Infográficos
A usina nuclear
A bomba atômica

Em dia

Guerra nuclear
Chernobyl, 1986
Usina de Angra
Bomba no Brasil

Em resumo
Perguntas & Respostas
Números e frases
Glossário
 



2 de fevereiro de 1977
Uma semana de aflições

Sorridente, sentado ao lado de sua lareira, o presidente Jimmy Carter foi ouvido por um batalhão de fotógrafos, repórteres e cinegrafistas que o cercavam na tarde da última quarta-feira no Salão Oval da Casa Branca. "Fritz está fazendo tanto sucesso na Europa que não vai querer voltar para Washington", comentou o presidente. "As notícias que ele tem mandado de lá são excelentes." O Fritz a quem Carter se referia era o vice-presidente dos Estados Unidos, Walter Mondale. E a forma entusiástica usada pelo novo presidente americano só viria a aumentar a preocupação existente a diversas quadras dali, num palácio de concreto e vidro da avenida Massachusetts - mais exatamente, na embaixada brasileira em Washington. Afinal, a missão do vice-presidente americano, cujo sucesso era festejado na Casa Branca, incluia a abordagem de uma delicada questão para o Brasil: o acordo nuclear firmado com a Alemanha em 1975.

A apreensão por parte dos diplomatas brasileiros nascera, na verdade, dois dias antes, na segunda-feira, ao ser anunciada a viagem do vice-presidente Walter Mondale à Europa. Em meio à caótica movimentação dos primeiros dias do novo governo, começaram a chegar a Washington alguns indícios da inquietação provocada pelos objetivos da passagem de Mondale pela Alemanha. Ao tratar de tema que dizia respeito diretamente aos negócios brasileiros, os Estados Unidos estariam automaticamente tornando sem efeito o "memorando de entendimento" assinado em fevereiro do ano passado entre o chanceler Antônio Francisco Azeredo da Silveira e o secretário de Estado Henry Kissinger.

Pelo documento, os dois governos se comprometiam a realizar consultas recíprocas antes de assumir qualquer atitude diplomática que afetasse os dois países, consultas que, no caso da missão Mondale, não teriam sido feitas. Além disso, simultaneamente à chegada de Mondale a Bonn, as agências de notícias distribuíam uma entrevista feita com Jiminy Carter em que o presidente americano insistia num tema que aos ouvidos brasileiros soava como uma evidente restrição ao acordo nuclear assinado com a Alemanha. "Devemos limitar, usando todos os meios diplomáticos ao nosso alcance", reiterou Carter, "a expansão da capacidade para a aquisição de armas nucleares por parte de países que não têm atualmente esta capacidade."

Sem controle - O temor de que de fato algum tipo de ameaça pairava sobre o acordo nuclear brasileiro- alemão se materializaria em Brasília, no mesmo dia, através da manchete do jornal O Estado de S. Paulo. Em entrevista àquele jornal, o novo subsecretário de Estado para Assuntos Nucleares dos Estados Unidos, Joseph Nye, fazia uma inequívoca proposta às autoridades brasileiras. Em troca da desistência, por parte do Brasil, de dois itens do acordo com a Alemanha (exatamente os que se referiam à instalação das usinas de reprocessamento e enriquecimento de urânio, capazes de gerar o plutônio com o qual se fazem as armas), os Estados Unidos forneceriam combustível nuclear para os reatores brasileiros.

Ao chegar à sua sala no Palácio dos Arcos, sede do Itamaraty, em Brasília, o ministro Guy Marie de Castro Brandão, assessor de Imprensa e porta-voz oficial do Ministério das Relações Exteriores, foi recebido pelos jornalistas de plantão com uma ácida pergunta. O Itamaraty teria perdido o controle dos acontecimentos, devido à marginalização a que fora relegado pelos Estados Unidos e pela Alemanha? Brandão rebateu a insinuação com agilidade e franqueza. "Se isso fosse verdade" respondeu, "vocês acham que nós admitiríamos?" Aos jornalistas mais ansiosos de declarações oficiais, ele perguntava ironicamente: "Você quer uma declaração sobre qual versão?"

