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30
de abril de 1969As forças do medo Sete
mil homens para combater "Aqui, a voz do El Fatah, a voz do El Assifa, a voz da tempestade. Aqui, a voz da revolução palestina. Em nome de Deus misericordioso, nós abrimos para vocês uma porta grande. Em nome de Deus, em nome do El Fatah, em nome da revolução palestina, nós declaramos ao povo tempestade, tempestade." É uma emissão da rádio clandestina dos guerrilheiros árabes, operando do território ocupado pelos judeus. É uma emissão que não tem horário fixo, mas que nunca deixa de encontrar seus ouvintes atentos - geralmente, grupos de jovens vestindo uniformes de camuflagem e trazendo sobre os joelhos um pesado fuzil Kalashnikov. Eles escutam a irradiação de um boletim militar que enumera as operações lançadas pelo comando geral guerrilheiro naquele dia contra Israel. Depois, silenciosamente, cada um deles se afasta para cumprir sua tarefa - uma tarefa que consiste em impor aos israelenses a convivência diária com o terror, e que já custou aos judeus, desde o fim da Guerra dos Seis Dias em 1967, cerca de trezentos mortos e mais de mil feridos. Os guerrilheiros do El Fatah e das outras organizações terroristas - são hoje 7.000 combatentes efetivos - prometem a tempestade. E cumprem. Mesmo sabendo que essa tempestade cai não apenas sobre os israelenses, mas também sobre eles próprios. Como na semana passada, quando a aviação de Israel arrasou dois de seus campos de treinamento no norte da Jordânia, com um bombardeio ininterrupto de quarenta minutos que fez pelo menos sete mortos e dezenas de feridos. Motivo: uma represália antecipada contra os terroristas árabes, para desencorajá-los de realizar qualquer atentado no dia seguinte, quarta-feira, quando se comemorava o 21º aniversário da criação do Estado de Israel. Durante as festas israelenses acabou não havendo realmente nenhum atentado. Mas o medo estava presente em Tel Aviv e Jerusalém, com suas ruas fechadas ao tráfego e milhares de policiais fiscalizando cada esquina ou cada janela, em meio à população que dançava a "hora" e entoava canções tradicionais. O mesmo medo acabou se estendendo, no fim da semana, até Beirute, a angustiada capital do Líbano, onde caiu o governo do premiê Rachid Karame, após decretar o estado de sítio e o toque de recolher, numa tentativa frustrada de controlar os sangrentos distúrbios - treze mortos - provocados pelos palestinos que vivem no país, e que exigem liberdade de ação para organizar ataques, através de seus guerrilheiros, contra o território de Israel. Somados aos violentos combates ao longo do Canal de Suez, esses incidentes deram ao Oriente Médio uma semana bem tempestuosa - exatamente como quer o El Fatah. ESTADO DE GUERRA - Durante os graves incidentes da semana passada, o atribulado Secretário-Geral da ONU, U Thant, teve de reconhecer tristemente, mais uma vez, que árabes e israelenses tinham chegado novamente a um virtual estado de guerra. E, como sempre tem acontecido desde que acabou oficialmente a Guerra dos Seis Dias, eram os guerrilheiros que estavam no centro do problema. Para eles, as soluções de chancelaria, os esforços da ONU, a reunião dos grandes ou os planos de paz do Rei Hussein valem a mesma coisa. Ou seja: nada. Sem a devolução aos palestinos do território de Israel - que eles ocupavam até a criação do Estado judeu em 1948 -, nenhuma solução tem valor. Para os israelenses, é uma posição inaceitável e que nunca será levada em conta. Para os governos árabes, é uma posição incômoda e que precisa ser combatida. Como no Líbano. Mas esse combate, hoje, está longe de ser fácil. O tempo em que a polícia de Nasser controlava facilmente os guerrilheiros palestinos fixados no Egito, ou em que a Legião Árabe do Rei Hussein os reprimia sem maiores problemas na Jordânia, parece definitivamente superado. Agora, em muitos casos, são eles que ditam as condições, tomam as iniciativas. No Líbano (onde vivem 45.000 palestinos), os incidentes só começaram depois de o Presidente Charles Hélou ter declarado que aceitava o plano de paz proposto por Hussein - um plano evidentemente recusado pelos palestinos. E esse desafio, em vez de ser esmagado, como costumava acontecer antigamente, levou o Líbano à sua pior crise dos últimos dez anos. Os dirigentes se dividiram, o governo caiu. Para definir a situação, talvez a melhor