VEJA Recomenda
Literatura e cinema

Obras britânicas indicadas pela revista nos
últimos anos, na seção VEJA Recomenda

Livros

A Linguagem de Shakespeare, de Frank Kermode (tradução de Barbara Heliodora; Record; 462 páginas; 54,90 reais) — “Ninguém pode se livrar de Shakespeare sem abolir a própria idéia de literatura”, diz o inglês Frank Kermode, um dos mais renomados críticos literários da atualidade, logo no início desse livro. O professor aposentado da Universidade Cambridge desmonta toda a crítica “multiculturalista” que pretende fazer do autor de Hamlet apenas um porta-voz do imperialismo inglês. Mas Kermode tampouco engrossa o caldo dos idólatras de Shakespeare. Sua análise da arquitetura formal das principais peças do autor é acurada, separando o joio do trigo — momentos de poesia ruim que convivem com a inigualável complexidade artística de Shakespeare.

Jamais Ceder! (tradução de Antonio Carlos Braga; Jorge Zahar; 358 páginas; 49 reais) — Durante a II Guerra Mundial, os discursos do então primeiro-ministro inglês Winston Churchill levantavam não só a moral de seu país: transmitidos pela rádio BBC, eles davam esperança aos povos sob jugo das tropas nazistas na Europa continental. Por meio de sua oratória — compilada nesse volume por seu neto, Winston S. Churchill —, é possível ter uma panorâmica do conflito, assim como de outros grandes embates políticos do século XX. A seleção cobre desde sua primeira fala pública, em 1899, quando ele se lançava na política, até 1963, dois anos antes de sua morte. Churchill aborda do comunismo ao radicalismo islâmico, com uma lucidez que conserva a atualidade de seus discursos.

Contos Completos, de Virginia Woolf (tradução de Leonardo Fróes; Cosac & Naify; 472 páginas; 59 reais) — Autora de romances como Mrs. Dalloway e Orlando, a inglesa Virginia Woolf (1882-1941) também era uma grande contista, empregando nesse gênero a mesma evocação impressionista de atmosferas e sentimentos que caracteriza suas narrativas longas. É a primeira vez que se editam seus contos completos no Brasil, e o texto Um Diálogo no Monte Pentélico, inspirado por uma viagem que ela fez à Grécia em companhia do irmão, é inédito no país. O livro é organizado em ordem cronológica, o que permite acompanhar a evolução de Virginia no caminho de se tornar a maior voz feminina do modernismo inglês. A edição traz um apêndice com notas sobre as circunstâncias em que a autora produziu cada conto.

Aventuras e Descobertas de Darwin a Bordo do Beagle, de Richard Keynes (tradução de Sergio Goes de Paula; Jorge Zahar; 390 páginas; 49,50 reais) — Em 1831, o jovem naturalista inglês Charles Darwin partia para uma viagem de cinco anos a bordo do navio Beagle. Visitaria a América do Sul — inclusive o Brasil — e a Oceania. Foi nessa longa viagem que ele amadureceu a idéia da evolução por meio da seleção natural, que cerca de vinte anos depois seria apresentada em A Origem das Espécies. Bisneto de Darwin, o cientista Richard Keynes — que em 1951 trabalhou com Carlos Chagas Filho, no Brasil — pesquisou extensivamente cartas, diários e outros documentos para reconstituir aquela que é talvez a mais famosa excursão científica da história. O livro é ilustrado com desenhos feitos por Darwin e outros viajantes do Beagle.

Sherlock Holmes, Volume 1, de Arthur Conan Doyle (tradução de Maria Luiza X. de A. Borges; Jorge Zahar Editor; 496 páginas; 89,50 reais) — Reunindo doze contos escritos pelo escocês Arthur Conan Doyle (1859-1930), esse livro é o primeiro de uma coleção de seis volumes que vai coligir todas as histórias protagonizadas por Sherlock Holmes — ainda hoje o mais popular detetive da ficção mundial — e seu fiel amigo doutor Watson. O grande diferencial dessa edição são as mais de 600 notas, a cargo do advogado americano Leslie Klinger, uma autoridade “sherlockiana”. Elas esclarecem os mais diversos detalhes, da vida urbana de Londres no século XIX às armas usadas por Holmes e Watson. O livro é enriquecido ainda por uma introdução de John Le Carré e pelas ilustrações das revistas em que os contos foram originalmente publicados.

