Infográficos
A usina nuclear
A bomba atômica

Em dia

Guerra nuclear
Chernobyl, 1986
Usina de Angra
Bomba no Brasil

Em resumo
Perguntas & Respostas
Números e frases
Glossário
 



2 de julho de 1975
Uma forte nação pacífica

Durante toda a semana passada, a bandeira brasileira esteve hasteada no alto dos edifícios públicos de Bonn, capital da Alemanha Ocidental. Esse clima de festa devia ser muito tranqüilizador para o ministro das Minas e Energia, Shigeaki Ueki, que havia voado para lá com tão desusada antecedência como a certificar-se de que o acordo para o uso pacífico de energia nuclear seria realmente assinado, na sexta-feira, entre os chanceleres Hans-Dietrich Genscher, alemão, e Antônio Francisco Azeredo da Silveira. Afinal, os adversários desse entendimento, nos Estados Unidos, não haviam deixado de alimentar dúvidas até o último momento.

Aliviado, também, parecia o próprio Silveira, quando às 10h54 da manhã, na Alemanha, terminou a cerimônia de ratificação do acordo. Tanto que dedicou aos jornalistas presentes o seu melhor alemão. Danke schön, "muito obrigado", ele agradeceu diante de uma bateria de microfones. Nem por isso deixou de responder, mais uma vez, aos argumentos com que, durante mais de 25 anos, se conseguira adiar a independência do Brasil no desenvolvimento de uma tecnologia para o uso pacífico do átomo. De maneira costumeiramente obscura, Silveira reiterou: "Somos contra o armamentismo, tanto vertical quanto horizontal. Mas somos também contra a idéia de desarmar os desarmados e armar ainda mais os armados".

Com isso ele queria dizer que o Brasil acabara de entrar, ainda que armado das melhores intenções de paz, no rol das nações que podem fabricar uma bomba atômica. Para tanto, basta dominar todo o processo que vai da extração do urânio ao seu enriquecimento e ao processo de fissão nuclear. E todas essas fases estavam previstas no texto do acordo que Silveira acabara de assinar, no amplo salão de conferências do Ministério das Relações Exteriores em Bonn. Um programa que estabelece 10 bilhões de dólares em investimentos, no prazo de 25 anos.

Punhos na mesa - Para a Alemanha, só o valor dos investimentos tornaria o convênio muito interessante. Ali se conseguira, de uma única penada, realizar um dos maiores programas de produção energética já feitos no mundo. E, nesse único contrato, exportando oito centrais atômicas, os alemães batiam todos os recordes no setor já alcançados pelos americanos. Os Estados Unidos levaram 25 anos.

Para o Brasil, no entanto, o feito mais significativo era o de que, de toda aquela papelada assinada por Silveira e Genscher, não tivessem saído as cláusulas fundamentais, onde se garantiam que a técnica de beneficiamento e uso do urânio viria completa para o Brasil. Fora principalmente nesse sentido que todas as pressões e interesses se haviam levantado contra o acordo.

Portanto, essa vitória brasileira e alemã merecia bem ser comemorada, agora que todos os riscos estavam afastados, dentro do melhor protocolo diplomático. O acordo, porém, não foi exatamente um resultado da diplomacia de punhos de renda. Pelo contrário, ao menos uma vez ele chegou, em momento decisivo, a exigir a interferência de punhos na mesa.

Foi quando os alemães pareciam inclinados a ceder às pressões americanas e incluir no contrato os itens de salvaguardas capazes de comprometer a sua indiscutível importância para o Brasil. Nessa ocasião - o episódio remonta à semana retrasada -, o presidente Ernesto Geisel fixou a posição brasileira: ou se mantinham os termos negociados ou o acordo passaria a ser discutido com a França, avidamente interessada. Nada como a livre concorrência. Dias depois, estava tudo pronto, em Bonn.

Linhas traçadas - Talvez por esse motivo, quando a notícia da assinatura chegou a bordo do One Eleven presidencial, em vão para a base aérea de Guaratinguetá, sexta-feira da semana passada, Geisel limitou-se a saudá-la com um sorriso, sem comentários. Há vários dias o contrato não corria mais perigos.

