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Recomenda Literatura e cinema Obras
britânicas indicadas pela revista nos últimos anos, na seção
VEJA Recomenda Livros A
Linguagem de Shakespeare, de Frank Kermode (tradução de
Barbara Heliodora; Record; 462 páginas; 54,90 reais) Ninguém
pode se livrar de Shakespeare sem abolir a própria idéia de literatura,
diz o inglês Frank Kermode, um dos mais renomados críticos literários
da atualidade, logo no início desse livro. O professor aposentado da Universidade
Cambridge desmonta toda a crítica multiculturalista que pretende
fazer do autor de Hamlet apenas um porta-voz do imperialismo inglês. Mas
Kermode tampouco engrossa o caldo dos idólatras de Shakespeare. Sua análise
da arquitetura formal das principais peças do autor é acurada,
separando o joio do trigo momentos de poesia ruim que convivem com a inigualável
complexidade artística de Shakespeare. Jamais
Ceder! (tradução de Antonio Carlos Braga; Jorge Zahar; 358
páginas; 49 reais) Durante a II Guerra Mundial, os discursos do
então primeiro-ministro inglês Winston Churchill levantavam não
só a moral de seu país: transmitidos pela rádio BBC, eles
davam esperança aos povos sob jugo das tropas nazistas na Europa continental.
Por meio de sua oratória compilada nesse volume por seu neto, Winston
S. Churchill , é possível ter uma panorâmica do
conflito, assim como de outros grandes embates políticos do século
XX. A seleção cobre desde sua primeira fala pública, em 1899,
quando ele se lançava na política, até 1963, dois anos
antes de sua morte. Churchill aborda do comunismo ao radicalismo islâmico,
com uma lucidez que conserva a atualidade de seus discursos. Contos
Completos, de Virginia Woolf (tradução de Leonardo Fróes;
Cosac & Naify; 472 páginas; 59 reais) Autora de romances como
Mrs. Dalloway e Orlando, a inglesa Virginia Woolf (1882-1941) também
era uma grande contista, empregando nesse gênero a mesma evocação
impressionista de atmosferas e sentimentos que caracteriza suas narrativas longas.
É a primeira vez que se editam seus contos completos no Brasil, e
o texto Um Diálogo no Monte Pentélico, inspirado por uma
viagem que ela fez à Grécia em companhia do irmão, é inédito
no país. O livro é organizado em ordem cronológica,
o que permite acompanhar a evolução de Virginia no caminho de se
tornar a maior voz feminina do modernismo inglês. A edição
traz um apêndice com notas sobre as circunstâncias em que a autora
produziu cada conto. Aventuras
e Descobertas de Darwin a Bordo do Beagle, de Richard Keynes (tradução
de Sergio Goes de Paula; Jorge Zahar; 390 páginas; 49,50 reais)
Em 1831, o jovem naturalista inglês Charles Darwin partia para uma viagem
de cinco anos a bordo do navio Beagle. Visitaria a América do Sul
inclusive o Brasil e a Oceania. Foi nessa longa viagem que ele amadureceu
a idéia da evolução por meio da seleção natural,
que cerca de vinte anos depois seria apresentada em A Origem das Espécies.
Bisneto de Darwin, o cientista Richard Keynes que em 1951 trabalhou com
Carlos Chagas Filho, no Brasil pesquisou extensivamente cartas, diários
e outros documentos para reconstituir aquela que é talvez a mais famosa
excursão científica da história. O livro é ilustrado
com desenhos feitos por Darwin e outros viajantes do Beagle. Sherlock
Holmes, Volume 1, de Arthur Conan Doyle (tradução de Maria
Luiza X. de A. Borges; Jorge Zahar Editor; 496 páginas; 89,50 reais)
Reunindo doze contos escritos pelo escocês Arthur Conan Doyle (1859-1930),
esse livro é o primeiro de uma coleção de seis volumes
que vai coligir todas as histórias protagonizadas por Sherlock Holmes
ainda hoje o mais popular detetive da ficção mundial e seu
fiel amigo doutor Watson. O grande diferencial dessa edição são
as mais de 600 notas, a cargo do advogado americano Leslie Klinger, uma autoridade
sherlockiana. Elas esclarecem os mais diversos detalhes, da vida urbana
de Londres no século XIX às armas usadas por Holmes e Watson. O
livro é enriquecido ainda por uma introdução de John
Le Carré e pelas ilustrações das revistas em que os
contos foram originalmente publicados. Laranja
Mecânica, de Anthony Burgess (tradução de Fábio
Fernandes; Aleph; 224 páginas; 36 reais) Apesar de ser um seguidor
confesso daquele que é considerado um dos escritores mais difíceis
do século XX o irlandês James Joyce, autor de Ulisses ,
o inglês Anthony Burgess (1917-1993) conseguiu se tornar um escritor pop.