Laranja Mecânica, de Anthony Burgess (tradução de Fábio Fernandes; Aleph; 224 páginas; 36 reais) — Apesar de ser um seguidor confesso daquele que é considerado um dos escritores mais difíceis do século XX — o irlandês James Joyce, autor de Ulisses —, o inglês Anthony Burgess (1917-1993) conseguiu se tornar um escritor pop. Narrativa em primeira pessoa dos crimes e desventuras de Alex, líder de uma gangue juvenil, Laranja Mecânica popularizou conceitos como “ultraviolência”. Lançado originalmente em 1962 (e brilhantemente adaptado para o cinema por Stanley Kubrick), o romance retorna às livrarias brasileiras em nova tradução. E não perdeu nada de sua vitalidade, o que é raro entre peças de ficção científica que, como esta, se situam em um “futuro próximo”.

Obrigado, Jeeves, de P.G. Wodehouse (tradução de Cássio de Arantes Leite; Globo; 280 páginas; 38 reais) — Prolífico autor de quase 100 livros, o inglês Pelham Grenville Wodehouse (1881-1975) é lembrado principalmente como o criador do ocioso ricaço Bertram Wooster e seu fleumático mordomo Jeeves. Obrigado, Jeeves, de 1934, é o primeiro dos onze romances estrelados por essa dupla tipicamente britânica. Mestre do humor, Wodehouse desenvolveu um esquema simples mas muito eficiente para compor as aventuras dos personagens: o atrapalhado Wooster mete-se em enrascadas que só o sensato Jeeves consegue resolver. Nesse livro, cabe ao mordomo salvar seu patrão de um compromisso matrimonial que ele, solteirão boa-vida, não deseja de jeito nenhum.

Mestre dos Mares, de Patrick O’Brian (tradução de Domingos Demasi; Record; 430 páginas; 45 reais) — O inglês Richard Patrick Russ — mais conhecido por seu pseudônimo, Patrick O’Brian — publicou, a partir de 1969, vinte livros de aventuras navais que se tornaram um dos grandes fenômenos editoriais da Inglaterra nas últimas décadas. As peripécias do capitão Jack Aubrey, oficial da Marinha britânica durante as guerras napoleônicas, deram origem ao filme Mestre dos Mares, que traz o ator Russell Crowe no papel principal e recebeu dez indicações ao Oscar. Aproveitando a deixa, a obra de O’Brian — que morreu em 2000, aos 85 anos — começa a ser publicada no país. Nesse primeiro livro, Aubrey conhece seu fiel companheiro de viagens, o cirurgião Stephen Maturin. Em alto-mar, eles enfrentam batalhas descritas de maneira espetacular pelo autor.

A Balada do Velho Marinheiro, de Samuel Taylor Coleridge (tradução de Alípio Correia de Franca Neto; Ateliê Editorial; 232 páginas; 65 reais) — Publicado originalmente em Baladas Líricas, livro de 1798 que é um marco do romantismo inglês, A Balada do Velho Marinheiro é uma das mais belas criações de Coleridge (1772-1834). O poema narra, em 600 versos, a trágica história de um marinheiro cuja viagem é amaldiçoada depois que ele mata um albatroz, ave de bom agouro. Essa edição bilíngüe, além de contar com uma ótima tradução, traz vários bônus: outro poema do autor, intitulado Kubla Khan, ensaios do tradutor e dos críticos Alfredo Bosi e Harold Bloom — e as expressivas ilustrações de Gustave Doré para o poema.

Coma, de Alex Garland (tradução de Léa Viveiros de Castro; Rocco; 160 páginas; 24 reais) — O escritor inglês Alex Garland ganhou fama com o romance A Praia, que originou um filme com Leonardo DiCaprio. Coma narra uma história muito diferente da aventura tropicaliente de A Praia. O protagonista é Carl, um escritor que, na tentativa de defender uma mulher de um assalto no metrô, acaba sendo espancado por uma gangue juvenil. Ele pensa ter voltado para casa depois de uma temporada no hospital, mas descobre que toda a sua realidade é um sonho — o livro narra o esforço de Carl para despertar de seu coma. Essa história onírica é ilustrada com os sombrios desenhos do cartunista político Nicholas Garland, pai do escritor.