Custara-lhe, essa certeza, um ano e quatro meses de negociações. Numa prova de que política externa quem faz é governo, cabe à diplomacia apenas executá-la, a linha mestra do acordo já estava traçada em seu primeiro discurso administrativo, a 19 de março de 1974. "Impulsionaremos a política diplomática", disse Geisel então, "alerta sempre para a detetacção de novas oportunidades (...) do acesso à tecnologia, fazendo para tanto, com firmeza, as opções e os realinhamentos indispensáveis". E, parágrafos adiante, chegava aos exemplos concretos: anunciou a "intensiva preparação do país para a era da energia nuclear, seja através da pesquisa de jazimentos de minerais físseis, seja pela absorção de tecnologia de alta especialização".

Esses princípios eram inconciliáveis com o comportamento habitual dos Estados Unidos nessas questões. O governo americano nega-se rigorosamente a transferir tecnologia - com o que tem sustentado, há 25 anos, o monopólio do fornecimento de urânio enriquecido ao mundo ocidental. Esse material, o coração das usinas que os americanos exportam, chega aos consumidores em depósitos lacrados. E sai sem que os compradores possam mexer nas cinzas que resultam do processo de fissão do urânio - pois é exatamente nesses restos que começa um novo ciclo de produção da energia nuclear. Com um desvio, que leva à produção da bomba. E um atalho que leva à independência. Infelizmente, os dois caminhos estão irremediavelmente ligados. Um não pode ser obstruído sem bloquear o outro.

Interesses recíprocos - Assim, o Brasil estava diante da necessidade econômica de ter, até o fim da década, 10 milhões de quilowatts de potência nuclear instalada no país - o que vem a ser a duplicação de sua atual capacidade hidrelétrica. Podia produzi-la comprando reatores americanos, como o de Angra dos Reis - e aceitar todas as salvaguardas ao uso do urânio enriquecido. Ou atingir a autonomia em tecnologia nuclear, através da Alemanha. O acordo com os alemães tem a sábia virtude de atender a interesses recíprocos, como observou o parlamentar Christian Lenzer, líder da democracia-cristã. "É o exemplo ideal", disse ele, "da cooperação entre a tecnologia de um país altamente industrializado e o desenvolvimento de um país rico em matérias-primas."

Atualmente, a Alemanha está em condições de oferecer usinas nucleares mais aperfeiçoadas que as americanas, sobretudo no que diz respeito à segurança, e por isso mesmo 20% mais caras. Mas, por não possuir reservas de urânio, é obrigada a depender de fornecimentos americanos e, em parte, soviéticos para abastecer suas centrais. Em troca desta tecnologia, o Brasil fornecerá o minério.

O urânio paga - "O Brasil poderá financiar inteiramente ou ao menos parte considerável de seu projeto nuclear com a exportação de urânio enriquecido", disse a Carlos Struwe, de VEJA, em Bonn, o diplomata Paulo Nogueira Batista, presidente da Nuclebrás, órgão estatal encarregado da execução da política nuclear brasileira. O quilo do urânio custa hoje cerca de 50 dólares no mercado internacional, mas com o agravamento da crise do petróleo deverá chegar rapidamente aos 100 dólares. Além das reservas brasileiras conhecidas, que oscilam entre 350.000 e 500.000 toneladas, há indícios seguros de que existem novas e ricas jazidas, principalmente na Amazônia, capazes de garantir o abastecimento interno e as exigências do acordo. É sintomático que o governo tenha oferecido aos alemães um estudo feito por técnicos franceses, seus principais concorrentes na Europa, sobre as possibilidades do Brasil em termos de minérios atômicos. Sob evidentes protestos da França.

Na verdade, os entendimentos com a Alemanha vêm de longe. "Esse acordo foi a retomada da política brasileira de energia atômica esboçada em 1952 pelo almirante Álvaro Alberto", disse a Maurício Dias, de VEJA, no Rio, o ex-deputado Renato Archer, cassado em 1968, pioneiro no Congresso da preocupação com os destinos nucleares do Brasil.