frase seja a do primeiro-ministro demissionário Rachid Karame: "Os guerrilheiros estão dentro do Líbano, e eles querem combater Israel. Nós só podemos ter duas posições: apoiá-los ou não. Não há neutralidade possível". COM ESMOLAS - Essa franqueza de Karame, entretanto, não existiu entre os governos árabes durante os últimos vinte anos. Desde que Israel saiu vitorioso da guerra de 1948, centenas de milhares de palestinos perderam suas terras e casas, indo amontoar-se nos campos de refugiados do Egito, Jordânia, Líbano e Síria, onde hoje formam uma população de 1,5 milhão de habitantes. Nessas grandes favelas, administradas pela UNRWA (United Nations Relief and Works Agency), os refugiados palestinos têm vivido praticamente de esmolas, sob os olhares mais ou menos enfastiados dos governos árabes, da ONU, das grandes potências, de Israel. Como no campo de Baaqa, a 24 quilômetros de Amã, capital da Jordânia, onde 36.000 palestinos sobrevivem numa longa fileira de tendas armadas sobre a lama. No inverno, com a temperatura a zero grau, o vento gelado entra em todas as barracas. Durante o dia, as crianças subalimentadas brincam com o barro, um barro que está em toda a parte, dentro e fora das tendas, nas roupas, nas camas, nos pratos. Na frente de uma barraca maior, as mulheres esperam uma vez por mês, numa fila demorada, a ração oficial de mantimentos: arroz, feijão, óleo, sal e açúcar. O espetáculo não é diferente em Gaza, no Egito, onde moram 400.000 refugiados, numa faixa de 352 quilômetros quadrados agora ocupada pelos soldados israelenses. Nessa região de deserto e dunas ao lado do Mediterrâneo, muitos refugiados vivem desde 1948, na ilusão das promessas e na esperança de um dia voltar à Palestina. Antigamente eles ainda conseguiam ganhar alguns trocados com as tropas de ocupação da ONU. Havia um magro contrabando, havia algumas gorjetas. Hoje nem isso mais resta. Ficaram apenas as miseráveis barracas de sempre, onde é comum encontrar-se dez pessoas vivendo num espaço de 9 metros quadrados e sem outro mobiliário além de alguns colchões afundados no barro do chão. CÍRCULOS DE NEGÓCIO - Mas ao lado desses refugiados esquecidos, havia outros palestinos, que não se encontravam nos acampamentos da UNRWA, mas sim nos círculos de negócio do Kuwait e de Beirute, ou nas universidades da Europa e do Cairo. Pois o povo palestino, um dos mais evoluídos entre os povos árabes, também tinha a sua elite. Através de seu longo contato com os ingleses e depois com os judeus europeus, um grande número de palestinos adquiriu hábitos de pensamento mais modernos, técnicas mais elaboradas e costumes mais livres. Muitos deles falam o hebreu, podem comunicar-se em iídiche ou alemão e têm no inglês uma língua corrente. O homem mais conhecido dessa elite, até pouco tempo atrás, era Yussef Beidas, o milionário presidente do agitado Intra Bank. Hoje em dia é Yasser Arafat, o comandante do El Fatah. De fato, as organizações de guerrilheiros palestinos não surgiram diretamente nos campos de refugiados, mas entre a elite intelectual e econômica, de onde saiu Arafat. Ele nasceu em Jerusalém em 1929, numa família burguesa, e desde então sua vida tem sido profundamente marcada pelo conflito entre árabes e judeus. Aos dezoito anos Arafat já combatia, ao lado de seu pai e de seus irmãos, no AI Jihad, a guerra sagrada das milícias palestinas contra a Haganah e o Irgun, organizações judias que lutavam pela criação do Estado de Israel. Em sete meses, ele viu a guerra perdida e sua nação desfeita. Restou-lhe o caminho do Cairo. No Egito, enquanto estudava engenharia, Arafat pensava em política - e na guerra. Sabotador em 1952, combatente na guerra de 1956, ele se uniu durante esse ano a um grupo de terroristas palestinos que combatiam a ocupação temporária da faixa de Gaza por Israel. O nome desse grupo: El Fatah. NA CLANDESTINIDADE - O grupo pioneiro se dissolveu, mas suas células, de uma maneira ou de outra, conseguiram sobreviver isoladamente. Formado em 1957, Arafat trocou o Egito pelo Kuwait, então transformado pelo "boom" do petróleo num centro cheio de possibilidades. Inclusive políticas. Ali, em contato com seus antigos companheiros de faculdade e de combate, Arafat iniciou um trabalho paciente para organizar um grupo independente de guerrilheiros palestinos. Pois, até então, qualquer organização, sindicato ou associação de