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29 de maio de 1974
 
 

A galopante dietomania


Calorias não engordam, ginástica da Força Aérea Canadense, teste de Cooper, regime dos astronautas, internamentos em clínicas de endocrinologia - os gordos, crédula e vorazmente, experimentam de tudo para se livrar de seus quilos a mais. Mas nada disso adiantará, independente da eventual seriedade do método, enquanto o próprio paciente não se decidir realmente a emagrecer, respondem os dietistas, num raro exemplo de unanimidade na classe médica. Bonachões, os gordos concordam. Na verdade, há gordos e gordos a aceitarem e consumirem as fórmulas ensinadas pelos regimes. Existem os que necessitam de um tratamento, os obesos. Existem os que se encontram acima do peso - ligeira ou acentuadamente - e por isso se cuidam. E, finalmente, vem a classe dos que não têm problema de gordura, mas se incorporam aos fiéis das dietas por mera preocupação estética ou porque estão possuídos, apesar de magros, pelo medo de engordar.

Todas essas pessoas, principalmente as muito gordas, costumam também acreditar em variados tipos de receitas, mesmo as absurdas. Uns bebem vinagre, em vez de água, quando sentem sede. Outros recomendam Rolomag, Bel-Linha, Caloicicle, banho de parafina, macrobiótica, uma colher de azeite às refeições, sauna, ioga. O mundo das soluções mágicas de emagrecimento não tem fim. Já se fala até que acupuntura não falha. Nesse quadro, o brasileiro seguidor de regimes pode acrescentar, desde a semana passada, "A Dieta Revolucionária do Dr. Atkins", um best seller mundial da literatura dietista.

Uma tortura - Apesar de, numa roda, o assunto gordura ou regime gerar inevitavelmente provocativas piadas, perpetradas em geral por afortunados portadores de uma quantidade mais razoável de quilos, os médicos insistem na gravidade do tema, "A obesidade é um problema de saúde pública, que deveria ser resolvido pelas autoridades nacionais", enfatiza dr. Armando de Aguiar Pupo, um dos cinco médicos da Endoclínica, em São Paulo. Para ele, os gordos são pessoas que comem demais, em quantidade, e erradamente, em qualidade, além de se exercitarem pouco ou nada, "É preciso mudar o comportamento alimentar dos brasileiros das grandes cidades", concorda dr. Tancredi Greco, também paulista, que diz ainda: "De uns dez anos para cá, as populações do Rio e de São Paulo têm engordado muito, em todos os sentidos". E, em Brasília, a dietista atualmente mais procurada, dra. Berenice Carneiro, acrescenta mais um dado, quando nega que a obesidade seja hereditária. "Hereditários são os hábitos alimentares", garante.

Os gordos, como sempre uma gente afável, uma vez mais aceitam as conclusões da medicina. Um comerciante de tecidos, em São Paulo, já passou por nove tratamentos diferentes, em clínicas, além das dezenas de receitas domésticas. As vésperas da décima experiência com um endocrinologista e com 120 quilos que parecem muito mais, sabe que vai perder mais esta batalha. "Sabe como é", diz ele, "um uísque antes do almoço, chopes com os amigos à saída do trabalho, drinques em festas e assim vai, é muito difícil levar um regime até o fim."

Então, voltam aqueles quilos perdidos durante a dieta e, com vergonha de quem a recomendou, os gordos e afins partem em busca de outro especialista, dentro do que a dra. Berenice Carneiro chama de "ciclo do obeso". Não há perigo nesse vaivém, segundo o dr. Lawin Maxweel Stiliman, americano, autor de dois clássicos da robusta literatura de regimes (A Dieta Médica para à Perder Polegadas Rapidamente" e "A Dieta Médica para Perder Peso). Na sua opinião, "arriscado é manter um peso sempre acima do ideal". Com o que não concorda outro americano grande de conceito, o dr. Jean Mayer: "Manter alguns moderados quilos extras é bem mais saudável que subir e descer continuamente a escala do peso".

