Política
Uma democracia gigante apoiada em bombas

Em casa, 670 milhões votam; no
exterior, disputas com o Paquistão

Uma das passagens mais conhecidas da história da Índia moderna ilustra o grau da rivalidade entre os indianos e seus vizinhos paquistaneses. Em janeiro de 1948, Mahatma Gandhi foi assassinado poucos meses depois de conduzir a Índia à independência em relação ao Império Britânico. Fora um processo longo, sofrido e, por determinação de Gandhi, levado a cabo pelos separatistas sem uso de violência. Detalhe: os tiros que tiraram a vida do líder pacifista hindu não foram disparados por britânicos nem muçulmanos – rivais históricos dos hindus –, mas por um ex-seguidor revoltado com as concessões feitas por Gandhi aos vizinhos paquistaneses durante a criação dos Estados da Índia e do Paquistão.

Não surpreende que hoje um dos mais delicados assuntos nacionais seja a disputa com o Paquistão pelo território da Caxemira. Situada ao norte dos dois países – e ainda na fronteira com a China –, a Caxemira é uma porção montanhosa de terra de 200 mil km², menor do que o Estado de Rondônia. Vivem ali pouco mais de 7 milhões de pessoas, sendo que dois terços delas são muçulmanas, fato que reforça as reinvindicações do Paquistão pela posse do território. Insultos, provocações e agressões de parte a parte são constantes, além de três conflitos declarados, em 1947, 1965 e 1971.

Velha disputa – Pela configuração da Caxemira – montanhosa, pobre, pouco populosa para os padrões locais –, a disputa tem mais razões históricas do que econômicas. Em primeiro lugar, está o antagonismo entre os seguidores das religiões islâmica e hinduísta. Desde que os muçulmanos avançaram sobre aquela parte do planeta, entre os séculos VII e XII, os povos que já habitavam a Índia têm se ressentido da presença de outro credo. Finalmente, em 1947, consumada a separação dos britânicos, hinduístas e muçulmanos concordaram que seria necessária a criação de dois Estados: a Índia, de maioria hindu, e o Paquistão, muçulmano. A população da Caxemira, porém, não foi levada em conta na partilha. O marajá Hari Singh, hindu que governava a região, ignorou a fé de sua gente e ofereceu o território aos partidários de Ghandi.

Atualmente, dois terços da Caxemira original ainda permanecem sob administração de Nova Délhi, um terço está em mãos paquistanesas e há ainda uma pequena parcela repassada pelo Paquistão aos chineses. É mais um foco de atritos com os indianos. A disputa tem desaguado em violência crescente nos últimos anos. Milícias assustam as populações locais e muitas vezes realizam ações terroristas. A resposta dos dois Estados, Índia e Paquistão, tem sido a acusação mútua de financiar os agressores, além de reprimi-los com violência semelhante.

Bomba – A hostilidade entre as duas nações levou também à corrida atômica – incentivada, aliás, pelas potências mundiais. Nos anos 60, a Índia se aproximou da União Soviética, obtendo infraestrutura e tecnologia. Já o Paquistão, curiosamente, manteve laços com China e com Estados Unidos. Para os americanos, por exemplo, não era interessante que apenas chineses e soviéticos possuíssem artefatos atômicos na região, daí o incentivo à maratona da bomba. Eram os anos da Guerra Fria. Em 1974, a Índia fez seu primeiro teste nuclear. Quatorze anos depois, em 1998, foi a vez do vizinho. Alguns analistas, entretanto, afirmam que, embora dominem a tecnologia, nem indianos nem paquistaneses teriam arsenal para uma guerra.

Em casa – Além da bomba, a Índia se orgulha de possuir, ao menos em termos numéricos, a maior democracia do mundo: entre 1,095 bilhão de habitantes, pouco mais de 670 milhões de pessoas com mais de 18 anos estão habilitadas a votar nas eleições, segundo dados do governo. Só para se ter uma dimensão do que isso significa, para garantir o correto funcionamento de um pleito, é necessário o trabalho de mais de 4 milhões de pessoas.

Depois da independência da Grã-Bretanha e da criação da República, em 1950, o cenário político indiano se apresentou fragmentado em várias forças. Porém, um poder quase hegemônico se formou ao redor do primeiro homem a ocupar a posição de primeiro-ministro: Jawaharlal Nehru. Ele inaugurou uma espécie de "dinastia familiar" que durou cerca de 40 anos na República laica, sendo substituído, após pequeno intervalo, pela filha, Indira Gandhi. Ela, por sua vez, transferiu a influência para o próprio filho, Rajiv Gandhi. Os dois foram assassinados em disputas que misturam política e religião. A suspensão da "dinastia" inaugurada por Jawaharlal Nehru se deu no fim dos anos 80. A nova fase coincidiu com outra grande guinada nacional: a abertura econômica, que tem colocado o país entre as principais potências do mundo.