempre a última. No entanto, em poucos campos do conhecimento surgiram tantas incertezas e tantas intuições. Assim, a política nuclear brasileira, mesmo com a usina de Angra dos Reis instalada, continuará sofrendo os desafios fundamentais que a afligiam anos atrás. E só as decisões do governo poderão dizer qual dos dois renomados especialistas está errado. Se George Bunn, da delegação americana nas negociações do TNP, que disse: "O Brasil poderia fabricar o seu artefato rudimentar na década de 80". Ou se Georges Fischer, diretor de pesquisas do Centro Nacional de Pesquisa Científica, da França, que garantiu: "É pouco provável que os países latino- americanos possam, por seus próprios meios, efetuar explosões nucleares".
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