O pioneiro - De fato, o almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, hoje com 81 anos, cujo nome foi dado à primeira usina nuclear do país, em Angra dos Reis, escreveu praticamente sozinho a pré-história da política atômica brasileira. E com tanto conhecimento de causa que, logo após a explosão da bomba de Hiroxima, em 1945, longos arrazoados de sua lavra foram publicados na seção de cartas da revista Time, dos Estados Unidos, para corrigir informações científicas sobre o engenho nuclear, saídas no número anterior. Sua atuação na defesa dos interesses brasileiros foi severa e profética, a partir do momento em que as nações industrializadas começaram a cobiçar minérios radiativos no exterior.

Esta ambição chegou a ser levada a momentos de delírio, como o do representante americano Berbard Baruch, que propôs na Organização das Nações Unidas, em 1947, um demiúrgico "Plano de Correção das Injustiças da Natureza"- a desapropriação de todas as reservas de minerais atômicos do mundo, que seriam geridas por uma organização internacional, pois para ele era inadmissível que o Criador tivesse dado jazidas a apenas alguns países, eleitos sem o menor critério.

"É minha convicção, senhor embaixador", escreveu o almirante Álvaro Alberto a Osvaldo Aranha, durante o governo de Getúlio Vargas, em 1952, "que nos encontramos em face de um dilema decisivo e irrecorrível: ou nos preparamos para tomar posse de nossas riquezas naturais, no caso específico atômicas, ou nos veremos constrangidos ao espetáculo degradante de assistirmos, impotentes, à evasão delas por bem ou por mal". E, pela primeira vez, expunha a tese de "compensação específica", ou seja, a troca de minério por equipamentos e tecnologia nuclear.

As ultracentrifugadoras - Como presidente do então recém-criado Conselho Nacional de Pesquisas, o almirante foi à Europa, em 1952, tentar obter essa tecnologia. E ofereceu aos alemães, há 23 anos, os mesmos planos básicos assinados na sexta-feira passada em Bonn. Como na época a Alemanha, derrotada, estava sob rigorosa custódia militar americana, foi realizada uma negociação secreta. Através do Banco Germânico para a América do Sul, os alemães receberam 80.000 dólares para a fabricação de três ultracentrifugadoras, aparelhos que eles consideravam capazes de produzir urânio enriquecido. As negociações secretas sobreviveram apenas doze horas ao instante em que começaram as gestões oficiais para trazer esse equipamento.

Descoberto, o material foi apreendido, na Alemanha, pelo Military Board of Security, dos Estados Unidos, por ordem do alto comissário americano, professor James Conant, que dizia seguir orientação da Comissão de Energia Atômica de seu país. Inconformado, o almirante fez a mesma proposta a Washington - troca de minério por equipamentos e tecnologia -, o que foi negado. As ultracentrifugadoras só foram liberadas em 1956 e levadas para o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, em São Paulo, onde apodreceram em completo abandono. O almirante Álvaro Alberto demitira-se em 1955, descontente com os rumos da política nuclear do Brasil. E ali foram esquecidos os complicados aparelhos, arquivados com o título de "cremalheiras", usado para camuflar a sua importação.

Quintal ocupado - A nostalgia por tempos de tão generosa influência sem dúvida contribuiu para exacerbar a onda de protestos, nos Estados Unidos, contra o acordo teuto-brasileiro. Usava-se o suspeito argumento de que se iniciaria uma corrida armamentista no continente, e as discussões chegaram ao paroxismo no Senado americano, no princípio do mês, quando alguns senadores acusaram o Brasil de estar construindo uma bomba atômica "em nosso próprio quintal". De fato, com os resíduos de uma usina nuclear, principalmente o plutônio obtido através da queima de urânio, é possível se chegar à construção de uma bomba. Mas o sistema alemão não chega a ser o mais adequado para a fabricação de bombas, em virtude do baixo teor de enriquecimento do urânio a ser produzido. Portanto, as verdadeiras razões, de cunho essencialmente comercial para essas pressões, acabaram surgindo com mais clareza ao longo da semana passada, especialmente na entrevista coletiva à imprensa do primeiro-ministro HeImut Schmidt, ao denunciar as grandes companhias americanas como responsáveis pela controvérsia, pois também pretendiam fornecer equipamentos ao Brasil.