Homens em Armas, de Evelyn Waugh (tradução de Antonio Sepulveda; Nova Fronteira; 304 páginas; 39,90 reais) — O inglês Evelyn Waugh (1903-1966) serviu como oficial na II Guerra Mundial, combatendo na Iugoslávia. Primeiro romance da trilogia A Espada da Honra, este Homens em Armas recupera as experiências pessoais do autor na guerra — temperadas pela verve satírica que tornou o estilo de Waugh único. Guy Crouchback, um inglês de meia-idade que passou anos vivendo na Itália, retorna a seu país natal na esperança de participar do esforço de guerra, mas, a princípio, não consegue que o aceitem no Exército. Depois de muitos incidentes, consegue se alistar em um grupo de comandos que se formava na Escócia — cujo coronel roubara a mulher de Crouchback sete anos antes.

Fogo Negro, de C.J. Sansom (tradução de Flávia Rössler; Record; 560 páginas; 60 reais) – Formado em história e ex-advogado, o inglês C.J. Sansom faz uma convincente reconstituição da Londres do século XVI em Fogo Negro. Mais importante, o autor também sabe armar uma envolvente trama policial. A história é narrada em primeira pessoa pelo corcunda Matthew Shardlake, advogado e detetive que já estrelava Dissolução, livro de estréia de Sansom. A serviço de Thomas Cromwell, poderoso conselheiro do rei Henrique VIII, Shardlake investiga o assassinato de dois alquimistas que teriam descoberto o segredo do fogo negro, lendária arma utilizada em batalhas navais. Ao mesmo tempo, Shardlake tem doze dias para salvar da execução uma jovem injustamente acusada de assassinato.

A Casa do Sono, de Jonathan Coe (tradução de Marcello Rollemberg; Record; 400 páginas; 49,90 reais) — O inglês Jonathan Coe é conhecido por seus painéis satíricos da história recente de seu país, como O Legado da Família Winshaw, retrato da era Thatcher, e Bem-Vindo ao Clube, reconstituição da década de 70. A Casa do Sono começa nos anos 80, numa república de estudantes, e avança até a década seguinte, quando o mesmo prédio vira uma clínica para tratamento de distúrbios do sono — estranhamente, com os mesmos ocupantes da república estudantil. A mulher que sofre de narcolepsia, o rapaz que só chega ao orgasmo quando pressiona os olhos da namorada, o crítico de cinema que nunca lembra o que sonhou — com esses personagens esquisitos, Coe conduz o leitor aos sonhos das décadas passadas.

A Linha da Beleza, de Alan Hollinghurst (tradução de Vera Whately; Nova Fronteira; 464 páginas; 49,90 reais) — Nick Guest é um estudante da Universidade de Oxford que, nos anos 80, vive num quarto alugado na mansão de Gerald Fedder, membro conservador do Parlamento inglês. Nick se torna amante de um cocainômano desocupado que vive da fortuna do pai. Com esses personagens muito ricos, mas pouco admiráveis, o escritor inglês Alan Hollinghurst traçou um retrato ácido da sociedade inglesa na era Thatcher — a própria dama de ferro, aliás, faz uma aparição cômica no livro. Apesar da veia satírica que permeia a narrativa, a história acaba com tintas trágicas, com o surgimento da aids. Essa combinação de humor e melancolia rendeu à obra o prestigioso Prêmio Booker de 2004.

Colina Negra, de Bruce Chatwin (tradução de Luciano Machado; Companhia das Letras; 344 páginas; 47,50 reais) — O inglês Bruce Chatwin (1940-1989) era um sujeito inquieto. Chegou a largar um emprego como avaliador de obras de arte da casa de leilões Sotheby’s para viver entre as tribos nômades do Sudão. O romance Colina Negra traz personagens que são o oposto da inquietude do autor: o universo dos gêmeos Lewis e Benjamin se restringe à sua fazenda, na fronteira entre a Inglaterra e o País de Gales. Submetidos ao pai tirânico, eles atravessam a II Guerra Mundial quase sem perceber as conseqüências do conflito. Chatwin retrata de forma impressionante um lugar no qual o tempo parece ter parado.


Filmes

Elizabeth (Elizabeth, Índia/Inglaterra, 1998, Warner) — Um indiano dirige uma australiana no papel de uma das mais poderosas monarcas que a Inglaterra já teve, Elizabeth I, filha do cabeça-dura e mulherengo Henrique VIII. Graças em boa parte ao talento da protagonista, Cate Blanchett, o resultado é empolgante. A rainha é retratada não no auge de sua influência, como na maioria dos filmes que já se produziram sobre a personagem, e sim na juventude, quando aprendia a duras penas a sobreviver às inúmeras intrigas políticas que cercaram sua subida ao trono, em 1558. A fita não vale como aula de história, já que o diretor recorreu a várias imprecisões para apimentar a trama, mas rende um bom suspense.