No dia seguinte, o mutismo, oficial parecia confirmar as suspeitas de que as conversações em Bonn ocorriam à revelia das autoridades brasileiras. O noticiário dos jornais - e não mais as especulações de observadores - confirmava que de fato um dos temas tratados por Mondale e pelo chanceler alemão Helmut Schmidt se referia exatamente à determinação do presidente Carter de impedir que o acordo nuclear com o Brasil fosse cumprido conforme tinha sido estabelecido. Em Brasília, Guy Brandão ditava repetidamente uma monocórdica, declaração do Ministério das Relações Exteriores aos repórteres: "O Itamaraty não tem conhecimento oficial das declarações a que se refere o noticiário". A quem pedisse mais esclarecimentos, ele oferecia outra resposta pronta: "Nada a declarar". Nem mesmo a visita do embaixador alemão Horst Roding ao chanceler Azeredo da Silveira renderia informações aos jornalistas: não se falou do acordo atômico.

Estudo de relatórios – O porta-voz do Itamaraty estava, na verdade, obedecendo a uma norma clássica nessas ocasiões, traçada pelo próprio chanceler Azeredo da Silveira e rigorosamente seguida por todos os escalões: ninguém no Itamaraty tinha autorização para declarar o que quer que fosse sobre as pressões feitas pelos Estados Unidos no sentido de uma revisão do acordo nuclear. Apoiada pelo próprio presidente Ernesto Geisel e transmitida a outros setores do governo, a decisão tinha o objetivo de evitar polêmicas públicas que poderia, nos cálculos do governo, levar a um enfraquecimento da posição brasileira quanto ao assunto. Que posição era essa, o Itamaraty não revelou.

Brandão apenas deixou escapar, na tarde de quarta-feira, que as únicas informações de que o Brasil dispunha sobre o que se passava no prédio da chancelaria alemã chegavam a Brasília através de relatórios reservados, enviados pelas embaixadas brasileiras em Bonn e em Washington. Esses informes foram discutidos durante duas horas, das 6 as 8 da noite de quarta-feira, em reunião convocada por Azeredo da Silveira, e da qual participaram o secretário- geral do Itamaraty, embaixador Ramiro Saraiva Guerreiro, o chefe do departamento econômico, embaixador Geraldo Egídio da Costa Holanda Cavalcanti, e outros diplomatas de menor graduação hierárquica.

A julgar pelo clima que cercava pelo menos a embaixada brasileira em Washington, os relatórios remetidos a Brasília não deveriam ser muito animadores. O decidido silêncio de funcionários tanto do Departamento de Estado como da Casa Branca sobre qualquer tema ligado ao Brasil, relata Roberto Garcia, correspondente de VEJA em Washington, deixou a comunidade brasileira na capital americana diante de uma suspeita: o novo secretário de Estado americano, Cyrus Vance, talvez estivesse deixando entrever deliberadamente sua intenção de cancelar o memorando de entendimento do Brasil com os Estados Unidos.

Entre muitos funcionários brasileiros, enregelados pelas glaciais temperaturas de Washington na semana passada, era aparente a irritação, principalmente a partir do momento em que se ficou sabendo do oferecimento do presidente do México, López Portillo, de agir como "ponte" entre Washington e o resto da América Latina. A remota possibilidade de obter informações sobre o acordo Brasil- Alemanha por meio da Cidade do México parecia uma dose excessivamente forte para os que acompanhavam, preocupados, a aparente deterioração nas relações do Brasil com os Estados Unidos.

Novas reuniões – As notícias referentes ao encontro de quatro horas mantido na tarde anterior entre Mondale e Schmidt, em Bonn, não seriam suficientes para estimular o otimismo dos brasileiros. Após a conversa dos dois, Klaus Bölling, porta-voz oficial da chancelaria alemã, limitou-se a interpretar para Carlos Struwe, correspodente de VEJA em Bonn, as palavras de Schimidt através de ma frase lacônica e pouco elucidativa: "O tratado de não- proliferação deverá tornar-se mais eficaz e mais preciso". No mais, as autoridades alemãs ativeram-se a sublinhar, oficialmente, que seu país não pretende denunciar unilateralmente o acordo.

