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A
galopante dietomania
Calorias não engordam, ginástica da Força
Aérea Canadense, teste de Cooper, regime dos astronautas,
internamentos em clínicas de endocrinologia - os gordos,
crédula e vorazmente, experimentam de tudo para se
livrar de seus quilos a mais. Mas nada disso adiantará,
independente da eventual seriedade do método, enquanto
o próprio paciente não se decidir realmente
a emagrecer, respondem os dietistas, num raro exemplo de unanimidade
na classe médica. Bonachões, os gordos concordam.
Na verdade, há gordos e gordos a aceitarem e consumirem
as fórmulas ensinadas pelos regimes. Existem os que
necessitam de um tratamento, os obesos. Existem os que
se encontram acima do peso - ligeira ou acentuadamente - e
por isso se cuidam. E, finalmente, vem a classe dos que
não têm problema de gordura, mas se incorporam
aos fiéis das dietas por mera preocupação
estética ou porque estão possuídos, apesar
de magros, pelo medo de engordar.
Todas
essas pessoas, principalmente as muito gordas, costumam também
acreditar em variados tipos de receitas, mesmo as absurdas.
Uns bebem vinagre, em vez de água, quando sentem sede.
Outros recomendam Rolomag, Bel-Linha, Caloicicle, banho de
parafina, macrobiótica, uma colher de azeite às
refeições, sauna, ioga. O mundo das soluções
mágicas de emagrecimento não tem fim. Já
se fala até que acupuntura não falha. Nesse
quadro, o brasileiro seguidor de regimes pode acrescentar,
desde a semana passada, "A Dieta Revolucionária do
Dr. Atkins", um best seller mundial da literatura dietista.
Uma
tortura - Apesar de, numa roda, o assunto gordura ou regime
gerar inevitavelmente provocativas piadas, perpetradas em
geral por afortunados portadores de uma quantidade mais razoável
de quilos, os médicos insistem na gravidade do tema,
"A obesidade é um problema de saúde pública,
que deveria ser resolvido pelas autoridades nacionais", enfatiza
dr. Armando de Aguiar Pupo, um dos cinco médicos da
Endoclínica, em São Paulo. Para ele, os gordos
são pessoas que comem demais, em quantidade, e erradamente,
em qualidade, além de se exercitarem pouco ou nada,
"É preciso mudar o comportamento alimentar dos brasileiros
das grandes cidades", concorda dr. Tancredi Greco, também
paulista, que diz ainda: "De uns dez anos para cá,
as populações do Rio e de São Paulo têm
engordado muito, em todos os sentidos". E, em Brasília,
a dietista atualmente mais procurada, dra. Berenice Carneiro,
acrescenta mais um dado, quando nega que a obesidade seja
hereditária. "Hereditários são os hábitos
alimentares", garante.
Os
gordos, como sempre uma gente afável, uma vez mais
aceitam as conclusões da medicina. Um comerciante de
tecidos, em São Paulo, já passou por nove tratamentos
diferentes, em clínicas, além das dezenas de
receitas domésticas. As vésperas da décima
experiência com um endocrinologista e com 120 quilos
que parecem muito mais, sabe que vai perder mais esta batalha.
"Sabe como é", diz ele, "um uísque antes do
almoço, chopes com os amigos à saída
do trabalho, drinques em festas e assim vai, é muito
difícil levar um regime até o fim."
Então,
voltam aqueles quilos perdidos durante a dieta e, com vergonha
de quem a recomendou, os gordos e afins partem em busca de
outro especialista, dentro do que a dra. Berenice Carneiro
chama de "ciclo do obeso". Não há perigo nesse
vaivém, segundo o dr. Lawin Maxweel Stiliman, americano,
autor de dois clássicos da robusta literatura de regimes
(A Dieta Médica para à Perder Polegadas Rapidamente"
e "A Dieta Médica para Perder Peso). Na sua opinião,
"arriscado é manter um peso sempre acima do ideal".
Com o que não concorda outro americano grande de conceito,
o dr. Jean Mayer: "Manter alguns moderados quilos extras
é bem mais saudável que subir e descer continuamente
a escala do peso".