Doutor Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, Inglaterra, 1964. Em preto-e-branco. Columbia) — Basta ler as bravatas militaristas do presidente americano George W. Bush no noticiário para perceber que essa comédia dirigida por Stanley Kubrick no auge da Guerra Fria continua atual. Aqui, Peter Sellers (em três papéis), George C. Scott e outros ótimos atores decidem o rumo da tensão nuclear entre as nações com a despreocupação (e os blefes) de quem participa de um joguinho de pôquer. O DVD traz os extras de praxe — making of, entrevistas —, mas o que realmente interessa é o filme, um clássico e uma raridade, já que nunca foi lançado em vídeo no Brasil.

A Festa Nunca Termina (24 Hour Party People; Inglaterra/França/Holanda, 2002) — Do fim dos anos 70 até o início dos 90, a cidade de Manchester foi a capital do rock na Inglaterra. Ali surgiram grupos de grande sucesso e influência, como o Joy Division, o New Order e o Happy Mondays. A Festa Nunca Termina é uma divertida reconstituição daquela cena musical, que deixaria uma marca indelével. O ponto de vista é o de Tony Wilson (vivido pelo comediante Steve Coogan), um ex-repórter de TV que se tornou proprietário de duas verdadeiras instituições da época: a gravadora Factory e a boate Hacienda. A fita traz à tona os bastidores da vida dos principais músicos locais, com todos os seus dramas e loucuras.

A Vida de Brian (Life of Brian, Inglaterra, 1979. Columbia) — As mulheres que põem barbas falsas para se fingir de homens e poder participar de um apedrejamento? O Sermão da Montanha em que ninguém entende patavina do que Jesus está dizendo? O número musical dos crucificados? É impossível escolher a melhor tirada dessa terceira incursão do grupo inglês Monty Python no cinema, que parodia o nascimento do cristianismo através de Brian, um coitado que passa a vida sendo confundido com o Messias. Mais: ainda que o humor aqui venha disfarçado de nonsense, seu poder de fogo é considerável. Depois de uma hora e meia, não há pilar da civilização ocidental que não tenha sido arrasado pelas investidas do Monty Python.

Domingo Sangrento (Bloody Sunday, Irlanda/ Inglaterra, 2001. Paramount) — O 30 de janeiro de 1972 é uma data negra na história dos conflitos entre Inglaterra e Irlanda do Norte. Nesse domingo, uma passeata pacífica na cidade irlandesa de Derry terminou em massacre, com treze homens mortos pelas forças britânicas. O episódio não só interrompeu o processo de paz que se desenhava como insuflou a adesão ao terrorismo do IRA. Domingo Sangrento relembra esse dia em estilo documental, pelos olhos do grande ator James Nesbitt — no papel de Ivan Cooper, o líder do movimento pelos direitos civis que organizou a marcha. Acompanhar Nesbitt enquanto ele vê seu sonho desmoronar e se transformar em tragédia é uma jornada perturbadora e angustiante.

Sexy Beast (Inglaterra/Espanha, 2001) — Os ingleses têm uma longa tradição nos filmes de gângster. Mas, ao contrário dos americanos, influenciados pela mitologia da Máfia, costumam retratar esses personagens como operários do crime — homens que estariam numa fábrica, ou na fila do seguro-desemprego, se não tivessem passado para o lado de lá da lei. Gal Dove (Ray Winstone), o protagonista de Sexy Beast, pertence a essa linhagem. Com uma diferença: ele finalmente descobriu o lazer. Aposentado na Espanha, ao lado da mulher, Gal toma sol, farta-se de lulas e cerveja e nem se imagina de volta “àquela latrina” — a Inglaterra. Até que um antigo parceiro (Ben Kingsley) invade sua vida para obrigá-lo a um último golpe. Kingsley, é bom lembrar, ganhou o Oscar pelo papel do pacifista Mahatma Gandhi. Aqui, numa atuação memorável (pela qual concorre neste ano à estatueta de coadjuvante), ele é a fúria em pessoa, e despeja insultos e ameaças como se fosse um vulcão em erupção. Dirigido com estilo e concisão, o filme é um bom exemplo da renovação do cinema inglês.