De qualquer forma, corria em Bonn na semana passada a idéia de que a Alemanha procurará encontrar, com o Brasil, uma fórmula que possa satisfazer os americanos – preocupados com a atual existência de reatores nucleares em 21 países; e com a perspectiva de que em 1990 só os reatores dos países subdesenvolvidos produzirão plutônio suficiente para a fabricação de 3.000 bombas atômicas por ano. Como o Brasil não admitirá que os equipamentos sensitivos - as usinas de reprocessamento e enriquecimento do urânio - sejam desvinculados do resto do acordo nuclear, é de se supor que os alemães tentarão convencer o Itarnaraty da necessidade de modificar a forma de sua concretização. Também pela primeira vez Helmut Schmidt admitiu pessoalmente que, já antes da visita de Mondale, o acordo feito com o Brasil vinha sendo discutido confidencialmente por altos funcionários alemães e americanos.

Além de uma difusa proposta de reunião nos próximos dias entre os Estados Unidos, Alemanha e - eventualmente - o Brasil, para se rediscutirem os termos do acordo, do encontro Mondale-Schmidt teria nascido uma sugestão alternativa que contornaria os problemas da soberania brasileira. O acordo, informou-se em Bonn, seria cumprido da forma como foi estabelecido, mas os dois parceiros teriam que aceitar mais um sócio - os Estados Unidos -, cuja contribuição se faria através do fornecimento de combustível para os reatores de Angra dos Reis. Uma versão divulgada pelo jornal New York Times avança ainda mais: os Estados Unidos proporiam a criação de um centro nuclear regional, do qual participariam outros países latino-americanos, sob controle internacional.

Armas de pressão - Mas como chegar a isso, se a Alemanha tem um acordo assinado e insiste em cumpri-lo? Basicamente, os Estados Unidos - responsáveis atualmente por 50% de toda a atividade nuclear existente no mundo, somados todos os seus aspectos - dispõem de duas coleções de instrumentos para impor sua vontade aos alemães. Em primeiro lugar, os instrumentos relativos ao próprio campo da energia nuclear. Para abastecer suas doze usinas nucleares, a Alemanha depende de fornecimento de urânio, já que o país não dispõe de reservas próprias e o mercado ocidental de minério de urânio é controlado praticamente pelos Estados Unidos.

Além disso, as operações de enriquecimento do urânio usado pelos alemães - indispensáveis à movimentação dos reatores - são feitas sobretudo pelos americanos.

A segunda arma de pressão diz respeito à política de segurança. Sugestões, por parte de Washington, de que se poderia pensar na evacuação de parte das tropas de proteção americanas acantonadas na Alemanha Federal – 200.000 homens - poderiam ser suficientes para convencer o governo de Bonn a defender a proposta dos EUA. A vizinhança com a Europa Oriental torna as tropa americanas de vital importância para os anseios de segurança da Alemanha, um país impedido por acordos do pós-guerra de ter exército próprio.

A Alemanha, porém, tem outro lado para pensar - o Brasil. O economista Helmut Schmidt sabe perfeitamente que se ceder às pressões dos EUA e perder o negócio com o Brasil, avaliado em cerca de 4,5 bilhões de dólares (aproximadamente 60 bilhões de cruzeiros), a Alemanha "desapareceria do cenário nuclear internacional", para usar as palavras do diário alemão Die Welt. As repercussões para a indústria e a economia nacional seriam das mais graves afinal, o governo de Bonn compromete-se com quase 20 bilhões de marcos (cerca de 75 bilhões de cruzeiros) no desenvolvimento da tecnologia nuclear alemã. E os industriais alemães, naturalmente, reagiram horrorizados a um cancelamento puro e simples do acordo, sobretudo os que têm investido pesadamente na expansão da tecnologia nuclear. Fora o aspecto econômico, a Alemanha também não enfrentará corri facilidade a enorme perda de prestígio e credibilidade internacionais que certamente resultaria de uma denúncia unilateral do acordo com o Brasil.

Exigências severas - Na verdade, o impasse que pode vir a se concretizar para os governos da Alemanha e do Brasil tem antecedentes internacionais. Praticamente no mesmo momento em que a viagem de Walter Mondale passava a afligir os diplomatas brasileiros, as autoridades nucleares do Japão experimentavam pressões não só dos Estados Unidos mas também do Canadá – este responsável pelo fornecimento de 70% do urânio natural consumido pelos reatores do Japão. Os japoneses, segundo se informou na semana passada em Tóquio, correm o risco de não verem renovado o acordo de fornecimento de combustível por parte do Canadá.

