Oriente Médio, um barril
de pólvora permanente

As causas históricas do confronto e as
guerras entre árabes e judeus na região


Guerra dos Seis Dias: um dos momentos decisivos do histórico conflito

O confronto entre israelenses e palestinos ganha, a cada dia, capítulos repetidos de violência, intolerância e revanchismo, suspensos apenas por breves períodos de trégua. Apesar da atuação da comunidade internacional e das repetidas tentativas de negociação, o ciclo de violência parece nunca terminar. Em agosto de 2005, por exemplo, Israel promoveu uma retirada total da Faixa de Gaza - só para, meses depois, voltar com suas tropas em busca de um soldado seqüestrado por milícias palestinas. Foi mais um passo para trás no processo de paz iniciado em 1991, que determina a devolução de Gaza e, futuramente, da Cisjordânia.

Apesar das confrontos recentes, a problemática na Palestina é muito anterior a esses distúrbios. Para compreendê-la, é desejável viajar no tempo e retroceder ao menos até a formação do moderno Estado de Israel, em 1947, e mais ainda, até as Cruzadas e a Antigüidade - onde foram depositadas as sementes da discórdia entre povos e credos. Aquelas passagens nos ajudam a entender por que viver na Palestina é uma questão tão importante para palestinos e israelenses.

Judeus e cristãos - A localização geográfica da Palestina favoreceu a que a região se tornasse um ponto importante e problemático do Mundo Antigo: o território é um cruzamento de rotas entre Europa, África e Oriente Médio. Segundo os historiadores, as primeiras grandes disputas locais se deram entre palestinenses, filisteus e hebraicos. No século VII a. C., o antigo reino de Israel passou para o domínio da Babilônia, um império da região da Mesopotâmia, onde hoje fica o Iraque. O resultado desta batalha foi o primeiro êxodo de judeus, levados para a Babilônia, e a destruição de Jerusalém.

Nos séculos seguintes, o território passou pelo domínio de persas (539 a.C.), macedônios (331 a.C.), entre outros, até voltar às mãos dos judeus, entre 142 a.C. e 63 a.C.: naquele período, uma dinastia judaica conhecida como Asmoneus estabeleceu sede em Jerusalém. Porém, a maior parte de seus fiéis já havia se dispersado pelas regiões próximas. Finalmente, em 63 a. C., a Palestina foi anexada por uma força irresistível: o Império Romano. Houve revoltas e novo êxodo. Com o crescimento do cristianismo - tornado culto oficial em todo o Império no século IV -, a região tornou-se local importante também para cristãos. Durante os séculos seguintes, a maior parte da população passaria a ser formada por seguidores de Cristo.

Árabes e Islã - No ano de 638, a Palestina passou ao domínio de árabes muçulmanos, que se sucederam em diversas dinastias. Uma das mais importantes foi a dos Omíadas, que, entre outros marcos, ergueu em Jerusalém o Nobre Santuário na Esplanada das Mesquitas, onde antes ficava o Templo judaico. A cidade passou a ter enorme valor simbólico para as três grandes religiões monoteístas. Para os judeus, é a cidade do rei Davi e onde o Templo foi construído para guardar a Arca da Aliança. Para os muçulmanos, é o lugar do qual o profeta Maomé ascendeu aos céus. Para os cristãos, foi o palco da paixão de Cristo e de seu sepultamento. A presença árabe muçulmana influenciou, é claro, a vida local: costumes foram incorporados pela população, mas a assimilação da nova religião deu-se de maneira menos intensa, dizem os historiadores.

Depois de intensa coexistência, islâmicos e cristãos iniciariam choques violentos pelo controle da "sagrada" Jerusalém. Reinos europeus católicos enviaram milhares de soldados e famílias para conquistar a cidade e povoá-la. Organizada com o intuito declarado de arrancar o túmulo de Cristo das mãos dos "infiéis", a primeira Cruzada terminou, em 1099, com a tomada de Jerusalém. Em 1187, porém, os muçulmanos reconquistaram suas posições. Batalhas sangrentas e trocas de comando se seguiram. Por fim, os muçulmanos ficaram, promovendo uma intensa islamização da Palestina. Nos séculos seguintes, a população se tornaria islâmica em larga proporção - depois vinham cristãos e judeus, pouco numerosos.