Narrativa em primeira pessoa dos crimes e desventuras de Alex, líder de
uma gangue juvenil, Laranja Mecânica popularizou conceitos como ultraviolência.
Lançado originalmente em 1962 (e brilhantemente adaptado para o cinema
por Stanley Kubrick), o romance retorna às livrarias brasileiras em nova
tradução. E não perdeu nada de sua vitalidade, o que é raro
entre peças de ficção científica que, como esta, se
situam em um futuro próximo. Obrigado,
Jeeves, de P.G. Wodehouse (tradução de Cássio de
Arantes Leite; Globo; 280 páginas; 38 reais) Prolífico autor
de quase 100 livros, o inglês Pelham Grenville Wodehouse (1881-1975) é lembrado
principalmente como o criador do ocioso ricaço Bertram Wooster e seu fleumático
mordomo Jeeves. Obrigado, Jeeves, de 1934, é o primeiro dos onze romances
estrelados por essa dupla tipicamente britânica. Mestre do humor, Wodehouse
desenvolveu um esquema simples mas muito eficiente para compor as aventuras dos
personagens: o atrapalhado Wooster mete-se em enrascadas que só o sensato
Jeeves consegue resolver. Nesse livro, cabe ao mordomo salvar seu patrão
de um compromisso matrimonial que ele, solteirão boa-vida, não deseja
de jeito nenhum. Mestre
dos Mares, de Patrick OBrian (tradução de Domingos
Demasi; Record; 430 páginas; 45 reais) O inglês Richard Patrick
Russ mais conhecido por seu pseudônimo, Patrick OBrian
publicou, a partir de 1969, vinte livros de aventuras navais que se tornaram um
dos grandes fenômenos editoriais da Inglaterra nas últimas décadas.
As peripécias do capitão Jack Aubrey, oficial da Marinha britânica
durante as guerras napoleônicas, deram origem ao filme Mestre dos Mares,
que traz o ator Russell Crowe no papel principal e recebeu dez indicações
ao Oscar. Aproveitando a deixa, a obra de OBrian que morreu em 2000,
aos 85 anos começa a ser publicada no país. Nesse primeiro
livro, Aubrey conhece seu fiel companheiro de viagens, o cirurgião Stephen
Maturin. Em alto-mar, eles enfrentam batalhas descritas de maneira espetacular
pelo autor. A
Balada do Velho Marinheiro, de Samuel Taylor Coleridge (tradução
de Alípio Correia de Franca Neto; Ateliê Editorial; 232 páginas;
65 reais) Publicado originalmente em Baladas Líricas, livro de 1798
que é um marco do romantismo inglês, A Balada do Velho Marinheiro
é uma das mais belas criações de Coleridge (1772-1834).
O poema narra, em 600 versos, a trágica história de um marinheiro
cuja viagem é amaldiçoada depois que ele mata um albatroz,
ave de bom agouro. Essa edição bilíngüe, além
de contar com uma ótima tradução, traz vários bônus:
outro poema do autor, intitulado Kubla Khan, ensaios do tradutor e dos críticos
Alfredo Bosi e Harold Bloom e as expressivas ilustrações
de Gustave Doré para o poema. Coma,
de Alex Garland (tradução de Léa Viveiros de Castro; Rocco;
160 páginas; 24 reais) O escritor inglês Alex Garland ganhou
fama com o romance A Praia, que originou um filme com Leonardo DiCaprio. Coma
narra uma história muito diferente da aventura tropicaliente de A Praia.
O protagonista é Carl, um escritor que, na tentativa de defender uma
mulher de um assalto no metrô, acaba sendo espancado por uma gangue juvenil.
Ele pensa ter voltado para casa depois de uma temporada no hospital, mas descobre
que toda a sua realidade é um sonho o livro narra o esforço
de Carl para despertar de seu coma. Essa história onírica é ilustrada
com os sombrios desenhos do cartunista político Nicholas Garland, pai do
escritor. Homens
em Armas, de Evelyn Waugh (tradução de Antonio Sepulveda;
Nova Fronteira; 304 páginas; 39,90 reais) O inglês Evelyn
Waugh (1903-1966) serviu como oficial na II Guerra Mundial, combatendo na Iugoslávia.
