Sociedade
Emigrantes enfim podem
voltar para casa

Tradicional exportador de gente,
Portugal agora recebe estrangeiros

A julgar pela obra dos dois supremos poetas da história de Portugal – Luís de Camões e Fernando Pessoa –, o personagem que maior influência teve na formação da identidade nacional portuguesa, se é que existe uma, talvez seja um morto há mais de quatro séculos. Precisamente em 1578, quando, aos 24 anos de idade, o rei Dom Sebastião partiu para o Marrocos para espalhar por lá o cristianismo. Na célebre Batalha de Alcácer-Quibir, Sebastião – o personagem em questão –, foi cercado por 50.000 muçulmanos, e morreu, junto de boa parte de seus soldados. A partir dali, o trono português caiu sob domínio espanhol, e a nação experimentou o fim de seu período mais próspero até então. A lenda que ficou para a história entretanto, é um pouco diferente: o rei não morreu em combate. Apenas desapareceu. Desde então, os portugueses esperam o seu retorno, e a volta aos tempos de glória. Estava fundado o mito do sebastianismo, projetado por Camões no século XVI (Os Lusíadas é dedicado ao rei, ainda vivo quando de seu lançamento) e revisitado por Pessoa no XX.

Fato é que, desde a morte do rei, o sebastianismo tem sido usado em diferentes momentos para explicar uma espécie de eterna decadência de Portugal, antigo protagonista relegado ao papel de coadjuvante. É como se o primeiro império da era moderna, pioneiro das Grandes Navegações, mantivesse adormecida a sua vocação natural para ser grande. Os portugueses estariam apenas esperando retorno do seu rei mitológico.

Repressão – O que a crença no mito talvez ignore é que esta vocação já existia antes de Sebastião, e permaneceu depois do desaparecimento do rei messiânico. Os grandes períodos de ocaso da história de Portugal estão mais associados à presença de uma grande força repressora no poder do que à falta de um salvador da pátria. Foi assim quando o reino sucumbiu sob a ocupação moura na Idade Média (antes mesmo da fundação do estado português), quando amargou 60 anos de domínio espanhol (depois de Alcácer-Quibir), ou quando isolou-se da Europa durante as mais de quatro décadas da ditadura salazarista.

Sem a presença destas forças superiores, a nação só conheceu vitórias. A expulsão dos mouros foi o ponto de virada que determinou a criação do estado nacional, além de definir as condições que fariam de Portugal a primeira potência marítima européia. Um século depois de encerrado o domínio espanhol, o país atravessou nova fase de avanços, personificados na figura do Marquês de Pombal. E bastaram dez anos livres do regime de Salazar para que os portugueses colocassem o país nos eixos e embarcassem no possante trem da União Européia.

Migração – A União Européia, aliás, talvez seja muito mais útil nos dias de hoje para entender a sociedade portuguesa do que o sebastianismo. Explica-se: historicamente, Portugal sempre foi uma nação de emigrantes. Fosse em busca da riqueza nas colônias (especialmente no Brasil), fosse para fugir dos tempos de vacas magras, os portugueses passaram séculos deixando a terrinha atrás de novas fronteiras. A UE consegui a proeza de inverter este fenômeno. De tradicional exportador de mão-de-obra, Portugal se transformou em pólo de imigração, inclusive recebendo de volta multidões de lusitanos emigrados.

Todo o esforço de modernização português pode não fazer do país um eldorado, mas é um dos poucos lugares do mundo onde a intolerância com os imigrantes, até agora, tem poucos componentes ideológicos ou raciais. Não há em Portugal nada parecido com os skinheads neonazistas da Alemanha ou com a Frente Nacional do francês Jean-Marie Le Pen. A aparente tolerância social portuguesa, o rio de euros da UE e a cordialidade do povo fazem de Portugal uma alternativa às rotas de imigração de mão-de-obra que partem da América Latina e da África, onde as esperanças se reduzem com a desordem econômica. À medida que o futuro se instala e os portugueses se sentem verdadeiros europeus na Europa, este quadro pode mudar. Até agora, entretanto, nenhum fato relevante leva a crer que a história será outra.