Sionismo - No final do século XIX começou a gestação do futuro da Palestina. Por um lado, o Império Turco Otomano, que conquistara a região em 1517, começa a ruir, abrindo brechas para uma nova organização da região. Simultaneamente, na carona da afirmação dos Estados nacionais, cresceu um movimento internacional em favor da criação de um "lar para os judeus". Seus seguidores defendiam que uma nação judaica seria a única forma de assegurar a sobrevivência da uma cultura e uma fé oprimidas e dispersas pelo mundo. Nasceu, assim, o movimento sionista - termo derivado de Sião, um dos nomes de Jerusalém na Bíblia.

De início, não havia a determinação de que o "lar judaico" fosse estabelecido na Palestina: pensou-se até na Argentina. A escolha recaiu sobre a região do Oriente Médio tanto por razões religiosas quanto por circunstâncias geopolíticas. Do ponto de vista religioso, a Palestina fora a Terra Prometida por Deus aos judeus. Assim, o sionismo tornou-se uma promessa entre os judeus de muitas partes da Europa, que sofriam perseguições e pilhagens em muitos países. Entre 1881-1884 e 1903-1906, chegaram à Palestina as primeiras grandes levas vindas da Europa oriental. Já do ponto de vista econômico e político da época, a escolha da Palestina enquadrou-se nos projetos coloniais de Grã-Bretanha e da França, empenhadas na partilha do Império Otomano.

Mandato britânico - Ao contrário do que costumamos pensar, a moderna crise da Palestina não foi exclusivamente determinada após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945): o primeiro conflito mundial (1914-1918) foi fundamental na configuração dos conflitos. E, naquele cenário, os britânicos foram protagonistas. Ao final da Primeira Guerra, a Grã-Bretanha tratou de usar seu poder de potência aliada para desmantelar o Império Turco, aliado da derrotada Alemanha. Segundo o plano, a Palestina deveria fazer parte de um novo território árabe, mas França e a própria Grã-Bretanha acabaram por defender a internacionalização da área - o que acabou ocorrendo. Ao mesmo tempo, os britânicos prometeram a líderes do movimento sionista que promoveriam o estabelecimento do tão esperado "lar" para os judeus. Vale observar que, em 1918, a Palestina tinha 700.000 habitantes: 644.000 árabes (574.000 muçulmanos e 70.000 cristãos) e apenas 56.000 judeus.

Encerrada a guerra, a região passou à administração britânica (1922-1948). Naquele período, o movimento sionista aproveitou a infra-estrutura administrativa e econômica britânica para acelerar a formação de seu Estado. Para isso, intensificou a imigração dos judeus da Europa oriental e central, em três fluxos: 1919-1923, 1924-1928 e 1932-1940. A mudança no perfil da população local foi evidente: em 1931, havia cerca de 170.000 judeus entre pouco mais de 1 milhão de palestinos; em 1946, já eram 800.000, quase 50% da população total.

Guerra - Em 1937, ao perceber que os palestinos não aceitariam viver na nação dos judeus, os britânicos propuseram a divisão da Palestina em dois Estados - um árabe e o outro judaico. Dez anos depois, a ONU retomou a idéia. No dia 14 de maio de 1948, os judeus proclamaram a criação do moderno Estado de Israel. Um dia depois, na data em que os britânicos se retiravam da região, estourou a guerra: de um lado, israelenses; de outro, os árabes.

Ao final do conflito, Israel avançara sobre o território palestino. Ficaram de fora de seu controle apenas a Cisjordânia, ocupada pela Jordânia, e a Faixa de Gaza, pelo Egito - as três regiões, porém, seriam tomadas pelos israelenses em 1967. Jerusalém foi dividida: parte ficou com Israel, parte com a Jordânia. Cerca de 800.000 palestinos fugiram ou foram expulsos de suas casas devido à ocupação israelense. Essa população passou a viver como refugiada em países vizinhos.