Primeiro romance da trilogia A Espada da Honra, este Homens em Armas recupera
as experiências pessoais do autor na guerra temperadas pela verve
satírica que tornou o estilo de Waugh único. Guy Crouchback, um
inglês de meia-idade que passou anos vivendo na Itália, retorna a
seu país natal na esperança de participar do esforço de guerra,
mas, a princípio, não consegue que o aceitem no Exército.
Depois de muitos incidentes, consegue se alistar em um grupo de comandos que se
formava na Escócia cujo coronel roubara a mulher de Crouchback sete
anos antes. Fogo
Negro, de C.J. Sansom (tradução de Flávia Rössler;
Record; 560 páginas; 60 reais) Formado em história e ex-advogado,
o inglês C.J. Sansom faz uma convincente reconstituição da
Londres do século XVI em Fogo Negro. Mais importante, o autor também
sabe armar uma envolvente trama policial. A história é narrada
em primeira pessoa pelo corcunda Matthew Shardlake, advogado e detetive que já
estrelava Dissolução, livro de estréia de Sansom. A serviço
de Thomas Cromwell, poderoso conselheiro do rei Henrique VIII, Shardlake investiga
o assassinato de dois alquimistas que teriam descoberto o segredo do fogo negro,
lendária arma utilizada em batalhas navais. Ao mesmo tempo, Shardlake tem
doze dias para salvar da execução uma jovem injustamente acusada
de assassinato. A
Casa do Sono, de Jonathan Coe (tradução de Marcello Rollemberg;
Record; 400 páginas; 49,90 reais) O inglês Jonathan Coe é conhecido
por seus painéis satíricos da história recente de seu país,
como O Legado da Família Winshaw, retrato da era Thatcher, e Bem-Vindo
ao Clube, reconstituição da década de 70. A Casa do
Sono começa nos anos 80, numa república de estudantes, e avança
até a década seguinte, quando o mesmo prédio vira uma
clínica para tratamento de distúrbios do sono estranhamente,
com os mesmos ocupantes da república estudantil. A mulher que sofre de
narcolepsia, o rapaz que só chega ao orgasmo quando pressiona os olhos
da namorada, o crítico de cinema que nunca lembra o que sonhou com
esses personagens esquisitos, Coe conduz o leitor aos sonhos das décadas
passadas. A
Linha da Beleza, de Alan Hollinghurst (tradução de Vera
Whately; Nova Fronteira; 464 páginas; 49,90 reais) Nick Guest é um
estudante da Universidade de Oxford que, nos anos 80, vive num quarto alugado
na mansão de Gerald Fedder, membro conservador do Parlamento inglês.
Nick se torna amante de um cocainômano desocupado que vive da fortuna do
pai. Com esses personagens muito ricos, mas pouco admiráveis, o escritor
inglês Alan Hollinghurst traçou um retrato ácido da sociedade
inglesa na era Thatcher a própria dama de ferro, aliás, faz
uma aparição cômica no livro. Apesar da veia satírica
que permeia a narrativa, a história acaba com tintas trágicas, com
o surgimento da aids. Essa combinação de humor e melancolia rendeu
à obra o prestigioso Prêmio Booker de 2004. Colina
Negra, de Bruce Chatwin (tradução de Luciano Machado; Companhia
das Letras; 344 páginas; 47,50 reais) O inglês Bruce Chatwin
(1940-1989) era um sujeito inquieto. Chegou a largar um emprego como avaliador
de obras de arte da casa de leilões Sothebys para viver entre as
tribos nômades do Sudão. O romance Colina Negra traz personagens
que são o oposto da inquietude do autor: o universo dos gêmeos Lewis
e Benjamin se restringe à sua fazenda, na fronteira entre a Inglaterra
e o País de Gales. Submetidos ao pai tirânico, eles atravessam a
II Guerra Mundial quase sem perceber as conseqüências do conflito.
Chatwin retrata de forma impressionante um lugar no qual o tempo parece ter parado. Filmes
Elizabeth
(Elizabeth, Índia/Inglaterra, 1998, Warner) Um indiano dirige uma
australiana no papel de uma das mais poderosas monarcas que a Inglaterra já
teve, Elizabeth I, filha do cabeça-dura e mulherengo Henrique VIII. Graças
em boa parte ao talento da protagonista, Cate Blanchett, o resultado é empolgante.