Indiferentes à disputa, os gordos têm quase sempre, a sinceridade de admitir suas frustrações. "Ser gordo é uma verdadeira tortura. A barriga vai crescendo, roupa não entra, tudo o que você veste fica pavoroso", diz hoje o longílineo Zacarias do Rego Monteiro, 1,80 metro, 61 anos, antigo Pierrot de desfiles de fantasia no Teatro Municipal, do Rio, quando pesava 99 quilos. "Ninguém é gordo por opção", pontifica o jornalista paulista Carlos Brickman, 127 quilos ("mais ou menos"), 1,90 metro, 29 anos. "O gordo é gordo porque não consegue ser magro", acrescenta ele.

É possível conseguir? - Alguns, en tretanto, conseguem adquirir uma silhueta mais harmoniosa, pelo menos. Esses se situam entre o que os médicos chamam de pessoas de força de vontade, expressão freqüentemente aplicada para alcoólatras, toxicômanos ou fumantes que abandonam seus vícios. É que, perante os novos conceitos da endocrinologia, a obesidade não passa de um vício. E, em outro raro episódio de unanimidade, os dietistas afirmam que somente uma minoria de seus pacientes- tem problemas glandulares ou metabólicos como causa de seus excessos de peso. "Dos casos, 99% não estão ligados a qualquer motivo de origem endocrinológica", diz o carioca Neidson Miranda. De acordo com a porcentagem de seu colega, outro dietista de renome no Rio, dr. Alessandro Cataldo, ressalva: "Mas o 1% também precisa ser curado". Um e outro dizem ainda, como explicação, que essa procura pelos endocrinologistas se deve à impressão , generalizada entre os gordos, de que têm distúrbios glandulares.

Quando a origem dominante talvez seja de ordem psicológica. Aqui, novamente, os especialistas contam com o aplauso de seus pacientes. Dr. Rogério Ulysséia, catarinense há dez anos em Brasília, considera muito importante que o gordo "desabafe", conte tudo o que sente. "Depois, o tratamento fica mais fácil", garante ele. E uma das preocupações do obeso, segundo, o dr. Armando Pupo, está em esconder certas partes do corpo. Por exemplo: "Uma das coisas que o gordo mais detesta é mostrar suas maminhas em público". Para eliminar esse constrangimento, ele está planejando a criação de um centro esportivo exclusivo para gordos adultos, solução sonhada pelo publicitário Alberto Djinishian, usado como modelo em um anúncio de sua agência (DPZ, de São Paulo), quando pesava 157 quilos. Hoje, com 135 quilos e esperando baixar até os 110 (mede 1,80 metro), Djinishian pensa que um clube, ou colônia de férias, só para os realmente gordos seria de grande utilidade. "Num local assim", comenta ele, "mesmo os que tivessem vergonha acabariam se desinibindo e se ajudando muito."

Falta de vergonha - O exemplo de Djinishian, a propósito, ilustra bem a tese médica de que regime algum adianta se o paciente não ajudar com sua firme decisão de emagrecer. Nos últimos dez anos, ele fez pelo menos vinte regimes. "Posso me considerar um profissional da dieta", brinca. Em todas as tentativas, sempre arranjava uma desculpa para não emagrecer. De fracasso em fracasso, acabou constatando que sentia necessidade de ser gordo, "para agredir as pessoas à minha volta e para chamar atenção". Até que o último especialista (uma médica), ao saber de seu retorno à obesidade galopante, procurou-o e desafiou-o a emagrecer, "sem me impor regime algum". Provocado, Djinishian perdeu 10 quilos em um mês. Depois, entrou em ritmo mais lento, "Resultado, em quatro meses, 22 quilos a menos", conta. Seu regime, à base de carnes grelhadas, verduras, ovos e queijo, dura de segunda a sexta, com folga para uísques, refrigerantes, massas e frituras nos fins de semana. Nos dias úteis, quando a fome aperta bebe água com limão (sem açúcar), "para enganar o estômago". Outra providência, já na área dos hábitos à mesa, foi comer devagar e em pequenos bocados. E um requinte: "Passei a comer com pauzinhos, como os chineses". Além disso, começou a tomar três banhos por dia: "É bom não só pelo banho, que emagrece, mas também pelos exercícios que se faz debaixo do chuveiro".