refugiados palestinos era severamente proibida pelos governos árabes que os hospedavam. A não ser a Organização de Libertação da Palestina, dirigida nominalmente por Alimed Chukeiri, mas controlada até os mais ínfimos detalhes pelo governo egípcio. Ruidosa e ineficiente, a OLP sempre foi, antes de tudo, um grupo desmoralizado: Chukeiri, que pregava todos os dias o "jihad" e o extermínio dós judeus, desapareceu do Hotel Jordan International, em Amã, imediatamente após ouvir pelo rádio o início dos ataques israelenses na manhã de 5 de junho de 1967. E só ressuscitou depois de assegurar-se de que os combates estavam encerrados. Quanto aos soldados da OLP, não eram muito mais combativos que seu chefe: na noite de 4 de junho, só na Cisjordânia, mais de cem casamentos foram realizados às pressas, para que os noivos fugissem à convocação militar. Mas essa fraqueza da OLP, patente na Guerra dos Seis Dias, já era conhecida muito tempo antes por Arafat. Foi por isso que ele quis constituir o El Fatah sem as influências políticas do Cairo, durante seu exílio no Kuwait. Em 1963, com a independência da Argélia, Arafat e seus amigos palestinos foram atraídos pelas teses da FLN então vitoriosa contra os franceses: para reconquistar a Palestina, era preciso atacar Israel diretamente, dentro do seu território. Arafat aceitou a lição argelina. E também a sua assistência - em armas e instrução. As células do El Fatah foram reconstituídas, formaram-se grupos de combate e em fins de 1963 lançaram-se os primeiros ataques contra Israel. Dois anos depois, Yasser Arafat abandonou o Kuwait, mergulhou na clandestinidade e passou a ser um chefe guerrilheiro em tempo integral. COMANDO GERAL - Durante esses últimos seis anos, o EI Fatah tem crescido. E suas ações, limitadas no início, são hoje diárias. Com seus efetivos recrutados nos campos de refugiados, o El Fatah veio progredindo até transformar-se, depois da guerra de 1967, no mais importante movimento palestino de guerrilhas e terrorismo. No momento, o contingente dirigido por Arafat tem a maioria das iniciativas militares contra Israel e, depois de sua fusão com a velha OLP (da qual assumiu o comando geral) e com a organização El Saika, superou largamente o outro grande grupo de guerrilheiros palestinos: a Frente Popular de Libertação da Palestina, responsável pelos atentados contra os aviões da companhia israelense El-Al nos aeroportos de Roma, Atenas e Zurique. A FPLP se encontra atualmente dividida em duas facções rivais, contrariando a orientação geral do movimento guerrilheiro, que tende para a união: hoje o AI Assifa (órgão militar do El Fatah), os comandos da OLP e os comandos do El Saika constituem um organismo militar único, presidido por Yasser Arafat - que também dirige, no novo Comitê Executivo, as relações políticas e a organização popular do movimento guerrilheiro agora unificado. MIL INCIDENTES - Se a união só chegou recentemente (meados de janeiro), a grande vitória do El Fatah já tem quase dois anos: foi a derrota arrasadora de junho de 1967 frente a Israel. Com os governos árabes desmoralizados (principalmente no Egito e Jordânia), os guerrilheiros palestinos ganharam uma nova força. E com a ocupação da faixa de Gaza e da Cisjordânia (enclave jordaniano em Israel) pelas tropas do general Moshe Dayan, o El Fatah encontrou o ambiente ideal para realizar suas incursões terroristas. Pouco depois de terminada a Guerra dos Seis Dias, os comandos palestinos iniciaram seus ataques sistemáticos a Israel. Ao longo do rio Jordão, na fronteira com Israel ou com as regiões ocupadas pelos soldados judeus, o El Fatah instalou cinqüenta bases r campos de treinamento. E desde a guerra de 1967, provocou mais de mil incidentes nas regiões ocupadas ou em território israelense. São incidentes de todos os tipos: uma carga de quatro quilos de dinamite no mais freqüentado supermercado de Jerusalém (dois mortos, nove feridos) ou uma bomba na estação rodoviária de Tel Aviv, na noite de uma sexta-feira, quando centenas de pessoas se preparavam para iniciar sua viagem de fim-de-semana. Ou, ainda, pequenas bombas de fabricação chinesa, muito parecidas com bolinhas de brinquedo, espalhadas pelas calçadas e jardins públicos - e prontas a explodir assim que uma criança as apanha. TENSÃO PERMANENTE - Esse terrorismo diário acabou criando em Israel uma tensão permanente, um clima de ansiedade. Os