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Sociedade
Sob
os véus e turbantes,
mas de olho no Ocidente
O
iraniano tem uma vida dupla, vivendo
entre o atraso e a esperança
O
mais enérgico movimento social a emergir no Irã desde
1979 foi o das mulheres. Apesar de obrigadas a esconder os cabelos
com lenços pretos, as iranianas conquistaram posições
importantes no governo, na universidade e na imprensa. Não
é uma situação comum no mundo islâmico,
sobretudo nos países árabes. Ao contrário,
as mulheres são privadas de direitos básicos na maioria
deles e não há notícia de nenhuma organização
pelos direitos femininos que tenha sobrevivido por muito tempo.
A situação de inferioridade da mulher no Islã
decorre, sobretudo, dos costumes patriarcais, mas a religião
desempenha seu papel. Inspirada nos preceitos do Corão, a
lei concede ao marido o direito de repudiar a esposa, sem que ela
possa contestar ou pedir pensão. Na situação
inversa, o divórcio exige da mulher longas batalhas judiciais.
Em muitas nações, a mãe divorciada só
pode criar as filhas até os 12 anos e os filhos até
os 10. Daí em diante são entregues ao pai. Em vários
países, a viúva não tem direito à herança
do marido, repartida apenas entre a prole masculina.
Em
2000, os eleitores deram aos candidatos reformistas uma espetacular
vitória no Irã. Não demorou muito para que
os aiatolás de linha dura, que detêm o poder real no
país, fossem à forra: proibiram a circulação
de dezesseis jornais alinhados com o reformismo moderado do presidente
Mohammed Khatami. O recado foi claro. O pessoal de turbante, que
há mais de duas décadas tenta enquadrar iranianos
nos usos e costumes do século VII, quando o profeta Maomé
orientava pessoalmente seus fiéis, não aceita pacificamente
o resultado das urnas. Os dois Irãs, de um lado os reformistas,
mais abertos ao Ocidente e ao bem-estar gerado pelo desenvolvimento,
e do outro os conservadores, apegados ao obscurantismo fundamentalista,
empenham-se agora numa espécie de duelo fatal. A dicotomia
entre o novo e o velho pode ser notada no dia-a-dia das pessoas.
É como se houvesse um país público, em que
tudo é proibido, e um privado, onde se pode quase tudo. Em
Teerã, é possível observar mulheres vestidas
com lenços coloridos em vez do preto tradicional, com as
unhas pintadas, o rosto maquiado e com mechas de cabelo aparecendo
por baixo do véu. Casais de namorados andam de mãos
dadas, apesar da ameaça da polícia religiosa armada
de metralhadora e chibata. A música popular e a dança,
banidas após a revolução, renascem às
claras. Tudo na mais absoluta e tolerada ilegalidade. Até
as antenas parabólicas, mesmo proibidas, começam a
proliferar, muitas delas camufladas dentro de tendas.
Moda
e maquiagem - A florescente indústria cinematográfica
do país retrata o processo de mudança cultural. Grandes
nomes, como o diretor Mohsen Makhmalbaf, antes um fiel seguidor
do regime dos aiatolás, hoje produzem filmes com conteúdo
crítico. Em parte, os aiatolás estão colhendo
agora o resultado de uma política desequilibrada. Antes da
revolução islâmica de 1979, apenas 54% da população
sabia ler e escrever. Hoje, 72% dela está alfabetizada. As
mulheres foram as que mais aproveitaram a oportunidade. Quase a
metade dos universitários do país pertence ao sexo
feminino. Para todos os efeitos, o Irã ainda é um
país miserável, com mais de 50% da população
vivendo abaixo da linha de pobreza. Bem-educados, os jovens, que
são dois terços da população e não
vivenciaram a derrubada do xá, cobram agora as mudanças
prometidas nas eleições. Sem o apoio deles, é
pouco provável que os aiatolás consigam brecar as
reformas. A abertura lenta e gradual preconizada por Khatami deve
continuar, mas nada impede que outros percalços apareçam
pelo caminho.
No
Irã oficial, regido pela batuta severa dos turbantes negros,
as mulheres são obrigadas a usar um manto negro, e a ínfima
exibição de fios de cabelos pode ser punida com chibatadas
públicas. Tudo o que lembra a cultura ocidental - livros,
revistas, discos e filmes - continua banido. Na vida real, é
diferente. No Irã da maioria dos iranianos, a maquiagem e
a preocupação com a moda estão de volta ao
dia-a-dia feminino. O descompasso tem uma explicação:
o clero islâmico, que tenta conservar o poder com mão
de ferro, está perdendo a luta pela alma do povo iraniano.