A delegação canadense, que até o próximo sábado discutirá em Tóquio a renegociação do fornecimento de urânio, faz exigências que os japoneses consideram mais severas que as contidas no Tratado de Não-Prolíferação. O Canadá quer proibir o Japão de fazer qualquer tipo de explosão nuclear, ainda que para fins ditos pacíficos, tais como pesquisas ou projetos de engenharia. O argumento do Canadá é o mesmo de todos os adversários da proliferação nuclear: não há explosões "pacíficas" - um país que detona uma bomba para fazer uma represa pode perfeitamente jogar uma bomba igual num vizinho. Além disso, as preocupações canadenses são justificadas: afinal, foi utilizando tecnologia e combustível fornecidos por Ottawa que a Índia explodiu a sua bomba atômica, em 1974.

A importância que o presidente Carter vem atribuindo à questão de não- proliferação nuclear surpreendeu, por exemplo, o presidente francês, Giscard d'Estaing, mas talvez não seja suficiente para demover a França de seus propósitos de vender tecnologia nuclear ao Paquistão. No fim da semana passada, diplomatas franceses e paquistaneses confessavam a Pedro Cavalcanti, correspondente de VEJA em Paris, que não tomarão a iniciativa de rompimento de seu acordo, apesar de todas as pressões dos Estados Unidos. Para negar aos americanos o direito de controle sobre a usina que a França lhes venderá, os paquistaneses invocam um razoável argumento. "Os Estados Unidos foram o único país a atirar uma bomba atômica sobre um povo", comentou um diplomata em Paris, "e, portanto, não têm autoridade moral para tratar do assunto."

Começo do degelo - Não se trata de qualquer forma, de um problema moral - mas sim de um problema político concreto para os EUA, cujo interesse nacional não pode ver com bons olhos a multiplicação de países capacitados a produzir armas nucleares. Em todo caso, o interesse nacional brasileiro, da forma como o vê o atual governo, parece colidir com o americano - e, por isso, já na quarta-feira passada, as autoridades de Brasília mostravam desinteresse por propostas como a feita por Joseph Nye. Havia, mesmo, algumas inflamadas orações nacionalistas. Sem poder continuar o enriquecimento e o reprocessamento, dizia-se na capital, o Brasil permaneceria sempre sujeito a outros países. "A proposta feita por Nye nada representa", confidenciou um diplomata a Hélio Marcos Doyle, de VEJA, na semana passada. "Ela é apenas uma alternativa de dominação permanente".

Retórica e ideologia à parte, a decisão do governo brasileiro de não alterar a essência do acordo com a Alemanha parecia determinada na quarta-feira. Apesar do silêncio que lhe tinha sido imposto, uma autoridade do governo revelou que de forma alguma o Brasil aceitará "alterações fundamentais no acordo e muito menos concordará em assinar o Tratado de Não-Proliferação". É verdade que a manutenção dessas posições virá a depender basicamente da capacidade de resistência do governo alemão às pressões dos Estados Unidos. É verdade também que, para além da área sempre aquecida do debate público, há sempre lugar para quietas negociações. Seja como for, quando se esboçava o perfil de uma crise diplomática entre Brasília e Washington, iniciou-se o degelo.

Às 4 horas da tarde de quinta-feira surgia na rampa do Itamaraty, levando um volumoso envelope branco sob o braço, o embaixador dos Estados Unidos, John Crimmins. Aos repórteres que o cercaram, respondeu, sem maiores preocupações com a criatividade que fazia apenas "uma visita de cortesia" ao chanceler brasileiro. Depois de passar 25 minutos trancado com Azeredo Silveira, Crimmins retirou-se sem dar maiores explicações. Às 7h20 da noite, enfim, uma declaração de dezoito linhas foi entregue aos jornalistas, revelando o motivo da visita.

Abertura de portas - Crimmins tinha levado a Silveira uma carta do secretário de Estado dos EUA, Cyrus Vance, que, amistosamente, reafirmava o interesse de seu país em continuar o processo de consultas iniciado por Kissinger e manifestava o desejo de vir a se encontrar com o ministro Azeredo da Silveira. Quanto a questões mais substantivas, como o acordo nuclear, o embaixador americano, segundo a nota, "manifestou o desejo do secretário Cyrus Vance de que essas consultas permitam aos dois governos melhor conhecimento e compreensão das respectivas posições". Também em Washington era possível perceber o decréscimo da temperatura, com a abertura de portas até então trancafiadas.