A rainha é retratada não no auge de sua influência, como
na maioria dos filmes que já se produziram sobre a personagem, e sim na
juventude, quando aprendia a duras penas a sobreviver às inúmeras
intrigas políticas que cercaram sua subida ao trono, em 1558. A fita não
vale como aula de história, já que o diretor recorreu a várias
imprecisões para apimentar a trama, mas rende um bom suspense. Doutor
Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying
and Love the Bomb, Inglaterra, 1964. Em preto-e-branco. Columbia) Basta
ler as bravatas militaristas do presidente americano George W. Bush no noticiário
para perceber que essa comédia dirigida por Stanley Kubrick no auge da
Guerra Fria continua atual. Aqui, Peter Sellers (em três papéis),
George C. Scott e outros ótimos atores decidem o rumo da tensão
nuclear entre as nações com a despreocupação (e os
blefes) de quem participa de um joguinho de pôquer. O DVD traz os extras
de praxe making of, entrevistas , mas o que realmente interessa é o
filme, um clássico e uma raridade, já que nunca foi lançado
em vídeo no Brasil. A
Festa Nunca Termina (24 Hour Party People; Inglaterra/França/Holanda,
2002) Do fim dos anos 70 até o início dos 90, a cidade
de Manchester foi a capital do rock na Inglaterra. Ali surgiram grupos de grande
sucesso e influência, como o Joy Division, o New Order e o Happy Mondays.
A Festa Nunca Termina é uma divertida reconstituição
daquela cena musical, que deixaria uma marca indelével. O ponto de vista
é o de Tony Wilson (vivido pelo comediante Steve Coogan), um ex-repórter
de TV que se tornou proprietário de duas verdadeiras instituições
da época: a gravadora Factory e a boate Hacienda. A fita traz à
tona os bastidores da vida dos principais músicos locais, com todos os
seus dramas e loucuras. A
Vida de Brian (Life of Brian, Inglaterra, 1979. Columbia) As mulheres
que põem barbas falsas para se fingir de homens e poder participar de um
apedrejamento? O Sermão da Montanha em que ninguém entende patavina
do que Jesus está dizendo? O número musical dos crucificados? É impossível
escolher a melhor tirada dessa terceira incursão do grupo inglês
Monty Python no cinema, que parodia o nascimento do cristianismo através
de Brian, um coitado que passa a vida sendo confundido com o Messias. Mais: ainda
que o humor aqui venha disfarçado de nonsense, seu poder de fogo é considerável.
Depois de uma hora e meia, não há pilar da civilização
ocidental que não tenha sido arrasado pelas investidas do Monty Python. Domingo
Sangrento (Bloody Sunday, Irlanda/ Inglaterra, 2001. Paramount)
O 30 de janeiro de 1972 é uma data negra na história dos conflitos
entre Inglaterra e Irlanda do Norte. Nesse domingo, uma passeata pacífica
na cidade irlandesa de Derry terminou em massacre, com treze homens mortos pelas
forças britânicas. O episódio não só interrompeu
o processo de paz que se desenhava como insuflou a adesão ao terrorismo
do IRA. Domingo Sangrento relembra esse dia em estilo documental, pelos olhos
do grande ator James Nesbitt no papel de Ivan Cooper, o líder do
movimento pelos direitos civis que organizou a marcha. Acompanhar Nesbitt enquanto
ele vê seu sonho desmoronar e se transformar em tragédia é uma
jornada perturbadora e angustiante. Sexy
Beast (Inglaterra/Espanha, 2001) Os ingleses têm uma longa
tradição nos filmes de gângster. Mas, ao contrário
dos americanos, influenciados pela mitologia da Máfia, costumam retratar
esses personagens como operários do crime homens que estariam numa
fábrica, ou na fila do seguro-desemprego, se não tivessem passado
para o lado de lá da lei. Gal Dove (Ray Winstone), o protagonista de Sexy
Beast, pertence a essa linhagem. Com uma diferença: ele finalmente descobriu
o lazer. Aposentado na Espanha, ao lado da mulher, Gal toma sol, farta-se de lulas
e cerveja e nem se imagina de volta àquela latrina a
Inglaterra. Até que um antigo parceiro (Ben Kingsley) invade sua vida
para obrigá-lo a um último golpe. Kingsley, é bom lembrar,
ganhou o Oscar pelo papel do pacifista Mahatma Gandhi. Aqui, numa atuação
memorável (pela qual concorre neste ano à estatueta de coadjuvante),
ele é a fúria em pessoa, e despeja insultos e ameaças
como se fosse um vulcão em erupção. Dirigido com estilo e
concisão, o filme é um bom exemplo da renovação
do cinema inglês. Agora
ou Nunca (All or Nothing, Inglaterra/França, 2003. Fox)
Nenhum outro diretor hoje se aventura com tanta sensibilidade pelo mundo da classe
operária inglesa quanto Mike Leigh, ganhador do Festival de Cannes com
Segredos e Mentiras. Em Agora ou Nunca, Leigh coloca em cena os dramas de um punhado
de moradores de um conjunto habitacional londrino a moça que cobiça
o namorado truculento da vizinha, o casal que afunda junto na bebedeira, o taxista
que se sente um zero à esquerda, a mãe que só ouve insultos,
e por aí vai. O que há de especial no trabalho do diretor é como
ele refuta o determinismo: o que destrói seus personagens não é a
falta de dinheiro ou o emprego ruim, mas a dificuldade de concretizar seus desejos
mais inefáveis amor, conexão ou um sentido para a vida. Extermínio
(28 Days Later..., Estados Unidos/Inglaterra/Holanda, 2002) Jim sofre um
acidente e, ao fim de 28 dias em coma, acorda num hospital absolutamente deserto.