Seis dias - A guerra de 1948 foi apenas o primeiro capítulo do moderno conflito na região. Em 1967, Israel avançaria ainda mais suas posições, alegando defender seu território e, portanto, seu direito de existência num região cercada de árabes. Em maio daquele ano, o Egito determinou o fechamento do Golfo de Akabá a embarcações israelenses. Semanas depois, Israel empreendeu uma ação relâmpago em apenas seis dias: ao sul, tomou do Egito a Península do Sinai e a Faixa de Gaza; no centro-leste, ocupou a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, que estavam sob administração jordaniana; por fim, invadiu as Colinas de Golã, da Síria. Não por acaso, a ação ficou conhecida como Guerra dos 6 Dias. O movimento provocou novo êxodo palestino: cerca de 50.000 fugiram para países vizinhos. Israel, por sua vez, iniciou a colonização dos espaços deixados, fixando milhares de judeus nos territórios ocupados.

A precariedade da situação palestina, porém, tornava-se gritante aos olhos da opinião pública mundial. Criada em 1964, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) concentrava os protestos dos desabrigados e pedia ao mundo uma solução à questão. Israel respondeu cautelosamente. Em 1982, após negociação, devolveu definitivamente a Península do Sinai ao Egito. Em 1993, o mundo assistiu esperançoso a um aperto de mãos entre o presidente da OLP, Yasser Arafat, e o primeiro-ministro israelense, Yitzhak Rabin: nos Estados Unidos, ele assinaram a "Declaração de Princípios sobre as Disposições Interinas de 'Auto-Governo'". Foi lançada ali a rota da paz, seguida até hoje, apesar de inúmeros desvios: entrega para a administração palestina de parte da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. No dia 1º de Julho de 1994, Arafat entrou em Gaza, depois de décadas de exílio.

Permanente conflito - Desde o histórico acordo de 1993, o processo de paz atravessou inúmeras paralisações. Em 2000, explodiu a segunda Intifada, revolta palestina contra a ocupação israelense, que desaguou em repressão das forças de segurança de Israel nas ruas palestinas e também em ataques à bomba contra civis israelenses. Os anos seguintes foram repletos de agressões de ambos os lados. Sangrentos atentados suicidas mataram centenas de civis israelenses em diversas cidades, com as facções radicais Hamas, Hezbollah, Brigadas de Mártires de Al Aqsa e Al Jihad se alternando na execução. Arafat perdera claramente o controle dos grupos nacionais. Israel, por seu lado, não acreditava que o líder palestino havia mesmo desistido de ações violentas - no passado, ele defendera a aniquilação de Israel.

Israel, sob o braço forte do primeiro-ministro Ariel Sharon, um ex-militar, respondia com truculência, matando terroristas, suspeitos e, muitas vezes, suas famílias e vizinhos. A tática foi apelidada de assassinatos seletivos e envolveu também a demolição de casas em zonas palestinas. A ação encurralou até mesmo o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Arafat, que permaneceu mais de uma vez sitiado em seu quartel-general em Ramallah. Na pior delas, passou quase um mês sob a mira de tanques. O líder palestino enfrentou ainda uma ameaça de extradição.

Troca de guarda - A entrada do novo milênio coincidiu com mudanças nas lideranças de israelenses e palestinos. No fim de 2004, morreu Arafat; pouco mais de um ano depois, Sharon afastou-se por motivo de doença. Ambos eram antigas lideranças. Em seus lugares, assumiram, respectivamente, Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), e Ehud Olmert, primeiro-ministro israelense. Os contatos entre os novos atores continuam ásperos, interrompidos por arroubos de violência de milícias sem controle. Com o Hamas, que desde junho de 2007 controla a Faixa de Gaza, as relações de Israel são ainda mais difíceis.

Portanto, apesar de alguns avanços, ainda resta muito a fazer pela solução da crise entre israelenses e palestinos.
As principais pendências para o futuro são: o controle de Jerusalém, reivindicado ao menos parcialmente pelos dois lados, a separação política de palestinos entre a Cisjordânia e a Faiza de Gaza, e a formação de um estado palestino.

 

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