Indiferentes
à disputa, os gordos têm quase sempre, a sinceridade
de admitir suas frustrações. "Ser gordo é
uma verdadeira tortura. A barriga vai crescendo, roupa não
entra, tudo o que você veste fica pavoroso", diz hoje
o longílineo Zacarias do Rego Monteiro, 1,80 metro,
61 anos, antigo Pierrot de desfiles de fantasia no Teatro
Municipal, do Rio, quando pesava 99 quilos. "Ninguém
é gordo por opção", pontifica o jornalista
paulista Carlos Brickman, 127 quilos ("mais ou menos"),
1,90 metro, 29 anos. "O gordo é gordo porque não
consegue ser magro", acrescenta ele.
É
possível conseguir? - Alguns, en tretanto, conseguem
adquirir uma silhueta mais harmoniosa, pelo menos. Esses se
situam entre o que os médicos chamam de pessoas de
força de vontade, expressão freqüentemente
aplicada para alcoólatras, toxicômanos ou fumantes
que abandonam seus vícios. É que, perante os
novos conceitos da endocrinologia, a obesidade não
passa de um vício. E, em outro raro episódio
de unanimidade, os dietistas afirmam que somente uma minoria
de seus pacientes- tem problemas glandulares ou metabólicos
como causa de seus excessos de peso. "Dos casos, 99%
não estão ligados a qualquer motivo de origem
endocrinológica", diz o carioca Neidson Miranda. De
acordo com a porcentagem de seu colega, outro dietista de
renome no Rio, dr. Alessandro Cataldo, ressalva: "Mas o 1%
também precisa ser curado". Um e outro dizem ainda,
como explicação, que essa procura pelos endocrinologistas
se deve à impressão , generalizada entre os
gordos, de que têm distúrbios glandulares.
Quando
a origem dominante talvez seja de ordem psicológica.
Aqui, novamente, os especialistas contam com o aplauso de
seus pacientes. Dr. Rogério Ulysséia, catarinense
há dez anos em Brasília, considera muito importante
que o gordo "desabafe", conte tudo o que sente.
"Depois, o tratamento fica mais fácil", garante
ele. E uma das preocupações do obeso, segundo,
o dr. Armando Pupo, está em esconder certas partes
do corpo. Por exemplo: "Uma das coisas que o gordo mais detesta
é mostrar suas maminhas em público". Para eliminar
esse constrangimento, ele está planejando a criação
de um centro esportivo exclusivo para gordos adultos, solução
sonhada pelo publicitário Alberto Djinishian, usado
como modelo em um anúncio de sua agência (DPZ,
de São Paulo), quando pesava 157 quilos. Hoje, com
135 quilos e esperando baixar até os 110 (mede 1,80
metro), Djinishian pensa que um clube, ou colônia de
férias, só para os realmente gordos seria de
grande utilidade. "Num local assim", comenta ele, "mesmo os
que tivessem vergonha acabariam se desinibindo e se ajudando
muito."
Falta
de vergonha - O exemplo de Djinishian, a propósito,
ilustra bem a tese médica de que regime algum adianta
se o paciente não ajudar com sua firme decisão
de emagrecer. Nos últimos dez anos, ele fez pelo menos
vinte regimes. "Posso me considerar um profissional da dieta",
brinca. Em todas as tentativas, sempre arranjava uma desculpa
para não emagrecer. De fracasso em fracasso, acabou
constatando que sentia necessidade de ser gordo, "para agredir
as pessoas à minha volta e para chamar atenção".
Até que o último especialista (uma médica),
ao saber de seu retorno à obesidade galopante, procurou-o
e desafiou-o a emagrecer, "sem me impor regime algum". Provocado,
Djinishian perdeu 10 quilos em um mês. Depois, entrou
em ritmo mais lento, "Resultado, em quatro meses, 22 quilos
a menos", conta. Seu regime, à base de carnes grelhadas,
verduras, ovos e queijo, dura de segunda a sexta, com folga
para uísques, refrigerantes, massas e frituras nos
fins de semana. Nos dias úteis, quando a fome aperta
bebe água com limão (sem açúcar),
"para enganar o estômago". Outra providência,
já na área dos hábitos à mesa,
foi comer devagar e em pequenos bocados. E um requinte: "Passei
a comer com pauzinhos, como os chineses". Além disso,
começou a tomar três banhos por dia: "É
bom não só pelo banho, que emagrece, mas também
pelos exercícios que se faz debaixo do chuveiro".