Triunfante, Djinishian pensa agora em escrever um livro de receitas para gordos, com belas ilustrações de pratos maravilhosos mas inofensivos. E esta é outra das lições aprendidas em sua carreira de "gordo FVC" (que não emagrece por Falta de Vergonha na Cara): "O gordo come a metade com os olhos. Aprendendo a poupar-se nas comidas, o gordo vê um prato bonito, bem arranjado, numa mesa bem posta e senta-se com prazer. Mas come somente o suficiente para lhe matar a fome".

Outro caso: Jô Soares - O aprendizado ao longo de dezenas de consultas e regimes, segundo os dietistas, acontece com grande freqüência entre os obesos. Urna dieta para consumo próprio, aliás, explica a transferência de especialidade verificada com o dr. Tancredi Greco. Quando ginecologista, pesava 177 quilos, "um absurdo, para quem mede 1,82 metro. Então resolvi emagrecer e criei um método, do qual fui a cobaia". As clientes, em grande parte interessadas em eliminar a gordura adquirida durante a gravidez, queriam saber o segredo de seu médico. E hoje a clínica do endocrinologista Tancredi Greco é uma das mais concorridas de São Paulo, ocupando dois andares de um prédio no centro da cidade, com 3 500 pacientes em tratamento permanente, incluindo-se algumas personalidades da TV, como Cidinha Campos e Sílvio Santos, e do esporte, como Edu ("Preparei o Edu para ele ir à Alemanha").

O segredo do dr. Greco, na verdade, é bem simples e segue uma tendência que se generaliza entre os dietistas. O paciente nunca deve sentir qualquer tipo de paternalismo ou de vigilância à sua volta. Do mesmo modo, não se recomenda uma violência muito marcada no comportamento alimentar do gordo. "Se a pessoa é de origem sírio-libanesa", recomenda o dr. Arnaldo Pupo, procuramos respeitar o quibe e outros pratos árabes, na medida do possível." E o dr. Tancredi Greco completa: "O segredo do meu método consiste em prescindir do sistema da frustração. Todo cliente meu tem direito a viver normalmente. Se ele come dez colheres de arroz, porque gosta, procuro diminuir para três colheres".

Ainda entre os autodidatas de sucesso, o que mais tem provocado espantos e admirações entre os brasileiros é o humorista Jô Soares. Perdeu 85 quilos em dez meses, entre 1972 e 1973. Ou, como costuma dizer, do alto de seus atuais 80 e poucos quilos: "Perdi um homem inteiro". Não revela sua fórmula mágica, por enquanto, porque está escrevendo um livro a respeito. Adianta, no entanto, que seu regime constou de comer de tudo e alguns comprimidos moderadores de apetite, especialmente no início". Admite, ainda, que depois de ter perdido 45 quilos teve o cuidado de se consultar com um médico. E garante, finalmente: "Para se levar um tratamento a sério é preciso ter consciência de que fazer dieta é um problema de cuca".

As células famintas - Algumas vezes, realmente, há sintomas de distúrbios de natureza mental. "Doutor, me corte um pedaço das minhas banhas que eu não agüento mais", já chegaram a dizer alguns dos clientes do dr. Farid Hakme, do Rio, especializado em cirurgia plástica ligada à obesidade mas geralmente procurado como se fosse apenas um dietista. Entre os pacientes do dr. Rogério Ulysséia, de Brasília, incluem-se mulheres que têm problemas com o marido. ou vice-versa, e por isso descarregam na comida. O consultório do dr. Tancredi Greco muitas vezes surgem senhoras interessadas em fazer regime apenas porque foram convidadas para madrinhas de casamento. E há também aqueles inveterados que o dr. Arnaldo Pupo chama de "sanfonas", porque "passam a vida na base do emagrece-engorda-emagrece-engorda".