Agora ou Nunca (All or Nothing, Inglaterra/França, 2003. Fox) — Nenhum outro diretor hoje se aventura com tanta sensibilidade pelo mundo da classe operária inglesa quanto Mike Leigh, ganhador do Festival de Cannes com Segredos e Mentiras. Em Agora ou Nunca, Leigh coloca em cena os dramas de um punhado de moradores de um conjunto habitacional londrino — a moça que cobiça o namorado truculento da vizinha, o casal que afunda junto na bebedeira, o taxista que se sente um zero à esquerda, a mãe que só ouve insultos, e por aí vai. O que há de especial no trabalho do diretor é como ele refuta o determinismo: o que destrói seus personagens não é a falta de dinheiro ou o emprego ruim, mas a dificuldade de concretizar seus desejos mais inefáveis — amor, conexão ou um sentido para a vida.

Extermínio (28 Days Later..., Estados Unidos/Inglaterra/Holanda, 2002) — Jim sofre um acidente e, ao fim de 28 dias em coma, acorda num hospital absolutamente deserto. Sai às ruas de Londres e vê a mesma coisa — ou seja, ninguém. À medida que encontra outros poucos sobreviventes, ele descobre a causa da devastação: um vírus, libertado do laboratório por ambientalistas, que transforma os seres humanos em monstros de ira, prontos a trucidar quem virem pela frente. O inglês Danny Boyle, que dirigiu Trainspotting, recupera-se do fiasco de A Praia com esse misto de terror, comédia e aventura feito para ser B. Roteirizado pelo escritor Alex Garland (também autor de A Praia) e rodado em vídeo digital, Extermínio é direto, vigoroso e sem frescuras, qualidades que andam muito raras no cinema de entretenimento.

Spider — Desafie Sua Mente (Spider, Canadá/Inglaterra/França, 2002) — Quando o protagonista Dennis Cleg (Ralph Fiennes) desce de um trem numa estação inglesa, amarfanhado e murmurando palavras incompreensíveis, quase é possível sentir seu cheiro — que deve ser de mofo, suor antigo e umidade que nunca chega a secar. Como sempre, essa capacidade de provocar sensações físicas com suas imagens é um dos pontos altos do trabalho do cineasta canadense David Cronenberg nesta brilhante adaptação do romance homônimo do inglês Patrick McGrath. Como sempre também, o diretor de A Mosca, Gêmeos — Mórbida Semelhança e Crash se dedica aqui a escrutinar os aspectos mais doentios e ilusórios da natureza humana. Cleg, que acabou de sair de um manicômio, reconstitui obsessivamente o trauma que o teria levado à internação, ainda na infância — seu pai teria matado sua mãe para trocá-la por uma prostituta. Aos poucos, porém, constata-se que nada é o que parece. As atuações são excepcionais, em especial a de Miranda Richardson, em três papéis. E Cronenberg, que desta vez não inclui nem uma única cena repugnante no roteiro (algo inédito), faz seu melhor filme em muito tempo.

O Barato de Grace (Saving Grace, Inglaterra, 2000) — Viúva e falida, a simpática Grace (Brenda Blethyn) não vê outra saída para seus problemas de caixa a não ser dar um uso lucrativo ao seu talento para a jardinagem. A planta que ela escolhe — a maconha — tem mercado garantido. O detalhe é que esse tipo de agricultura pode dar cadeia, e Grace carece de experiência com o mundo das atividades ilegais. A seu favor, ela tem a ajuda de seu jardineiro, a cumplicidade dos vizinhos e a proteção dos roteiristas, bem mais interessados em explorar o talento de Brenda (que foi indicada ao Oscar por Segredos e Mentiras) do que em pregar o uso de drogas. Na mesma linha do sucesso Ou Tudo ou Nada, essa comédia tira partido das excentricidades e da proverbial tolerância dos ingleses. O resultado é despretensioso e agradável.