Triunfante,
Djinishian pensa agora em escrever um livro de receitas para
gordos, com belas ilustrações de pratos maravilhosos
mas inofensivos. E esta é outra das lições
aprendidas em sua carreira de "gordo FVC" (que não
emagrece por Falta de Vergonha na Cara): "O gordo come a metade
com os olhos. Aprendendo a poupar-se nas comidas, o gordo
vê um prato bonito, bem arranjado, numa mesa bem posta
e senta-se com prazer. Mas come somente o suficiente para
lhe matar a fome".
Outro
caso: Jô Soares - O aprendizado ao longo de dezenas
de consultas e regimes, segundo os dietistas, acontece com
grande freqüência entre os obesos. Urna dieta para
consumo próprio, aliás, explica a transferência
de especialidade verificada com o dr. Tancredi Greco. Quando
ginecologista, pesava 177 quilos, "um absurdo, para quem mede
1,82 metro. Então resolvi emagrecer e criei um método,
do qual fui a cobaia". As clientes, em grande parte interessadas
em eliminar a gordura adquirida durante a gravidez, queriam
saber o segredo de seu médico. E hoje a clínica
do endocrinologista Tancredi Greco é uma das mais concorridas
de São Paulo, ocupando dois andares de um prédio
no centro da cidade, com 3 500 pacientes em tratamento permanente,
incluindo-se algumas personalidades da TV, como Cidinha Campos
e Sílvio Santos, e do esporte, como Edu ("Preparei
o Edu para ele ir à Alemanha").
O
segredo do dr. Greco, na verdade, é bem simples e segue
uma tendência que se generaliza entre os dietistas.
O paciente nunca deve sentir qualquer tipo de paternalismo
ou de vigilância à sua volta. Do mesmo modo,
não se recomenda uma violência muito marcada
no comportamento alimentar do gordo. "Se a pessoa é
de origem sírio-libanesa", recomenda o dr. Arnaldo
Pupo, procuramos respeitar o quibe e outros pratos árabes,
na medida do possível." E o dr. Tancredi Greco completa:
"O segredo do meu método consiste em prescindir do
sistema da frustração. Todo cliente meu tem
direito a viver normalmente. Se ele come dez colheres de arroz,
porque gosta, procuro diminuir para três colheres".
Ainda
entre os autodidatas de sucesso, o que mais tem provocado
espantos e admirações entre os brasileiros é
o humorista Jô Soares. Perdeu 85 quilos em dez meses,
entre 1972 e 1973. Ou, como costuma dizer, do alto de seus
atuais 80 e poucos quilos: "Perdi um homem inteiro". Não
revela sua fórmula mágica, por enquanto, porque
está escrevendo um livro a respeito. Adianta, no
entanto, que seu regime constou de comer de tudo e alguns
comprimidos moderadores de apetite, especialmente no início".
Admite, ainda, que depois de ter perdido 45 quilos teve o
cuidado de se consultar com um médico. E garante, finalmente:
"Para se levar um tratamento a sério é preciso
ter consciência de que fazer dieta é um problema
de cuca".
As
células famintas - Algumas vezes, realmente, há
sintomas de distúrbios de natureza mental. "Doutor,
me corte um pedaço das minhas banhas que eu não
agüento mais", já chegaram a dizer alguns dos
clientes do dr. Farid Hakme, do Rio, especializado em cirurgia
plástica ligada à obesidade mas geralmente procurado
como se fosse apenas um dietista. Entre os pacientes do dr.
Rogério Ulysséia, de Brasília, incluem-se
mulheres que têm problemas com o marido. ou vice-versa,
e por isso descarregam na comida. O consultório do
dr. Tancredi Greco muitas vezes surgem senhoras interessadas
em fazer regime apenas porque foram convidadas para madrinhas
de casamento. E há também aqueles inveterados
que o dr. Arnaldo Pupo chama de "sanfonas", porque "passam
a vida na base do emagrece-engorda-emagrece-engorda".
