Economia
O petróleo sustenta
um estado perdulário

A economia venezuelana gira basicamente em torno de um único produto: o petróleo. Todo o resto das atividades exercidas no país está, em maior ou menor grau, ligado à produção petrolífera – a quinta maior do mundo, e praticamente a única fonte de renda da nação. Foi o petróleo que colocou a Venezuela numa onda de prosperidade com a alta mundial dos anos 70, que levou-a para a enfermaria com a queda dos 80, e principalmente, que sustenta os desvarios do regime de Hugo Chávez, com os aumentos provocados pelas sucessivas crise no Oriente Médio deste início de século. O país vive, portanto, à mercê do mercado mundial de combustíveis, e dos mandos e desmandos de um governante que compromete o ainda vigoroso comércio petroleiro venezuelano.

Vigoroso, porém, no que diz respeito às receitas, que praticamente triplicaram entre 1998 e 2006. O resultado mascara um dado grave: no mesmo período, a produção de petróleo caiu cerca de 30%. A Venezuela perde a oportunidade de transformar este aumento de receita em aumento de produção, já que muito pouco do dinheiro vindo do petróleo é reinvestido no setor. No lugar de obras de infra-estrutura e capacitação de profissionais da área – cada vez mais escassos no país – a renda é aplicada em programas sociais assistencialistas do governo Chávez. Um importante estudo publicado em 2006 revelou que o orçamento da PDVSA, a estatal petrolífera venezuelana, prevê gastos com programas sociais dois terços maiores que seus investimentos em exploração e produção do combustível fóssil.

Com o dinheiro da venda do petróleo, o governo importa e subsidia produtos básicos – muitos dos quais é incapaz de produzir –, controla o câmbio e acaba provocando inflação. Os altíssimos gastos públicos do perdulário Chávez (alta recorde de 124% apenas entre 2005 e 2006) para distribuir a renda entre a população aumentaram o dinheiro em circulação no país. O excesso de bolívares estimulou o consumo e fez crescer os depósitos bancários. Só que ninguém tem coragem de tomar empréstimos para projetos de longo prazo. Ou seja, todo o poder de compra é despejado no consumo. A elevada demanda resulta em inflação – uma das maiores do mundo, cerca de 20% ao ano. Alimentos básicos como leite e carne somem das prateleiras venezuelanas eventualmente por causa da política gastadora do governo.

Ambiente inóspito - Existe na Venezuela um ambiente verdadeiramente inóspito ao progresso da economia de mercado. Os empresários, sejam venezuelanos, sejam estrangeiros, não investem em seus negócios para aumentar a produção industrial e o comércio, porque poucos querem arriscar seu dinheiro em um país onde o presidente passa suas cinco horas de programa dominical na TV mandando às favas o capitalismo. Nos primeiros oito anos do chamado governo bolivariano, o número de empresas na Venezuela caiu de 17.000 para 8.000. As medidas de Chávez contra o capital vão desde a apropriação de companhias privadas até o ridículo fechamento, em 2005, das oitenta lanchonetes da rede McDonald's e das quatro fábricas da Coca-Cola que operavam em território venezuelano. O populismo chavista parece ignorar que ele tem um superávit comercial de quase 30 bilhões de dólares com o país cujo governo ele demoniza – os Estados Unidos, principal comprador do petróleo venezuelano.

Devido a este ambiente para lá de instável, durante os dois primeiros mandatos de Chávez – entre 1999 e 2006 – os investimentos estrangeiros no país caíram pela metade e a classe média venezuelana ficou 57% menor. Sob Chávez, o número de famílias classificadas como pobres aumentou 18%. Já a renda per capita subiu menos de 1%. De acordo com o Centro de Documentação e Análise Social da Federação Venezuelana de Professores, instituto de pesquisas do sindicato da categoria, 80% dos domicílios venezuelanos tinham dificuldades em cobrir as despesas com comida em 2006 – a mesma proporção de quando Chávez chegou ao poder, em 1999, e quando o preço do barril de petróleo equivalia a um terço do seu valor em 2007.

Não satisfeito em debilitar a economia venezuelana, Chávez ainda emprega uma parcela considerável do dinheiro do petróleo para exportar a sua revolução a nações amigas igualmente pobres e complicadas – especialmente Cuba, cujas antigas mesadas da União Soviética são o que há de mais parecido com a ajuda que recebe hoje da Venezuela. Com exceção das pequenas repúblicas latino-americanas como Bolívia, Equador e Nicarágua, no entanto, as medidas de Chávez são irrelevantes para os vizinhos. Seu projeto contra a modernidade e a integração econômica acabará por isolar a Venezuela no cenário mundial. A miséria em que vive boa parte da população é um dos efeitos mais evidentes deste isolamento.