Política
Terrorismo e ditadura,
receitas para tragédia

Governo é aliado dos EUA, mas a força
dos radicais inviabiliza a paz

Depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, o Paquistão ficou ao lado dos Estados Unidos na luta contra o terror islâmico. Com sua ajuda, os americanos puderam derrubar o regime do Talibã no Afeganistão e causar estragos significativos nas fileiras da Al Qaeda de Osama bin Laden. Esperava-se que o Paquistão ocupasse papel importante no prosseguimento do combate ao fanatismo islâmico. Poucos anos depois, contudo, o país tem outro status: o de grande ameaça à paz mundial. Único país muçulmano com arsenal atômico, é um criadouro de extremistas que se aproxima perigosamente de um caos irreversível -- e pode dar origem a um novo Afeganistão.

Com suas lutas internas violentas, uma ditadura militar infiltrada por extremistas islâmicos e ogivas nucleares prontas para ser disparadas, o Paquistão tinha no retorno da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, em outubro de 2007, uma pequena esperança de ter um respiro democrático, capaz de se contrapor ao crescente fanatismo religioso. A esperança acabou abruptamente no dia 27 de dezembro, com o assassinato da ex-premiê. O Paquistão foi parar mais uma vez à beira do desastre. O chocante atentado à personalidade mais popular do país, líder do único partido de alcance nacional do Paquistão, já havia sido anunciado por grupos islâmicos radicais ligados ao Talibã.

Quando Benazir comunicou sua volta após oito anos de exílio, muitos de seus partidários a desaconselharam a fazê-lo, alegando absoluta falta de segurança, mas ela não cedeu da decisão. Logo no dia de sua chegada, quando se preparava para fazer uma carreata em Karachi, maior cidade do país, foi impedida por um ataque terrorista. Uma explosão matou cerca de 150 pessoas. Benazir, que estava em um caminhão blindado, saiu ilesa. A ambição de tornar-se pela terceira vez primeira-ministra também não agradava ao presidente Pervez Musharraf, a quem dirigia duras críticas. O general, que tomou o poder num golpe de estado em 1999, comanda o país com mão-de-ferro.

Entre os ditadores militares, Musharraf parecia um dos mais decentes. Além de aliado dos EUA, ele também é um homem sensato, a quem se podia confiar a guarda do arsenal atômico paquistanês. O que dizer agora do general? No fim de 2007, ele desfechou seu segundo golpe. No primeiro, derrubou um governo civil desmoralizado e corrupto. No segundo, revogou a Constituição, desbaratou a Suprema Corte e mandou prender opositores com um único objetivo: preservar o próprio poder. Por causa das pressões americanas, permitiu que Benazir voltasse. Um mês depois, porém, decretou estado de emergência e prendeu Bhutto. Só recuou após novas pressões dos EUA.

Com a popularidade em baixa, pressionado, de um lado, pela classe média moderna e urbana que deseja mais democracia no país e ameaçado, de outro, pelo fanatismo islâmico que pretende instalar um regime teocrático do tipo talibã, o general tornou-se um novo motivo de constrangimento para a política externa do governo George W. Bush. O Paquistão recebeu 11 bilhões de dólares em ajuda americana, mas foi incapaz de evitar que o país se transformasse no principal centro mundial de doutrinação e recrutamento de terroristas islâmicos. Nos últimos anos, as regiões fronteiriças com o Afeganistão passaram por um processo que tem sido chamado de "talibanização".

Com a morte de Benazir, abriu-se um vácuo em um país carente de lideranças. Dois de cada três paquistaneses desejavam a renúncia imediata do presidente Musharraf. Entre os fatores que contribuem para sua impopularidade, estão o aumento no preço dos alimentos e a impotência em conter o fanatismo islâmico. Desde os atentados em Nova York, em 2001, Musharraf atua de forma dúbia. Ao mesmo tempo que colabora com os EUA na identificação de terroristas, é negligente no controle do seu território. Nas áreas próximas ao Afeganistão, os sanguinários grupos muçulmanos radicais ligados à Al Qaeda e ao Talibã agem livremente e planejam ataques em outros países.

"Com a morte de Benazir, o Paquistão torna-se ainda mais perigoso que o Irã", disse a VEJA o israelense Ely Karmon, do Instituto de Contraterrorismo de Herzlia, Israel. "É um país fora de controle e, pior, com um arsenal atômico." O atentado tornou explosiva uma situação instável. O que vai ocorrer agora? Impossível dizer, mas há razões de sobra para temer. Desde a independência, em 1947, o país foi governado por ditaduras militares durante 33 anos. Suas escolas religiosas formam radicais islâmicos de todas as nacionalidades. E o extremismo islâmico, cada vez mais influente entre os paquistaneses pobres, é tão poderoso que o crime de blasfêmia é punido com a morte.