Viciados,
enlouquecidos, glutões incorrigíveis ou simplesmente
doentes, qualquer que seja a razão da gordura, sempre
resta, afinal, a necessidade de tratá-los, quando eles
se dispõem a tal sacrifício., E definir a causa
da obesidade, por sinal, não chega a ser uma preocupação
fundamental diante de um caso concreto. Pois a medicina ainda
está tateando nesse terreno das origens do peso exagerado.
Recentemente, por exemplo, o dr. Jules Hirsch, da Universidade
Rockefeller, de Nova York, concluiu que, superalimentando
um bebê nos primeiros meses. a mãe bem intencionada
(mas equivocada quanto ao real significado da palavra saúde)
pode criar na criança uma predisposição
irremediável para a obesidade. Pelas conclusões
do dr. Hirsch, esta é uma forma de se aumentar o número
e o tamanho das células adiposas do organismo. E a
quantidade de células nunca diminui, por mais milagroso
que seja o regime. Elas podem se reduzir em tamanho, mas,
continuam "famintas" e propensas a recuperar o volume anterior
ao menor descuido.
"G",
igual a "C" menos "E" - Alguns pesquisadores acreditam,
por outro lado, que as pessoas engordam por conhecerem os
sinais internos de fome. Em vez disso, regulam-se por estímulos
externos, como a visão da comida (e aqui a ciência
dá razão ao empirismo do gordo Alberto Djinishian)
ou o horário convencionado das refeições.
Para o dr. Moysés Purisch, de Belo Horizonte, é
preciso acrescentar, também, que a maioria dos gordos
ingere alimentos sem qualquer critério de seleção
e sempre em grandes quantidades. "Assim, só pode engordar!",
afirma Purisch. Ainda segundo ele, o problema do excesso de
peso está numa equação em que "G" (gordura)
é igual a "C" (comida) menos "E" (exercício).
Estabelecido
esse ciclo, as roupas começam a ficar apertadas, o
sono aumenta, os amigos exercitam seu humor. Enquanto isso,
internamente, desencadeia-se um processo patológico.
O organismo se submete a um cerco que pode ter agentes perigosos,
como a diabete, a hipertensão arterial, a arteriosclerose,
entre outros. "Sob o ponto de vista médico", diz o
dr. Geraldo Guimarães, de Brasília, "está
comprovado o encurtamento da vida do paciente obeso, face
ao aparecimento de doenças graves. Por isso, a dieta
é um assunto palpitante, que envolve toda a população,
atingindo a adolescência, a infância, a idade
adulta, ambos os sexos." Entre os que chegam com alguns quilos
a mais na perigosa curva dos quarenta anos, principalmente,
nota-se essa preocupação com o perigo das doenças
a que se tornam vulneráveis. Estão nesse grupo
os quatro cavalheiros madrugadores que, às 7 da manhã,
de segunda a sexta, se encontram para piques, petecas, vôlei
e outros exercícios no Clube da Imprensa, em Brasília:
os jornalistas D'Alembert Jacoud e Antônio Teixeira
Júnior, e os deputados Fernando Lyra (pesava 107 quilos
e caiu para 90, mais compatíveis com seu 1,71 metro)
e Lysaneas Maciel.
De
uniforme completo - Já entre os mais idosos, grande
parte conheceu os infortúnios do enfarte do miocárdio
ou do derrame cerebral, e, ao contrário da vida que
levavam antes, incluem o exercício, ainda que suave,
entre suas necessidades vitais. Ainda em Brasília,
esses personagens saídos dos confins de situações
quase mortais, podem ser vistos, em seu lento e salvador desfile
matinal, pelos arredores da Superquadra Sul 309, onde moram
os senadores da República.
Ali
sempre se encontram, por exemplo, os senhores José
de Magalhães Pinto e Joaquim
Parente, em seu teste de cooper prescrito pelos médicos.