Dois terços da população do Irã têm
menos de 25 anos. A maioria não tem nenhum sentimento especial
em relação ao xá Reza Pahlevi, o tirano destronado
pela revolução islâmica, ou por Ruhollah Khomeini,
o aiatolá que liderou o movimento. Também começa
a se perder a lembrança da sofrida guerra com o Iraque, que
matou 400.000 iranianos e terminou em 1988.
A
nova geração de iranianos vive às voltas com
as urgências de um cotidiano complicado, de opressão
religiosa, isolamento internacional e tremendas dificuldades para
tocar a vida. Como os empregos são escassos, os jovens adiam
o casamento até ter dinheiro suficiente e um lugar para viver.
As universidades estão tão apinhadas que só
aceitam um em cada dez candidatos. Apesar de algumas restrições
terem sido atenuadas, homens e mulheres não podem cruzar-se
no mesmo ambiente, exceto se forem parentes próximos. Música
laica e bebida continuam proibidíssimas. Uma parte do drama
se explica pela dificuldade de manter um país enorme e vibrante
como o Irã à margem do mundo moderno. Em Teerã,
a cidade mais liberal do país, a mensagem do "Grande
Satã" (como os aiatolás chamam a cultura ocidental)
é consumida com avidez. O resultado é uma população
obrigada a uma vida dupla. Exceto por alguns grupos no exílio,
não há contestação organizada ao poder
do clero. O que está corroendo o regime é a revolução
silenciosa dentro da cabeça dos iranianos. Apesar de as aulas
ainda começarem com o brado ritual de "morte à
América", a audiência de emissoras como a CNN
e a BBC evidencia o fascínio pela cultura ocidental, sobretudo
a americana.
Esporte
'fútil' - Em 1998, enquanto estudantes reformistas e
militantes conservadores se enfrentavam nas ruas de Teerã
por causa da prisão do prefeito da cidade, Gholam-Hossein
Karbaschi, o jornal Iran, editado pela agência oficial Irna,
publicou uma notícia aparentemente irrelevante: as iranianas
seriam autorizadas a jogar futebol. Mulheres e futebol são
dois elementos que estão na origem do movimento pela abertura
do fechado regime dos aiatolás. A classificação
da seleção do Irã para a Copa do Mundo da França
provocou uma irreprimível onda de euforia impossível
no país. As comemorações do empate contra a
Austrália, que garantiu a vaga ao Irã, levaram às
ruas milhares de pessoas, numa manifestação de massa
inédita desde os tempos da revolução islâmica
que derrubou o xá Reza Pahlevi, em 1979. Um considerável
contingente dos manifestantes era constituído por mulheres,
que pela primeira vez em vinte anos ignoraram a proibição
de participar de atos públicos lado a lado com homens. As
manifestações foram tão amplas que não
permitiram a intervenção dos guardas da revolução,
sempre prontos a reprimir qualquer transgressão às
normas do Islã.
Uma
das características mais marcantes dos fundamentalistas muçulmanos,
em qualquer país, é sempre a obsessão por controlar
o comportamento da mulher, em todas as esferas. É por isso
que cada "transgressão", por menor que seja - um
lenço colorido no cabelo em lugar do preto regulamentar,
um toque de batom nos lábios -, ganha dimensão política.
Assim, para as iranianas, tradicionalmente mais independentes do
que as mulheres dos países árabes, foi uma considerável
vitória obter autorização para freqüentar
estádios e a promessa de poder jogar futebol. Até
a revolução dos aiatolás, o Irã era
um dos países líderes do futebol no Oriente Médio.
Campeã por três vezes da Copa da Ásia, a seleção
praticamente havia feito sua despedida dos campos internacionais
na Copa da Argentina, em 1978.
Um
ano depois, com o regime dos aiatolás no poder, o futebol
foi proibido. A exemplo de outros valores culturais introduzidos
pelos colonizadores ingleses no início do século,
o futebol passou a ser considerado atividade fútil e sinal
de decadência ocidental. Em matéria de esporte, os
fundamentalistas permitiam apenas a luta clássica. Só
dez anos mais tarde, coincidindo com a morte do aiatolá Khomeini,
o futebol voltou a ser tolerado. A transmissão de jogos pela
televisão, porém, continuou proibida e até
bem pouco tempo atrás só era permitida a publicação
em jornais e revistas de fotos dos jogadores de meio corpo, sem
mostrar as pernas. O futebol é uma das raras formas de lazer
permitidas aos jovens, que não podem dançar nem ouvir
música profana, pelo menos em público. O interesse
e a paixão pelo esporte crescem no mesmo ritmo da insatisfação
popular com o regime.
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