As conseqüências
Os países pobres são os
que mais deverão sofrer
Escassez de alimentos já provoca mais
conflitos
De acordo com a Organização das Nações
Unidas (ONU), uma família dedica aproximadamente 15% de sua
renda à comida nos países ricos, mas essa proporção
pode chegar a 60%, 70% e até 75% do orçamento familiar
nos países em desenvolvimento. Um bom exemplo desse delicado
quadro são as conseqüências do aumento do trigo,
cujo preço saltou 130% em apenas um ano. Para uma família
pobre do Iêmen, isso significa comprometer um quarto de sua
renda apenas com a compra de pão. A falta de comida afeta
essas populações de tal forma que cresce até
mesmo o risco de conflitos civis.
Má-alimentação: barreira à saúde e à educação
A
subnutrição materna e infantil é a causa de mais de um terço
das mortes de crianças menores de 5 anos ao redor do planeta. Ao todo,
a desnutrição é responsável por cerca de 3,5 milhões
de mortes infantis ao ano, e também por 11% das doenças desenvolvidas
por mães e crianças. Gestantes subnutridas correm o risco de que
seus filhos apresentem problemas de desenvolvimento ainda no útero. Já
a desnutrição, quando ocorre em crianças, se não for
tratada até os 2 anos de idade, causa danos irreversíveis, como
retardo no crescimento, além de déficit de vitaminas e minerais
essenciais para o desenvolvimento humano.
O Fundo das Nações
Unidas para a Infância (Unicef) já alertou para a possibilidade de o aumento
dos preços dos alimentos agravar ainda mais essa situação, já
que as famílias terão de reduzir seus gastos com comida. Para o
Unicef, a atual crise também provoca "um risco
grande de que as famílias de países pobres tirem as crianças
da escola, porque estas precisarão trabalhar". No Camboja, o programa
de alimentação escolar da ONU atendia 450.000 crianças, para
muitas das quais a refeição na escola era a única equilibrada
do dia. Esse programa teve de ser interrompido porque o Programa Mundial de Alimentos
da ONU não tinha verba suficiente para mantê-lo após o aumento
dos preços.
América Latina -A
ONU alertou os governos dos países latino-americanos para que adotem medidas
a fim de evitar que a alta global no preço dos alimentos agrave o problema
de desnutrição na região. De acordo com a Organização
das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura
(FAO), há um risco de que cada vez mais pessoas deixem de ter condições
de adquirir alimentos básicos, aumentando a subnutrição nessa
área do planeta. Os países americanos de baixa renda e importadores
de alimentos - a maior parte deles na América Central - são os
mais vulneráveis.
Os
conflitos violentos provocados pela fome
A
alta no preço dos alimentos causou uma onda de protestos desde a África
até a América Central. Houve revoltas populares contra a fome no
Zimbábue (que mergulhou em profunda crise política), Mauritânia,
Camarões, Costa do Marfim, Burkina-Faso, Senegal, Coréia do Norte
e Haiti. Nesse último, a violência dos protestos deixou uma marca lamentável: cinco mortos e 60 feridos. Sobre os conflitos no continente africano,
o comissário europeu para o Desenvolvimento, Louis Michel, disse: "Delineia-se
uma crise alimentar mundial, menos visível que a crise do petróleo,
mas com o efeito potencial de um verdadeiro maremoto econômico e humanitário
na África".A
situação já provocou uma mobilização dos países ricos
em prol das nações mais pobres. O primeiro-ministro da Grã-Bretanha,
Gordon Brown, escreveu uma carta pedindo que a questão seja discutida durante
a próxima cúpula do G8. "O aumento do preço dos alimentos
ameaça anular os avanços em matéria de desenvolvimento obtidos
nos últimos anos. Pela primeira vez em décadas, o número
de pessoas que sofrem com a fome aumenta", alertou o premiê.
O
presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, propôs um "novo contrato"
alimentar em nível mundial para enfrentar o aumento dos preços dos
produtos agrícolas. O objetivo da idéia é enfrentar tanto
as emergências alimentares como estimular o necessário desenvolvimento
a longo prazo da agricultura. Um dos alertas mais preocupantes foi dado pelo diretor-gerente
do FMI, Dominique Strauss-Kahn, para quem a crise alimentar pode levar a guerras.
Ele garante que "não se trata de
assustar, mas de enxergar a realidade". Strauss-Kahn explicou que, quando há
situações "tão dramáticas", a população
critica seus governos mesmo que eles tenham feito tudo o que era possível - os líderes democraticamente eleitos podem cair em função de golpes de estado. "A história está cheia de guerras
que começaram por causa de problemas deste tipo", concluiu.
Haiti - Com 8,5 milhões de habitantes, o Haiti
é o país mais pobre do continente americano, e 80% de sua população
vive com menos de 2 dólares por dia. Esse foi um dos países que
sentiu de forma mais intensa os efeitos da crise dos alimentos. Isso porque os
haitianos importam a maior parte da comida que consomem, como resultado de políticas
de livre mercado que sufocaram a produção nacional. Em 1994, o Fundo
Monetário Internacional (FMI) criou um plano que reduziu as tarifas alfandegárias do arroz importado
de 35% para 3% no país. Em um ano, as importações do produto dobraram. Enquanto
Washington subsidiava seus próprios produtores, o do Haiti era proibido de fazer o mesmo
pelo acordo com o FMI. Durante os últimos 20 anos, a produção
de arroz haitiana se reduziu pela metade, enquanto as importações
dominaram o mercado. A importação acabou se tornando uma ameaça
à subsistência dos agricultores haitianos e torna os efeitos do súbito
aumento de preços dos alimentos ainda mais graves.
Coréia
do Norte - A situação dos norte-coreanos
também é bastante grave. As devastadoras inundações
que o país sofreu em 2007, somadas ao aumento mundial do preço dos
alimentos, levaram a Coréia do Norte à beira de uma crise perigosíssima.
Relatórios do Programa Mundial de Alimentação estimam que
6,5 milhões de norte-coreanos (de uma população de 23 milhões)
não comem o suficiente.