Viciados, enlouquecidos, glutões incorrigíveis ou simplesmente doentes, qualquer que seja a razão da gordura, sempre resta, afinal, a necessidade de tratá-los, quando eles se dispõem a tal sacrifício., E definir a causa da obesidade, por sinal, não chega a ser uma preocupação fundamental diante de um caso concreto. Pois a medicina ainda está tateando nesse terreno das origens do peso exagerado. Recentemente, por exemplo, o dr. Jules Hirsch, da Universidade Rockefeller, de Nova York, concluiu que, superalimentando um bebê nos primeiros meses. a mãe bem intencionada (mas equivocada quanto ao real significado da palavra saúde) pode criar na criança uma predisposição irremediável para a obesidade. Pelas conclusões do dr. Hirsch, esta é uma forma de se aumentar o número e o tamanho das células adiposas do organismo. E a quantidade de células nunca diminui, por mais milagroso que seja o regime. Elas podem se reduzir em tamanho, mas, continuam "famintas" e propensas a recuperar o volume anterior ao menor descuido.

"G", igual a "C" menos "E" - Alguns pesquisadores acreditam, por outro lado, que as pessoas engordam por conhecerem os sinais internos de fome. Em vez disso, regulam-se por estímulos externos, como a visão da comida (e aqui a ciência dá razão ao empirismo do gordo Alberto Djinishian) ou o horário convencionado das refeições. Para o dr. Moysés Purisch, de Belo Horizonte, é preciso acrescentar, também, que a maioria dos gordos ingere alimentos sem qualquer critério de seleção e sempre em grandes quantidades. "Assim, só pode engordar!", afirma Purisch. Ainda segundo ele, o problema do excesso de peso está numa equação em que "G" (gordura) é igual a "C" (comida) menos "E" (exercício).

Estabelecido esse ciclo, as roupas começam a ficar apertadas, o sono aumenta, os amigos exercitam seu humor. Enquanto isso, internamente, desencadeia-se um processo patológico. O organismo se submete a um cerco que pode ter agentes perigosos, como a diabete, a hipertensão arterial, a arteriosclerose, entre outros. "Sob o ponto de vista médico", diz o dr. Geraldo Guimarães, de Brasília, "está comprovado o encurtamento da vida do paciente obeso, face ao aparecimento de doenças graves. Por isso, a dieta é um assunto palpitante, que envolve toda a população, atingindo a adolescência, a infância, a idade adulta, ambos os sexos." Entre os que chegam com alguns quilos a mais na perigosa curva dos quarenta anos, principalmente, nota-se essa preocupação com o perigo das doenças a que se tornam vulneráveis. Estão nesse grupo os quatro cavalheiros madrugadores que, às 7 da manhã, de segunda a sexta, se encontram para piques, petecas, vôlei e outros exercícios no Clube da Imprensa, em Brasília: os jornalistas D'Alembert Jacoud e Antônio Teixeira Júnior, e os deputados Fernando Lyra (pesava 107 quilos e caiu para 90, mais compatíveis com seu 1,71 metro) e Lysaneas Maciel.

De uniforme completo - Já entre os mais idosos, grande parte conheceu os infortúnios do enfarte do miocárdio ou do derrame cerebral, e, ao contrário da vida que levavam antes, incluem o exercício, ainda que suave, entre suas necessidades vitais. Ainda em Brasília, esses personagens saídos dos confins de situações quase mortais, podem ser vistos, em seu lento e salvador desfile matinal, pelos arredores da Superquadra Sul 309, onde moram os senadores da República.