reservistas não vêem com entusiasmo a impossibilidade, cada vez mais patente, de retomar logo a uma vida normal. As famílias se mantêm em sobressalto cada vez que um de seus integrantes faz uma viagem. Os pais consideram com tristeza o efeito moral que a corrida diária aos abrigos antiaéreos causa sobre seus filhos. Como acontece, por exemplo, no "kibbutz" de Tirat Zvi, situado a cerca de 500 metros da fronteira jordaniana. Ali, 480 israelenses vivem uma vida de pesadelo: quarenta refúgios subterrâneos instalados dentro das próprias casas, trincheiras abertas na frente dos restaurantes e lavatórios coletivos, o alarme sempre pronto a soar. O mesmo tipo de tensão pode ser notado nas regiões ocupadas por Israel. Como na cidade de Nablus (65.000 habitantes), onde a cadeia nunca tem menos de 400 árabes em suas celas - 95% deles presos por colaborar com os terroristas. O fato de haver apenas 3% de funcionários israelenses na administração das regiões ocupadas (a polícia árabe continua em atividade e os "niukhtars" - prefeitos - não deixaram de administrar as cidades e vilas) de nada adiantou para evitar os atentados: eles aumentam invariavelmente, apesar das duras represálias dos judeus. LONGO PRAZO - Os trezentos israelenses mortos pelos guerrilheiros desde junho de 1967 representam uma perda importante. Proporcionalmente à população de Israel (2,5 milhões de habitantes), essa cifra corresponderia a quase 30.000 mortos nos Estados Unidos. (Até agora, após seis anos de guerra no Vietnã, os americanos perderam 33.000 soldados.) Para lutar contra o aumento dessas baixas, Israel já deixou de usar simplesmente o mecanismo de represália - como, por exemplo, dinamitar as casas de quem colabora com os terroristas. Depois de algum tempo, o comando militar israelense resolveu passar à ofensiva - e tem bombardeado sistematicamente os campos de guerrilheiros, como fez na semana passada na região de Irbid, no Norte da Jordânia. O efeito prático desses ataques, entretanto, não fica muito claro: embora sofram duras perdas (18% dos seus efetivos a cada confronto com os israelenses), os guerrilheiros árabes não diminuíram em nenhum momento o número de incursões ou atentados, nem pareceram ressentir-se na sua organização militar ou política. Baseados numa estrutura que prevê a luta a longo prazo, os guerrilheiros do El Fatah parecem ter se adaptado ao tipo de combate empregado por Israel. Pois, como pensa Yasser Arafat, os israelenses virão a ressentir-se das suas perdas da mesma forma que os americanos no Vietnã: com o passar do tempo. PRESENÇA PRINCIPAL - Enquanto o tempo passa, o EI Fatah firma-se, deitando cada vez mais fundo as suas raízes. Seu grande centro é a Jordânia: hoje os guerrilheiros são a presença principal no país do Rei Hussein e, desde os sangrentos choques de novembro último com a Legião Árabe (o exército real), eles mostraram claramente que não podem mais ser banidos pela força. Na Jordânia, país de 2 milhões de habitantes, há cerca de 700.000 refugiados palestinos, dos quais 400.000 chegaram após a guerra de 1967. Só em Amã há 150.000 deles, contra 330.000 jordanianos. É nesse meio que o El Fatah encontra uma fonte inesgotável de efetivos e sobre sua força numérica se baseia para organizar-se livremente por toda a Jordânia. Além das suas cinqüenta bases e campos de treinamento, de prédios próprios, veículos e depósitos, o El Fatah conta com outras facilidades. Como, por exemplo, uma linha telefônica exclusiva: basta discar o 02, em qualquer telefone da Jordânia, para entrar imediatamente em contato com a organização guerrilheira. No aeroporto de Amã, sempre que são descarregadas caixas trazendo a etiqueta "Nação Palestina", ou "Combatentes da Liberdade Contra Israel", jovens discretamente vestidos passam as barreiras da Alfândega e trocam algumas palavras com os funcionários. As formalidades são reduzidas ao mínimo e em trinta minutos as caixas já estão sendo transportadas nos caminhões do El Fatah. E, a qualquer momento do dia ou da noite, a emissora de rádio dos guerrilheiros transmite sem interferência em sua faixa de ondas. SEM
PIJAMA - Até junho de 1967, os refugiados palestinos não tinham
grande entusiasmo pela luta armada. Mas, a partir dos primeiros êxitos do
El Fatah, os voluntários começaram a aparecer, em número
cada vez maior. Hoje, esses refugiados continuam vivendo nos miseráveis