Meu Nome É Joe (My Name Is Joe, Inglaterra, 1998.) — Os regimes de esquerda vão sumindo do mapa, mas o diretor inglês Ken Loach continua o mais renhido dos socialistas. O que, no seu caso, está bem longe de significar chato ou panfletário. Loach é um apaixonado por política e cinema, mas acima de tudo ama seus personagens. Por isso seus filmes não tratam de “idéias” ou “movimentos”, e sim de gente colhida por circunstâncias. É o caso, por exemplo, de Terra e Liberdade, que retratava a Guerra Civil Espanhola por um prisma incomum: as miudezas que compunham o dia-a-dia de um bando de despreparados voluntários. Em Meu Nome É Joe, ele inova mais uma vez. O cenário são os subúrbios cinzentos de Glasgow, na Escócia, onde os personagens têm de lutar contra pobreza, drogas e agiotas, entre outras mazelas. Mas o filme é um romance, e dos mais inspirados. Em foco estão Joe (Peter Mullan, premiado em Cannes pelo papel), um ex-alcoólatra, e a assistente social Sarah (Louise Goodall). Poucos cineastas podem gabar-se de extrair tal sinceridade de seus atores, como ele faz na cena em que o casal põe as cartas na mesa pela primeira vez. De quebra, Loach tem humor: a seqüência em que o time de várzea treinado por Joe veste uniformes da seleção brasileira de 1970 vale boas risadas.

O Grande Truque (The Prestige, Estados Unidos/Inglaterra, 2006) – Na Londres da virada do século XIX para o XX, dois jovens mágicos concorrem para desvendar os respectivos truques – primeiro movidos pela vingança, já que um atribui a morte de sua mulher ao outro, e depois pelo simples espírito de rivalidade, que nada é capaz de aplacar. O truque do filme: ambos os protagonistas têm carreira como super-heróis, Hugh Jackman como Wolverine e Christian Bale como Batman. O que mais interessa ao diretor inglês Christopher Nolan (de Amnésia e Batman – O Retorno), porém, é a diferença entre o que se vê e o que se pensa ter visto – o que é, de certa forma, uma homenagem ao próprio cinema. O filme tem ainda ótimas participações de Michael Caine e David Bowie

Café da Manhã em Plutão (Breakfast on Pluto, Irlanda/Inglaterra, 2005) – Numa interpretação sensacional, Cillian Murphy (de Vôo Noturno) faz aqui Patrick Braden, um rapaz que, numa cidade interiorana da Irlanda dos anos 60, teve o topete de virar Patricia – ou, como preferia ser chamada, "Kitten". E, numa direção igualmente merecedora de todos os elogios, Neil Jordan compara a trajetória de Kitten, que nunca perdia a pose nem o humor, à de seu próprio país, sempre dividido entre a vergonha pelo domínio inglês e o desejo de ser alguma outra coisa, talvez mais alegre e menos opressiva. Jordan já se valera da idéia do travestismo para falar da Irlanda em Traídos pelo Desejo, mas aqui alia o recurso ao tom de fábula e o faz funcionar de novo – ou até melhor.

O Violinista que Veio do Mar (Ladies in Lavender, Inglaterra, 2004. Imagem) — Os ingleses têm um superávit de grandes atrizes, mas nem por isso descuidam delas. Dirigido pelo também ator Charles Dance, esse filme tem o propósito explícito de servir de palco a Maggie Smith e Judi Dench. As veteranas interpretam duas irmãs que, certo dia, encontram um rapaz desacordado — provavelmente sobrevivente de um naufrágio — na praia defronte à sua casa. Andrea (Daniel Brühl, de Adeus, Lênin!) não fala uma palavra de inglês, mas toca violino com eloqüência singular. Afeiçoadas a ele (no caso de Judi, até demais), as duas se acomodam numa nova rotina familiar que, é claro, não poderá perdurar. O Violinista é uma diversão amena, mas compensa pela presença de Maggie e Judi e pelos coadjuvantes que não raro roubam a cena das duas — como Miriam Margolyes, no papel da empregada Dorcas.

Teatro da Morte (Theatre of Blood, Inglaterra, 1973. Dark Side) — O americano Vincent Prince (1911-1993) celebrizou-se por casar horror e humor em suas atuações. Nessa obra-prima do trash — aquele tipo de produto cultural que, de tão ruim, acaba se tornando bom — ele interpreta Edward Lionheart, um ator shakespeariano que se inspira nas cenas de morte das peças do bardo inglês para vingar-se dos críticos que teimam em duvidar de seu talento. Enquanto comete atrocidades, o enlouquecido Lionheart recita versos de Shakespeare — uma tortura a mais para suas pobres vítimas. Não é preciso dizer que as elaboradas vendetas tramadas pelo vilão causam mais riso que susto.