De diversas áreas do governo americano, de fato, vieram reafirmações de que havia "clara consciência da importância do Brasil no hemisfério" e desejo de manter consultas em todos os níveis a respeito de interesses comuns. Contatos telefônicos haviam efetivamente sido feitos com Brasília, mantendo-se assim o espírito das "consultas prévias", assegurava-se no Departamento de Estado. O presidente Jimmy Carter, confidenciavam funcionários americanos, tinha grande preocupação com a proliferação nuclear, mas reconhecia igualmente as necessidades de desenvolvimento do Brasil. Disso tudo sairiam discussões que poderiam ser lentas e difíceis, mas que terminariam numa conciliação, garantiam esses funcionários.

O ponto mais visível nessa retomada de contatos foi o convite do secretário de Estado Cyrus Vance ao embaixador brasileiro em Washington, João Batista Pinheiro, para um encontro na quinta -feira - mantido na mais extrema cortesia, à parte o privilégio, lembrado pelos diplomatas brasileiros, de que Pinheiro foi "o primeiro latino-americano a ser recebido por Vance". Embora permanecesse no gabinete do secretário de Estado por meia hora, um telefonema de Jimmy Carter a Vance tomou 10 minutos da conversa dos dois. Segundo informações de porta-vozes do Departamento de Estado, Vance fez ver a Pinheiro que a viagem de Mondale se destinou a levantamento de fatos. "Se os Estados Unidos desejam ver quais são suas alternativas na questão do acordo nuclear", disse Vance ao embaixador brasileiro, "precisam começar de algum lado, e por pura oportunidade começaram com os alemães".

"Fantasiosa e irreal" - Isso não significaria, insistiu o secretário de Estado, no seu diálogo com Pinheiro, que os Estados Unidos estariam "tentando sabotar o acordo pelas costas do Brasil". Vance teria deixado claro, no entanto, que o presidente Carter se preocupa com o precedente que possa ser aberto com o acordo Brasil-Alemanha. Embora reconheça que o Brasil não quer fabricar bombas, o presidente americano não exclui a possibilidade de que "outras nações, menos responsáveis", tomem caminhos perigosos na manipulação da sua energia nuclear – afinal, um reator médio, ao produzir energia para necessidades civis, gera plutônio suficiente para se fabricar uma bomba a cada quinze dias.

O clima de concórdia acabaria por envolver diplomatas não exatamente ligados aos problemas vividos pelo Brasil no decorrer da semana. Ouvido por VEJA na sexta-feira, o embaixador da Argentina no Brasil, Oscar Camillion, lembrou que, caso o Brasil ceda às pressões para assinar o Tratado de Não- Proliferação, "a posição da Argentina poderá ficar difícil", pois os argentinos também não são signatários do TNP. "Se o programa nuclear brasileiro for mantido", disse ele, a Argentina ficará tranqüila para prosseguir com suas atividades nucleares". Segundo Camillion, os que querem pressionar o Brasil e a Argentina a assinarem o TNP, ou apenas prejudicar o programa brasileiro, recorrem sempre a uma "fantasiosa e irreal rivalidade" entre os dois países.

O embaixador argentino vai mais longe. Ao contrário de se preocupar com o acordo nuclear Brasil- Alemanha, Buenos Aires considera, inclusive, a possibilidade de apoio tecnológico mútuo nesse campo, entre países latino-americanos. Camillion lembrou um artigo escrito pelo chanceler argentino, o contra-almirante César Augusto Guzzetti, em que este denomina de "sábia política" a de estabelecer uma usina regional de enriquecimento de urânio na América Latina, controlada multinacionalmente por vários países.

Alguns benefícios - Apesar da visível e tranqüilizada distensão que tomava conta dos corredores do Itamaraty no final da semana, a linguagem com que os diplomatas trataram do problema do acordo nuclear não se alterou. Na noite de sexta-feira, um assessor do chanceler Azeredo da Silveira insistia em que "o importante é não dar a idéia de que estamos cedendo". Por exemplo, ele não desmentiu a manchete do jornal O Globo daquele dia, em que se afirmava que o Brasil não participaria, mesmo que fosse convidado, da reunião com a Alemanha e com os Estados Unidos, prevista para os próximos dias, para rediscutir o acordo nuclear. O diplomata ressalva que o Brasil não tentou fazer negociações nesse sentido com os Estados Unidos e muito menos com a Alemanha. "O que diríamos aos alemães? Que o tratado está em vigor? Mas ele está em vigor e acabou-se".