campos da UNRWA, mas com algumas diferenças: já é difícil
encontrar, como antigamente, homens em boas condições físicas
sentados de pijama em frente das tendas, por falta de ocupação,
esperando um milagre - provocado por Alá ou por Nasser - para voltar à
Palestina. Todo homem válido do sexo masculino, a partir dos oito anos
de idade, deve freqüentar um campo de treinamento. Ou, então, trabalhar Para o El Fatah, um grande impulso veio depois da batalha de Karamé, em março de 1968, quando durante dois dias os "feddayin" (guerrilheiros) e 15.000 soldados israelenses travaram uma luta de extermínio. A vila de Karamé ficou arrasada, mas os próprios judeus reconheceram uma nova combatividade nos palestinos. E, como resultado, os campos de treinamento do El Fatah passaram a receber um número muito maior de voluntários. Esses campos são atualmente divididos: para crianças e para adultos. Nos campos infantis, os meninos recebem as primeiras instruções militares, durante duas horas por dia, na folga que tem das aulas. Lá eles falam sempre em "sayouni" (sionista) más nunca em "yehoudi" (judeu), para não confundir a noção política com a noção religiosa. Eles têm de oito a catorze anos: quando chegam aos quinze, ganham o direito de admissão nos comandos e podem participar de operações contra Israel. Antes disso, entretanto, recebem certas tarefas: a porta da sede da polícia militar do El Fatah em Amã é guardada, freqüentemente, por dois meninos. EM CICLOS - Nos campos adultos, os estágios costumam ser feitos para grupos de 250 homens, durante três meses. (Recentente, o tempo foi reduzido para 45 dias, em razão do número excessivo de voluntários.) A instrução é completa: os candidatos a "feddayin" aprendem todas as disciplinas militares, os exercícios clássicos de travessia do fogo ou barreiras de arame farpado, a luta corpo a corpo. O estágio é feito em ciclos de sete dias: três dias de instrução militar, três de instrução política, um de discussão. No fim do treinamento, somente 50 por cento dos candidatos passam a ser combatentes efetivos. Mas, segundo dizem os oficiais, esses que sobram sabem realmente combater. O El Fatah assegura a alimentação de seus guerrilheiros (carne em conserva, queijo branco, azeitonas e biscoitos) e mantém pelo menos uma dúzia de hospitais subterrâneos e depósitos de munição. Quanto ao armamento o El Fatah parece estar razoavelmente servido: fuzis automáticos Kalashnikov (patente russa mas de procedência chinesa), granadas de mão belgas, morteiros de 85 milímetros russos, lança-foguetes Katyucha, também russos, lança-foguetes RPG tchecos (antitanque) e equipamento de rádio de procedência variada. Os guerrilheiros preferem comprar seu armamento na China (onde os preços são dez vezes menores que em qualquer outro país), mas um de seus fornecedores mais importantes é a International Armament Company, discreta firma de contrabandistas com sede no nebuloso Principado de Liechtenstein, paraíso dos negócios não muito ortodoxos. E os recursos financeiros? De modo geral, eles chegam através de doações, que costumam vir do Kuwait e de outros emirados do petróleo no Golfo Pérsico, onde uma taxa compulsória de 5% é cobrada sobre os salários de todos os palestinos que para lá emigraram. O dinheiro vem também da Arábia Saudita (contribuições pessoais do Rei) ou de Beirute, onde uma coleta recente rendeu 500.000 dólares. Ou de países onde existem colônias árabes. No início deste ano, enviados do El Fatah angariaram no Brasil, em poucos dias, 300 milhões de cruzeiros antigos. Uma parte do dinheiro arrecadado é empregada para fornecer uma pensão de 15 a 60 libras (142 a 570 cruzeiros novos) por mês às quatrocentas famílias de "feddayin" mortos em combate. NOVO ESTADO - Vivendo o dia-a-dia dos combates, e preparando um exército aguerrido para o futuro, o El Fatah surge hoje em dia como o problema número 1 para Israel - e como o principal obstáculo para uma paz negociada no Oriente Médio. Seus líderes sabem que uma vitória militar contra Israel é impossível agora, como é impossível que os israelenses aceitem sua solução: a extinção do Estado judeu e a restauração da Palestina birracial, onde a população árabe estaria sempre em maioria. Isso tudo, porém, não impede o El Fatah de continuar a sua luta de guerrilhas - que, a qualquer momento, poderá levar árabes e israelenses a uma nova guerra total. |