Ali sempre se encontram, por exemplo, os senhores José de Magalhães Pinto e Joaquim Parente, em seu teste de cooper prescrito pelos médicos. Ali os encontra, quase sempre, o jornalista Carlos Castello Branco, 53 , o titular de uma das mais respeitadas colunas políticas brasileiras. Até o enfarte sofrido em 1972, "Castelinho", como é chamado, cuidava apenas de percorrer os corredores e gabinetes habitados e freqüentados por suas fontes de notícias, despreocupado de qualquer esforço físico. A partir daí, passou a ingerir a insossa receita de 4 quilômetros por dia, percorridos habitualmente em 50 minutos, "a passo de soldado", diz ele. E vai com o que se pode classificar de uniforme completo de um esportista amador e retardatário: bermudas (nunca havia vestido uma, antes do enfarte), camiseta de malha branca, mocassim marrom e chapéu panamá. Como complemento final da exótica figura, uma bordurna de jacarandá da Bahia, oferecida por amigos e usada para espantar cachorros. "É o único perigo de quem faz o teste de Cooper aqui em Brasília", explica Castelinho. "Esses cachorrões, passeando nas mãos de frágeis mulheres, às vezes escapam e, de vez em quando, me atacavam ou corriam atrás de mim. Agora quando eu passo, ele é que têm medo da borduna".

Entre a população mais jovem, entretanto, os receios de doenças que acompanham a adiposidade permanecem em modesto plano secundário, na maioria dos casos. A vida corre à larga, a disputa de oportunidades exige maiores atenções e só a vaidade pode levar alguém a procurar uma clínica ou um ginásio especificamente para eliminar excessos. "Quando as mulheres conhecem as con seqüências plásticas da obesidade", comenta o dr. Geraldo Guimarães, "Como celulites, estrias e estética em geral, elas se sentem estimuladas a emagrecer.- E também a moda tem influenciado muito, acrescenta o carioca Farid Hakme, que localiza essa preocupação dos grandes costureiros no final da 11 Guerra Mundia], quando "uma verdadeira mania de emagrecer tomou conta do mundo---. A medicina, em primeiro lugar, associou a gordura à vulnerabilidade para doenças perigosas. "Em seguida", diz ele, "os ditadores da moda decidiram que a. mulher deve obedecer aos padrões físicos que vieram a ter seus expoentes máximos em modelos corno Twiggy e Verushka."

Desmaio na feira - Em conseqüência das descobertas da medicina e das regras ditadas pela moda, multiplicaram-se as pílulas, gotas, os chás para emagrecer. E até certas mezinhas produzidas em escala industrial, como os tabletes de Fucus Composto Klein", anunciados como "à base vegetal, inofensivo à saúde". Ou mesmo os sabonetes para emagrecer, tipo Magripele, cujo segredo deve-se atribuir principalmente ao fatigante ensaboar que a bula recomenda.

Ao mesmo tempo, surgiram as drogas anorexígenas, para tirar apetite, que são excitantes e podem acabar criando uma dependência nos pacientes com conseqüências imprevisíveis, particularmente para o sistema nervoso central. Há ainda os diuréticos aplicados em certos regimes, retirando apenas a água do organismo, quando o objetivo de um tratamento de obesidade deve ser a eliminação de gorduras. Alguns dietistas, mais bem classificados na sinistra categoria dos charlatães, ministram indiscriminadamente hormônios tiróideos, sem avaliação prévia do estado de cada paciente, com a finalidade de provocar um hipertiroidismo, que realmente faz emagrecer - mas não deixa de ser uma doença. "Todo terreno complexo, como sucede com a obesidade, atrai charlatães. Cuidado com eles", adverte o dr. Armando Pupo. E ele indica uma das maneiras de se reconhecer o charlatanismo: "Prescrever muito remédio é um crime. O paciente acaba acreditando que aquela remediama toda solucionará seu problema. A conseqüência é que, ao abandonar os medicamentos, o paciente perde aquele apoio e volta a engordar".

Gordos e incautos, os pacientes caem nas armadilhas, algumas vezes com sérios resultados. Alberto Djinishian relata uma experiência infeliz, decorrente de uma dessas dietas: "Fiquei com os olhos e boca paralisados, as pernas sem movimento por quase um mês. Só baixava as pálpebras com a ajuda das mãos. Tampouco andava. Com o tempo, muito tratamento, voltei ao normal. Mas precisei até freqüentar uma clínica de terapia para aprender a andar novamente".

