![]() |
A
grande jogada A
histórica retirada dos israelenses da
Emissoras de TV e jornais de todo o mundo exibiram cenas inusitadas em agosto de 2005: centenas de colonos israelenses eram arrastados à força de suas casas e forçados a abandoná-las por soldados israelenses. Os militares obedeciam não a um acordo entre os palestinos e os israelenses, mas a uma decisão unilateral do então primeiro-ministro Ariel Sharon: retirar seu povo de vez da Faixa de Gaza, deixando o território livre para os palestinos, numa manobra histórica. Sharon aceitou sair da Faixa de Gaza - ocupada por Israel desde 1967 - não por senso de justiça, espírito de solidariedade ou compaixão em face do sofrimento alheio. Muito menos por fraqueza ante as pressões internacionais em favor de uma solução para um problema que atormenta o mundo há mais de meio século. O único fator que contou foi a conclusão de que não convinha aos interesses de Israel manter sob controle direto uma grande população palestina, em expansão permanente, consumindo energia e recursos militares: eram 1,3 milhão de palestinos contra apenas 9.000 colonos judeus em assentamentos. Portanto, seria mais negócio dar aos palestinos um Estado e blindar as próprias fronteiras, num acordo cujos termos seriam todos ditados por ele, Sharon - mantendo, claro, os palestinos a literalmente alguns minutos do alcance da máquina militar israelense, em caso de represálias por mau comportamento. "Não podemos manter Gaza para sempre. Mais de 1 milhão de palestinos vivem lá em condições únicas de superpopulação, em bolsões de ódio crescente", disse o primeiro-ministro à época. Ira da tribo - Apesar das vantagens evidentes, Sharon precisou de seus maiores trunfos - vontade e mão-de-ferro - para dobrar toda a ira dos colonos, uma ira justificada, aliás: afinal, eles haviam se instalado em Gaza devido a incentivos e subsídios de sucessivos governos de Tel-Aviv. Ariel Sharon incorreu também na maldição dos religiosos para os quais a Faixa de Gaza faz parte do contrato imobiliário irrenunciável confiado pelo próprio Jeová ao povo de Israel. Diante da raiva de membros de sua própria tribo, afirmou: "Eu passei toda a minha vida defendendo os judeus. Agora, tenho de me defender dos judeus." Imaginava-se que a retirada israelense da Faixa de Gaza pudesse simbolizar o fim de uma fase épica na história do Estado de Israel, com potencial para dar novo fôlego ao processo, não menos épico, de criação de um Estado palestino. Pela primeira vez, desde a guerra de 1967, Israel desmantelou colônias sem levar nada em troca. A revisão foi profunda do ponto de vista ideológico. Os primeiros sionistas, mais de um século atrás, imaginavam um Estado judeu em ambas as margens do Rio Jordão. Quando isso se revelou impraticável, sonharam com a consolidação da "Grande Israel", que se estenderia por todos os territórios bíblicos entre o Mar Mediterrâneo e o Rio Jordão. Nesse contexto, o significado da retirada foi óbvio: a Grande Israel também não seria possível. A retirada da Faixa de Gaza não resolveu o problema. Confrontos nas fronteiras ainda são freqüentes, como prova este último, entre Hamas e Israel. |