Personagem
Vladimir Putin

Um líder dividido entre a centralização
e o desenvolvimento democrático

Nascido em São Petesburgo - cidade chamada Leningrado entre 1914 e 1991 - em 7 outubro de 1952, Vladimir Vladimirovich Putin, filho caçula de um ex-militar da Marinha e uma trabalhadora regular de fábrica na ex-União Soviética (URSS), governou a Rússia durante oito anos. Ele assumiu o poder em 2000 e o entregou a seu sucessor e homem de confiança, Dmitri Medvedev, em maio de 2008. Graduado pelo Departamento Internacional da Faculdade de Direito em 1975, Putin foi logo recrutado pela polícia secreta da ex-URSS, a KGB, onde fez carreira e ascendeu meteoricamente ao posto de diretor de assuntos externos.

Em 1991, com o colapso da União Soviética e o nascimento da Federação Russa, Putin abandona o cargo na KGB e inicia sua carreira política. Torna-se o primeiro vice-presidente da cidade de São Petesburgo em 1994, cargo onde permaneceu até ser chamado por Moscou, em agosto de 1996, a executar uma variedade de funções e assumir diversos cargos durante a segunda administração federal de Boris Yeltsin. Foi o primeiro civil a dirigir a FSB – agência de segurança interna que substituiu a KGB – entre julho de 1998 e agosto de 1999. Também serviu como secretário do Conselho de Segurança, órgão que assessora diretamente o presidente da República, de março a agosto de 1999 – ano em que já era considerado o principal ministro da Rússia e apontado como provável sucessor presidencial.

As previsões estavam certas. Com a inesperada renúncia de Yeltsin em 31 de dezembro de 1999, Putin assume o comando do Executivo russo como presidente interino e, em março de 2000, é eleito presidente da Federação Russa no primeiro turno. Em seu primeiro mandato, considerado um fracasso em termos de desenvolvimento democrático, Putin ficou em meio ao fogo cruzado e influência de diversos setores políticos. Entre eles, ministros alinhados com a nomenklatura (casta dirigente) da era Boris Yeltsin, de um poderoso grupo de economistas reformadores de São Petesburgo, e até mesmo dos conservadores pertencentes ao Siloviki – agremiação independente ainda vinculada ao militarismo da antiga KGB.

Em termos práticos, Putin promoveu a centralização do poder em torno da figura presidencial, diminuindo sensivelmente a autonomia das 88 diferentes unidades representativas da federação (oblasts, republics, okrugs, krays e cidades federais). A medida, apesar de impopular, conseguiu desacelerar a eclosão de movimentos separatistas no território russo – com a exceção da campanha separatista na Chechênia, onde força militar vem sendo usada de forma não oficial desde 1999.

Ao mesmo tempo, Putin reformou a principal câmara da Assembléia Federal, o Conselho da Federação, onde governadores considerados "corruptos" imperavam. Para conseguir implementar as primeiras mudanças, o líder russo lançou mão de outros dispositivos pouco democráticos: começou a incentivar a prática de um partido único - que deveria apoiá-lo integralmente – e a restabelecer, gradualmente, o controle dos meios de comunicação de massa. Valendo-se também dos meios de comunicação oficiais do governo federal, Putin acabou reeleito em março de 2004.

Contradições - Em seu segundo mandato, Putin passou a combinar a centralização de poder e falta de autonomia das unidades federativas russas com a realização das reformas estruturais necessárias nos setores industrial, bancário, trabalhista, tributário, energético, político e de saúde. Em meio a essa complexa conjuntura, o que se vê na Rússia atual é uma busca acelerada pela definição do real papel do Estado na vida democrática. Tomando medidas contraditórias para o fortalecimento das instituições democráticas no país, Putin chegou a propor, ao mesmo tempo, o fim das eleições para a escolha dos governadores (que passariam a ser indicados pelo presidente) das entidades federativas subnacionais e o advento de eleições proporcionais para a escolha dos representantes da câmara baixa da Assembléia Federal, a Duma Estatal.

Sempre polêmico, Putin ganhou destaque internacional em 2005 ao decidir pelo indiciamento do homem mais rico da Rússia, Mikhail Khodorkovsky, presidente da companhia petrolífera Yukos. Enquanto Putin argumentava que Khodorkovsky estaria envolvido em uma série de graves esquemas fraudulentos na Duma Estatal (com o objetivo de sonegar impostos), a grande maioria da mídia internacional viu na ação uma tentativa de eliminar um poderoso oponente. Khodorkovsky promovia a fundação de uma oposição organizada ao governo dentro do próprio Kremlin.

Com uma discreta vocação totalitarista, ao menos pelo que se depreende de suas ações no campo da política doméstica, Putin entregou a seu sucessor uma Rússia cuja economia cresce 7% ao ano, e que possui enormes centros comerciais abertos com a entrada de capital estrangeiro. Putin aproveitou sua popularidade – cerca de 70% dos russos o apóiam – para esmagar nas eleições a oposição, duramente reprimida durante seu governo, e conseguir uma forma de se manter no poder sem alterar a Constituição. Medvedev, que trabalhou com Putin durante 17 anos, foi eleito com 70% dos votos e já lhe garantiu o cargo de primeiro-ministro.