Embora desligado de qualquer dieta recomendada por um charlatão, o caso de uma moça paulista incorpora-se aos desastres provocados pela mania de emagrecer. Filha de um médico, ela começou a se abastecer de amostras grátis de moderadores do apetite. Deixou de comer, adquiriu linhas menos volumosas e, um dia, desmaiou na feira, anêmica e arrependida.

Obesidade mórbida - Mesmo sem amostra grátis ao alcance, porém, o fascinados pelas dietas não encontra grandes dificuldades em obter drogas que algum amigo aconselha como complemento indispensável. Geralmente trazendo nomes de assimilação imediata (Ernagrin, Moderamina, Moderex, Desobesi), qualquer pessoa compra esses remédios, com ou sem receita, quase nunca solicitada. E, ainda que sem necessidade, obedecem-se as conveniências da moda, como acontece com algumas das freqüentadoras da Academia Cuiambê, no Rio. Sua proprietária, a baiana Alice Perez Salgado, dispõe de um arsenal emagrecedor capaz de levar ao delírio um imaginário inquisidor ressuscitado.

Pelo salão da academia, como se escapasse de masmorras medievais, pode passar de repente uma senhora com um peso de 6 quilos em cada pé. A um canto, geme alguém apertado pela barriga por enérgica cinta de borracha. Pendurada em uma escada, estica-se uma pessoa implacavelmente envolta em calções ou camisas de plástico, destinados a aumentar a transpiração. Para quem necessita de tais martírios, os equipamentos de dona Alice podem realmente produzir resultados. Uma cliente do dr. Farid Hakme, enviada à academia enquanto fazia regime, perdeu 12 quilos em um mês. Mas também quem não precisa emagrecer aparece por lá - e esses representam uma parcela considerável da clientela.

Para os casos extremos, de qualquer modo, existem os últimos recursos. Um deles é o da cirurgia chamada de "curto circuito", pela qual se corta uma parte do intestino do obeso incurável. Assim, diminui-se também o tempo que a alimentação demora para percorrer os meandros intestinais e, em conseqüência, evita-se um acúmulo desnecessário de gorduras no organismo. Esse método, desenvolvido há catorze anos nos Estados Unidos e no Canadá, só recentemente chegou ao Brasil. Destina-se especificamente àqueles casos que suplantam os demais conhecimentos clínicos, pois pode trazer complicações relativamente graves. É o que reconhece o dr. Edinundo de Paula Pinto, professor da Faculdade de Ciências Médicas, de Belo Horizonte, e um dos poucos especialistas a realizar essa operação (desde 1971, utilizou-a em quatro pacientes). "No ano passado", conta ele, "apareceu em meu consultório uma carioca querendo fazer a operação. Mas ela não havia passado por qualquer tentativa com o tratamento clínico." Recusou a paciente, que foi ao Canadá e se operou. "Hoje, ela está magrinha, no Rio."

A hesitação prudente de Pauta Pinto se deve a riscos do "curto-circuito", que ele próprio enumera: lesões hepáticas temporárias; diarréia temporária; baixa de cloro, sódio, potássio e proteína, também, por algum tempo; aumento de formação de cálculos renais. "Por tudo isso", acrescenta, "a cirurgia só se aplica aos chamados casos de obesidade mórbida."

Só amordaçando - Outra solução extrema foi a adotada, em novembro do ano passado, por médicos e dentistas ingleses de Nottingliam que simplesmente amordaçaram a dona de casa Shirley Turner, 36 anos, então com 112 quilos. Na quinta-feira da semana passada, ao final de quase seis meses se alimentando de líquidos, a infeliz Shirley se livrou da placa de metal que prendia suas arcadas dentárias. "Eu me sinto maravilhosa. Nunca mais voltarei a ser gorda", dizia ela, aliviada em seus 65 quilos de agora. Até fins de junho, quando sairá de férias, espera baixar para 61 quilos, estabelecidos com o seu "objetivo biquíni"