Se de fato esteve - ou ainda estará - em risco o projeto nuclear brasileiro, pelo menos alguns benefícios o governo terá auferido, além dos diplomáticos. Na área da política interna, poucas vozes se levantaram para analisar com mais profundidade o problema. E o resultado é que o governo talvez nunca tenha obtido tão amplas manifestações de apoio - ideológicas por parte do MDB, automáticas por parte da Arena. Um dos principais expoentes da oposição em Pernambuco, o senador Marcos Freire, foi dos primeiros a defender a posição do governo em favor da manutenção do acordo. E, como Freire, o deputado Thales Ramalho, secretário- geral do MDB, também aproveitou essa segunda oportunidade de se manifestar a favor do Executivo.

"O rompimento do acordo", disse ele no Recife a Eduardo Ferreria, de VEJA "seria a meu ver a confirmação da união dos Estados Unidos e Rússia para dominar o mundo". Já o senador pernambucano acredita que o cancelamento do acordo "seria negativo para a imagem dos Estados Unidos". Segundo seu raciocínio, isso evidenciaria "a descabida interferência americana na soberania de Estados independentes e demonstraria, igualmente, que nem países desenvolvidos, como a Alemanha, escapariam ao raio de ação dos Estados Unidos".

Oitavo dia - Evidentemente não poderia ser outra a atitude dos políticos do partido do governo. O presidente da Arena, deputado Francelino Pereira, declarou que "tão firme e tão intransigente tem sido o presidente Geisel, na sustentação do interesse e da soberania do país", que o povo brasileiro apóia a orientação do governo para enfrentar "as pressões que procuram impedir a concretização do histórico convênio". O ex- ministro e senador Jarbas Passarinho considerou "inaceitável o sentimento colonialista do presidente Jimmy Carter". Passarinho lamentou que o governo

não se manifestasse oficialmente sobre o assunto, e sentenciou: "É cada vez mais difícil ser amigo dos Estados Unidos".

Em nenhum dos dois partidos, entretanto, tais manifestações encontraram unânime receptividade. Tanto na Arena como no MDB, surgiram isoladas vozes discordantes do coro geral. O deputado arenista Faria Lima, de São Paulo, por exemplo, acredita que o acordo nuclear deveria ser renegociado, e condena o que considera ser inflexibilidade do governo na questão. "De que nos adianta ficar em antagonismos com os americanos", alertou, "quando se sabe que os caminhos de Brasília e de Bonn passam obrigatoriamente por Washington?" Como ele, e por outras razões, o emedebista Fernando Cunha, de Goiás, é contra a manutenção da posição brasileira. A utilização da energia nuclear para fins pacíficos é tão danosa quanto para a fabricação de armas", disse em Goiânia na quarta-feira passada. Segundo Cunha, existe um grupo dentro do MDB que coloca em dúvida a validade do acordo - e, confiante nisso, vai propor uma reunião do diretório nacional do partido, "para que seja fixada uma posição oficial". Passado o período mais delicado da tempestade que se abateu sobre o Itamaraty na semana passada, circulavam no Departamento de Estado, em Washington, versões segundo as quais tudo teria ocorrido por uma natural descoordenação dos novos inquilinos da Casa Branca. "Tudo isso fica mais fácil de ser entendido", disse um funcionário a VEJA, "quando se considera que hoje é apenas o oitavo dia de governo da equipe de Carter." Segundo ele, o governo brasileiro, em vez de ficar "seriamente irritado" com os episódios dos últimos dias, poderia atentar para as dificuldades do novo pessoal da Casa Branca, "que ainda nem aprendeu a acionar os botões certos da imensa burocracia americana".

 

Para entender um sério debate nuclear

A discussão sobre as vantagens e perigos do acordo de cooperação nuclear firmado entre o Brasil e a Alemanha se apresenta, sempre, recheada de termos e expressões científicas e políticas cujo conhecimento invariavelmente escapa ao leitor comum. Abaixo, um pequeno vocabulário, devidamente traduzido para o linguajar cotidiano.