Ali os encontra, quase sempre, o jornalista Carlos Castello
Branco, 53 , o titular de uma das mais respeitadas colunas
políticas brasileiras. Até o enfarte sofrido
em 1972, "Castelinho", como é chamado, cuidava apenas
de percorrer os corredores e gabinetes habitados e freqüentados
por suas fontes de notícias, despreocupado de qualquer
esforço físico. A partir daí, passou
a ingerir a insossa receita de 4 quilômetros por dia,
percorridos habitualmente em 50 minutos, "a passo de soldado",
diz ele. E vai com o que se pode classificar de uniforme completo
de um esportista amador e retardatário: bermudas (nunca
havia vestido uma, antes do enfarte), camiseta de malha branca,
mocassim marrom e chapéu panamá. Como complemento
final da exótica figura, uma bordurna de jacarandá
da Bahia, oferecida por amigos e usada para espantar cachorros.
"É o único perigo de quem faz o teste de Cooper
aqui em Brasília", explica Castelinho. "Esses cachorrões,
passeando nas mãos de frágeis mulheres, às
vezes escapam e, de vez em quando, me atacavam ou corriam
atrás de mim. Agora quando eu passo, ele é que
têm medo da borduna".
Entre
a população mais jovem, entretanto, os receios
de doenças que acompanham a adiposidade permanecem
em modesto plano secundário, na maioria dos casos.
A vida corre à larga, a disputa de oportunidades exige
maiores atenções e só a vaidade pode
levar alguém a procurar uma clínica ou um ginásio
especificamente para eliminar excessos. "Quando as mulheres
conhecem as con seqüências plásticas da
obesidade", comenta o dr. Geraldo Guimarães, "Como
celulites, estrias e estética em geral, elas se sentem
estimuladas a emagrecer.- E também a moda tem influenciado
muito, acrescenta o carioca Farid Hakme, que localiza essa
preocupação dos grandes costureiros no final
da 11 Guerra Mundia], quando "uma verdadeira mania de emagrecer
tomou conta do mundo---. A medicina, em primeiro lugar, associou
a gordura à vulnerabilidade para doenças perigosas.
"Em seguida", diz ele, "os ditadores da moda decidiram que
a. mulher deve obedecer aos padrões físicos
que vieram a ter seus expoentes máximos em modelos
corno Twiggy e Verushka."
Desmaio
na feira - Em conseqüência das descobertas
da medicina e das regras ditadas pela moda, multiplicaram-se
as pílulas, gotas, os chás para emagrecer. E
até certas mezinhas produzidas em escala industrial,
como os tabletes de Fucus Composto Klein", anunciados como
"à base vegetal, inofensivo à saúde".
Ou mesmo os sabonetes para emagrecer, tipo Magripele, cujo
segredo deve-se atribuir principalmente ao fatigante ensaboar
que a bula recomenda.
Ao
mesmo tempo, surgiram as drogas anorexígenas, para
tirar apetite, que são excitantes e podem acabar criando
uma dependência nos pacientes com conseqüências
imprevisíveis, particularmente para o sistema nervoso
central. Há ainda os diuréticos aplicados em
certos regimes, retirando apenas a água do organismo,
quando o objetivo de um tratamento de obesidade deve ser a
eliminação de gorduras. Alguns dietistas, mais
bem classificados na sinistra categoria dos charlatães,
ministram indiscriminadamente hormônios tiróideos,
sem avaliação prévia do estado de cada
paciente, com a finalidade de provocar um hipertiroidismo,
que realmente faz emagrecer - mas não deixa de ser
uma doença. "Todo terreno complexo, como sucede com
a obesidade, atrai charlatães. Cuidado com eles", adverte
o dr. Armando Pupo. E ele indica uma das maneiras de se reconhecer
o charlatanismo: "Prescrever muito remédio é
um crime. O paciente acaba acreditando que aquela remediama
toda solucionará seu problema. A conseqüência
é que, ao abandonar os medicamentos, o paciente perde
aquele apoio e volta a engordar".
Gordos
e incautos, os pacientes caem nas armadilhas, algumas vezes
com sérios resultados. Alberto Djinishian relata uma
experiência infeliz, decorrente de uma dessas dietas:
"Fiquei com os olhos e boca paralisados, as pernas sem
movimento por quase um mês. Só baixava as pálpebras
com a ajuda das mãos. Tampouco andava. Com o tempo,
muito tratamento, voltei ao normal. Mas precisei até
freqüentar uma clínica de terapia para aprender
a andar novamente".