Sai às ruas de Londres e vê a mesma coisa ou seja, ninguém.
À medida que encontra outros poucos sobreviventes, ele descobre a causa
da devastação: um vírus, libertado do laboratório
por ambientalistas, que transforma os seres humanos em monstros de ira, prontos
a trucidar quem virem pela frente. O inglês Danny Boyle, que dirigiu Trainspotting,
recupera-se do fiasco de A Praia com esse misto de terror, comédia e aventura
feito para ser B. Roteirizado pelo escritor Alex Garland (também autor
de A Praia) e rodado em vídeo digital, Extermínio é direto,
vigoroso e sem frescuras, qualidades que andam muito raras no cinema de entretenimento. Spider
Desafie Sua Mente (Spider, Canadá/Inglaterra/França,
2002) Quando o protagonista Dennis Cleg (Ralph Fiennes) desce de um trem
numa estação inglesa, amarfanhado e murmurando palavras incompreensíveis,
quase é possível sentir seu cheiro que deve ser de mofo,
suor antigo e umidade que nunca chega a secar. Como sempre, essa capacidade de
provocar sensações físicas com suas imagens é um
dos pontos altos do trabalho do cineasta canadense David Cronenberg nesta brilhante
adaptação do romance homônimo do inglês Patrick McGrath.
Como sempre também, o diretor de A Mosca, Gêmeos Mórbida
Semelhança e Crash se dedica aqui a escrutinar os aspectos mais doentios
e ilusórios da natureza humana. Cleg, que acabou de sair de um manicômio,
reconstitui obsessivamente o trauma que o teria levado à internação,
ainda na infância seu pai teria matado sua mãe para trocá-la
por uma prostituta. Aos poucos, porém, constata-se que nada é o
que parece. As atuações são excepcionais, em especial a de
Miranda Richardson, em três papéis. E Cronenberg, que desta vez não
inclui nem uma única cena repugnante no roteiro (algo inédito),
faz seu melhor filme em muito tempo. O
Barato de Grace (Saving Grace, Inglaterra, 2000) Viúva e
falida, a simpática Grace (Brenda Blethyn) não vê outra saída
para seus problemas de caixa a não ser dar um uso lucrativo ao seu talento
para a jardinagem. A planta que ela escolhe a maconha tem mercado
garantido. O detalhe é que esse tipo de agricultura pode dar cadeia,
e Grace carece de experiência com o mundo das atividades ilegais. A seu
favor, ela tem a ajuda de seu jardineiro, a cumplicidade dos vizinhos e a proteção
dos roteiristas, bem mais interessados em explorar o talento de Brenda (que foi
indicada ao Oscar por Segredos e Mentiras) do que em pregar o uso de drogas. Na
mesma linha do sucesso Ou Tudo ou Nada, essa comédia tira partido das excentricidades
e da proverbial tolerância dos ingleses. O resultado é despretensioso
e agradável. Meu
Nome É Joe (My Name Is Joe, Inglaterra, 1998.) Os regimes
de esquerda vão sumindo do mapa, mas o diretor inglês Ken Loach continua
o mais renhido dos socialistas. O que, no seu caso, está bem longe de significar
chato ou panfletário. Loach é um apaixonado por política
e cinema, mas acima de tudo ama seus personagens. Por isso seus filmes não
tratam de idéias ou movimentos, e sim de gente
colhida por circunstâncias. É o caso, por exemplo, de Terra
e Liberdade, que retratava a Guerra Civil Espanhola por um prisma incomum: as
miudezas que compunham o dia-a-dia de um bando de despreparados voluntários.