Uma ex-gorda brasileria (bem menos ex-gorda que a inglesa) também inclui o biquíni entre as alegrias que a esbeltez recém-adquirida lhe proporciona. Mais confiante, a jornalista Marilda Varejão, de São Paulo, conta que os 16 quilos perdidos em três meses (pesava 68) agora lhe permitem usar roupas mais elegantes, sem a preocupação anterior de preferir cores escuras e outros truques para esconder a gordura. Mais que a estética, porém, foi a saúde que a levou a um regime "a sério", bem diferente dos tantos outros que experimentara. Exames de um clínico geral e endocrinologista constataram que Marilda tinha problemas de hipertiroidismo e propensão à diabete, além de uma taxa elevada de colesterol.

A partir daí, foram três meses de ovos mexidos, uma fruta, queijo e uma xícara de café com leite (pela manhã); carne, verduras cozidas e duas colheres de arroz (no almoço e no jantar); um copo de leite, à tarde; e chá com biscoitos, à noite. Exigiu perseverança, mas hoje ela pode dizer: "Antes, a gordura não me incomodava. Agora, aqui estou eu, muito mais segura de mim. Claro que enfrentando os problemas que todo mundo enfrenta, mas desprovida de qualquer complexo".

Por que pão e manteiga? - Com os menos persistentes - ou menos motivados -, no entanto, aconselha-se urna fórmula eficaz: o internamento, que garante uma perda racional de quilos, pelo menos enquanto dura. Por isso, aliás, algumas clínicas se esforçam em aproveitar esse período de clausura para educar o paciente, de maneira que ele continue uma dieta adequada mesmo depois de restituído à liberdade. Nesse caso encontra-se a Endoclínica, de Belo Horizonte, onde o interno é sustentado com uma alimentação pobre em calorias e, ao mesmo tempo, se submete a uma reformulação completa de seus hábitos alimentares.

Para obter esses resultados, a Endoclínica começa por limitar o número de pacientes. Só aceita dez de cada vez, para dar assistência a todos. O internamento dura das 18 horas de domingo às 18 horas do sábado seguinte, ao preço de 2 000 cruzeiros, incluídos os honorários médicos, exames, medicamentos e massagens. Seis médicos, de especialidades diferentes, se revezam no atendimento aos pacientes, que levam uma dieta (conforme cada caso, naturalmente) para casa ao receberem alta. "O importante mesmo é que a pessoa se eduque quanto ao "consumo de alimentos" afirma o diretor clínico da Endoclínica, dr. Tomás de Aquino Borges. E ele pergunta: "Por que comer um pão com manteiga, se um pedaço de queijo é suficiente?"

Gordos, obesos, prudentes, vaidosos ou hipocondríacos, todos os seguidores de dietas saberiam lhe responder. E ele próprio, como os demais sacerdotes da fé nos regimes, sabe que esta resposta não tem segredo algum. Treinado para comer desde a infância mais tenra, quando o bebê chora e ganha mamadeira ainda que deseje apenas a companhia materna, aplaudido quando "raspa o prato", o futuro gordo só vai sentir os efeitos desses costumes no início da adolescência. E aí, de um modo geral, já é tarde. Cai no regime, na piada, no relaxamento. E se transforma num dos exemplos da paradoxal capacidade humana de cuidar melhor de outras espécies animais. "Em minha carreira", afirma o dr. Tancredi Grecco, "cheguei à conclusão de que somos racionais na hora de alimentar um boi ou uma vaca, e irracionais na hora de nos alimentarmos, Falo isso com experiência, pois sou endocrinologista e fazendeiro."

Talvez se cometa essa insensatez por alguma reminiscência, algum atavismo perdido nos fundos do inconsciente, como sugere o dr. Armando Pupo, ao se lembrar de que na idade da pedra havia sentido em se encher a barriga. "Era difícil conseguir alimento", diz ele, "e o sujeito precisava comer o que fosse possível, quando o conseguia. O tecido adiposo é um depósito de substratos energéticos, funciona come. um armazém do organismo. Mas hoje nós temos o supermercado..."

 
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