Embora
desligado de qualquer dieta recomendada por um charlatão,
o caso de uma moça paulista incorpora-se aos desastres
provocados pela mania de emagrecer. Filha de um médico,
ela começou a se abastecer de amostras grátis
de moderadores do apetite. Deixou de comer, adquiriu linhas
menos volumosas e, um dia, desmaiou na feira, anêmica
e arrependida.
Obesidade
mórbida - Mesmo sem amostra grátis ao alcance,
porém, o fascinados pelas dietas não encontra
grandes dificuldades em obter drogas que algum amigo aconselha
como complemento indispensável. Geralmente trazendo
nomes de assimilação imediata (Ernagrin, Moderamina,
Moderex, Desobesi), qualquer pessoa compra esses remédios,
com ou sem receita, quase nunca solicitada. E, ainda que sem
necessidade, obedecem-se as conveniências da moda, como
acontece com algumas das freqüentadoras da Academia Cuiambê,
no Rio. Sua proprietária, a baiana Alice Perez Salgado,
dispõe de um arsenal emagrecedor capaz de levar ao
delírio um imaginário inquisidor ressuscitado.
Pelo
salão da academia, como se escapasse de masmorras medievais,
pode passar de repente uma senhora com um peso de 6 quilos
em cada pé. A um canto, geme alguém apertado
pela barriga por enérgica cinta de borracha. Pendurada
em uma escada, estica-se uma pessoa implacavelmente envolta
em calções ou camisas de plástico, destinados
a aumentar a transpiração. Para quem necessita
de tais martírios, os equipamentos de dona Alice podem
realmente produzir resultados. Uma cliente do dr. Farid Hakme,
enviada à academia enquanto fazia regime, perdeu 12
quilos em um mês. Mas também quem não
precisa emagrecer aparece por lá - e esses representam
uma parcela considerável da clientela.
Para
os casos extremos, de qualquer modo, existem os últimos
recursos. Um deles é o da cirurgia chamada de "curto
circuito", pela qual se corta uma parte do intestino do obeso
incurável. Assim, diminui-se também o tempo
que a alimentação demora para percorrer os meandros
intestinais e, em conseqüência, evita-se um acúmulo
desnecessário de gorduras no organismo. Esse método,
desenvolvido há catorze anos nos Estados Unidos e no
Canadá, só recentemente chegou ao Brasil. Destina-se
especificamente àqueles casos que suplantam os demais
conhecimentos clínicos, pois pode trazer complicações
relativamente graves. É o que reconhece o dr. Edinundo
de Paula Pinto, professor da Faculdade de Ciências Médicas,
de Belo Horizonte, e um dos poucos especialistas a realizar
essa operação (desde 1971, utilizou-a em quatro
pacientes). "No ano passado", conta ele, "apareceu em meu
consultório uma carioca querendo fazer a operação.
Mas ela não havia passado por qualquer tentativa com
o tratamento clínico." Recusou a paciente, que foi
ao Canadá e se operou. "Hoje, ela está magrinha,
no Rio."
A
hesitação prudente de Pauta Pinto se deve a
riscos do "curto-circuito", que ele próprio enumera:
lesões hepáticas temporárias; diarréia
temporária; baixa de cloro, sódio, potássio
e proteína, também, por algum tempo; aumento
de formação de cálculos renais. "Por
tudo isso", acrescenta, "a cirurgia só se aplica aos
chamados casos de obesidade mórbida."
Só
amordaçando - Outra solução extrema
foi a adotada, em novembro do ano passado, por médicos
e dentistas ingleses de Nottingliam que simplesmente amordaçaram
a dona de casa Shirley Turner, 36 anos, então com 112
quilos. Na quinta-feira da semana passada, ao final de quase
seis meses se alimentando de líquidos, a infeliz Shirley
se livrou da placa de metal que prendia suas arcadas dentárias.
