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Sociedade
e realeza
A
rainha nunca teve
súditos de tantas origens
No
reino multirracial, apego à monarquia
é traço de identidade comum
Se
há uma característica que insere a Grã-Bretanha
no contexto europeu deste início de século e ao mesmo
tempo a diferencia de seus vizinhos do outro lado do Canal da Mancha
é a diversidade cultural e étnica de sua sociedade.
Não só a produção pode ocorrer em qualquer
lugar do mundo na economia globalizada dos dias atuais, como cada
vez mais as pessoas não permanecem em seus países
de origem, migrando para locais onde podem se dar melhor economicamente.
Povoada de comunidades de origem caribenha, africana ou asiática
especialmente indianas e paquistanesas a Inglaterra
se transformou na mais bem resolvida potência multiétnica
da Europa. Se a harmonia não é reinante 100% do tempo,
pelo menos são raríssimos em Londres alguns tipos
de manifestações xenófobas observadas em centros
igualmente multiculturais como Paris e Berlim.
Vivem
na Inglaterra mais de 2 milhões dos cerca de 11 milhões
de muçulmanos da Europa. Mesmo o episódio terrorista
de 7 de julho de 2005, quando quatro explosões quase simultâneas
sacudiram a capital britânica, não abalou a tolerância
do povo inglês com as mais diferentes culturas que habitam
hoje o país. A ponto de a mesma cidade onde ocorreram os
ataques continuar a ser ironicamente conhecida por alguns como "Londonistão,
em referência aos milhares de muçulmanos que vivem
por lá. Em uma sociedade com estas características,
como explicar a permanência de um instituição
tão arcaica e tradicionalista como a monarquia britânica?
Sangue
azul - O trono repousa sobre bases frágeis e anacrônicas
a genealogia e a hereditariedade mantidas com artifícios
que desafiam o bom senso e cheiram a costumes bolorentos. A idéia
de que o sangue azul confere direitos dinásticos
já foi varrida de boa parte da humanidade civilizada. Não
da Grã-Bretanha. Enquanto nas demais monarquias européias
existe um excesso de discrição, a monarquia britânica
prima por seu caráter faustoso e ritualístico. Chega
a ser espantoso que, durante um período de enormes transformações
como foi a segunda metade do século XX, a tarefa de manter
funcionando o enorme aparato do trono britânico tenha ficado
para Elizabeth II, uma mulher sem grande visão histórica
nem acuidade política.
Entretanto,
segundo interpretações de especialistas e neste
assunto eles são muitos na Inglaterra a rainha britânica
teve a seu favor três fatores decisivos desde que assumiu
o Palácio de Buckingham, em 1952: o senso do dever, qualidade
apreciadíssima pelos ingleses; a capacidade de se adaptar
às mudanças sem dar a impressão de aderir a
modismos; e o talento natural, lapidado por seus assessores, para
embrulhar uma família sem beleza (pelo menos até o
furacão Diana e seus rebentos), sem carisma e sem graça
em uma irresistível embalagem de pompa, tradição
e reverência que nunca falha em comover e cativar os súditos.
Não
à toa, em 2002, ao final das cerimônias de comemoração
dos 50 anos de coroa de Elizabeth II o Jubileu de Ouro
apurou-se que a realeza se mantinha forte no coração
destes súditos. Uma pesquisa mostrou que apenas 12% dos britânicos
defendiam a abolição da monarquia, índice que
andava na casa dos 34% um ano antes.
A
princesa do povo Este mesmo índice subiu muito
no final de agosto de 1997, quando um trágico acidente automobilístico
matou a princesa Diana Spencer em Paris. Diana virou celebridade
ao se casar com um príncipe que era sapo, ser traída
pelo batráquio com uma mulher feia e mais velha, vingar-se
com um canalha machista e sair dessa lama toda mais bela, rica e
badalada do que nunca. A novela de seu primeiro casamento o planeta
inteiro conhece. Escolhida por virginal e de bom berço para
gerar herdeiros para o trono da Inglaterra, foi repudiada em sua
intenção, absurda aos olhos do marido, o príncipe
Charles, de ter afeto e amor de verdade. Terminou com o divórcio
escandaloso e a baixaria de ambos confessando em público
seus romances paralelos.
Em
vida, sua graça, seu encanto, suas crises, suas fraquezas,
seus dramas, seu toque humano e sua preocupação pelos
desvalidos fizeram dela a mais querida das princesas, a mais famosa
das mulheres. Morta, ela atingiu o ápice de um processo,
deflagrado involuntariamente, de ousar mostrar seus sentimentos
em público. Vergou as regras da monarquia. Quando Elizabeth
II apareceu na televisão um dia antes do enterro para fazer
um pouco confortável discurso em homenagem àquela
pessoa excepcional, ninguém teve dúvida.
A princesa morta era mais poderosa do que a rainha viva.
A frieza
da família real nos primeiros momentos da morte da nora problemática
um fato real, cujo sintoma mais evidente foi a hesitação
em homenagear a morta com a bandeira a meio pau causou bastante
dano à popularidade dos Windsor (a atual dinastia britânica).
Embora tenha contribuído, involuntariamente, para expor os
podres da família real com sua exibição pública
de infelicidade ao lado do marido gélido e infiel, Diana
é até hoje uma figura muito popular. Seu carisma sobreviveu
à tudo e, enquanto viva, foi o prestígio de Diana
que deu alento à realeza.
A monarquia
deve muito do encanto que ainda exerce junto aos ingleses à
princesa morta. Mas talvez deva também à diversidade
cultural e étnica própria da atual sociedade britânica.
É provável que o apego dos súditos às
tradições de Sua Majestade seja um dos únicos
traços de sua identidade cultural que se mantém praticamente
intacto nos dias de hoje. Quando eles se deparam com a pompa dos
desfiles, dos palácios, dos guardas e das carruagens, o que
fica é a ilusão de ter contemplado a face da imortalidade
ao menos em sua versão britânica.
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