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Política
Depois da ditadura, o
triunfo da moderação
Do
equilíbrio entre esquerda e direita
surge a prosperidade da nação
A política
portuguesa contemporânea nasceu em 1974, quando a rebelião
militar a se que deu o nome de Revolução dos Cravos
pôs fim a mais de quatro décadas de ditadura salazarista.
Naquele instante, iniciava-se uma democracia tímida cercada
de conturbações, que chegariam a colocar Portugal
à beira de um conflito civil. Não era para menos.
Foram tantos os anos vividos sob um regime autoritário que,
ao se verem livres, os portugueses não souberam o que fazer
com sua liberdade.
Não
surpreende que, derrubado o primeiro-ministro militar Marcello Caetano
(Antonio Salazar já estava morto enquanto o salazarismo sobrevivia),
os portugueses tenham colocado no poder um outro general: Antônio
de Spinola. O comandante, autor do livro que inspirou o movimento
de abril de 1974, não durou seis meses no poder, mas foi
substituído pelos colegas de farda do Movimento das Forças
Armadas (de influência comunista). Completados quase dois
anos da Revolução, os portugueses foram à urnas
para eleger um novo presidente. O que fizeram: colocaram no poder
mais um militar, o general Antonio Ramalho Eanes. Portugal só
se veria livre dos militares na presidência em 1986.
Observando-se
este histórico, tem-se a impressão de que foi difícil
para os portugueses romper com a herança autoritária
do salazarismo. Não é bem assim. Ao mesmo tempo em
que manteve generais no poder por mais de uma década, o país
elegeu também uma nova Assembléia Constituinte
esta sem nenhum resquício dos tempos da ditadura. Se por
mais de 40 anos Portugal permaneceu sob a mão de ferro da
direita conservadora, a Constituição aprovada em 1976
tinha claros traços esquerdistas. Pudera: mesmo sem conseguir
maioria no Legislativo formado em 1975, o Partido Socialista (do
primeiro-ministro Mário Soares) foi quem deu as cartas no
nascente parlamentarismo presidencialista português.
Equilíbrio
A leve inclinação à esquerda de
um dos países mais acostumados à direita da Europa
só iria perder força na metade da década de
80, juntamente com a saída dos militares do poder. Com a
subida do Partido Social Democrata (PSD, de centro-direita) ao controle
do Parlamento em 1985, e a posterior eleição do socialista
Soares para a presidência em 1986, o país ao mesmo
tempo se livrava dos homens fardados e encontrava um equilíbrio
político que se mostraria extremamente benéfico. A
estabilidade entre direita e esquerda coincidia com a estabilidade
democrática. Não por acaso, foi neste momento que
Portugal aderiu à Comunidade Econômica Européia
(atual União Européia), e viu sua economia dar aquele
que talvez tenha sido o maior salto de sua história.
Privatizadas
para acompanhar a transformação, as grandes empresas
portuguesas tornaram-se influentes no cenário político.
E a classe política não ficou imune a denúncias
de favorecimento e corrupção na primeira década
do século XXI. O respeito da população para
com seus políticos têm caído nos últimos
anos.
No
entanto, o equilíbrio alcançado pelos portugueses
ao domarem a Revolução dos Cravos é, até
hoje, a principal característica de sua política,
de seu governo pluralista. Ao analisar o fenômeno português,
o inglês Kenneth Maxwell, historiador da Universidade Harvard
e especialista em Península Ibérica e América
Latina, afirmou que o triunfo dos moderados em Portugal foi um precedente
para as transições do autoritarismo à democracia
verificadas em fins dos anos 80 na América Latina e no Leste
Europeu. Noutras palavras, o movimento português de 1974 e
suas decorrências culminaram em uma direção
que ajuda a compreender a nova ordem que, anos depois, se instalaria
na Europa e fora dela inclusive no Brasil.
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