"Não estamos dispostos que nos tirem também o mercado nuclear", afirmou o jornal alemão Die Zeit, ao lembrar que as indústrias dos Estados Unidos haviam monopolizado os mercados da aviação civil e militar, e da produção de computadores eletrônicos. Anteriormente, o deputado Karl-Heiz Hausen já havia interpelado as autoridades de seu país, ao perguntar, no plenário do Parlamento alemão, "o que pretende o governo fazer para responder à campanha de guerra comercial feita pelas companhias americanas e seus lobistas contra os planos de cooperação com o Brasil?"

0 governo de Bonn fora exaustivo nas explicações do acordo a Washington, mas ficara evidente que os temores não se restringiam às elogiáveis preocupações pacifistas. Antes de tudo, o monopólio do fornecimento de equipamentos nucleares pelos Estados Unidos mostrara os sintomas mais graves de enfraquecimento - o maior deles, a perda de um gigantesco contrato de 10 bilhões de dólares com o Brasil.

Lições esquecidas - Talvez porque as advertências do passado não foram bem assimiladas. Enquanto o Brasil encampava as idéias pioneiras do almirante Álvaro Alberto, os americanos esqueceram as lições de alguns contemporâneos desse pioneiro. Após a II Guerra Mundial, uma comissão nomeada pelo presidente Harry Truman já advertira "que, por maior que seja o zelo na guarda dos segredos atômicos, o monopólio americano está fadado a desaparecer cedo ou tarde". Em seu livro "On the Atom", Gordon Dean, que foi o segundo presidente da Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos, também lançou algumas profecias esquecidas. Ao comentar há mais de 25 anos a rigidez de seu país em não fornecer tecnologia, nem mesmo aos países que ofereciam seus minérios, disse: "Esses países vão unir-se entre eles, e países como o Brasil e a Índia se irão juntar aos demais e encontrar uma solução fora do apoio americano".

Essas soluções, além do acordo de Bonn, podem ser detectadas na Europa, onde grandes consórcios governamentais e internacionais procuram libertar seus países das derradeiras amarras ao monopólio americano - o fornecimento de urânio enriquecido, construindo sua próprias usinas.

Assim, justifica-se a pressa com que o presidente Gerald Ford pretende conseguir do Congresso a autorização para que as empresas particulares americanas possam também fabricar urânio enriquecido, pois no mercado externo começa a surgir a ameaça de uma acirrada concorrência.

E até mesmo o que senadores mais exaltados, como o democrata John Pastore, consideram seu "quintal" poderá ser ocupado a médio prazo pela tecnologia brasileira, absorvida e desenvolvida no acordo com a Alemanha. Segundo Nogueira Batista, o Brasil deverá exportar equipamentos e tecnologia para outros países da América Latina que desejarem intensificar programas de energia nuclear.

Dessa forma, a discussão sobre o perigo armamentista parece ter se tornado inócua, mesmo porque o aproveitamento da energia nuclear e da tecnologia da bomba é um processo irreversível. Ao divulgar publicamente as salva-guardas que cercam o acordo de Bonn, o governo alemão não esqueceu de lembrar a Washington que "o Brasil tem condições de desenvolver sua própria indústria nuclear - embora com consideráveis atrasos - sem a cooperação do exterior e nesse caso não haveria qualquer tipo de controle".

Um dia antes da assinatura do acordo pacífico na Alemanha, os Estados Unidos detonaram, no deserto de Nevada, uma nova bomba de muitos megatons, mais de cinqüenta vezes superior às lançadas sobre Hiroxima e Nagasáqui, num teste reconhecidamente de interesse militar.

É como o físico nuclear e filósofo alemão, Carl-Friedrich von Weizsacker disse a VEJA, na semana passada: "Existem estimativas fidedignas de que apenas na Europa Ocidental estão depositadas mais de 10.000 bombas ou ogivas atômicas capazes de destruir o mundo várias vezes". Portanto, o Tratado de Não-Proliferação, que o Brasil se recusou a assinar, não parece ser exatamente um monumento internacional à ética pacifista.