Em Meu Nome É Joe, ele inova mais uma vez. O cenário são
os subúrbios cinzentos de Glasgow, na Escócia, onde os personagens
têm de lutar contra pobreza, drogas e agiotas, entre outras mazelas. Mas
o filme é um romance, e dos mais inspirados. Em foco estão
Joe (Peter Mullan, premiado em Cannes pelo papel), um ex-alcoólatra, e
a assistente social Sarah (Louise Goodall). Poucos cineastas podem gabar-se de
extrair tal sinceridade de seus atores, como ele faz na cena em que o casal põe
as cartas na mesa pela primeira vez. De quebra, Loach tem humor: a seqüência
em que o time de várzea treinado por Joe veste uniformes da seleção
brasileira de 1970 vale boas risadas. O
Grande Truque (The Prestige, Estados Unidos/Inglaterra, 2006) Na
Londres da virada do século XIX para o XX, dois jovens mágicos concorrem
para desvendar os respectivos truques primeiro movidos pela vingança,
já que um atribui a morte de sua mulher ao outro, e depois pelo simples
espírito de rivalidade, que nada é capaz de aplacar. O truque
do filme: ambos os protagonistas têm carreira como super-heróis,
Hugh Jackman como Wolverine e Christian Bale como Batman. O que mais interessa
ao diretor inglês Christopher Nolan (de Amnésia e Batman O
Retorno), porém, é a diferença entre o que se vê
e o que se pensa ter visto o que é, de certa forma, uma homenagem
ao próprio cinema. O filme tem ainda ótimas participações
de Michael Caine e David Bowie Café da
Manhã em Plutão (Breakfast on Pluto, Irlanda/Inglaterra,
2005) Numa interpretação sensacional, Cillian Murphy (de
Vôo Noturno) faz aqui Patrick Braden, um rapaz que, numa cidade interiorana
da Irlanda dos anos 60, teve o topete de virar Patricia ou, como preferia
ser chamada, "Kitten". E, numa direção igualmente merecedora
de todos os elogios, Neil Jordan compara a trajetória de Kitten, que nunca
perdia a pose nem o humor, à de seu próprio país, sempre
dividido entre a vergonha pelo domínio inglês e o desejo de ser alguma
outra coisa, talvez mais alegre e menos opressiva. Jordan já se valera
da idéia do travestismo para falar da Irlanda em Traídos pelo Desejo,
mas aqui alia o recurso ao tom de fábula e o faz funcionar de novo
ou até melhor. O
Violinista que Veio do Mar (Ladies in Lavender, Inglaterra, 2004. Imagem)
Os ingleses têm um superávit de grandes atrizes, mas nem por
isso descuidam delas. Dirigido pelo também ator Charles Dance, esse filme
tem o propósito explícito de servir de palco a Maggie Smith e Judi
Dench. As veteranas interpretam duas irmãs que, certo dia, encontram um
rapaz desacordado provavelmente sobrevivente de um naufrágio
na praia defronte à sua casa. Andrea (Daniel Brühl, de Adeus, Lênin!)
não fala uma palavra de inglês, mas toca violino com eloqüência
singular. Afeiçoadas a ele (no caso de Judi, até demais), as
duas se acomodam numa nova rotina familiar que, é claro, não
poderá perdurar. O Violinista é uma diversão amena,
mas compensa pela presença de Maggie e Judi e pelos coadjuvantes que não
raro roubam a cena das duas como Miriam Margolyes, no papel da empregada
Dorcas. Teatro
da Morte (Theatre of Blood, Inglaterra, 1973. Dark Side) O americano
Vincent Prince (1911-1993) celebrizou-se por casar horror e humor em suas atuações.
Nessa obra-prima do trash aquele tipo de produto cultural que, de tão
ruim, acaba se tornando bom ele interpreta Edward Lionheart, um ator shakespeariano
que se inspira nas cenas de morte das peças do bardo inglês para
vingar-se dos críticos que teimam em duvidar de seu talento. Enquanto comete
atrocidades, o enlouquecido Lionheart recita versos de Shakespeare uma
tortura a mais para suas pobres vítimas. Não é preciso
dizer que as elaboradas vendetas tramadas pelo vilão causam mais riso que
susto. | |