| | Sociedade
Venezuelanos estão cada vez mais divididos A
característica mais marcante da sociedade venezuelana após oito
anos de chavismo talvez seja uma profunda divisão da população
em dois grupos que, caso venham a se unir novamente, precisarão de muito
tempo para isso. Não a divisão entre a elite oligárquica
e a maioria pobre e gloriosa, como quer o presidente coronel. Mas
sim uma separação entre aqueles que apóiam o governo populista
e personalista de Hugo Chávez, e aqueles que não compartilham dos
planos do presidente de implantar na Venezuela o que ele chama de "socialismo
do século XXI". Entre os que vão às ruas defender as
medidas autoritárias do aspirante a ditador em manifestações
freqüentemente convocadas e pagas pelo governo e os que não
concordam com a expropriação de empresas privadas, com a censura
aos formadores de opinião e com a criação de um partido único. Chávez
sustenta que a Venezuela é rica, mas uma elite perversa fica com todo o
dinheiro. A teoria simplista funcionou porque os venezuelanos, boa parte composta
de imigrantes ansiosos por fazer a América (o país tinha apenas
5 milhões de habitantes nos anos 50), foram criados sob o sonho de que
a riqueza petrolífera dava para todos. Não dava. A classe média,
que no fim dos anos 70 representava 65% da população, não
passa de 20% na primeira década do século XXI. A decepção
e o ressentimento crônicos viraram combustível para o ódio
entre as classes sociais, que o presidente alimenta. Dessa forma, a Venezuela
caminha para chegar a um ponto em que, aí sim, só haverá
uma burguesia abastada e uma multidão de miseráveis, vítimas
de um governo que lhes oferece ajudas eventuais em troca de votos, mas não
promove um desenvolvimento sustentado da economia que ajudaria todos a melhorar
de vida. "Boliburguesia"
- Esta elite, entretanto, não será composta pelos poucos empresários
e empreendedores que ainda persistem em prosperar longe das barbas do governo.
Ao contrário, será uma nova elite, formada por altos funcionários
públicos corruptos, sindicalistas e empresários cujo principal mérito
é bajular o ditador. Na Venezuela, essa nova classe, que cresce a cada
dia, é chamada de "boliburguesia", uma alusão a duas das
expressões mais usadas por Chávez: bolivariano e burguesia. A boliburguesia
de Chávez pode ser facilmente identificada nas lojas de Caracas de duas
maneiras. Primeiro, através do uso do bonezinho vermelho, peça básica
do vestuário dos militantes chavistas. Segundo, pelo estranho hábito
que seus integrantes têm de pagar tudo com pilhas e pilhas de dinheiro vivo
carros importados, uísque escocês e passagens para Miami. Enquanto
isso, uma fatia cada vez maior da população torna-se dependente
do estado comandado por esta gente. Ao aplicar o dinheiro do petróleo em
inúmeros programas sociais, Chávez criou uma rede assistencialista
de projetos conhecidos como misiones. Há misiones de alfabetização
de adultos, de cooperativas agrícolas, de atendimento médico e de
venda de alimentos subsidiados, entre outras. Embora entreguem às pessoas
o que prometem, não criam empregos ou condições para que
os pobres saiam definitivamente da miséria. Medo
- Aqueles que não dependem dos programas da presidência e ousam
se opor ao coronel mesmo que pelas vias democráticas vivem
com medo. Nas eleições legislativas de 2005, vencidas em massa pelos
chavistas, um CD com os dados de 12 milhões de eleitores, em que consta
também a orientação política do cidadão e como
ele votou no referendo do ano anterior, vazou. As informações foram
usadas pelo governo venezuelano para perseguir os adversários: quem votou
contra o presidente teve dificuldade para tirar passaporte ou conseguir um emprego
público. Em um país em que 15% dos postos de trabalho estão
no setor público, foi uma punição e tanto. Contra
ou a favor do presidente, os habitantes da Venezuela estão juntos em pelo
menos um aspecto: são todos vítimas de uma criminalidade que, de
tanto crescer, colocou o país no topo do ranking mundial de assassinatos
per capita. Desde que Chávez se tornou presidente, estima-se que ocorram
cerca de 10.000 homicídios por ano na Venezuela. Estima-se, porque não
há dados oficiais sobre o assunto. Sabe-se que, sob Chávez, o número
de homicídios na Venezuela triplicou. Foram mais de 72.000 assassinatos,
mas as estatísticas se referem apenas aos primeiros cinco anos depois
de 2004, o governo simplesmente baniu a divulgação de dados oficiais
sobre a violência. Outros índices de criminalidade também
dispararam no período. A quantidade de seqüestros cresceu em média
30% por ano. Para completar o quadro desolador, multiplicou-se por quatro o número
de mortos em confronto com a polícia. Fábrica
de misses - Para esquecer de tantos problemas, os venezuelanos e especialmente
as venezuelanas dedicam-se a uma de suas maiores paixões nacionais:
os concursos de beleza. Verdadeira fábrica de misses, a Venezuela já
conquistou quatro títulos de miss Universo, cinco de miss Mundo e cinco
de miss Internacional Quem não participa acompanha como se fosse a Copa
do Mundo. Transmitida ao vivo pela televisão, a escolha da miss Venezuela
e, depois, da miss Universo, atinge picos de audiência em torno de 90% no
país. Significa que nove em cada dez venezuelanos ficam de olho grudado
na telinha, torcendo pela miss que desfila em nome da pátria. Com tanta
coisa em jogo, é natural que não se deixe a seleção
por conta e risco da natureza. Na Venezuela, as candidatas a miss são selecionadas,
esculpidas, moldadas, lipoaspiradas, obturadas e treinadas em um mínimo
de conhecimentos gerais antes de pisar na passarela tudo isso por obra
e graça da Organização Miss Venezuela. Pena que, num país
tão bom neste quesito, onde as beldades podem até ingressar na carreira
política, o presidente Chávez ainda seja uma estrela. | |