Contraproducente - Os métodos para sustentar com o argumento da bomba esta hegemonia tornaram-se cada vez mais desesperados, a partir do desenvolvimento da tecnologia nuclear em outros países e da expansão do mercado consumidor. Quanto ao Brasil, as pressões foram suficientemente desagradáveis para figurar como um dos fortes motivos da demissão, na quarta-feira da semana passada, da secretária-assistente para Assuntos Científicos do Departamento de Estado americano, Dixy Lee Ray, ex-presidente da Comissão de Energia Nuclear. Ray criticara causticamente a política adotada pelo secretário Henry Kissinger, mencionando como exemplo de tática contraproducente o trabalho de bastidor para evitar a assinatura do acordo entre brasileiros e alemães.

Mais do que contraproducente, a tática fracassou redondamente, embora tenha contribuído para isso o extremo sigílo mantido pelos governos do Brasil e da Alemanha durante as negociações. Desta forma, o ministro das Minas e Energia, Shigeaki Ueki, pôde acertar com calma ao longo da semana passada, em Frankfurt e em Bonn, os últimos detalhes referentes ao financiamento e à formação das empresas binacionais previstas no projeto. Nos próximos três meses serão assinados entre 35 e quarenta contratos industriais, e estabelecidos os documentos do financiamento, a cargo de um dos maiores consórcios bancários alemães.

Arena desprevenida - O sigilo provocou por outro lado alguns incômodos na Arena, quando na sexta-feira seus parlamentares se viram encarregados de divulgar em seus Estados as excelsas qualidades do acordo - um produto sobre o qual não tinham até então nenhuma informação.

Em São Paulo, por exemplo, o arenista Paulo Kobayashi falou para somente onze parlamentares - dez do MDB. Seu discurso consistiu em apenas algumas palavras iniciais alinhavadas para apresentar uma série de trechos recortados dos documentos enviados por Portella. "Não sei por que me escolheram", disse ele, "recebi o relatório do assessor do pessoal lá de cima." No Paraná, não houve discursos porque o líder da Arena, Ivo Thomazoni, se encontrava em Minas Gerais, prestando exames numa faculdade de direito.

Em Brasília, coube a Paulino Cícero, na Câmara dos Deputados, anunciar oficialmente em nome do governo a assinatura do acordo nuclear, para uma platéia de apenas 25 dos 364 parlamentares da casa. No Senado, Virgílio Távora, do Ceará, falou para 35 senadores, interrompendo seguidamente seu discurso para declarar-se "emocionado" e receber apoio do oposicionista Roberto Saturnino Braga. Quase ao final, explicou a necessidade do sigilo: "Para evitar ao máximo", disse, "exploração e pressões por parte de outras nações e organizações que teriam seus interesses prejudicados". Mesmo se o sigilo mantido durante as negociações acabou por prejudicar assim as festas da assinatura do acordo, não há dúvida de que a tática deu resultados concretos. Graças a ela, o chanceler Azeredo da Silveira pôde sentar-se à mesa das solenidades, em Bonn, e assinar o convênio embalado pelo respeitoso e oportuno cumprimento recebido no dia anterior, durante um banquete, de seu colega Hans-Dietrich Genscher: "O peso do Brasil na política internacional aumenta a cada dia", disse ele. "Num mundo cheio de inquietações e contradições, a conduta de seu país, senhor ministro, aparece como um fator de estabilização e equilíbrio". Começara antecipadamente, pelo menos na Alemanha, o momento das comemorações. E isso é uma especialidade da diplomacia de punhos de renda.

 

Um acordo para oito centrais atômicas

Os acordos assinados na sexta-feira da semana passada, em Bonn, entre o Brasil e a Alemanha, são considerados um complemento lógico de outros dois, de cooperação e de pesquisa científica, feitos pelo governo brasileiro com a Comunidade Européia de Energia Atômica, em 9 de junho de 1961, e com o governo alemão, em 9 de junho de 1969.

De manhã, os chanceleres Azeredo da Silveira e Hans-Dietrich Genscher assinaram o chamado "acordo quadro", contendo cinco itens básicos que possibilitarão ao Brasil, dentro de quinze anos, obter o ciclo nuclear completo, com a instalação de oito centrais atômicas e de usinas de enriquecimento de urânio, de processamento e de reprocessamento de combustível nuclear. A cooperação entre os dois países prevê o necessário intercâmbio de informações tecnológicas, para que o Brasil possa não apenas receber reatores alemães como também construir aqui uma fábrica de reatores e de seus componentes.