TRATADO SOBRE A NÃO-PROLIFERAÇÃO DE ARMAS NUCLEARES - Aprovado pela Assembléia Geral da ONU em 1968, entrou em vigor dois anos depois. Estabelece que os países signatários, possuidores de armas nucleares, se comprometem a não transferir a ninguém "armas ou dispositivos nucleares explosivos, direta ou indiretamente", nem alentar, ajudar ou induzir, de forma alguma, a nenhum país e fabricar ou adquirir tais armas ou dispositivos. Os países não possuidores de tecnologia nuclear se comprometem a não aceitar ajuda de outros para a fabricação de armas ou dispositivos nucleares explosivos. Além do Brasil, não aceitaram nem ratificaram o tratado os seguintes países: África do Sul, Albânia, Angola, Arábia Saudita, Argélia, Argentina, Bahrein, Bangladesh, Bielorússia, Birmânia, Butão, Cabo Verde, Camboja, Catar, Chile, China (Formosa), Cuba, Espanha, França, Guiana, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, India, Indonésia, Israel, Malawi, Mauritânia, Moçambique, Nigéria, Nova Guiné, Oman, Papua, Paquistão, Portugal, São Tomé e Príncipe, Seychelles, Sri Lanka, Tanzânia, Ucrânia, Uganda, União dos Emirados Árabes e Zâmbia.

TRATADO DE TLATELOLCO - Assinado em 1967, no México, pelos países latino-americanos que se comprometem a utilizar exclusivamente para fins pacíficos o material e as instalações nucleares submetidos ao seu controle. Ele proíbe o ensaio, o uso, a fabricação, a produção e a aquisição de armas nucleares. O Brasil assinou esse documento. PLUTÔNIO - Matéria em que é transformado, nas reacões em cadeia que ocorrem dentro dos reatores nucleares, o urânio 238 (mais rico que o 235). Metal quase inexistente na natureza, o plutônio é o gênio mau de todo o processo, pois com ele são fabricadas as bombas nucleares, cuja proliferação pelo mundo tantas preocupações coloca nas cabeças dos estadistas dos países desenvolvidos, que as fabricam e armazenam, aos montes.

AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA NUCLEAR - Órgão da ONU, criado em 1958 e com sede em Viena, tem como finalidades promover o uso pacífico da energia nuclear e vigiar o seu emprego. Para fiscalizar os 315 reatores atualmente em operação no mundo, tem 87 inspetores e um orçamento de 6,5 milhões de dólares anuais.

MINÉRIO DE URÂNIO - Forma bruta em que se encontra o urânio na natureza. Apresenta muitas impurezas e baixíssima concentração de urânio 235 - o urânio que pode ser usado como combustível. Para ser utilizado nos reatores que o Brasil pretende montar, o minério precisa ser submetido a um processo de enriquecimento.

EQUIPAMENTOS SENSITIVOS - Parte das instalações cuja aquisição está prevista no acordo assinado pelo Brasil com a Alemanha, destinada a promover o enriquecimento do urânio mineral, ou ainda o reaproveitamento (reprocessamento ou reciclagem) do combustível usado nos reatores.

CICLO DE COMBUSTÍVEL - Processo por que passa o urânio desde sua extração mineral, refinamento, enriquecimento, transformação em elementos combustíveis, utilização em reatores, irradiação dentro dos reatores, obtenção do plutônio.

REATORES REGENERADORES - Também conhecidos como breeders, apresentam a espantosa particularidade de produzir mais combustível do que o que gastam em seu funcionamento. Uma versão sofisticada do moto contínuo, sonhado e jamais construído pelos sábios da antigüidade.

LIXO ATÔMICO - Subproduto das reações que ocorrem com combustível nuclear. É o maior problema para as nações que já operam usinas nucleares, pois, sendo altamente radiativo, precisa ser depositado em locais seguros e indevassáveis - por exemplo, minas abandonadas. Há quem sonhe despejá-lo no espaço, com astronaves que jamais retornarão à Terra.

USINAS DE REPROCESSAMENTO - Equipamentos destinados a extrair Plutônio do combustível usado pelos reatores, ou lixo atômico. O plutônio assim obtido pode ser utilizado à vontade dos proprietários: ou para transformar-se em bombas, ou para voltar a ser utilizado como combustível destinado a pacíficas usinas produtoras de energia elétrica. A utilização, como combustível, do plutônio obtido pelas usinas de reprocessamento ajuda a economizar o minério de urânio, cujas reservas conhecidas não suprirão as necessidades energéticas mundiais muito além do ano 2000.

