| As causas
Demanda cresce,
o clima
atrapalha
e o preço sobe
Emergentes crescem mais do que o esperado
A combinação
de cinco fatores principais desencadeou uma alta média de 57% nos preços
dos alimentos entre 2007 e 2008. O trigo, por exemplo, subiu 130%. Outro produto fundamental, o milho, teve seu preço dobrado nos últimos dois anos. Para as pessoas que vivem no limiar
da miséria, isso significa a fome. A gravidade da situação
já chamou a atenção dos principais organismos internacionais: a Organização das Nações Unidas (ONU), o Banco Mundial
(Bird) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). A seguir, as causas apontadas pelas principais entidades para explicar o problema - que, segundo o Bird, pode fazer com que 100 milhões de pessoas recuem na linha que separa a pobreza da miséria absoluta em função do encarecimento
da comida.
Países estão
comendo mais (principalmente os emergentes)
Este
pode ser considerado o principal fator para o surgimento da atual
crise. A economia mundial cresceu 20% nos últimos 4 anos,
aumentando o consumo de alimentos em países emergentes como
China, Índia e Brasil, onde vive uma parcela de mais de 30%
da população mundial. Uma mudança de padrão
de consumo é suficiente, portanto, para uma alteração
significativa na economia global. No ano passado, a China expandiu
seu produto interno bruto em 11,4%. A Índia cresceu 9,6%.
Não foi só isso. Além de comer mais, a população
desses países está se tornando mais urbana. Ou seja,
deixou de produzir o próprio alimento para comprá-lo
no supermercado, o que torna necessário que se produza mais
comida em larga escala para atender às cidades. O
crescimento da renda dos trabalhadores nesses países fez
com que mudassem seus hábitos de consumo e, por conseqüência,
sua dieta. Trocaram carboidratos por mais proteínas no cardápio
- basicamente carne, leite e queijos. Um bom exemplo é o
do consumo de carne na China. Segundo dados publicados pela revista
britânica The Economist, cada chinês consumia
em média 20 quilos de carne por ano em 1985. Hoje, consome
50. Maior consumo de carne quer dizer maior consumo de grãos.
Para produzir um quilo de carne bovina, são necessários
8 quilos de grãos.
Recordes
sucessivos do preço internacional do petróleo
O
preço do barril de petróleo aumentou 110% entre o o início
de 2007 e abril de 2008, o que elevou o preço dos transportes e dos insumos, como fertilizantes
a adubos. A interrupção da produção de petróleo
na Nigéria, a contínua queda do dólar ante o euro e o temor
pela crescente demanda da commodity na China fizeram com que o petróleo
chegasse próximo à casa dos 120 dólares em abril de 2008.
A China divulgou que importou um recorde de 4,09 milhões de barris por
dia de petróleo em março do mesmo ano. Já Nigéria
opera abaixo de sua capacidade por problemas de segurança. Dois oleodutos
que alimentam um terminal-chave de exportação foram atacados por
rebeldes e não puderam ser acessados pela Shell. As exportações
de 169.000 barris ao dia foram suspensas por três meses após um ataque
a um oleoduto. Aliada à crise mundial,
a alta do petróleo foi responsável por dobrar o preço da
tonelada dos fertilizantes. Além disso, algumas medidas tomadas pelos governos
dos principais países produtores pressionam ainda mais os preços
dos insumos. A Rússia impôs novas taxas à exportação,
enquanto a China decidiu que os fertilizantes não possuem mais prioridade
no sistema de transporte ferroviário, o que complica sua exportação.
Além do preço dos alimentos, o alto custo do petróleo influencia
também outros setores da economia, desencadeando uma inflação
geral.
A ação dos especuladores e a queda acentuada do dólar
No caso do trigo, o preço cresceu também em função da especulação financeira. A crise global de crédito originada nos Estados Unidos fez com que os investidores procurassem os fundos de commodities como alternativa para ganhar dinheiro. Acabaram ajudando a jogar os preços para cima. Os alimentos
são cotados internacionalmente em dólar. A especulação
do mercado e a queda constante nos preços das ações são
fatores que agravam ainda mais esse problema. A especulação retroalimenta o processo de alta no preço
da comida. Outro fator que tem certo peso no problema: a
cotação do dólar no mercado internacional caiu 37% nos últimos
6 anos. Isso também provoca a fuga para as commodities.
Aumento da
produção destinada aos biocombustíveis
O
principal problema tem relação com o etanol produzido
nos Estados Unidos. O Fundo Monetário Internacional (FMI)
estima que a produção de etanol americana é
responsável por metade do aumento da demanda mundial de milho
nos últimos três anos. Isso aumentou o preço
do milho e o preço das rações. Dessa forma,
aumentam também os custos de produtos bovinos e suínos,
já que o milho é usado em rações animais.
De acordo com o Departamento de Agricultura, o mesmo ocorreu com
outras colheitas - principalmente a soja - quando os produtores
decidiram mudar seus cultivos para o milho. O relator especial da
ONU para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler,
exagera: afirma que a produção em massa de biocombustíveis
representa um "crime contra a humanidade" por seu impacto
nos preços mundiais dos alimentos. Os críticos dessa
tecnologia argumentam que o uso de terras férteis para cultivos
destinados a fabricar biocombustíveis reduz as superfícies
destinadas aos alimentos e contribui para o aumento dos preços
dos mantimentos. O debate ecoou com força no Brasil. Como
o etanol é uma prioridade do governo brasileiro, o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva Lula reagiu. Acusou Ziegler de
não conhecer a realidade brasileira. No Brasil o etanol é
produzido a partir da cana-de-açúcar. Dos 355 milhões
de hectares disponíveis para plantio no país, somente
90 milhões seriam adequados à cultura de cana, que
atualmente ocupa apenas 7,2 milhões de hectares (metade deles
para a produção de açúcar). Em São
Paulo, a plantação de cana ocupou o espaço
de pastagens, nos últimos anos, sem que a produção
de carne bovina tenha diminuído. Enquanto Ziegler ataca os
biocombustíveis como um todo, outros representantes da ONU
reconhecem que o problema não está no Brasil, mas
sim nos EUA. E mesmo nesse caso há quem discorde da influência
negativa no preço dos alimentos.
Fatores
naturais que atrapalham a produção agrícola
Secas,
enchentes, pragas e doenças nos rebanhos provocaram graves quebras de safra na China, na Europa e Austrália, reduzindo a oferta de comida. A
Austrália, segundo maior exportador de trigo, teve forte
seca. Projeções oficiais dão conta de uma redução
de 10% nas chuvas até 2030, o que deve se traduzir na queda de 10% da produção
de trigo, carne bovina, lácteos e açúcar, além
de uma queda de 63% das exportações desse conjunto
de commodities. Nos últimos três anos, o Brasil teve secas tão
profundas no sul que perdeu 40 milhões de toneladas de grãos.
Os estoques de milho, trigo e arroz, os cereais básicos
para a alimentação do mundo, estariam em 70% das marcas de 1999.
|