Por fim, o único item que praticamente interessa à Alemanha, depois dos vultosos financiamentos, envolvendo cifras num total de 10 bilhões de dólares, refere-se à prospecção, pesquisa, exploração e comercialização de urânio natural, pois o Brasil deverá assegurar a seu parceiro uma cota mínima deste minério para abastecer as usinas nucleares alemãs.

Acordo de ligação - O acordo permite ao Brasil exportar tecnologia e equipamentos para outros países da América Latina, desde que com autorização dos alemães e não envolvendo setores "sensitivos", ligados ao urânio enriquecido e ao processamento de combustível. O governo brasileiro deverá garantir a segurança das instalações nucleares contra qualquer tipo de perigo, desde acidentes a roubo e sabotagem.

0 acordo assinado à tarde, pelos ministros das Minas e Energia do Brasil, Shigeaki Ueki, e da Pesquisa e da Tecnologia da Alemanha, Hans Matthojer, é chamado de "ligação". Estabelece a criação de empresas mistas, com 51% de capital brasileiro, para atuarem justamente no campo da prospecção, pesquisa, exploração e comercialização de urânío. Trata ainda da construção das oito usinas nucleares, com uma participação gradativa e crescente da indústria nacional, até atingir o índice de 90%. Além disso, disciplina questões, como financiamento, criação de companhias de engenharia nuclear e de componentes pesados.

PROJETOS INDUSTRIAIS - No setor industrial deverão ser realizados essencialmente os seguintes projetos:

- Criação de uma empresa mista de prospecção, exploração e extração de urânio no Brasil, entre a Nuclebrás (51% do capital) e a Urangesellschaft (49%).

- Participação da Nuclebrás no programa de aperfeiçoamento do sistema alemão de enriquecimento de urânio por jato centrífugo e montagem de uma instalação de enriquecimento através deste processo no Brasil, com a participação das companhias alemãs Steag e Interatom.

- Auxílio técnico alemão para a montagem, primeiramente, de uma instalação-piloto e mais tarde de uma fábrica para produção de elementos combustíveis para os reatores brasileiros, pela KWU e RBU (Nuclebrás, 70%, e KWU, 30%).

- Construção de uma instalação-piloto para o reprocessamento de combustíveis irradiados pelas empresas alemã KEWA e UHDE com Nuclebrás como parceiro técnico.

- Construção de, primeiramente, quatro usinas termonucleares de água leve pressurizada, de 1.300 megawatts cada, de acordo com o conceito aperfeiçoado da usina nuclear alemã de Biblis; para a rede brasileira de energia elétrica, até 1986, com preferência para a construção de mais quatro usinas nucleares de igual capacidade até 1990, com o aumento gradativo e considerável da participação da indústria e da engenharia brasileiras.

- Criação de uma empresa de engenharia (Nuclebrás, 75% e KWU, 25%) em condições de dirigir sozinha até 1985 partes essenciais do programa nuclear brasileiro.

- A criação de uma fábrica de componentes de grandes dimensões para usinas nucleares, pela Nuclebrás, dentro de um consórcio com as companhias alemãs GHH e KWU, e com a empresa austríaca Vöst.

- Fomento da transferência de know-how de empresas européias da indústria de componentes de reatores para empresas brasileiras, a criação de empresas mistas ou a instituição de joint ventures neste setor, sob a coordenação comum da KWU e da Nuclebrás. No que poderia ser considerado uma pequena vitória das pressões americanas sobre o acordo, o Brasil se comprometeu a assinar, posteriormente, um outro com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que deverá atuar na fiscalização dos projetos, observando os itens que permitem a utilização de equipamentos, tecnologia e combustível para fins estritamente pacíficos. O governo brasileiro se recusou várias vezes a assinar o Acordo de Não-Proliferação de Armas Nucleares, patrocinado pela AIEA, através dos Estados Unidos e da União Soviética.

 
 
copyright © Editora Abril S.A. - todos os direitos reservados