Política
Um poder pulverizado entre diversos partidos

História mostra a necessidade da
costura de alianças para governar

Falar sobre a política italiana é viajar mais de 2.000 anos na história, desde o início da República Romana no século VI a.C. Contudo, basta um olhar mais detido sobre a vida recente da Itália para concluir que o empirismo não resultou em aprimoramento. Desde a II Guerra Mundial, o país teve 61 governos - uma média de pouco mais que 11 meses para cada mandato. O governante que por mais tempo conseguiu se manter no poder, o magnata das comunicações Silvio Berlusconi, está longe de ser um exemplo de liderança. Acusado de lavagem de dinheiro, evasão fiscal, suborno e até de ligações com a máfia, ele foi reeleito primeiro-ministro por duas vezes (a última em abril de 2008). Essa façanha foi conquistada em grande parte devido às inevitáveis coligações partidárias - fenômeno que não é exclusividade italiana.

Já em seus primórdios, os habitantes da região do Lácio deram mostras da importância do apoio da base para um governo viável. Júlio César foi um dos exemplos mais célebres de como a centralização do poder nas mãos de uma única pessoa pode levar à derrocada - e, pelo menos nesse caso, também à morte. Nesse sentido, a Itália de César não difere muito da Itália de Berlusconi. Um dos empresários mais ricos do continente europeu e dono de um império televisivo e editorial, o atual primeiro-ministro italiano precisou de inúmeras coligações partidárias para chegar ao poder. Para isso, fez alianças com diversos partidos - desde neofascistas a grupos separatistas. Essas coligações políticas têm sido uma regra para se governar na Itália, tendo o poder se pulverizado entre as diversas legendas existentes.

Candidato a premiê da Itália em 2008 pelo Povo da Liberdade (PDL), de centro-direita, Berlusconi conseguiu derrotar seu rival da centro-esquerda, o ex-prefeito de Roma Walter Veltroni, do Partido Democrático (PD). As eleições foram realizadas três anos antes do previsto, devido à dissolução da coalizão de centro-esquerda do então primeiro-ministro, Romano Prodi, após menos de dois anos de governo. Agora, o desafio do Cavaliere, como Berlusconi é conhecido, será manter a união de sua heterogênea coalizão, formada pelo PDL, pela direitista Aliança Nacional, com base de apoio no sul da Itália, e pelo partido autonomista Liga Norte, defensor do federalismo e de maior autonomia para as regiões ricas do norte italiano. A título de nota, divergências com a Liga Norte já motivaram a saída de Berlusconi em seu breve primeiro mandato (de maio a dezembro de 1994).

A vantagem desta nova fase de Berlusconi no Palazzo Chigi, sede romana da Presidência do Conselho de Ministros, é a ausência da esquerda radical, que não conseguiu se ver representada na Câmara e no Senado no último pleito. O PD (antigo PCI, ou Partido Comunista Italiano) de Veltroni recusou-se a fazer coligações com os partidos comunistas e, mesmo derrotado, ainda representa a única oposição significativa no país. Além disso, a vitória da coalizão de Berlusconi no Parlamento foi acompanhada pelo triunfo da centro-direita em diversas regiões e províncias nas eleições para os governos locais, um fenômeno que indica uma forte guinada do país à direita.