Economia
Em crescimento, no
calcanhar dos chineses

Aberto ao mundo, país cresce
aceleradamente, mas enfrenta miséria

No início da década de 90, a Índia viveu um daqueles impasses por que passam as grandes nações. Seguindo praticamente a mesma política estabelecida por seu primeiro governo independente, em 1947, o país vivia política e economicamente isolado do resto do mundo. Consequência disso, a estrutura material da nação era precária, a ponto de se aproximar da estagnação. Foi justamente aí que começou a guinada que tem feito a economia indiana crescer a taxas médias anuais de 6% em tempos recentes – o dobro da crifra mundial –, apoiada sobretudo na tecnologia. A explosão faz do país a segunda economia que mais cresce em todo o planeta, atrás apenas da China.

Para chegar a esta realidade, os indianos tiveram que operar várias mudanças, que, aliás, ainda estão em curso. A primeira delas foi uma ampla abertura na economia. Para se ter uma idéia, antes, o capital estrangeiro sofria fortes restrições na participação em empresas do país, o que evidentemente desestimulava investimentos externos. Depois das reformas, as restrições foram derrubadas e empreendedores de todo o mundo passaram a procurar a Índia como um mercado promissor. Atualmente, apenas o setor bancário ainda impõe uma pequena barreira aos estrangeiros: simbólicos 2%; os 98% restantes do capital das empresas ficam livres para participação de quem quiser investir.

Virando o jogo – Outro ponto da agenda de mudanças foi o combate à corrupção estatal, antes uma espécie de norma no país. Nem mesmo ícones nacionais como a ex-primeira-ministra Indira Gandhi escaparam do comportamento ilício na gestão dos negócios públicos – Indira chegou a ser presa. Desde o início de modernização da economia, o combate à corrupção tem sido uma batalha cotidiana dos governos, ainda que, segundo eles mesmos, ainda haja muito por fazer. O país tomou ainda outras medidas fundamentais para começar a virar o jogo. Abriu crédito com taxas justas para as empresas fazerem o que é seu negócio: produzir riquezas e gerar empregos. Além disso, iniciou um programa de desburocratização que facilita a criação de negócios. Um exemplo: enquanto um empresário brasileiro precisa cumprir cerca de quinze passos legais para abrir seu negócio, um indiano o faz em menos de dez.

Outro fator fundamental foi a redução da carga tributária, que desonera a produção, favorece o estabelecimento de novos negócios no mercado interno, externo e, é claro, gera empregos. E o país pretende ir ainda mais fundo: há projetos para a criação de áreas especiais de comércio e indústria, em que a incidência de impostos seria zerada, favorecendo a produção. Segundo estudos americanos, todo esse esforço será recompensado. Em menos de dez anos, o Produto Interno Bruto (PIB) indiano deverá ultrapassar o da Itália e, logo depois, o da Inglaterra. Desde a guinada dos anos 90, a renda per capita nacional subiu de 359 para 640 dólares. E os primeiros beneficiados foram os mais de 200 milhões de indianos que engrossam a classe média nas grandes cidades.

Tecnologia – O crescimento é variado na Índia, mas a pepita que reluz nesse cenário é mesmo o setor tecnológico. Isso mesmo: o país que adora uma conjunção complexa de deuses tão antigos quanto sua história milenar é atualmente um dos líderes da indústria de alta tecnologia, especialmente software. A indústria indiana de informática tornou-se respeitada por dominar o desenvolvimento de sistemas complexos de computador. São programas capazes de cuidar do processamento de dados de satélites, resolução de imagens de máquinas de ressonância magnética e monitoramento de redes de comunicação, entre outras funções.

Basta olhar dois números para constatar essa pujança eletrônica: o setor de software e serviços prestados via internet já equivale a 60% do total praticado pelas empresas americanas. A indústria de informática indiana movimenta 10 bilhões de dólares anuais e as previsões são de que esse número pode saltar para 50 bilhões de dólares em pouco tempo. Circunstâncias específicas explicam o fenômeno, somadas ao já descrito impulso econômico iniciado nos anos 90. No final da década anterior, as primeiras empresas de tecnologia e software se estabeleceram na cidade de Bangalore e adjacências. Eram poucas, mas logo receberam incentivos do governo para tocar o negócio adiante.

Além disso, é importante notar dois outros fatores que ajudaram o salto: uma forte tradição no ensino científico e técnico no país e o uso do idioma inglês, herança da presença britânica. A língua garante grande potencial às empresas e profissionais indianos. Facilita, por exemplo, a transferência de grandes companhias de tecnologia para o país, além de fazer com que cada profissional de alto calibre indiano já esteja apto a falar a língua da tecnologia.

A competência científica dos indianos é um capítulo à parte. As áreas de matemática, física e, mais recentemente, software são especialidades enraizadas na elite. É também uma das heranças mais marcantes dos três séculos de dominação britânica. Os ingleses deixaram na antiga colônia o gosto pelas ciências e uma tradição de ensino rigoroso e criteriosa avaliação de desempenho. Tanto assim que a Índia já colheu três prêmios Nobel nas ciências, em Física, Medicina e Economia.

Assim, enquanto o Brasil forma cerca de 36 mil engenheiros, matemáticos e outros profissionais de alta tecnologia por ano, a Índia diploma algo como 300 mil. O país está liderando a "colonização" da internet com os grandes centros ligados por fibras ópticas e comunicação de alta velocidade por satélite. Outra vantagem competitiva dos indianos são os baixos salários: chegam a ser apenas um quinto dos pagos a profissionais de mesmo nível nos Estados Unidos. Por isso é mais lucrativo para as empresas americanas de ponta contratar indianos do outro lado do mundo.

Desafios – O esplendor do crescimento, porém, contém um paradoxo: mais de 300 milhões de pessoas, uma vez e meia a população brasileira, vivem com menos de 1 dólar ao dia, abaixo da linha que separa a pobreza da miséria. Quase metade os indianos não sabe ler nem escrever. Há cerca de 75 milhões de crianças malnutridas abaixo dos 5 anos de idade. Para encarar esses desafios, a "nova" Índia aposta nos benefícios provenientes do desenvolvimento econômico. Além disso, o governo vem aplicando programas específicos. Um exemplo é o Plano Nacional de Emprego Rural Garantido, que pretende beneficiar diretamente 137 milhões de miseráveis. O objetivo é garantir cem dias de emprego por ano para chefes de família dos municípios mais pobres da zona rural, onde vivem seis de cada dez indianos. O custo anual é de 3 bilhões de dólares. Cada inscrito é convocado a integrar uma frente de trabalho (construção de pontes, escolas ou estradas) em um raio de 5 quilômetros de sua casa. Pelo trabalho, recebe o equivalente a um salário mínimo durante o período do ano em que normalmente ficaria ocioso.