As formas que se erguem à beira-mar

Com a cigarrilha saltando das mãos para os lábios, fumada com o costumeiro sossego, e o mesmo sorriso com que comparece a cerimônias públicas para falar ou assinar acordos sobre o programa nuclear brasileiro, Paulo Nogueira Batista, o presidente da Nuclebrás, não conseguia esconder um certo ar de enfado na última segunda-feira. Afinal, em três semanas, ele assinara ou assinaria nada menos que cinco contratos para obras na usina de Angra dos Reis. O programa, repetiu ele, desenvolvia-se dentro dos prazos. E por isso se sentia à vontade para brincar com os repórteres: "Vocês ficarão enjoados, este ano, de tanto assistirem a assinatura desses contratos".

Naquela segunda-feira, que alguém lembrou lugubremente ser o "quarto dia do governo Carter", Nogueira Batista foi visto em público pela última vez. Na quarta-feira, depois de ficar até 10 horas da noite na sede da Nuclebrás, recebendo informações constantes da Alemanha, onde o vice-presidente americano Walter Mondale debatia com o governo alemão o acordo que este assinara com o governo brasileiro, em junho de 1975, ele decidiu evitar novos contatos com a imprensa.

Por isso, de portas fechadas, assinou na última sexta-feira os dois últimos contratos da série de cinco, um de 172 milhões de cruzeiros para fornecimento de estruturas metálicas à fábrica de reatores nucleares que será construída em Itaguaí (RJ), e outro de 76 milhões de cruzeiros para as obras de terraplenagem da mesma fábrica - que faz parte do complexo chamado Angra I. No total, os cinco contratos somam 632 milhões de cruzeiros - uma quantia que apenas arranha o custo total da obra, orçado atualmente em 470 milhões de dólares. E fica infinitamente abaixo do valor total do acordo Brasil- Alemanha, da ordem de 4,5 bilhões de dólares.

ATÉ 1990 - A Usina Álvaro Alberto, ou Usina Atômica de Angra dos Reis ou, mais simplesmente, Angra I, mesmo em franco progresso, já está porém com seu cronograma atrasado em pelo menos um ano. Criada em 1972, através de um acordo com a firma americana Westinghouse para produzir seus primeiros 626 megawatts em 1977, ela só deverá começar a operar comercialmente em 1978. Enquanto se termina Angra I, atacam-se outras frentes.

Hoje, todos os equipamentos para Angra II, agora vindos da Alemanha, estão armazenados na praia de Itaorna, em Angra dos Reis, onde 71 engenheiros e 52 técnicos diversos, todos treinados no exterior, já estão trabalhando junto com 6 000 operários que erguem o conjunto de meia dúzia de edifícios. Este conjunto é o primeiro de uma série de oito usinas - seis delas, a última das quais deverá entrar em operação em 1990, ainda não têm local definido para serem erguidas - que dependem virtualmente de equipamento alemão, embora exista uma escala progressiva de nacionalização. Assim, Angra II e Angra III terão 30% de tecnologia nacional, a quarta usina 47%, e assim sucessivamente, até que a oitava e última chegue à taxa de 70%.

Para futuro menos remoto, porém, só é possível fazer cálculos para Angra II, orçada, a custos de agosto de 1976, em 1,2 bilhão de dólares - isto é, mais que o dobro da primeira. Sua capacidade de produção em relação a Angra I será, porém, também dobrada, saltando de 626 para 1245 megawatts. Esta é também a capacidade prevista para a Angra III, no momento apenas um projeto que só estará concluído em 1978 e que tem sua operação, na melhor das hipóteses, prevista para o fatídico 1984, dois anos depois da entrada em funcionamento da Angra II.

Enquanto isso, novos contratos virão sendo assinados, talvez sem o ritmo enjoativo previsto por Nogueira Batista, mas de algum modo significativos. Na última vez em que falou com os repórteres, por exemplo, o presidente da Nuclebrás afirmou ser "possível" a assinatura de mais contratos com a Alemanha - um deles, considerado importante, para desenvolver pesquisas ligadas ao uso de areias monazíticas e sua aplicação nos reatores nucleares.

 
 
copyright © Editora Abril S.A. - todos os direitos reservados