"Eu me sinto maravilhosa. Nunca mais voltarei a ser gorda",
dizia ela, aliviada em seus 65 quilos de agora. Até
fins de junho, quando sairá de férias, espera
baixar para 61 quilos, estabelecidos com o seu "objetivo biquíni"
Uma
ex-gorda brasileria (bem menos ex-gorda que a inglesa) também
inclui o biquíni entre as alegrias que a esbeltez recém-adquirida
lhe proporciona. Mais confiante, a jornalista Marilda Varejão,
de São Paulo, conta que os 16 quilos perdidos em três
meses (pesava 68) agora lhe permitem usar roupas mais elegantes,
sem a preocupação anterior de preferir cores
escuras e outros truques para esconder a gordura. Mais que
a estética, porém, foi a saúde que a
levou a um regime "a sério", bem diferente dos tantos
outros que experimentara. Exames de um clínico geral
e endocrinologista constataram que Marilda tinha problemas
de hipertiroidismo e propensão à diabete, além
de uma taxa elevada de colesterol.
A
partir daí, foram três meses de ovos mexidos,
uma fruta, queijo e uma xícara de café com leite
(pela manhã); carne, verduras cozidas e duas colheres
de arroz (no almoço e no jantar); um copo de leite,
à tarde; e chá com biscoitos, à noite.
Exigiu perseverança, mas hoje ela pode dizer: "Antes,
a gordura não me incomodava. Agora, aqui estou eu,
muito mais segura de mim. Claro que enfrentando os problemas
que todo mundo enfrenta, mas desprovida de qualquer complexo".
Por
que pão e manteiga? - Com os menos persistentes
- ou menos motivados -, no entanto, aconselha-se urna fórmula
eficaz: o internamento, que garante uma perda racional de
quilos, pelo menos enquanto dura. Por isso, aliás,
algumas clínicas se esforçam em aproveitar esse
período de clausura para educar o paciente, de maneira
que ele continue uma dieta adequada mesmo depois de restituído
à liberdade. Nesse caso encontra-se a Endoclínica,
de Belo Horizonte, onde o interno é sustentado com
uma alimentação pobre em calorias e, ao mesmo
tempo, se submete a uma reformulação completa
de seus hábitos alimentares.
Para
obter esses resultados, a Endoclínica começa
por limitar o número de pacientes. Só aceita
dez de cada vez, para dar assistência a todos. O internamento
dura das 18 horas de domingo às 18 horas do sábado
seguinte, ao preço de 2 000 cruzeiros, incluídos
os honorários médicos, exames, medicamentos
e massagens. Seis médicos, de especialidades diferentes,
se revezam no atendimento aos pacientes, que levam uma dieta
(conforme cada caso, naturalmente) para casa ao receberem
alta. "O importante mesmo é que a pessoa se eduque
quanto ao "consumo de alimentos" afirma o diretor clínico
da Endoclínica, dr. Tomás de Aquino Borges.
E ele pergunta: "Por que comer um pão com manteiga,
se um pedaço de queijo é suficiente?"
Gordos,
obesos, prudentes, vaidosos ou hipocondríacos, todos
os seguidores de dietas saberiam lhe responder. E ele próprio,
como os demais sacerdotes da fé nos regimes, sabe que
esta resposta não tem segredo algum. Treinado para
comer desde a infância mais tenra, quando o bebê
chora e ganha mamadeira ainda que deseje apenas a companhia
materna, aplaudido quando "raspa o prato", o futuro gordo
só vai sentir os efeitos desses costumes no início
da adolescência. E aí, de um modo geral, já
é tarde. Cai no regime, na piada, no relaxamento. E
se transforma num dos exemplos da paradoxal capacidade humana
de cuidar melhor de outras espécies animais. "Em
minha carreira", afirma o dr. Tancredi Grecco, "cheguei à
conclusão de que somos racionais na hora de alimentar
um boi ou uma vaca, e irracionais na hora de nos alimentarmos,
Falo isso com experiência, pois sou endocrinologista
e fazendeiro."
Talvez se cometa essa insensatez por alguma reminiscência,
algum atavismo perdido nos fundos do inconsciente, como sugere
o dr. Armando Pupo, ao se lembrar de que na idade da pedra
havia sentido em se encher a barriga. "Era difícil
conseguir alimento", diz ele, "e o sujeito precisava
comer o que fosse possível, quando o conseguia. O tecido
adiposo é um depósito de substratos energéticos,
funciona come. um armazém do organismo. Mas hoje nós
temos o supermercado..."
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