Sociedade
Desigualdade e violência: desafios recorrentes do México

Além do antigo abismo social, mexicanos
convivem com epidemia e cartéis

Tequila, mariachis e novelas não conseguem amenizar a realidade mexicana. Ao longo da história do país, os problemas sociais sempre consistiram em grandes desafios: as desigualdades e as diferenças entre o norte abastado e o sul miserável são alarmantes. Grande parte da riqueza industrial mexicana está concentrada em poucos estados, e o abismo social é agravado pela existência de milhões de indígenas muito pobres em algumas regiões. Se em Monterrey o panorama parece o de uma cidade desenvolvida, no estado sulino de Chiapas o cenário é semelhante ao da vizinha Guatemala. Já a capital - uma das maiores metrópoles do mundo, com mais de 19 milhões de habitantes - é o lugar no qual o novo e o velho México se encontram. Os mais ricos andam em carros blindados para se proteger de sequestros, enquanto convivem com quatro milhões de favelados.

Chiapas e Oaxaca são alguns dos estados mais atrasados do país. Em 2000, o então presidente Vicente Fox declarou a VEJA que lá a escolaridade média das crianças era de três anos, menos da metade do restante do país. "Em consequência, a região ficou atrasada também em termos econômicos. A solução dos problemas de Chiapas começa pelo fim do conflito armado com a guerrilha", afirmou. No fim do seu mandato, em 2006, Fox confessou que deixava o país com muitas mudanças a serem feitas: "Os atrasos continuam enormes. A pobreza subsiste. Ainda temos carência de oportunidades e de empregos no México. A parcela da população que está em idade de trabalhar, estudar ou comprar uma casa é muito grande. O país não tem capacidade de atender todos esses mexicanos." Em 2009, a situação não é diferente: dos cerca de 14 milhões de imigrantes ilegais que vivem nos EUA, boa parte é de origem mexicana, em busca de oportunidades que não encontraram em sua terra natal.

Violência - Os cartéis de drogas mexicanos, que atuam na fronteira entre o país e os Estados Unidos, são a grande causa do alto grau de violência presente no México atualmente. Mesmo com a inclusão de militares nas ruas para enfrentá-los, medida tomada pelo presidente Felipe Calderón há dois anos, a luta não tem sido fácil. Os traficantes são munidos de armas de fogo poderosas, grande parte delas vindas dos EUA. A fronteira é um dos mais movimentados pontos de passagem de drogas do mundo, apesar de 30.000 agentes de segurança participarem da operação contra o crime organizado no país. Estima-se que o narcotráfico mexicano, quase todo direcionado aos Estados Unidos, movimenta cerca de 20 bilhões de dólares e que dois terços das cerca de 350 toneladas de cocaína que entram no país anualmente cheguem via México.

Há cinco anos, a violência no México era essencialmente causada pela grande quantidade de seqüestros que aconteciam na capital. Só no primeiro semestre de 2004, foram 100 casos registrados pela polícia na capital mexicana - um a cada quarenta horas. De 1996 até 2004, a ocorrência desse tipo de crime aumentou 800%. A cidade, já com 17 milhões de habitantes, também era recordista mundial em roubo de veículos. Na época, 400.000 pessoas saíram às ruas para exigir uma resposta dura das autoridades. Foi então que o governo federal decidiu reagir, diminuindo a tolerância para todos os tipos de delito, mesmo os mais simples, e começando a investigar as ligações entre policiais corruptos e o crime organizado.

Gripe suína - Apesar desses quadros alarmantes, que acompanham o país há décadas, a sociedade mexicana encontra-se, desde abril de 2009, abalada especialmente pelo surto de gripe suína que já se alastra mundo afora. Causada pelo vírus influenza A (H1N1), novo subtipo do vírus da influenza, a doença soma centenas de afetados não só no México - onde foi identificada pela primeira vez -, mas em vários outros países. A população mexicana precisou mudar completamente sua rotina, e a vida na capital praticamente parou por alguns dias: igrejas, estádios, escolas e vários outros locais se mantiveram fechados e, quem ousava sair às ruas, vestia máscaras, temendo ser contaminado.